Na Bodoquena, no Pantanal

MORRO DO AZEITEPela terceira vez fui ao Pantanal. Acho que todo brasileiro deveria ir também, embora isso implique em duas questões difíceis de resolver, a do custo e a da superlotação…

Dizem que há muitas diferenças entre o norte e o sul deste presente que a natureza nos deu. Não sei dizer; isso é coisa para biólogos e ambientalistas ou, pelo menos, para gente que ali vai com mais constância.

Na vertente norte só conheço até Poconé. Na sul, onde estive por duas vezes, o território palmilhado foi o da rodovia de chão batido que liga a BR 262 ao Porto da Manga, às margens do rio Paraguai, passando por Passo “do” Lontra – a conhecida Estrada Parque do Pantanal.

No caminho, embora não obrigatório, a cidade de Bonito, cuja estrutura humana e artificial não faz jus ao nome, ao contrário da sua natureza, sempre convida andar por lá.

Ali, a primeira pergunta que me ocorreu – e para a qual ainda não obtive resposta – foi a seguinte: como se juntou tanta vida e tanta beleza e ao mesmo tempo tanta preservação, em um único lugar? Seria sua natureza dotada de especial poder de auto-conservação? Algo assim é bem pouco provável, bem o sabemos. Prova disso é infinito que o número de lugares que também já foram “bonitos” e acabaram detonados pelo bicho-homem…

Seria, então, porque as pessoas que ali foram residir, plantar, criar bois tiveram especial cuidado com a natureza? Mais difícil, ainda, acreditar em algo assim. No caso, a velha anedota que fala do questionamento que os Anjos fizeram a Deus, a respeito de tantas belezas juntas em único e privilegiado lugar, com Sua resposta a respeito do “povinho” que Ele colocaria a habitar tal paraíso não deixa de se aplicar.

Pergunta faladeira, também, é relativa ao número estipulado de pessoas que podem visitar, a cada dia ou jornada, cada uma das atrações. Caberia indagar: será algo realmente científico? Antes de tentar responder o mais simples seria afirmar: quanto menos gente melhor… Tudo bem, mas as oito ou nove almas que podem compor cada excursão, para mim, continuam sendo resultado de um cálculo cabalístico. Isso se tornou mais evidente quando o guia no rio Sucuri me disse, como se fosse prova do rigor do método utilizado: só oito pessoas eram aceitas em cada passeio, agora liberaram para nove… E daí?

Portanto… O melhor é tocar a narrativa pra frente e deixar tais questões para o movediço terreno das conjecturas não esclarecidas. Tudo ali é belo e assim continua, a despeito de não se ter resposta para tais perguntas, de pertinência duvidosa. Afinal, como disse Shakespeare a respeito da rosa, se a ela tivesse outro nome, ainda assim teria perfume igual.

Bonito tem um turismo que seria perfeito, se não fosse tão burocrático. Tudo regulado. Tudo programado. Tudo muito bem cobrado. Sem chance de aventuras de qualquer espécie. Você entra em uma agência (pode ser na portaria dos hotéis mesmo) e faz sua feira. E eles fazem a féria. Uma descida flutuante nos rios Sucuri ou Prata não sai por menos do que cento e oitenta reais por cabeça. Crianças pagam menos – mas com apenas dez reais de desconto.

Mas em Bonito, ao que parece, os fornecedores entregam a mercadoria que prometem. Digamos que o oferecimento de uma singela toalha aos visitantes, após os mergulhos, daria um toque mais refinado ao pacote, sem que isso precisasse incluir custos adicionais. Mas quem quiser se enxugar antes de se vestir, que trate de se secar ao sol ou trazer toalhas próprias ou dos hotéis (cujas diárias, aliás, cobririam facilmente tal benefício).

Mas convenhamos que aqueles mergulhos em águas cristalinas, em meio a piraputangas, dourados, lambaris e outros bichos d’água não é coisa em que se possa botar preço. Mas aqueles almoços a quase quarenta reais poderiam ser mais baratos – ou, pelo menos, melhores.

Sobre Bonito, posso resumir assim: os pontos de destaque estão na natureza, com especial referência, além das águas, ao Buraco das Araras (que fica no vizinho município de Jardim, a pouco mais de 50 km, se você conseguir acertar o caminho) e também para a Gruta do Lago Azul, embora menos relevante.

