Ponte de Lima: um sonho feliz de cidade

Ponte de Lima fica no Norte de Portugal, na antiga regiao do Minho. Para chegar lá, a partir de Braga, de Viana do Castelo ou de qualquer outro lugar, é melhor seguir pelo melhor caminho, ou seja, as estradas iniciadas pela letra “N” de Nacional, que são justamente aquelas que nos mostrarão o Portugal Profundo, coisas que as “A” (de Autopistas), padrão União Europeia, não … Continuar lendo Ponte de Lima: um sonho feliz de cidade

Portugal Drops 2026

(Dedico esta memória a Eduardo Guerra e sua esposa Célia, bem como a minha prima Mabel, amigos que me acompanharam no périplo que narrarei em seguida).

Acabo de chegar de mais uma viagem a Portugal, a sexta que faço. Mas é também a última, de uma série iniciada em 2011. Por que? certamente me indagarão. Será que eu enjoei do país, fui mal tratado por lá, ou porventura já teria visto tudo o que me cabia ver? Nada disso! A terra lusitana jamais deixará de pulsar em meu coração, sendo eu descendente direto dela, bisneto de mais um daqueles saloios, que à falta de maiores perspectivas em seu Minho natal, veio a dar ao Brasil com seus costados, seus costumes, seu catolicismo antiquado e certamente sua incurável nostalgia. A questão, para mim, é bem outra, ou seja, é que já me sinto meio velho para este tipo de viagem, não só para Portugal como para o resto do mundo. De fato, aquele 11 de setembro ainda nos traz seus reflexos maléficos, amplificados pelo espectro diabólico desse Senhor Donald T. Com efeito, depois de mais de 10 horas de viagem, com certeza mais confortável do que aquelas dos tempos das caravelas e dos vapores, mas mesmo assim penosa para quem tem quase 80 anos como eu, é bem desafiador enfrentar quase três horas de fila, depois de uma noite nos ares muito mal (ou não) dormida. Tudo isso para que as autoridades dessa nova Europa assombrada pelo 11 de Setembro e por Putin, se convençam de que não somos terroristas e nem imigrantes prontos a roubar empregos dos europeus já estabelecidos. Não é nada agradável, mas é a realidade nos dias de hoje. Deixando de lado essas ruindades, que aliás fazem parte hoje do curso normal da humanidade, vamos ao lado bom de passar duas semanas no continente que, apesar de todos os pesares, ainda nos oferece sua marca ao mesmo tempo iluminista e colonialista, nem sempre para o bem, muitas vezes para o mal. Enfim, uma civilização e de um modo de vida que também nos pertencem. Falo não só do que percebi nesta vigem, realizada em setembro de 2026, mas também das outras, nas quais percorri o roteiro Oiapoque – Chuí de lá, ou seja, de Valença, no Minho, a Lagos, no Algarve. Então vamos em frente, sob uma forma a que denominei drops, pela sonoridade quase onomatopaica que tal palavra da língua inglesa nos oferece e pelo feitio de pequenas gotas que dei ao texto abaixo. Não vai aqui, naturalmente, algum exercício de antropologia cultural, nem tenho luzes para tanto, mas apenas constatações, por certo amadorísticas, talvez um tanto deslumbradas, carentes de maior processamento intelectual, provindas de um reles turista amador. Como disse Drummond (de si mesmo), eu também me sinto longe de ser um cronista dos melhores, mas ao contrário, estar entre os mais expostos à galhofa.

Continuar lendo “Portugal Drops 2026”

Um périplo Rosiano, com partida (e chegada) em Brasília

O que Brasília tem a ver com Guimarães Rosa? Não é pouco, como poderia parecer à primeira vista, pois pelo menos dois fatos a respeito disso podem ser citados. Primeiro, um dos contos daquelas Primeiras Histórias, intitulado As Margens da Alegria, é ambientado nesta cidade, ainda nascente, onde uma criança tem seu primeiro contato com algumas curiosidades de um mundo que também começava a existir para ela: uma viagem de avião, uma terra muito diferente da sua, um formigueiro humano a cavoucar e abrir caminhos no mato até então fechado, a força das máquinas pesadas desvirginando o cerrado, e mais um tucano e um peru assassinado… Em segundo lugar um fato geográfico: o grande mundo do vale são-franciscano, território de Grande Sertão: Veredas praticamente envolve nossa cidade, já que um dos rios que se recolhem à sua bacia, o Rio Preto, praticamente nasce entre nós. Isso para não falar do Urucuia, que é dado à luz bem aqui perto, na vizinha Formosa. Aliás, boa extensão de terras à leste do próprio DF, fronteiriças a Goiás, já pertencem à bacia do rio São Francisco. Mas tem mais… Os largos chapadões sulcados pelo fluxo milenar das águas que escorrem do Planalto desde os tempos do oceano primitivo; as veredas de buritis e as aglomerações de macaúbas; o cerrado em suas variedades; os ribeirões envoltos pela mata ciliar; as estações do ano bem demarcadas; o céu azul sem nuvens durante metade do ano; as noites frias fazendo par aos dias quentes constantes por aqui, mostram que há muitas coisas que nos fazem também viventes no verdadeiro Grande Sertão. 

