No Mato-Dentro

Para sairmos da grande cidade é preciso trilhar seus tristes caminhos de periferia, lixo jogado nas ruas e o povo pobre nos pontos de ônibus. Mas lá na frente, mal e mal vislumbradas, as montanhas já nos auguram, em pálido azul que se confunde com o cinzento, a passagem por mais aprazíveis lugares. Em marcha sinuosa e intercalada pelos quebra-molas, passagens de linha de ferro e semáforos, ladeando as grandes filas de moradias toscas e sem reboco, vamos deixando para trás essa “mancha urbana” – coisa que aqui é sempre uma “mancha”, pelo menos em relação ao destino que esta gente deveria ter, mas não tem. Mas é ir em frente – fazer o quê? E assim alcançamos a velha cidade, vizinha quase emendada à metrópole adjacente, herdando dela e até piorando o que de mal possa haver. Mas em todo caso, além da ponte do rio histórico, alguma coisa mais bela se anuncia e logo se confirma, mas se reduz a uma única rua, só, aquela fileira de casarões, seus telhados sobranceiros, uma ou outra igreja ou capela, o que sobrou de um chafariz ou de um aqueduto. As placas comerciais escandalosas, anunciando negócios e mercadorias, em barafunda, meio que estragam ou contaminam tudo. Mas pelo menos os quintais ainda ostentam suas mangueiras centenárias, neste momento em florada, cujo cheiro é possível sentir mesmo dentro do carro. Logo novo panorama, contudo, se impõe, e nele os pastos com seus boizinhos e cavalos, as fanzendolas, as onipresentes palmeiras macaúbas, além de uma ou outra casinha de janelas azuis. E mais adiante o rio, o velho rio da história desta terra, pelo qual já circularam vapores, muito ouro foi buscado e muito índio preado, no vale onde já cumpriram sua vida uns animais gigantescos. Hoje, tudo parece que ficou pobre e sujo, mas aos poucos vai passando; a cada porção de estrada se tem mais o que é rural, verde e arejado, e menos o que é urbano, cinzento e constrito, para a nossa saudável alegria. E finalmente vemos o que se nos afigura como um momento de quase sonho: o velho Mosteiro, com suas paredes brancas e janelas azuis, sua capelinha acanhada, mas digna. As freiras que ali estão seriam hoje apenas uma espécie de funcionárias de uma entidade, mais do que as penitentes de outrora. Já não rezam para nos remir de nossos pecados; apenas industriam e põem a venda seus modestos produtos, geleias e biscoitinhos que compramos menos para degustar, sabores que já se perderam, mais para ajudar essas pobres criaturas. Mas é belo o Mosteiro, vale a pena se deter um pouco ali, nem que seja para respirar o ar vindo de escuros desvãos, que rescende a madeira velha, a paramentos guardados em alfazema, a velas de estearina, a incenso e fumaça de fogão de lenha. Hora também de trazer a lembrança das inumeráveis mocinhas, retiradas do convívio familiar ao longo de dois inteiros séculos, não só para uma vida monástica nem sempre desejada, mas também para os intermináveis períodos escolares, que iam de fevereiro a dezembro. De lá chegavam e saíam a cavalo, moradoras que eram de remotos lugares, ao longo e além da grande massa montanhosa que a vista já alcança. Um último olhar para as árvores de vinhático da chegada do prédio e às macaúbas, agora centenas e centenárias, que enfeitam as margens do rio, logo ali abaixo; é hora se seguir em frente. E se vai pelo mesmo caminho trilhado até agora – sua continuação. Do lado direito a cordilheira, que só será escalada mais adiante; do lado esquerdo, o rio, correndo sempre e direto para o Norte, em busca de seu parceiro maior. É somente à frente que nos cabe prosseguir. Uma ou outra cidade ou lugarejo se interpõem. É de se louvar alguma torre de igreja, algum casarão de fazenda, um chafariz, mas em pouco número e quase sempre castigados pelo tempo e pela falta de cuidado humano. Lá adiante finalmente, a serra, a cordilheira a ser transposta. Em seu sopé desce, jeitoso, o rio de águas escuras e limpas. Ali os cidadãos da metrópole que ficou para trás há muito vêm passar seus finais de semana, aproveitar seus carnavais e feriados. A estrada, sombrosa e ainda agradável de se por ela pass(e)ar, é pontilhada de pousadas, restaurantes, postos de gasolina, comércios diversos e até agências bancárias – eis que os que aqui vêm, cansados da cidade grande, aspiram a expandir seus domínios, mesmo à custa de trazer um pouco da metrópole para cá. Talvez valha a pena experimentar alguma quitanda e tomar um cafezinho por aqui, sem esquecer do fato que depois que o orgulho pelas coisas da terra virou moda, nem sempre a qualidade dos produtos que são oferecidos como tal seja de fato garantida. Mas como o melhor está por vir, sigamos em frente. Transposto o rio, a subida da serra logo se apresenta. Já foi