O Futuro, agora…

O futuro ainda não existe e o passado já se foi, o que nos resta é apenas o presente. Assim disse alguém, mais sábio e filosófico do que eu, mas o fato é que tal entidade, o que ainda está por-vir, tem marcado sua presença comigo por esses dias, me fazendo acreditar que talvez o melhor para nós, seres humanos, seja ficarmos mais atentos a ele.

Tudo começou quando lia uma obra que me chegou às mãos, por acaso, da qual deixarei o nome em suspenso, por enquanto. Trata-se de um livro escrito ainda nos primeiros anos do século vinte, começando a contar uma história que se encaixava dentro de outra. O narrador sofrera um acidente de estrada, é recolhido a uma mansão rural, ali conhece um cientista e sua filha, por quem acaba se apaixonando, assim tomando contato com uma máquina de observar o futuro, chamada um tanto poeticamente de porviroscópio, inventada pelo tal cientista para produzir tempo artificial, segundo seu criador.

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Urbe et Orbi

Que cidade era aquela, a si mesmo indagava Otávio. Como ele chegara até ali? Pensava: o que vive na memória não perece, assim como os sonhos. Para ele, entretanto, tudo ali era surpresa e portal de um mundo ainda não visto, embora aos poucos se abrisse alguma brecha. Mas de início, pelo menos, ele não fora capaz de perceber por onde andava e nem porque estava ali. Vagamente, alguns minutos antes, ele se sentira sonolento, mas de nada mais se dava conta

A vida é como um fado: descer para onde não se sabe, para subir de outro lado, havia uma trilha musical no ar. E já que vou subir, pensava ele, aproveitarei para observar o que lá de cima minha visão alcançasse.

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Todos os homens são mortais

Meu tio Geraldinho. Ia fazer cem anos não demoraria muito. Quanto tempo? Ele saberia ao certo, mas não revelava,afirmando apenas ser coisa de um ano, talvez dois ou três. Mas a verdade é que ele já estava bem velhinho: velho pra burro, como ele dizia.

Nunca se casou, pelo menos pelo que se sabe. Há notícias de uma antiga namorada, a quem ele teria prometido casamento durante anos, décadas segundo alguns, mas que casamento mesmo não houve. Mas sempre afirmou – e continua afirmando – que gosta mesmo é de mulher. Um primo dele (e de meu avô), o Juca, confirmava isso até certo ponto, quando me disse, muito tempo atrás, porque este aí há muito se findou, que Geraldinho em seus bons tempos era o Rei da Zona na terra deles. Mas isso é coisa a ser confirmada. Ou melhor, a ser esquecida, quem é que se importaria com a veracidade de tal fato nos dias de hoje, quando já não estão vivos quaisquer dos conviventes dessa época, dos dois lados do balcão da tal zona?

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As atribulações do Professor Epaminondas

15 JUL: Não é que eu acredite em numerologia ou na força dos nomes na vida das pessoas, essas coisas. Mas este nome que meu pai decidiu me batizar, pelo amor de Deus… É uma carga terrível na vida de um cristão, ou membro de qualquer outra religião. Apelidos nunca me faltaram: micro-ondas, tira-ondas, quebra-ondas e por aí vai. Aquele velho metido a erudito diz … Continuar lendo As atribulações do Professor Epaminondas

Um dia qualquer na minha vida

Sinceramente, se um dia eu melhorar de vida, minha primeira providência será mudar de apartamento. Este aqui onde eu moro é uma apologia ao mal-estar habitacional, valendo isso para qualquer lugar do mundo. Talvez na Etiópia ou no Haiti fosse aceitável… Ora, vejam só. Para entrar em casa tenho que passar por este corredor escuro e interminável, com umas trinta portas enfileiradas. É tão escuro que eu não seria capaz de identificar a cara de qualquer um dos vizinhos se por acaso um dia os encontrasse à luz do dia. Nos fundos, dando para a cozinha, um inominável buraco central quadrado, para onde convergem dez andares empilhados, fluindo por ele coisas tão diversas como cheiro de comida (ou sei lá de quê), conversas (entre estas xingamentos e suspiros de amor), música (de todos os tipos, principalmente cafonas e detestáveis), rádios ligados (em volumes escandalosos) etc.