Continuar lendo “Um périplo Rosiano, com partida (e chegada) em Brasília”

Viagem ao Sul (profundo) de Minas

É comum alguém me indagar sobre algumas coisas referentes à minha suposta mineiridade. Ou seria mineirismo? Por exemplo, se em minha casa se comia pão de queijo ou tutu de feijão todos os dias, se respeitávamos as tradições culturais e religiosas, se guardávamos dinheiro debaixo dos colchões ou comida em gavetas. Talvez tenha decepcionado meus interlocutores ao responder-lhes um sonoro não para algumas dessas perguntas. Em termos de pão de queijo, por exemplo, o que comíamos geralmente eram os biscoitos de polvilho das padarias, crocantes e até gostosos em alguns casos, mas que de queijo não tinham nada. A iguaria hoje nacional tinha que ser saboreada em lugares específicos, como era o caso de uma antiga Churrascaria Camponesa, situada na rua dos Goitacazes, quase esquina de Bahia, em BH (já não existe, faz tempo). Pão de queijo numa churrascaria, vejam só… A questão é simples de resolver e o próprio nome do meu estado, plural que é, explica tudo: não existe uma Minas, mas muitas delas – e uma costuma não ter muita coisa a ver com a outra. A zona central, onde ficam BH, Ouro Preto, Congonhas e mesmo minha terra, Itabira, foi (e é) dominada pela mineração (ouro e depois ferro) e nela pontificam as influências da escravidão, da religiosidade, da devastação ambiental. Ao Norte, existe a força da pecuária e de culturas agrestes, como a do algodão, importadas através do caudal do rio São Francisco. A Oeste, o Triângulo, de colonização tardia, recebeu fortes influências paulistas que a ele trouxeram o linguajar, o café, a ferrovia e talvez o espírito empreendedor. O Noroeste não era quase nada, mesmo Paracatu, sua importante vila oitocentista, estava decadente quando lhe chegou o sopro desenvolvimentista da construção de Brasília. O Leste era território dos valentes botocudos, que resistiram à invasão branca até o início do século 19. E assim por diante.

Continuar lendo “Viagem ao Sul (profundo) de Minas”

Urucuia, um Rio, um Personagem

Eis aqui o roteiro, escrito por mim, do documentário que eu e meu amigo Cristiano Barbosa estamos lançando (ver link ao final).

Urucuia. Para muitos brasileiros, talvez a maioria, este nome não tenha maior significado. Mas para quem leu Guimarães Rosa e viajou pelas Veredas do Grande Sertão não é assim. É um rio, caudal de forte presença, acidente geográfico que não só é personagem do livro, também reserva da natureza, abrigo de fortes personagens. Estes, sertanejos, gente modesta, mas acima de tudo rija e valente. Por lá andamos eu, Flavio Goulart e meu amigo Cristiano Barbosa, no luminoso veranico de janeiro de 2025. Fomos atrás de tal rio-personagem e de suas personagens-pessoas. E aqui vamos narrar o que encontramos… Nas palavras de Guimarães Rosa, o Urucuia nasce em terras altas demais, nos montões oestes. Foi por aí que começamos nossa viagem, nos altos chapadões que cercam a cidade de Formosa, aqui tão perto do DF. Formosa esta que já não faz jus ao nome… E a partir do povoado de Bezerra, às margens da BR 020, encontramos águas matrizes deste rio, depois de alguns km. Um pequeno e precioso Lago Azul, uma de suas múltiplas nascentes, o anuncia, entre os municípios de Formosa, Buritis e Cabeceiras, em Goiás. Os fazendões e margens de bom render anunciados por Rosa já aqui mudaram de feitio, dominados pelo maquinário agrícola pesado e os exatos compassos dos pivôs centrais,

Continuar lendo “Urucuia, um Rio, um Personagem”

O Paradoxo Kalunga

Conheço a Chapada dos Veadeiros há mais de 30 anos, quando me mudei para Brasília. Tive até casa e terreno no Povoado do Moinho, em Alto Paraiso, os quais vendi em 2024 para pessoa em condições de cuidar melhor do local do que eu, já cansado das viagens de mais de duzentos km desde Brasília. Entretanto, realmente dizer que conheço a chapada, como afirmei acima, representa, na verdade, um certo exagero, pois nas três décadas que andei por lá na verdade praticamente só circulei nos poucos km que vão de Alto Paraiso ao Moinho, no rumo Leste, e eventualmente até São Jorge, um pouco mais longe, no sentido Oeste. Somente agora, tantos anos depois de estar na Chapada pela primeira vez é que me decidi a fazer um périplo mais amplo por lá, qual seja um contorno do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, através de suas fronteiras ao Norte e Noroeste, o que inclui passagens pelos municípios de Cavalcante e Colinas do Sul. É sobre isso a presente narrativa.