tormentoso e matador este caminho, principalmente no trajeto de volta, mas hoje a pista asfaltada e bem sinalizada requer menos cuidados e em alguns minutos já grimpamos até as alturas do Planalto, da mesma forma que a descida se transformou em algo sem maiores mistérios. À nossa esquerda imenso vale, no qual as macaúbas são legião ainda maior. Mas este Planalto, assim com “P” maiúsculo, em si, já valerá a viagem. Toda a miséria e toda a balburdia da grande cidade e dos arredores contaminados por ela agora realmente ficaram para trás. Agora o que se tem são aqueles “campos rupestres”, pedregosos, pontilhados pelas sempre-vivas e quaresmeiras, cortados aqui e ali por riachinhos caprichosos. Dá vontade de parar, não de prosseguir, para poder apreciar um pouco deste estado de natureza e de espírito. Adiante, uma antiga, majestosa e bem cuidada sede de fazenda, anuncia que o mundo agora certamente já tem diversa figuração. Mas é cedo para acreditar em mudanças tão profundas. E o Planalto, em suas paisagens, se repete, quilômetros a fio, sempre o mesmo, sempre novo, sempre apreciável. Aqui em cima o clima, em todas as acepções da palavra, já é realmente diverso. A gente chega a ansiar por uma espécie de máquina do tempo, não para fazê-lo voltar ou acelerar, mas para que passe mais devagar e assim nos permita melhor aproveitar tudo isso. Aqui está instalada certa fronteira entre a vida urbana e uma outra vida mais amável, mas não é só. Esta serra também divide dois mundos, neste trecho da paisagem, em certo sentido histórico. De seu lado direito, as Minas; do esquerdo, os Gerais. E é para este lado direito que vamos, com suas matas que já cobriram despropósito de terras, suas cristas de montanhas eriçadas, a esconder tesouros minerais, seu incessante trafego de mulas, de fiscais e soldados da Coroa. E mais os atores inaugurais da brasilidade, seus Emboabas, Inconfidentes e Tiradentes. E também os vales extintos e secados a golpes de dinamite e de enormes máquinas-tratores, fazendo vilas se soverterem pelo rompimento de barragens mal projetadas. Riqueza que não era para todos e acabou por gerar mais pobreza. Território de uma “derrota incomparável”, como disse um poeta nativo dessas terras. Mas é para lá que vamos, para o lado de Dentro do Mato, para a banda oriental, para o vale do Doce Rio amargo. Mas de tais tristezas tentaremos retirar, se não algumas alegrias, pelo menos lições de vida e carinhos para os olhos. E um pouco mais adiante, sob o olhar vigilante dirigido ao Nascente, do sempre-presente Juquinha em estátua feito, o coletor de sempre-vivas, vamos finalmente adentrar ao território da antiga e larga floresta – supondo, na fantasia, que ela ainda esteja de pé. Seus habitantes primitivos, chamados pejorativamente pelos colonizadores brancos de “Botocudos”, há muito já se foram. E assim chegamos ao que um dia foi o Mato-Dentro. Alguma coisa terá restado do passado, a longa rampa na banda oriental da cordilheira logo nos indica a presença de altas árvores, em capoeiras, um dia coalescentes. Entre elas os renques de eucaliptos, impostos a tal paisagem. A primeira cidade logo se apresenta. Já teve importância na história, até mesmo tecnológica, pois ali se fundiu o ferro pela primeira vez no país, por obra e graça de um barão estrangeiro. Agora é menos, quase nada. Mas ainda vale a pena parar por alguns momentos, para apreciar os resíduos barrocos que ali teimam em persistir: igreja, uma dúzia de sobrados casarões, nada mais. As fazendas antigas que beiram a estrada que segue vale abaixo nos oferecerão mais, mas não muito. Há que se aproveitar cada fração de tal caminho. Aqui já estamos na estrada, dita “Real”, um dia vigiada pelos extintos Botocudos, por onde muita riqueza se escoou e a Coroa fez passar sua lei e sua ordem. Há que se aproveitar a paisagem, sobretudo, que agora está invertida em relação ao momento anterior, eis que o Espinhaço da cordilheira se nos apresenta do lado do poente. É tratar de aproveitar as paisagens que nos proporciona, pois agora nossa estrada, que perdeu a capa de asfalto, em compensação segue rente à montanha e nos obriga a andar devagar. E atenção para as dobras e cimos que às vezes lembram corcovas e frontes de animais. E logo veremos outra vez a consequência do espírito hedonístico dos moradores da metrópole, ainda não totalmente distante. Pousadas, hotéis, restaurantes – uma certa pretensão cosmopolita presente em tudo, chegando a ocultar o sereno provincianismo original. Mas, menos mal, esta é sem dúvida uma indústria limpa, que traz emprego, dignidade e renda aos habitantes destas terras, que em outros momentos não tinham outro recurso que não o de engrossar as favelas do outro lado da