Viagem ao Sul (profundo) de Minas

É comum alguém me indagar sobre algumas coisas referentes à minha suposta mineiridade. Ou seria mineirismo? Por exemplo, se em minha casa se comia pão de queijo ou tutu de feijão todos os dias, se respeitávamos as tradições culturais e religiosas, se guardávamos dinheiro debaixo dos colchões ou comida em gavetas. Talvez tenha decepcionado meus interlocutores ao responder-lhes um sonoro não para algumas dessas perguntas. Em termos de pão de queijo, por exemplo, o que comíamos geralmente eram os biscoitos de polvilho das padarias, crocantes e até gostosos em alguns casos, mas que de queijo não tinham nada. A iguaria hoje nacional tinha que ser saboreada em lugares específicos, como era o caso de uma antiga Churrascaria Camponesa, situada na rua dos Goitacazes, quase esquina de Bahia, em BH (já não existe, faz tempo). Pão de queijo numa churrascaria, vejam só… A questão é simples de resolver e o próprio nome do meu estado, plural que é, explica tudo: não existe uma Minas, mas muitas delas – e uma costuma não ter muita coisa a ver com a outra. A zona central, onde ficam BH, Ouro Preto, Congonhas e mesmo minha terra, Itabira, foi (e é) dominada pela mineração (ouro e depois ferro) e nela pontificam as influências da escravidão, da religiosidade, da devastação ambiental. Ao Norte, existe a força da pecuária e de culturas agrestes, como a do algodão, importadas através do caudal do rio São Francisco. A Oeste, o Triângulo, de colonização tardia, recebeu fortes influências paulistas que a ele trouxeram o linguajar, o café, a ferrovia e talvez o espírito empreendedor. O Noroeste não era quase nada, mesmo Paracatu, sua importante vila oitocentista, estava decadente quando lhe chegou o sopro desenvolvimentista da construção de Brasília. O Leste era território dos valentes botocudos, que resistiram à invasão branca até o início do século 19. E assim por diante.

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Urucuia, um Rio, um Personagem

Eis aqui o roteiro, escrito por mim, do documentário que eu e meu amigo Cristiano Barbosa estamos lançando (ver link ao final).

Urucuia. Para muitos brasileiros, talvez a maioria, este nome não tenha maior significado. Mas para quem leu Guimarães Rosa e viajou pelas Veredas do Grande Sertão não é assim. É um rio, caudal de forte presença, acidente geográfico que não só é personagem do livro, também reserva da natureza, abrigo de fortes personagens. Estes, sertanejos, gente modesta, mas acima de tudo rija e valente. Por lá andamos eu, Flavio Goulart e meu amigo Cristiano Barbosa, no luminoso veranico de janeiro de 2025. Fomos atrás de tal rio-personagem e de suas personagens-pessoas. E aqui vamos narrar o que encontramos… Nas palavras de Guimarães Rosa, o Urucuia nasce em terras altas demais, nos montões oestes. Foi por aí que começamos nossa viagem, nos altos chapadões que cercam a cidade de Formosa, aqui tão perto do DF. Formosa esta que já não faz jus ao nome… E a partir do povoado de Bezerra, às margens da BR 020, encontramos águas matrizes deste rio, depois de alguns km. Um pequeno e precioso Lago Azul, uma de suas múltiplas nascentes, o anuncia, entre os municípios de Formosa, Buritis e Cabeceiras, em Goiás. Os fazendões e margens de bom render anunciados por Rosa já aqui mudaram de feitio, dominados pelo maquinário agrícola pesado e os exatos compassos dos pivôs centrais,

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O Paradoxo Kalunga

Conheço a Chapada dos Veadeiros há mais de 30 anos, quando me mudei para Brasília. Tive até casa e terreno no Povoado do Moinho, em Alto Paraiso, os quais vendi em 2024 para pessoa em condições de cuidar melhor do local do que eu, já cansado das viagens de mais de duzentos km desde Brasília. Entretanto, realmente dizer que conheço a chapada, como afirmei acima, representa, na verdade, um certo exagero, pois nas três décadas que andei por lá na verdade praticamente só circulei nos poucos km que vão de Alto Paraiso ao Moinho, no rumo Leste, e eventualmente até São Jorge, um pouco mais longe, no sentido Oeste. Somente agora, tantos anos depois de estar na Chapada pela primeira vez é que me decidi a fazer um périplo mais amplo por lá, qual seja um contorno do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, através de suas fronteiras ao Norte e Noroeste, o que inclui passagens pelos municípios de Cavalcante e Colinas do Sul. É sobre isso a presente narrativa.