Mas não deixa de ser bonito ver em Bonito as pessoas trabalhando em regime de pleno emprego na limpa e digna indústria do turismo (nas férias, pelo menos…). A necessária qualificação das pessoas é ponto pacífico, com guias bem informados, muitos deles bilíngües, agentes de turismo idem, além de moços e moças de portaria nos hotéis muito educados e aparentemente imbuídos, com orgulho até, de certo “espírito de serviço”, que no Brasil ainda é uma tendência nascente e pouco desenvolvida.

De Bonito se vai ao Pantanal. Aqui as narrativas habituais “pulam” algo muito especial: a Serra (na verdade Chapada) da Bodoquena. São algumas dezenas de quilômetros de lindas paisagens que superam as de Bonito, pelo menos em termos de relevo. Lá tudo é mais plano e as atrações meio que estão escondidas; aqui temos uma mãe natura mais “exibida”, digamos assim.

Recorrendo à vulgar Wikipédia (afinal, isso aqui não é lugar que interesse a especialistas) vejo que a Bodoquena é sede um Parque Nacional, o único da região, com cerca de setenta mil hectares. Ali se tem, além de uma floresta submontana decídua, que é também um tipo de mata atlântica, extensões de cerrado e campos alagados, nas altitudes menores. As altitudes são pouco expressivas. Por exemplo, Bonito está a 320 m. e a cidade que tem o mesmo nome da serra, que fica no entorno do parque, pouco ultrapassa os centro e trinta metros acima do nível do mar, pouca coisa acima do nível de Miranda e Corumbá, esta última já em pleno Pantanal. Creio que os chapadões lá em cima devam chegar, no máximo, aos 400 m., mas não pude confirmar isso. Para maiores informações, recomendo: http://www.portalbonito.com.br/a-cidade/serra-bodoquena/o-parque-nacional-da-serra-da-bodoquena.

Mas a chapada em questão é servida por uma boa estrada (aliás, uma constante por onde andei em Mato Grosso de Sul neste julho de 2016) e é possível apreciar por toda parte áreas ainda cobertas de mata, pequenos picos em forma de pirâmide, tudo ainda muito verde, embora fosse época de seca, além de muito boi e lavouras mecanizadas de milho. Nada é perfeito. E o Brasil tem que cumprir seu papel no concerto econômico das nações…

Não cheguei a percorrer as estradas colaterais da Bodoquena, mas as diversas placas que vi indicam que ali há muito para conhecer e apreciar, principalmente no capítulo das águas, com cachoeiras e nascentes diversas. Não sei se Deus colocou aqui tantas belezas como em Bonito (e nem se a qualidade do tal “povinho” é correspondente), mas certamente este é um lugar que ainda terá sua chance de se mostrar ao mundo.

Miranda. Primeira informação: ainda não é Pantanal, embora seja anunciada como tal. Passamos (e ficamos) por lá para então seguir de fato ao dito cujo, o que nos custou viajar um pouco mais de 100 km para chegar ao Passo do Lontra, onde é Pantanal de verdade.

Miranda é uma cidade comum, embora com ruas amplas e bem traçadas, como as cidades de MS geralmente o são. São famosos seus casarões, frutos de uma época de prestígio comercial, certamente, propiciado pela ferrovia. Mas o caminho de ferro cedeu sua importância ao asfalto e quem manda na cidade hoje é o boi e a lavoura. Vê-se pelas múltiplas lojas de produtos agrícolas e tratores.

Como sempre faço em cidades que fazem ou fizeram parte do trajeto de ferrovias, busquei conhecer as instalações respectivas, a que eu chamo, não sei se apropriadamente, de “arquitetura ferroviária”. Restam poucos exemplares ali. De maior interesse apenas uma meia dúzia de residências à beira da linha, provavelmente de maquinistas, engenheiros, gerentes. Mas estão pouco conservadas e cada morador acrescentou nelas algo de seu gosto pessoal, sob a forma de “puxados” desconjuntados. Com um bom olhar, contudo, ainda é possível discriminar alguma beleza nessas casas. Já a estação é sólida e extensa, mas certamente representa uma (re)construção bem mais recente, em relação ao tempo de início da ferrovia. Ofende, entretanto, o bom senso, vê-la quase abandonada, abrigando um ou outro órgão municipal, com a maioria das salas e salões vazios. Os trilhos têm aspecto lamentável, enferrujados e com o mato crescendo entre os dormentes. Mas a inconfundível buzina de locomotiva na madrugada, bem ouvida no hotel em que estávamos, a um quilômetro de distância, nos revela que alguma composição ainda passa por ali. Ou, quem sabe, seria um trem fantasma?

