Se bem me lembro (VIII): Narrativas Peripatéticas

Durante um pedaço de minha vida achei quenão gostava de viajar. Hoje vejo que me enganei, ou, pelo menos, passei a ver que as viagens podem ser boas ou más, dependendo de alguns fatores. Começando pela negativa, devo dizer que aquela história de viajar por viajar, visitando uma sequência alucinada de países, cidades, monumentos, museus, vales, montanhas etc, tirar um monte de fotos e depois mostrá-las alegremente para os amigos, decididamente nunca foi a minha praia. Aliás, na minha preferência, melhor que nem haja praia em eventuais viagens. As pessoas a que me refiro na descrição acima me lembram aqueles caçadores (ou quem sabe, jagunços) que fazem uma marca na carabina a cada presa que abatem. Conheci recentemente uma dessas figuras, que fez um périplo por uma dúzia de parques selvagens na África e não foi capaz de me dizer em quais países exatamente esteve, da língua se falava em cada um deles, de como se dava a vida dos nativos ali, de qual era a religião dominante etc. Mas contabilizava com total precisão números de parques, girafas, leões e rinocerontes que foram avistados, além de documentar isso escrupulosamente em centenas de fotos (as quais, felizmente, não fui convidado a apreciar). Com isso, posso dizer com certeza: eis aí um tipo de viagem que não gostaria de fazer ou acompanhar alguém.

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Viagem ao Sul (profundo) de Minas

É comum alguém me indagar sobre algumas coisas referentes à minha suposta mineiridade. Ou seria mineirismo? Por exemplo, se em minha casa se comia pão de queijo ou tutu de feijão todos os dias, se respeitávamos as tradições culturais e religiosas, se guardávamos dinheiro debaixo dos colchões ou comida em gavetas. Talvez tenha decepcionado meus interlocutores ao responder-lhes um sonoro não para algumas dessas perguntas. Em termos de pão de queijo, por exemplo, o que comíamos geralmente eram os biscoitos de polvilho das padarias, crocantes e até gostosos em alguns casos, mas que de queijo não tinham nada. A iguaria hoje nacional tinha que ser saboreada em lugares específicos, como era o caso de uma antiga Churrascaria Camponesa, situada na rua dos Goitacazes, quase esquina de Bahia, em BH (já não existe, faz tempo). Pão de queijo numa churrascaria, vejam só… A questão é simples de resolver e o próprio nome do meu estado, plural que é, explica tudo: não existe uma Minas, mas muitas delas – e uma costuma não ter muita coisa a ver com a outra. A zona central, onde ficam BH, Ouro Preto, Congonhas e mesmo minha terra, Itabira, foi (e é) dominada pela mineração (ouro e depois ferro) e nela pontificam as influências da escravidão, da religiosidade, da devastação ambiental. Ao Norte, existe a força da pecuária e de culturas agrestes, como a do algodão, importadas através do caudal do rio São Francisco. A Oeste, o Triângulo, de colonização tardia, recebeu fortes influências paulistas que a ele trouxeram o linguajar, o café, a ferrovia e talvez o espírito empreendedor. O Noroeste não era quase nada, mesmo Paracatu, sua importante vila oitocentista, estava decadente quando lhe chegou o sopro desenvolvimentista da construção de Brasília. O Leste era território dos valentes botocudos, que resistiram à invasão branca até o início do século 19. E assim por diante.

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Inhotim revisitado

Até há poucos anos atrás este nome era de conhecimento circunscrito aos moradores de Brumadinho, na região metropolitana de BH e, fora disso, no máximo aos viajantes ou trabalhadores da Estrada de Ferro Central do Brasil, por denominar uma estação da mesma, em tal município. Senhor Tim, um inglês de nome Timothy, dos primórdios da mineração do ferro no século 19 na região, talvez seja uma possível origem de tal nome, mas há outras explicações, que não caberia detalhar agora. O fato é que hoje todo mundo sabe o significado dessa denominação. Vamos ver o há na web sobre tal empreendimento diz:

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Viagem ao Gerês, Portugal, 2025

Peneda-Gerês, um parque natural em Portugal. Eu já havia estado lá, em 2015, mas tive nova oportunidade, em março de 2025, de fazer uma viagem mais profunda, embora com a duração de apenas um dia, na companhia de meu amigo Eduardo Guerra, agora transformado em cidadão português. O Parque Nacional da Peneda-Gerês é uma área protegida, o único parque nacional em território português, situado no extremo norte do país, entre as regiões do Minho, Trás-os-Montes e a Galiza, passando ao outro lado da fronteira com a Espanha, onde é chamado de Xurés. É um território de serras e florestas sem fim e dele muito bem disse meu amigo Eduardo: eu pensei que conheci montanhas em Minas Gerais, minha terra, mas foi aqui que as vi de verdade. Ali nascem dois grandes rios portugueses, nenhum deles comparável ao Amazonas ou mesmo ao São Francisco, por certo, mas repletos de histórias e tradições: o Lima e o Cávado. Aliás, em Portugal, os rios sempre correm da fronteira com a Espanha (ou do próprio território espanhol) para o mar. No primeiro caso estão estes dois aí citados, além de outros) e na segunda versão o Minho e o Tejo, que possuem berço espanhol. O Gerês fica a nordeste de Portugal, tendo como cidades mais importantes dentro de seus limites Braga, Guimarães, Ponte da Barca, Arcos de Valdevez e Vila Real, além de outras. Esta área é considerada pela Unesco como Reserva Mundial da Biosfera, importante na conservação do solo, da água, da flora, da fauna e da paisagem. A prestimosa Wikipedia o define como uma das maiores atrações naturais de Portugal, pela rara e impressionante beleza paisagística e pelo valor ecológico e etnográfico, além da variedade de sua fauna, que inclui corças, lobos, cabras selvagens e aves de rapina, além de uma flora exuberante, na qual se sobressaem pinheiros, teixos, castanheiros e carvalhos. Pela área do parque passou uma antiga estrada romana, a Geira, que ia de Braga a Astorga, na região central da Espanha. Vamos por partes.