montanha. Aqui se deve trafegar com pouca pressa, não apenas pela topografia e má sinalização da estrada, mas porque há muito o que ver em cada grota, em cada desvão da grande serra. Aqui e ali, as “manchas”, não mais de edificações, mas de Mata Atlântica verdadeira, a matriz deste Mato-Dentro. E será assim por léguas a fio, até se chegar à pequena vila, industriosa esta, com seu comércio sólido, suas ruas e praças calçadas no capricho, seu parque de exposições e sua fábrica de bons laticínios. Há mesmo um pequeno hotel que prima pelo asseio e pelo encanto da cortesia do casal de proprietários. Ele, um cego completo que reconhece as pessoas pela voz, mesmo que tenha conversado com elas apenas em passado remoto. Aqui o café com quitandas é garantido. Quem sabe até um pouso para a noite, também, para quem quer melhor explorar a região. Seguir em frente agora – ou depois? A vida é feita de escolhas. Mais alguns quilômetros e teremos a vila vizinha, um pouco mais pujante, com seu Museu do Tropeiro, seu casario antigo e relativamente bem conservado e, se o viajante tiver sorte, sua festa anual dedicada aos bravos condutores de mulas, que fizeram a fama e a singela riqueza deste lugar. Aqui de novo o asfalto mostra sua textura, embora isso nem sempre faça a alegria daqueles que apreciam de fato este tipo de viagem. E tem mais: aqui se come bem também, sendo recomendável o restaurante que fica na rua principal, em frente à Igreja. E seguindo em frente vamos dar à cidade-sede da região, verdadeira sub metrópole hoje, mas na verdade o que sobrou de décadas de mineração. Como previu seu filho mais ilustre “E virá a companhia inglesa e por sua vez comprará tudo e por sua vez perderá tudo e tudo volverá a nada e secado o ouro escorrerá ferro, e secos morros de ferro taparão o vale sinistro onde não mais haverá privilégios, e se irão os últimos escravos, e virão os primeiros camaradas […] e os antepassados no cemitério se rirão se rirão porque os mortos não choram”. Na verdade, depois dos ingleses vieram os nacionais, que completaram a obra dos primeiros. Vamos lá assim mesmo? Constatar tanta destruição talvez nem valha a pena. Mas é o solo natal de quem guia esta viagem, há que chegar até lá. Não há muito mais o que ver. Uma rua principal ainda guarda duas dezenas dos antigos sobradões. Mais à frente havia uma bela igreja barroco-tropical, mas há muito ela ruiu e foi substituída por um monstrengo de concreto. Procurando é possível achar alguma coisa, mas pouca hoje em dia. Sobe-se uma rua e se desce outra, o cenário é invariável. Uma mixórdia de construções de variadas épocas e estilos. As casas e outras coisas antigas praticamente desapareceram, salvando-se apenas alguns pomares frondosos em terrenos maiores de certos bairros antigos. O horizonte é totalmente dominado pela grande ferida que a montanha de ferro deixou ao ser demolida, há muitos anos, resto de um pico agora côncavo e invertido. Um horizonte de ruas mal traçadas, rendidas à divindade da especulação imobiliária. Já faz tempo que estão secos os veios do ferro e a cidade vive de seu passado e talvez tente recuperá-lo através das menções, oficiais inclusive, ao ilustre filho escritor, mas a realidade mostra é que ali tem mais gente, políticos principalmente, tentando se dar bem com tal fato do que propriamente lendo o que ele escreveu. Não há muito o que fazer ali, realmente. O melhor da viagem foi o que já passou. Seguir em frente é a opção. E para voltar à metrópole, manda a prudência não se meter na perigosa rodovia, que mata gente aos montões ao mesmo tempo que é essencial para a economia funcionar. Há que evitá-la e há outras opções, felizmente, que fazem o encanto da presente viagem retornar. Por exemplo, a de atravessar o Espinhaço mais ao Sul, para rompê-lo através de um passo acidentado, porém ainda coberto de Mata Atlântica, parte daquele antigo Mato Dentro, que mesmo misturada aos eucaliptos de sempre, subsiste com alguma exuberância. É um caminho que não tem o tráfego pesado e perigoso da rodovia principal, mas mesmo assim há que se ter cuidado com os caminhões carregados de minério de ferro, porque o foco da exploração agora demudou-se. Mas de quebra se pode conhecer três das cidades do ciclo do ouro, nos flancos da cordilheira, de um lado e de outro dela, embora hoje também um tanto destruídas pela busca frenética de outro metal, com o qual o mundo vai empurrando sua fome tecnológica – o ferro. Mas terá valido a pena o nosso périplo. Em meio a algumas belezas, pudemos refletir um pouco sobre a herança que esta terra nos traz e a condição atual que nos é imposta pela “máquina do mundo” que dela se apossou.

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