Continuar lendo “O Paradoxo Kalunga”

Inhotim revisitado

Até há poucos anos atrás este nome era de conhecimento circunscrito aos moradores de Brumadinho, na região metropolitana de BH e, fora disso, no máximo aos viajantes ou trabalhadores da Estrada de Ferro Central do Brasil, por denominar uma estação da mesma, em tal município. Senhor Tim, um inglês de nome Timothy, dos primórdios da mineração do ferro no século 19 na região, talvez seja uma possível origem de tal nome, mas há outras explicações, que não caberia detalhar agora. O fato é que hoje todo mundo sabe o significado dessa denominação. Vamos ver o há na web sobre tal empreendimento diz:

Continuar lendo “Inhotim revisitado”

Pelos Sertões do Rio Doce

Dos três grandes rios mineiros, São Francisco, Grande e Doce, este último aí se tornou bastante notório apenas por dar nome à grande companhia mineradora (a qual, aliás, até já mudou de denominação). Nada de atravessar vários estados, alimentar grandes projetos de irrigação, atrair turistas em várias de suas paragens, possuir uma cachoeira monumental em sua nascente, gerar megawatts de energia para o progresso do país – coisas assim. Em todos esses quesitos, o Rio Doce é bastante modesto. Mas em compensação, é em suas margens, a meio caminho entre suas nascentes nas encostas da Mantiqueira e sua foz no Oceano Atlântico, que a sabedoria, a generosidade e o espírito público de Sebastião e Lélia Salgado criaram o Instituto Terra, através do qual uma enorme área devastada pela pecuária e pela agricultura predatórias está sendo recuperada, não só em termos do resgate de sua cobertura vegetal original, mas também quanto à facilitação do reaparecimento de inúmeros mananciais. Além disso, um centro de educação ambiental e treinamento agroflorestal, um potente viveiro produtor de espécimens da mata atlântica, uma magnífica atração turística que a região até então não conhecia, para não falar na marcante promoção de cidadania e da consciência ambiental. E, principalmente, ter se constituído em empreendimento que enche de orgulho, alegria e esperança a quem o visita. Acho que são motivos mais do que suficientes para alguém, como eu, sair de Brasília, pegar um avião para BH e depois enfrentar (melhor dizendo, curtir) dez longas horas em trem de ferro para lá se chegar. De fato, valeu a pena, e aqui relato um pouco do que vi e senti por lá.

Continuar lendo “Pelos Sertões do Rio Doce”

Mais viagens, entre amigos

Como disse antes, citei os roteiros de Portugal e dos Gerais de Minas, como exemplos de viagens apetecíveis, mas na verdade já tinha descoberto tal filão antes. Conto algumas dessas jornadas felizes, agora em rápidas palavras. Em 1984 convidei dois casais amigos de Uberlândia, Durval Garcia e Lourdinha, José Eugênio e Virginia, para fazermos uma viagem no estilo que mais tarde se tornou predileto para mim. De passagem por BH, o casal do qual eu fazia parte, com Eliane, recolheu as nossas sogras respectivas, Favita e Maria.

Continuar lendo “Mais viagens, entre amigos”

Viagem ao Gerês, Portugal, 2025

Peneda-Gerês, um parque natural em Portugal. Eu já havia estado lá, em 2015, mas tive nova oportunidade, em março de 2025, de fazer uma viagem mais profunda, embora com a duração de apenas um dia, na companhia de meu amigo Eduardo Guerra, agora transformado em cidadão português. O Parque Nacional da Peneda-Gerês é uma área protegida, o único parque nacional em território português, situado no extremo norte do país, entre as regiões do Minho, Trás-os-Montes e a Galiza, passando ao outro lado da fronteira com a Espanha, onde é chamado de Xurés. É um território de serras e florestas sem fim e dele muito bem disse meu amigo Eduardo: eu pensei que conheci montanhas em Minas Gerais, minha terra, mas foi aqui que as vi de verdade. Ali nascem dois grandes rios portugueses, nenhum deles comparável ao Amazonas ou mesmo ao São Francisco, por certo, mas repletos de histórias e tradições: o Lima e o Cávado. Aliás, em Portugal, os rios sempre correm da fronteira com a Espanha (ou do próprio território espanhol) para o mar. No primeiro caso estão estes dois aí citados, além de outros) e na segunda versão o Minho e o Tejo, que possuem berço espanhol. O Gerês fica a nordeste de Portugal, tendo como cidades mais importantes dentro de seus limites Braga, Guimarães, Ponte da Barca, Arcos de Valdevez e Vila Real, além de outras. Esta área é considerada pela Unesco como Reserva Mundial da Biosfera, importante na conservação do solo, da água, da flora, da fauna e da paisagem. A prestimosa Wikipedia o define como uma das maiores atrações naturais de Portugal, pela rara e impressionante beleza paisagística e pelo valor ecológico e etnográfico, além da variedade de sua fauna, que inclui corças, lobos, cabras selvagens e aves de rapina, além de uma flora exuberante, na qual se sobressaem pinheiros, teixos, castanheiros e carvalhos. Pela área do parque passou uma antiga estrada romana, a Geira, que ia de Braga a Astorga, na região central da Espanha. Vamos por partes.

Continuar lendo “Viagem ao Gerês, Portugal, 2025”