No Mato-Dentro

Para sairmos da grande cidade é preciso trilhar seus tristes caminhos de periferia, lixo jogado nas ruas e o povo pobre nos pontos de ônibus. Mas lá na frente, mal e mal vislumbradas, as montanhas já nos auguram, em pálido azul que se confunde com o cinzento, a passagem por mais aprazíveis lugares. Em marcha sinuosa e intercalada pelos quebra-molas, passagens de linha de ferro e semáforos, ladeando as grandes filas de moradias toscas e sem reboco, vamos deixando para trás essa “mancha urbana” – coisa que aqui é sempre uma “mancha”, pelo menos em relação ao destino que esta gente deveria ter, mas não tem. Mas é ir em frente – fazer o quê? E assim alcançamos a velha cidade, vizinha quase emendada à metrópole adjacente, herdando dela e até piorando o que de mal possa haver. Mas em todo caso, além da ponte do rio histórico, alguma coisa mais bela se anuncia e logo se confirma, mas se reduz a uma única rua, só, aquela fileira de casarões, seus telhados sobranceiros, uma ou outra igreja ou capela, o que sobrou de um chafariz ou de um aqueduto. As placas comerciais escandalosas, anunciando negócios e mercadorias, em barafunda, meio que estragam ou contaminam tudo. Mas pelo menos os quintais ainda ostentam suas mangueiras centenárias, neste momento em florada, cujo cheiro é possível sentir mesmo dentro do carro. Continuar lendo “No Mato-Dentro”

Oitenta dias em Portugal

img_0014Oitenta dias longe do Brasil. Mais do que isso, distante dos filhos, netos e
outras pessoas queridas; de minha casa, meus cachorros, minha cama e
meu banheiro. Oitenta dias, o mesmo tempo que Phileas Fogg, o personagem de Jules Verne, levou para dar a volta ao mundo. Eu estive num
mundo bem pequeno, mas mesmo assim muito rico e proveitoso. Mas terá
valido a pena? – é sempre caso de se perguntar. Creio que foi um saldo
positivo e me disponho aqui a demonstrar isso, tentando não deixar de lado
alguma coisa que tenha que ser debitada em tal conta. Continuar lendo “Oitenta dias em Portugal”

Voyage au Canada

No final dos anos 80, através de duas amigas, Sonia Terra e Eleonor Conill, eu comecei a prestar atenção no que acontecia no Canadá em matéria de saúde. Eu fazia mestrado na ENSP, tinha intenção de escrever uma dissertação sobre a construção do SUS, sendo que a experiência canadense, já com uma década de consolidação, me parecia sob medida para aprender mais sobre tal objeto.  … Continuar lendo Voyage au Canada

De Brasília ao Rio São Francisco e mais além: um roteiro não convencional

O rio São Francisco não banha Brasília. Nem passa perto. Mas nem por isso podemos considerá-lo como um estranho em nossa cidade. Primeiro, porque se nos movermos umas poucas dezenas de quilômetros para o Leste, já estaremos em sua bacia. O Rio Preto, que nasce no DF corre para o São Francisco. O município de Formosa já é totalmente são – franciscano e, aliás, algumas … Continuar lendo De Brasília ao Rio São Francisco e mais além: um roteiro não convencional

Viagem a Portugal (VI): do Minho ao Alentejo

O plano, no princípio, era seguir rumo ao Norte, à Galícia e Santiago de Compostela. Mas Ponte de Lima foi mais sedutora, e por ali ficamos. Até porque aquelas montanhas a nordeste nos atraiam. E por elas fomos. Caminhos tranqüilos, que acompanham o curso-acima do rio Lima. Natureza exuberante, às vezes até com um toque tropical. Cidades grandes não há, mas é raro andar mais … Continuar lendo Viagem a Portugal (VI): do Minho ao Alentejo

Viagem a Portugal (V): uma Ponte no fim do Mundo…

Vimos Amarante / seguimos adiante. A ocasião pede muito mais do que um esboço de trova, mas, vá lá… A próxima parada é Guimarães, mais ao norte. Aqui nasceu Portugal, dizem os guias turísticos. Mas este país parece ter nascido em tantos lugares… Talvez nem tenha nascido em nenhum deles; pode ter vindo de muitos lugares ao mesmo tempo, ou mesmo de muito antes, ou … Continuar lendo Viagem a Portugal (V): uma Ponte no fim do Mundo…

Viagem a Portugal (IV): no Douro, em Amarante

O rio Douro não tem, possivelmente, nada a ver com ouro. Este, os portugueses vieram buscar no Brasil. Ele nasce na Espanha, com o nome de Duero, palavra que não tem outro significado em castelhano a não ser o de nomeá-lo. Dos altos picos da Serra de Urbión, a mais de dois mil metros de altitude, ele rola através do norte de Portugal para buscar … Continuar lendo Viagem a Portugal (IV): no Douro, em Amarante

Pequena história cubana

Era 1982 e um brasileiro ir a Cuba representava uma aventura arriscada. Mas mesmo assim fomos, eu e Eliane, minha companheira, numa viagem sinuosa, passando primeiro pelo México. O visto, então, era um procedimento totalmente clandestino para nós brasileiros. Nada de carimbos! As próprias marcas do grampeador usado para prender em nossos passaportes um papelucho eram vistas com suspeita pelos agentes da ditadura. Ouvi mesmo … Continuar lendo Pequena história cubana

Viagem a Portugal (III): Rumo ao Norte

Visitado o grande epicentro de História que tem como lugar simbólico Aljubarrota – lindo nome! – e  onde se situam Óbidos, Alcobaça, Batalha e Tomar, é hora de seguir adiante. Mas talvez seja mais adequado, enquanto é tempo, corrigir a frase acima, pois que todo este país, embora pequeno, é vasto palco de acontecimentos marcantes, não só de impacto local como, muitas vezes, universal. Melhor … Continuar lendo Viagem a Portugal (III): Rumo ao Norte