Considerações sobre as eleições para o CFM em 2024

Meu amigo (há mais de 60 anos) Eduardo Guerra, também médico como eu e que já foi presidente do CRM-DF, sub Secretário de Saúde, além de outros cargos, preocupado com o andamento da escalada de ultradireita no movimento médico do país, inclusive em seu organismo principal, o Conselho Federal de Medicina, me manda um texto bastante elucidativo de sua autoria, sobre esta situação preocupante, não só para nós médicos como para a sociedade brasileira como um todo e a Democracia em geral, que prazerosamente reproduzo abaixo.

Em 2022, no segundo turno, as eleições presidenciais foram decididas por um pequeno percentual de votos, 50,9 a 49,1, menos de dois por cento. Foi por um triz. Pode-se dizer que o Brasil estava dividido em duas partes iguais, uma metade antibolsonarista, outra metade bolsonarista.
O CFM manteve um forte alinhamento com o governo Bolsonaro durante a sua atual gestão, que terminará em setembro de 2024 e deverá manter a mesma posição nos próximos anos.
Em 2023, quatro chapas concorreram às eleições para o CRM-DF.
As chapas 1 e 3 eram uma dissidência do mesmo grupo, de forte influência bolsonarista. A chapa 2, vamos considerá-la, para simplificar, nem antibolsonarista, nem bolsonarista. Ganhou a chapa 4, que foi a única chapa de oposição a sair vitoriosa em todo o país.
Qual foi a diferença do número de votos entre as chapas 1 e 4? Apenas 30 em um total de 10.665 votos válidos. Foram 3.534 a 3.504, menos de um por cento. Foi por um triz.
No entanto, somando os votos obtidos pelas chapas 1 e 3, temos o número de 6.517 (56,2%), quase o dobro dos votos obtidos pela chapa 4, 3.534 (30,5%). Mais à frente vamos procurar entender isso.
Em 2024, nas eleições para o CFM, aqui no DF a disputa ocorreu entre duas chapas bolsonaristas (1 e 3) e uma outra de oposição, a chapa 2.
Resultado: chapa 1, 5.375 (50,4%), chapa 2, 3.747 (35,13%) e chapa 3, 1.543 (14,47%) votos.
As chapas 1 e 3 obtiveram 64,47% votos, quase o dobro da chapa 2 (35,13%).
Considerando o acima exposto, arrisco-me a dizer que, provavelmente, o número de médicos bolsonaristas deve ser maior do que o da população em geral.
Assim, vamos buscar entender a conjuntura que poderia explicar esta possibilidade.
No decorrer dos tempos, a assistência médico-hospitalar se fez em clínicas e hospitais privados, notadamente as Santas Casas de Misericórdia, que existem até hoje, acredito, em todos os Estados. A medicina era simples e barata, o que permitia o atendimento aos mais pobres. A partir de 1932 foram criados os Institutos de Aposentadoria e Pensões (IAP’s) das diversas categorias profissionais, que foram unificados com a criação do INPS em 1966. A assistência prestada até então, devido à insuficiência da rede própria, continuava a ser feita, principalmente, através de compra de serviços no setor privado, incluídas as Santas Casas. Com a sua criação em 1977, o INAMPS passou a ser o prestador exclusivo da assistência médica, que continuava, de forma significativa, sendo comprada do setor privado.
Com a criação do SUS pela Constituição de 1988 e a sua regulamentação pelas leis 8.080 e 8142, a compra de serviços no setor privado continuou, decrescendo com a criação de unidades de saúde municipais, estaduais e federais, no entanto, ocorrendo até hoje.
Paralelamente, ocorreu o crescimento dos planos de saúde, contabilizando 51 milhões de usuários em março de 2024, segundo a ANS.
Fiz este pequeno histórico para mostrar que a atividade privada é a principal atividade dos médicos.
E, a formação médica no Brasil, como está?
Todos os dados são da Demografia Médica AMB 2024.
Em duas décadas o número de vagas em escolas públicas cresceu 64%, enquanto nas particulares aumentou 358%. Em 2022, do total de 41.805 vagas, 32.080 são de escolas particulares e somente 9.725 públicas.
Destas 41.805 vagas , 23.287 foram criadas depois de 2014.
Em julho de 2024 o MEC autorizou a abertura de 18 novos cursos de Medicina. Para exemplificar, a cidade de Sto. Antônio de Jesus (BA), com 102 mil habitantes ganhou uma faculdade com 60 vagas. A mesma Portaria autoriza a ampliação das vagas nas escolas já existentes. Irecê (BA), com 73 mil habitantes, ganha mais cem vagas, e Quixadá (CE), 84 mil habitantes, recebe mais cem novas vagas.
O valor das mensalidades das escolas privadas varia de R$ 4.980,00 a R$ 12.800,00, com valor médio de R$ 9.040,00.
No vestibular, a razão candidatos/vaga é de 65,8 nas públicas e de 8,9 nas particulares.
Quanto à Residência Médica (RM), devido à pandemia, as vagas para R1 diminuiram de 19.542 em 2018 para 16.648 em 2021. Nesse mesmo período o número de formandos aumentou. Assim, menos da metade dos formandos consegue ingressar em programa de RM e a maioria vai direto para o mercado de trabalho.
A Medicina é ainda uma profissão de pleno emprego, embora já tenha ocorrido uma piora nas condições de trabalho e de remuneração.
A nossa profissão sempre gozou de prestígio junto à população. Dizia-se que as maiores autoridades de uma cidade do interior seriam o padre, o juiz, o médico e o delegado, não necessariamente nessa ordem.
O médico sempre pertenceu à elite da cidade onde mora. Nos grandes centros essa situação fica mais diluída, porém é perceptível nos arredores de onde moramos. Os vizinhos, via de regra, nos tratam com uma deferência especial.
A população brasileira é ainda muito conservadora. A surpreendente ascensão do número de igrejas neopentecostais, dentre outros indicadores, corrobora isso.
Some-se a isso o fato de cada vez mais os jovens médicos se formarem em escolas particulares, cujo custo é muito alto, mesmo para uma classe média abastada.
Portanto, é natural admitir que os médicos, em geral, sejam pessoas com pensamento mais  conservador e com um viés político mais à direita.
E, para complicar mais as coisas, a velocidade de circulação de notícias falsas nas redes sociais, aliada ao reduzido senso crítico das pessoas, mesmo daquelas que têm diploma universitário, fazem com que esta onda de extrema direita tenha chegado para ficar por algum tempo.
Além disso, a crescente privatização da formação médica e da sua prestação de serviços, faz com que suas as entidades representativas ajam cada vez mais para defender exclusivamente interesses corporativos, em detrimento de realização de direitos dos pacientes.
A dificuldade de combater os efeitos perversos da combinação de uma enchente de notícias falsas, disseminadas de forma certeira pelos algoritmos das redes sociais e o baixo senso crítico das pessoas, nos mostram que a permanência de um grupo progressista no CRM-DF correrá sério risco daqui a quatro anos.

Eduardo Pinheiro Guerra CRM-DF 2535.
Braga, Portugal, em 06/09/2024.
Autorizo a divulgação na íntegra.

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