Era um burrinho pedrês, miúdo e resignado

Quando alguém me indaga como aprender a ler Guimarães Rosa, tomando-me por especialista no assunto, só porque viajei pelo Grande: Sertão por oito jornadas, esclareço: leia O Burrinho Pedrês, o primeiro conto de Sagarana. Se gostar, vá em frente; se não gostar, desista e vá ler outra coisa. Mal comparando, é o mesmo argumento que usaria para falar de música clássica, citando as Quatro Estações, de Vivaldi: se não gostar, vá procurar outra coisa, talvez Chitãozinho e Xororó. (Brincadeira, ainda não fiz tal coisa com alguém, sou uma pessoa educada…). Mas este conto, quase uma novela de 70 páginas é realmente sensacional. O personagem principal é um Burro, chamado Sete de Ouros, inteligente e matreiro, embora imensamente modesto, mas que já fora tão bom como outro não existiu e não pode haver melhor. Herói improvável para qualquer aventura é justamente algo assim que o consagra, no final (dizer mais seria dar spoiler, para quem ainda não leu). A narrativa é saborosa, envolvendo histórias do Sertão mineiro nas beiradas do rio das Velhas; ricas descrições topográficas, botânicas e meteorológicas; tramas de poder, amor, partidas e morte; além, principalmente, da lida com o vacum, que está no centro da história, que trata da levada de uma boiada enorme, da Fazenda da Tampa, propriedade de uma potestade, o Major Saulo, até uma estação de trem de ferro, para embarcá-la finalmente rumo a algum matadouro.  Creio que já li o Burrinho pelo menos meia dúzia de vezes e nunca deixo de me encantar, com a história em si, com o estilo rosiano, com o cheiro de esterco e terra molhada, com passagens inteiras que têm o ritmo do deslocamento de uma boiada, com a fineza de espírito do emérito muar, principalmente. E assim, tomei a liberdade de pedir emprestado tal enredo, para contá-lo em versos talvez canhestros, porém respeitosos. Já tinha cometido a mesma ousadia tendo como objeto o conto Um Moço muito branco (de Primeiras Histórias), conforme poderão ver no link ao final. Em tempo: Rosa era mestre em colocar caracterísitcas humanas em animais,como nas fábulas antigas. Além deste Burrinho temos os bois de carro em Conversa de Bois (neste mesmo Sagarana),a onça Maria-Maria (em meu Tio o Iauaretê – Primeiras Estórias) e certamente em outros casos que por ora não me lembro

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Hai-Kai-demia

Hai-Kai é coisa séria, bem o sei. Aprofundando meus conhecimentos sobre tal formulação poética vinda do Japão, descobri que tal conjunção, certamente representada por um ideograma, traz em si a combinação entre “hai” (brincadeira ou gracejo) e “kai” (harmonia, realização). Isso aí diz tudo sobre tal gênero, mas me chama a atenção estar incluído em seu conceito um componente lúdico. Com todo respeito é este que pretendo explorar agora, trazendo à luz algumas percepções que me traz frequentar uma Academia, no sentido físico-muscular, não na acepção que a que ela davam os antigos gregos.  Não posso negar que estar lá me traz um tanto de preguiça, desconforto e também galhofa, ao arrepio do que me recomendam os médicos. Entretanto, mesmo assim insisto: isso não poderia caber em uma pequena e despretensiosa série dos tais hai-kais?

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Vida, Morte. E depois?

Desde há muito me interesso pelo Haikai, gênero de poema, ou quase isso, sem título, de origem japonesa, de estrutura curta, composto por uma tríade de frases que buscam captar instantes do cotidiano ou da natureza, tendo como foco temático e estrutural determinados parâmetros como concisão, sensorialidade e reflexão filosófica. Consultando a internet vejo que tal palavra representa uma combinação entre “hai” (brincadeira ou gracejo) e “kai” (harmonia, realização) e isso aí diz tudo sobre tal gênero. É bem isso que eu desejava em minha primeira e desastrada tentativa. Há mais informações, mas essas aí me bastam, por ora, pelo menos para admitir que andei praticando ousadias totalmente abusadas ao santo nome do haikai, sem consultar algo mais sério, como faço agora. Peço desculpas, mas apenas parciais, pois ainda assim exponho aqui os meus equívocos, que podem ser devidamente “apreciados” (e também apedrejados) em Haikais de Quintais – Vereda Saúde. Contudo, tentando não persistir no erro, lanço agora uma nova série, a que dei o título de VIDA, MORTE. E DEPOIS? por razões que logo serão esclarecidas aos leitores. No mais, vão desculpando qualquer coisinha.

