Se bem me lembro (VIII): Narrativas Peripatéticas
Durante um pedaço de minha vida achei quenão gostava de viajar. Hoje vejo que me enganei, ou, pelo menos, passei a ver que as viagens podem ser boas ou más, dependendo de alguns fatores. Começando pela negativa, devo dizer que aquela história de viajar por viajar, visitando uma sequência alucinada de países, cidades, monumentos, museus, vales, montanhas etc, tirar um monte de fotos e depois mostrá-las alegremente para os amigos, decididamente nunca foi a minha praia. Aliás, na minha preferência, melhor que nem haja praia em eventuais viagens. As pessoas a que me refiro na descrição acima me lembram aqueles caçadores (ou quem sabe, jagunços) que fazem uma marca na carabina a cada presa que abatem. Conheci recentemente uma dessas figuras, que fez um périplo por uma dúzia de parques selvagens na África e não foi capaz de me dizer em quais países exatamente esteve, da língua se falava em cada um deles, de como se dava a vida dos nativos ali, de qual era a religião dominante etc. Mas contabilizava com total precisão números de parques, girafas, leões e rinocerontes que foram avistados, além de documentar isso escrupulosamente em centenas de fotos (as quais, felizmente, não fui convidado a apreciar). Com isso, posso dizer com certeza: eis aí um tipo de viagem que não gostaria de fazer ou acompanhar alguém.
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