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Ó Deodoro…

– Sai cá fola Deodola, ganhar mulo na cachola. O nome dele era Deodoro, nosso professor de Geografia, uma rara unanimidade em termos de ódio – também de algum temor – por parte de quase todos naquela terceira série “C”. Graveto, nosso literato de ocasião, com vasta obra publicada nas portas dos banheiros da escola, a nos liderar no desprezo a tal figura, jogava com … Continuar lendo Ó Deodoro…

Closing Time

And I swear it happened just like this: a sigh, a cry, a hungry kiss, the gates of love they budged an inch. Leonard Cohen: Closing Time

Que festa boa meu Deus! A gente bebia e dançava, aquela banda era realmente da pesada. Johnny Walker rolava pra lá e pra cá e nos instilava sua sabedoria. Melhor ainda, no final não haveria contas a pagar. Nenhuma conta!

Do melhor não falei ainda, daquela mulher, a felina que por vezes me acompanhava na dança, sempre a pequena ou quase nenhuma distância, rodopiando, todavia presente, próxima, quase me tocando, num movimento de aproximação e recuo, a me despertar algo entre o angelical e o vulgar. Que pena, esqueci seu nome. Dela própria não sei mais nada. Sumiu em alguma dobra do mundo. Não era minha garota, era de todo mundo. Esfregava suas coxas nas coxas de todos ali – e de todas também, por que não? E se havia naquilo luxúria, havia também, por que não dizer, compaixão. Sim, a compaixão em atender os desejos de um bando de solitários, como eu, que de outra forma não teriam perto de si o calor e a textura do corpo de uma mulher, que além disso nos deixava um halo de seu perfume doce e penetrante e o toque de suas coxas, até de sua intimidade, de puro e úmido cetim.

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Sem olhos em Peirópolis

Esta é história de Samuel, que no começo era Saminho, depois virou Sam e finalmente Sansão, assim apelidado pelo rabino Grebler, no dia de seu Bar-Mitzvá, em reconhecimento a seu porte taludo e grande força física, embora fosse pacífico e gentil com todo mundo. Segundo Grebler, Sansão era um herói do povo judaico e certamente este apelido faria Samuel honrar ainda mais sua herança.  Quando o garoto descobriu que tal figura bíblica era cabeludo, decidiu deixar também seus cabelos crescerem. Na Escola Israelita Ben Gurion, onde estudava, aquela juba fazia o maior sucesso.

Samuel Benjamin Lebovitz, melhor dizendo, Sansão, era um menino rico, de família judia, filho de empresário da indústria paulistana. Morava junto com a família, papai Aron, mamãe Sarah e seus dois irmãos, Caleb e Isaac, tendo cada um seu aposento próprio em um apartamento caro e espaçoso, ali no Morumbi.

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Doutor Fausto

Eu o via quase todo dia comendo pastel com caldo de cana, na hora do almoço, na praça principal aqui em Poeirópolis. Apenas mais um personagem como tantos outros por ali, empregados dos escritórios ou do pequeno comércio dos arredores da praça. Gente que parecia não dispor de tempo ou dinheiro para fazer um almoço digno. O detalhe de tal personagem é que usava, ou mantinha dobrado debaixo do braço, um jaleco branco, como se fosse um médico, ou coisa que o valha. Devo ter visto ele inúmeras vezes naquele banco de praça, mas demoraram-se dias ou semanas para que começasse, de fato, a prestar atenção em sua figura.

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Meu amigo Gonzo

Gonzo é uma espécie de moralista que se torna feio para melhor denunciar a feiura (Hunter Thompson); Um cara que se veste de palhaço para denunciar a palhaçada dos outros (João Caçador).

Telefone que toca às quatro da matina, todo mundo já sabe: só pode ser notícia ruim. E era. Faustina, também conhecida como Infaustina, uma colega de trabalho especialista em tal assunto, me dava conta que João Caçador já não estava entre nós. E pior: tinha se suicidado. Tal sujeito podia ter todos os defeitos do mundo, mas foi meu amigo como nenhum outro, mesmo que eu discordasse o dele – eu e muitos mais – sob o troco de nos despejar boa dose sulfúrica, em muitas das situações de contenda em que nos metíamos com ele. Mas acima de tudo era uma pessoa que, se não querida, pelo menos era respeitada por muitos de nós, seus colegas na via crucis do magistério. Suas controvérsias começavam por aquele caçador, que não era nome de família e nem mesmo apelido de infância ou uma referência a esporte a que ele talvez se dedicasse. Era uma alcunha, só descobri depois, que ele mesmo inventara para si, e assim se apresentava quando veio transferido para nossa escola. Como sou dado à escrita, fazendo disso também uma espécie de autoterapia, membro da espécie em extinção professor de literatura, talvez por ter sido o amigo mais próximo do Caçador nos últimos anos, pensei que seria eu a pessoa mais talhada para contar a história deste cara. Não dos melhores, mas dos mais expostos à galhofa, como diria o Drummond, valendo isso tanto para o biógrafo como para o biografado.

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