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Se bem me lembro (II): 60’s – a década que não terminou

Assim falou Zuenir Ventura desses anos que muito marcaram a vida política brasileira. Quanto a mim, no plano puramente pessoal, tenho a impressão que esses anos tiveram – ou têm ainda – duração inusitada, pois muito do que vivi e do que eu sou de fato, tem origem seguramente em tal momento. O mais significativo nessas vivências é o fato de que entrei nesses anos menino, de calças curtas, deles saindo quase médico e homem casado. Com efeito, me formei em 1971, ano em que igualmente me casei com Eliane, ou seja, um tempinho de nada depois que a tal década terminou. Para mim – e para todo mundo no Brasil – os anos sessenta começaram com a inauguração de Brasília. Já aí me vem uma recordação especial: entoando nosso hino, o “Rataplã do Arrebol”, nos arrancamos de BH em uma manhãzinha de abril de 1960. O caminhão Chevrolet tinia de novo (uma gíria da época) e levava nossa tropa, o Grupo Escoteiro do Colégio Estadual, para participar da inauguração de Brasília. Dentre nós, talvez, os mais viajados mal haviam passado de Lagoa Santa, ou adjacências, sempre em companhia dos pais. Mas teve mais, muito mais, a tal década: o golpe e ditadura militar, os festivais da canção, o surgimento de vários expoentes na música brasileira, a contracultura, o fenômeno Beatles – Rolling Stones, a chegada do homem na Lua, o início da derrocada dos conceitos tradicionais de família, comportamento sexual, posição subalterna das mulheres e dos jovens na sociedade, o uso ampliado da maconha, entre outros. Querem saber mais? É só prosseguir na leitura.

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A lavanderia universitária

Já nos meus tempos de professor universitário confesso que me causava espanto a inclusão em certos portfólios disciplinares de temas polêmicos, sem maior embasamento na velha e boa ciência. Faz parte, diriam alguns, afinal a academia tem também por missão a refutação de teorias falsas. O problema é que coisas assim, ainda hoje,parecem cada vez mais frequentes e até respeitadas como se legítimas fossem. Temas polêmicos? Sim – e até aí, tudo bem – mas eu poderia também destacar a respectiva marginalidade em relação a algum modo de comprovação científica (não tenhamos medo de tal expressão, por favor!). Nisso aí se incluem procedimentos psicológicos de autoajuda, d’après certos gurus indianos; terapias energéticas (seja lá o que isso signifique…); divulgação de teorias autoconcebidas como se tivessem validade ampla; citações em teses e artigos de textos de autores esotéricos; inclusão de temas como mediunidade, reiki, clarividência, e psicografia nas pautas de pesquisa, sem os devidos cuidados formais, além de outros. Não que eu pense que a menção a tais assuntos, por assim dizer extraordinários, devesse ser vetada no ambiente universitário, mas a questão se me afigura como de outra natureza, ou seja, sua inclusão em um cardápio de ofertas temáticas como se pertencessem à mesma categoria epistêmica da teoria da relatividade de Einstein, da física quântica de Bohr, da genética de Mendel, da teoria da evolução de Darwin, por exemplo. A palavra “quântico”, por exemplo, às vezes é tratada como um achado epistemológico que se aplicaria não apenas ao campo da Física, mas também à Educação, à Psicologia e à Saúde Mental e outros temas das ciências humanas e biológicas. Tudo bem, faz parte da dinâmica universitária a liberdade de pensamento e ensino. Entretanto, acredito que a introdução na pauta curricular de tais assuntos me parece ignorar e desprezar o razoável limite entre o rigor acadêmico de questões ligadas a um esoterismo não apoiado em evidências reais, aproximando assim a Academia Universitária de outra instância calcada em práticas corporais e mentais propostas por gurus diversos e voltada para a busca de um suposto e vago bem-estar. Tais coisas me parecem um autêntico processo de lavagem de propostas vulgares e sem base em evidências, de forma a lhes conferir perfume, brilho, textura e apuro através da Academia. Percebi então que a palavra lavagem, que também significa comida de porcos, ultrapassou seu âmbito simbólico original, ou seja, de se ater a mentes e dinheiro, passando a expressar também um tipo de operação, igualmente pouco lisonjeira, desta vez praticada pelas universidades.    