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Assim Sophia viu Brasília

Em minha primeira viagem a Portugal, flanava eu pelas ruas do Chiado e ato contínuo resolvi tomar um daqueles charmosos eléctricos amarelos, que subindo e descendo ladeiras acabou por me deixar em uma praça nos altos opostos ao meu ponto de partida, o Miradouro da Graça. Ali, em um pequeno paço, me vi diante de uma bela e extensa vista, que abarcava desde o bairro da Mouraria, ao rés do chão, até o Castelo de São Jorge e o bairro da Alfama, ao centro, com a Sé de Lisboa mais adiante e mesmo, além, a ponte 24 de Abril e um pedaço do Tejo. No logradouro propriamente dito um busto em bronze me avisava que o local era conhecido também pelo nome da homenageada, Sophia de Mello Breyner, que eu até então ignorava quem fosse. Nos dias seguintes vi o que minha imperdoável ignorância me negara: ela era uma das maiores escritoras e poetas de Portugal, comparada até mesmo a Fernando Pessoa. Seu nome estava não só em pracinhas como aquela, mas em outros locais públicos da cidade e, de maneira que revelava sua real importância, em uma série de poemas sobre o mar, inscritos nas paredes que ladeavam os enormes aquários do Oceanário de Lisboa, que visitei um ou dois dias depois. Assim ela chegou em minha vida.     

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No Mato-Dentro

Para sairmos da grande cidade é preciso trilhar seus tristes caminhos de periferia, lixo jogado nas ruas e o povo pobre nos pontos de ônibus. Mas lá na frente, mal e mal vislumbradas, as montanhas já nos auguram, em pálido azul que se confunde com o cinzento, a passagem por mais aprazíveis lugares. Em marcha sinuosa e intercalada pelos quebra-molas, passagens de linha de ferro e semáforos, ladeando as grandes filas de moradias toscas e sem reboco, vamos deixando para trás essa “mancha urbana” – coisa que aqui é sempre uma “mancha”, pelo menos em relação ao destino que esta gente deveria ter, mas não tem. Mas é ir em frente – fazer o quê? E assim alcançamos a velha cidade, vizinha quase emendada à metrópole adjacente, herdando dela e até piorando o que de mal possa haver. Mas em todo caso, além da ponte do rio histórico, alguma coisa mais bela se anuncia e logo se confirma, mas se reduz a uma única rua, só, aquela fileira de casarões, seus telhados sobranceiros, uma ou outra igreja ou capela, o que sobrou de um chafariz ou de um aqueduto. As placas comerciais escandalosas, anunciando negócios e mercadorias, em barafunda, meio que estragam ou contaminam tudo. Mas pelo menos os quintais ainda ostentam suas mangueiras centenárias, neste momento em florada, cujo cheiro é possível sentir mesmo dentro do carro. Continuar lendo “No Mato-Dentro”

Viagem a Portugal (III): Rumo ao Norte

Visitado o grande epicentro de História que tem como lugar simbólico Aljubarrota – lindo nome! – e  onde se situam Óbidos, Alcobaça, Batalha e Tomar, é hora de seguir adiante. Mas talvez seja mais adequado, enquanto é tempo, corrigir a frase acima, pois que todo este país, embora pequeno, é vasto palco de acontecimentos marcantes, não só de impacto local como, muitas vezes, universal. Melhor … Continuar lendo Viagem a Portugal (III): Rumo ao Norte

Na Bodoquena, no Pantanal

Pela terceira vez fui ao Pantanal. Acho que todo brasileiro deveria ir também, embora isso implique em duas questões difíceis de resolver, a do custo e a da superlotação… Dizem que há muitas diferenças entre o norte e o sul deste presente que a natureza nos deu. Não sei dizer; isso é coisa para biólogos e ambientalistas ou, pelo menos, para gente que ali vai … Continuar lendo Na Bodoquena, no Pantanal

Pelo Sertão

Você gosta de sertão, de boiada, de vereda de buritis, de velhas cidades à beira rio? Calma, não vou recomendar  leituras em Guimarães Rosa, se bem que se você quiser levá-las  na bagagem, será de bom proveito. Pegue seu carro (qualquer modelo, desde que esteja com boa mecânica, pneus novos, etc.) e siga comigo. Vamos pegar a saída norte. Passando Formosa, você logo estará em … Continuar lendo Pelo Sertão