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Inhotim revisitado

Até há poucos anos atrás este nome era de conhecimento circunscrito aos moradores de Brumadinho, na região metropolitana de BH e, fora disso, no máximo aos viajantes ou trabalhadores da Estrada de Ferro Central do Brasil, por denominar uma estação da mesma, em tal município. Senhor Tim, um inglês de nome Timothy, dos primórdios da mineração do ferro no século 19 na região, talvez seja uma possível origem de tal nome, mas há outras explicações, que não caberia detalhar agora. O fato é que hoje todo mundo sabe o significado dessa denominação. Vamos ver o há na web sobre tal empreendimento diz:

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Pelos Sertões do Rio Doce

Dos três grandes rios mineiros, São Francisco, Grande e Doce, este último aí se tornou bastante notório apenas por dar nome à grande companhia mineradora (a qual, aliás, até já mudou de denominação). Nada de atravessar vários estados, alimentar grandes projetos de irrigação, atrair turistas em várias de suas paragens, possuir uma cachoeira monumental em sua nascente, gerar megawatts de energia para o progresso do país – coisas assim. Em todos esses quesitos, o Rio Doce é bastante modesto. Mas em compensação, é em suas margens, a meio caminho entre suas nascentes nas encostas da Mantiqueira e sua foz no Oceano Atlântico, que a sabedoria, a generosidade e o espírito público de Sebastião e Lélia Salgado criaram o Instituto Terra, através do qual uma enorme área devastada pela pecuária e pela agricultura predatórias está sendo recuperada, não só em termos do resgate de sua cobertura vegetal original, mas também quanto à facilitação do reaparecimento de inúmeros mananciais. Além disso, um centro de educação ambiental e treinamento agroflorestal, um potente viveiro produtor de espécimens da mata atlântica, uma magnífica atração turística que a região até então não conhecia, para não falar na marcante promoção de cidadania e da consciência ambiental. E, principalmente, ter se constituído em empreendimento que enche de orgulho, alegria e esperança a quem o visita. Acho que são motivos mais do que suficientes para alguém, como eu, sair de Brasília, pegar um avião para BH e depois enfrentar (melhor dizendo, curtir) dez longas horas em trem de ferro para lá se chegar. De fato, valeu a pena, e aqui relato um pouco do que vi e senti por lá.

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Mais viagens, entre amigos

Como disse antes, citei os roteiros de Portugal e dos Gerais de Minas, como exemplos de viagens apetecíveis, mas na verdade já tinha descoberto tal filão antes. Conto algumas dessas jornadas felizes, agora em rápidas palavras. Em 1984 convidei dois casais amigos de Uberlândia, Durval Garcia e Lourdinha, José Eugênio e Virginia, para fazermos uma viagem no estilo que mais tarde se tornou predileto para mim. De passagem por BH, o casal do qual eu fazia parte, com Eliane, recolheu as nossas sogras respectivas, Favita e Maria.

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Viagem ao Gerês, Portugal, 2025

Peneda-Gerês, um parque natural em Portugal. Eu já havia estado lá, em 2015, mas tive nova oportunidade, em março de 2025, de fazer uma viagem mais profunda, embora com a duração de apenas um dia, na companhia de meu amigo Eduardo Guerra, agora transformado em cidadão português. O Parque Nacional da Peneda-Gerês é uma área protegida, o único parque nacional em território português, situado no extremo norte do país, entre as regiões do Minho, Trás-os-Montes e a Galiza, passando ao outro lado da fronteira com a Espanha, onde é chamado de Xurés. É um território de serras e florestas sem fim e dele muito bem disse meu amigo Eduardo: eu pensei que conheci montanhas em Minas Gerais, minha terra, mas foi aqui que as vi de verdade. Ali nascem dois grandes rios portugueses, nenhum deles comparável ao Amazonas ou mesmo ao São Francisco, por certo, mas repletos de histórias e tradições: o Lima e o Cávado. Aliás, em Portugal, os rios sempre correm da fronteira com a Espanha (ou do próprio território espanhol) para o mar. No primeiro caso estão estes dois aí citados, além de outros) e na segunda versão o Minho e o Tejo, que possuem berço espanhol. O Gerês fica a nordeste de Portugal, tendo como cidades mais importantes dentro de seus limites Braga, Guimarães, Ponte da Barca, Arcos de Valdevez e Vila Real, além de outras. Esta área é considerada pela Unesco como Reserva Mundial da Biosfera, importante na conservação do solo, da água, da flora, da fauna e da paisagem. A prestimosa Wikipedia o define como uma das maiores atrações naturais de Portugal, pela rara e impressionante beleza paisagística e pelo valor ecológico e etnográfico, além da variedade de sua fauna, que inclui corças, lobos, cabras selvagens e aves de rapina, além de uma flora exuberante, na qual se sobressaem pinheiros, teixos, castanheiros e carvalhos. Pela área do parque passou uma antiga estrada romana, a Geira, que ia de Braga a Astorga, na região central da Espanha. Vamos por partes.