Em Miranda há inúmeras passagens de trilhos “em nível” com as ruas em xadrez. Em um pequeno trecho, pitoresco sem dúvida, os trilhos correm dentro de uma espécie de valo cercado de árvores, tendo de um lado e de outro os tais casarões, cada dia menos numerosos. Muita novidade, muita gente nova, muitas lembranças, muitos retornos e partidas certamente um dia se fizeram presentes em tais paragens.

Para não completar a narrativa sem um elogio mais declarado: Miranda é uma cidade de fartos quintais, onde pontificam as mangueiras, que naquelas latitudes põem floradas monumentais, como também vimos em Campo Grande, Sidrolândia, Guia Lopes, Bonito e outras cidades do trajeto.

De Miranda se vai, finalmente, ao Pantanal. Para isso é preciso viajar mais de 100 km, no rumo de Corumbá, pela BR 262.

A dois-meia-dois, tão mal afamada em outras partes do seu trajeto, por exemplo, em Minas Gerais, aqui é uma estrada exemplar – podem acreditar! O asfalto, um verdadeiro tapete! Acostamento limpo e, particularmente, presente um toda extensão. Sinalização abundante e precisa. E o que é mais importante, coisa que ainda não havia visto em outras estradas, dezenas de radares movidos e energia solar espalhados no trajeto, limitando a velocidade, invariavelmente, a 80 km/h, nem mais nem menos. E vida, muita vida no entorno, mas que aqui e ali se vê, de forma ainda furtiva, por enquanto. Pensei comigo: que diferença faz para uma capivara ser atropelada a 80 ou a 140 km/h. Pensamento supérfluo, sem dúvida, a questão é a possibilidade de se reduzir a velocidade dos veículos a tempo de evitar o pior. Andamos pela rodovia nada menos de 100 km e a qualidade se manteve metro a metro, sem exceção.

Uma imagem do passado se mostrou presente, com a grande boiada conduzida em plena rodovia em certo trecho, mais de mil cabeças, talvez. Mas se a modernidade estava presente nos carros batedores á frente e adiante da manada, com a sinalização piscante e pessoal uniformizado participando da operação, os vaqueiros a cavalo, com chapéus e perneiras de couro e belos pelegos coloridos nas selas não faltavam. O aboio competente dos vaqueiros, a formação em comitiva e a estercada geral na estrada, até então bem limpa, mostraram que conduzir boiada é coisa que tem um pé no passado. Graças a Deus! Aqui, com certeza, um Guimarães Rosa ainda produziria uma narrativa adequada, na qual o asfalto e os batedores motorizados pudessem constar naturalmente do enredo.

A BR acompanha o enorme gasoduto que traz o gás da Bolívia até São Paulo. Obra de gigantes! Mas o que se vê dele são placas esporádicas indicando estações de bombeamento e coisas assim. Os tubos são subterrâneos, invisíveis. Quando passei por aqui, há 15 anos, os tubos estavam em fase de assentamento e era possível ver os depósitos de material e movimentação de máquinas e terra em toda parte. Hoje a vegetação praticamente esconde tudo, o que sem dúvida é um indicativo de que há preservação por aqui, quem sabe afastando de vez algum eventual “efeito Mariana”…

De repente a paisagem plana – mas não monótona – nos apresenta uma elevação à direita, piramidal e coberta de vegetação espessa: o Morro do Azeite. A paisagem gradualmente já vinha se mudando, passando a ser totalmente plana e com repetidas pontes. O tal morro é exceção a confirmar a regra.

Agora, a placa indicando “Passo do Lontra” abre novos caminhos. É por uma estrada de chão que vamos prosseguir. Em menos de um quilômetro uma ponte, indicada simplesmente como “Ponte 01”, sobre um denominador de várias centenas, não deixa dúvidas: estamos em pleno Pantanal.

Sem a pressão do tráfego da rodovia asfaltada, uma boa parada, agora, não só é isenta de maiores riscos como obrigatória. Do primeiro jacaré a gente não se esquece! E o que dizer de dois, três, dez? É o Pantanal em seu esplendor. Viva!

Em Passo do Lontra o progresso mostra seu lado bom (para quem trafega ou navega diariamente pelo rio Miranda) ou, nem tanto, para quem preferiria a velha e poética ponte de madeira. A travessia agora se faz sobre concreto, em curva e arco. A nova ponte chega a ser graciosa, mas não deixa de ofender a paisagem. A antiga era muito baixa e não deixava passar barcos mais altos. Ainda está lá, embora desativada, mas sua demolição já é voz corrente no Passo.