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Jornada pelas Montanhas de Minas – Março 2025

Que tal um passeio por montanhas de Minas, suas estradas com curvas a perder de vista, à sombra da mata atlântica e na extensão de seus campos rupestres, acolhendo ainda, em tal panorama, cidades históricas e repletas de monumentos barrocos? Tudo isso com acesso relativamente fácil, a partir da Capital, BH. Vamos lá! Mas também é caso de nos prepararmos para que o deslumbramento não seja apagado por surpresas menos agradáveis. Viajemos, então, através de uma parceria literária, além de amorosa, entre eu, Flavio e minha mulher Keta, tentando fazer um contraponto entre uma visão mais crítica (minha) e afetiva e construtiva (dela), como é habitual entre nós. Aqui vão assim, nas linhas seguintes, nossas impressões sobre tal viagem, as minhas (Flavio) em texto normal e as dela (Henriqueta) em itálico.

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Pelos Sertões do Urucuia

A presente viagem foi realizada na segunda quinzena de janeiro último (2025), durando apenas quatro dias. Foram participantes dela este blogueiro que vos fala e meu grande amigo Cristiano Barbosa, misto de geógrafo, agitador cultural e cineasta-documentarista, residente em Uberlândia. A ideia era de realizar, ou começar a fazê-lo, um pequeno documentário sobre a região do rio Urucuia, a qual, como se sabe é também um ‘personagem’ de Grande Sertão: Veredas. Seu possível roteiro buscaria por imagens e possíveis referências de Guimarães Rosa, particularmente os chamados jagunços Catrumanos, gente pobre e valente, proveniente do vale de tal rio, os quais, por hipótese, acabaram desarmados, desempoderados e expulsos pelo ‘progresso’ material, particularmente pela entrada em cena do agronegócio na região. Acabamos mudando o foco após o encontro de um extraordinário personagem, que como se verá a seguir, nos revelou novas e interessantes facetas daqueles sertões. Não abandonamos o tema original relativo aos tais Catrumanos, ele apenas ficou para uma próxima etapa.  Narro agora nosso périplo pelos Sertões do Urucuia, através de pequenas inserções textuais, para não cansar os leitores. Vamos lá?

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O Urucuia em Rosa

Você gosta de sertão, de boiada, de vereda de buritis, de velhas cidades à beira-rio? Ou está mais interessado em comer um bom surubim ou dourado na brasa? Tudo bem, não chegaria a recomendar leituras em Guimarães Rosa, se bem que se você quiser levá-las na bagagem, será de bom proveito. Pegue seu carro (qualquer modelo, desde que esteja com boa mecânica, pneus novos, etc.) e siga comigo. Vamos pegar a saída norte de Brasília. Passando Formosa, você logo estará em altos chapadões o que só perceberá ao fitar o horizonte ainda mais amplo que o de Brasília. Esqueça – ou finja que não vê – a feia periferia de tal cidade e principalmente as bandeiras deste Brasil que não é o nosso que estão por toda parte. Siga em frente, deixando de lado o latifúndio totalmente improdutivo que é a imensa área pertencente às Forças Armadas à direita da estrada. Na primeira encruzilhada, virando à direita (apenas no sentido literal, da estrada…), a cidade que você logo encontrará, Cabeceiras, indica a situação geográfica da região, parideira de grandes rios. Aqui, a água flui para o São Francisco; um pouco antes para o Paranã, afluente amazônico e, mais atrás, para os formadores do São Bartolomeu, que via rios Paranaíba e Paraná, acabam desaguando em Buenos Aires. Cabeceiras de um continente, meu senhor! Algum corguinho verdoso desses – sem maiores pretensões – vai acabar dando no Urucuia, que corre para o Velho Chico. São personagens de uma história que está para começar. Deixa que eu apresento este Urucuia, “rio vermelho” na língua originária, que aqui principia a correr mundo e é marcante personagem de Grande Sertão: Veredas. Nada como viajar por ele na voz do próprio Guimarães Rosa.

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