Em Passo do Lontra, apenas uma pequena vila, pessoas afáveis nos cederam uma mesa rústica para fazermos um piquenique, enquanto esperávamos a chegada do barqueiro. Meu filho Flavinho logo se enturmou com os de sua idade, para um renhido futebol de rua, daqueles de levantar poeira.

É hora de dizer que julho é um mês especial para esta visita. Nem falo das pescarias, que estão liberadas, por não ocorrer, ainda, a piracema. Para quem não aprecia anzóis, mosquitos e o risco de uma mordida de piranha, a compensação oferecida pelos ipês roxos é i-n-c-o-m-e-n-s-u-r-á-v-e-l!

Ah, essas tabebuias, ipês, paus d’arco… Elas estão por toda parte com seus cachos, com seu exagero de cor e forma. Tem ipê pra todo lado, no cerrado inclusive, mas com a paisagem aquática, o verde ainda persistente do mato no entorno, como no Pantanal, não há… Aqui a exorbitância é lei!

Cena pictórica, captada do alto da ponte de concreto em Passo do Lontra (para isso ela é ótima!): a fileira de ipês roxos na margem esquerda do rio Miranda, tendo ao fundo o Morro do Azeite.Está em uma das fotos que ilustram esta narrativa. Pantanal é isso (e muito mais)!

É preciso ir adiante, mas não necessariamente pela estrada, agora. Vamos pelo rio Miranda.

Primeiro, é preciso encontrar a pessoa, ou melhor, o barqueiro certo. E nós encontramos o China, na verdade, japa, um metro e meio de simpatia e profissionalismo. Paulistano que virou pantaneiro e se orgulha de trabalhar com “turismo ecológico”, em seu barco de 40 HP e oito assentos. Bilíngüe, como convém – e parece mesmo que traça um inglês razoável. Os braços tatuados mostram passagens por um mundo mais vasto. Faz um passeio que parece não ter fim, de tão isento de pressa. Quer mostrar tudo. Cuidadoso, desliga o motor cada vez que um de nós lhe faz perguntas. E parece se alegrar com cada bugio, socó, tuiuiú, jacaré, biguá ou qualquer outro bicho que descobre em meio à galharia da margem e faz questão de nos mostrar.

Com o China, pela primeira vez neste périplo, nos sentimos donos de nossos narizes, ao contrário de Bonito, onde só fizemos passeios burocraticamente planejados, mesmo que interessantes. E por um preço muito mais razoável;

Agora é hora de pegar estrada. Viajar pela Pantaneira é sempre uma surpresa, seguida de outra e mais outra. Jacarés? A gente nem liga mais para eles, a não ser quando quase se empilham, de tão numerosos. Os sáurios são agora mais visíveis, quase sempre à margem das pontes. Mas se vê muito mais: tamanduás, quatis, cervos, capivaras, aves diversas, criaturas furtivas nem sempre identificáveis com precisão. E a estrada é toda ela um comprido túnel de verdura e, assim como a 262, muito bem conservada. As pontes não sobrepassam, obrigatoriamente, os rios ou riachos; antes permitem a comunicação aquática entre um lado e outro da barreira formada pela via, que obrigatoriamente deve ser levantada em relação ao restante do terreno.

Lugar superior em beleza: Recanto da Arara Azul, a 30 km do Lontra. Aqui nossos amigos Karsten e Sylvia se encantaram de vez e decidiram ficar para passar à noite em sua barraca sobre o carro. Imaginem um lugar de águas muitas, duas ou mais lagoas que se emendam, uma barreira de árvores no limite da visão, uma ampla campina ao redor, mangueiras em flor e uma moldura de palmeiras carandá dispersas de forma aleatória na paisagem. Jacarés no molhado e araras azuis no céu. Tal lugar existe, é lá mesmo! Não precisa ir mais adiante. Já se chegou; depois daqui é só voltar. É pouco? A lua cheia logo aparece por trás da barreira vegetal ao fundo. O lugar resume o Pantanal!

É hora de voltar para Miranda. E a lua cheia recém nascida, no rumo do leste, está como a nos mostrar o caminho…

Era preciso dizer também alguma coisa sobre Corumbá. Parafraseando Drummond me justifico: mas eu não fui lá…

E deixo aqui uma homenagem aos meus queridos companheiros de viagem: Carmen, Yara, Flavinho, Sophia, Sylvia e Karsten Montag, além do grande amigo Lukas, um cãozinho a quem chamar de “gente” pode parecer pejorativo…

 

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2 comentários sobre “Na Bodoquena, no Pantanal

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