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Com Deus ao nosso Lado

Bob Dylan, que para mim representa (mesmo que ele deteste tal ideia) uma das formas em que Deus se faz presente na terra, em sua passada fase de menestrel de protesto, escreveu uma canção que ficou famosa na época, embora hoje ande um tanto esquecida:  With God on our side, em tradução direta: Com Deus ao nosso lado. Ali ele fala de diversas situações da história do EUA nas quais a figura do Deus Judaico-Cristão, na visão de seus súditos naquelas paragens, esteve totalmente favorável e mancomunada a determinadas ações que os americanos do norte praticaram por lá e no mundo como um todo. Inicia comentando de terem sido todos ensinados a sempre obedecer às leis de uma terra que acima de tudo tinha Deus a seu lado e queem lidas guerreiras valorizadas nos seus próprios livros de história, colocou sua cavalaria, em seus fortes Apache, a matar indígenas sem conta. Afinal, era um jovem país, e Deus estava do lado deles.

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Um Encontro no Urucuia

Em janeiro de 2025 eu e meu amigo Cristiano Barbosa, de Uberlândia, realizamos um uma viagem pela região do Urucuia, lugar personagem de Grande Sertão: Veredas, onde tivemos a sorte de encontrar, ao vivo, um verdadeiro personagem deste livro. Aqui vai, documentado em vídeo, o nosso feliz encontro com ele, o Agemiro, residente no Distrito de Sagarana, em Arinos, intitulado URUCUIA: UM RIO, UM PERSONAGEM. … Continuar lendo Um Encontro no Urucuia

Suicidas: egrégios e emblemáticos

Antes de começarem a ler isso aqui peço a atenção dos eventuais leitores: não tomem o presente tema como uma escolha ou sintoma mórbidos de minha parte. Se não é isso, o que seria então? Aceitem que seja apenas uma curiosidade sobre tal assunto, também conhecido como automorte, como pode ser confirmado em outras publicações minhas aqui no blog. Além do mais, como disse Camus, não existe problema filosófico mais fundamental do que o suicídio, justificando, assim, o meu interesse por tal assunto. Mas o fato é que encontrei na Wikipedia uma página inesperada: uma longa lista de gente que pôs fim à própria vida, desde antiguidade até os dias atuais. Tal lista não seria, de forma alguma, rigorosa ou exaustiva, muito longe disso, porque seus componentes, acima de tudo, não são gente comum. Se o fossem, não estariam presentes em nenhuma lista, sem qualquer destaque, em qualquer tempo ou lugar do mundo. Assim ditam as regras da sociedade humana, fazer o quê? Resolvi fazer tal trabalho mediante amostragem, já que tal conjunto é muito extenso, procurando assim as possíveis tendências presentes neste tipo de recorte, particularmente em termos do modo e instrumento de execução do gesto, do momento histórico e da atividade exercida pelos afetados durante suas vidas. Deixo duas ressalvas, de antemão: (1) não há detalhes disponíveis sobre como as coisas realmente ocorreram e nem sobre os possíveis fatores desencadeantes; (2) repito, a vasta maioria dos que suicidaram em todos os tempos não chegam a alcançar tal estatística, destinada realmente a pessoas de extração mais egrégia, à falta de outra expressão. Entretanto, para não perder o sentido que tem a palavra egrégio (ilustre, notável ou distinto, enaltecimento de alguém ou algo de forma extraordinária), acrescento ao final uma análise de tipo-ideal, agrupando as diversas situações por fatores comuns. No mais, convenhamos: toda vida, sem exceção, tem pelo menos uma partícula egrégia… Boa leitura!

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Sobre o Direito à Vida (bem vivida)

Pois é, andam me questionando sobre a presença um tanto intensa e talvez inesperada da palavra MORTE aqui neste espaço. Deixa eu esclarecer: eu amo a vida, da mesma forma que odeio a hipótese de ter uma morte lenta, sofrida e desgastante para mim e para minha família. Direito à vida e direito a uma morte digna para mim se confundem, com todo respeito a … Continuar lendo Sobre o Direito à Vida (bem vivida)

Morte e Vida: reflexões à luz da obra de Philippe Ariès

Ao contrário do que alguns poderiam pensar ao me ver envolvido com um assunto como este, eu não amo a Morte. Não! Eu amo é a Vida! E é por estimar tanto esta valiosa propriedade do carbono, do hidrogênio e do oxigênio, que é a Vida, apenas cedida a mim por empréstimo, embora indevolvível, que tenho o desejo de transformar a Morte, que a esta minha Vida se sucederá, em algo natural e até saudável. Acima de tudo, que a minha vida tenha um desfecho digno, aliás, não só para mim, como para todos que estiverem ao meu redor. E mais importante ainda: que o tema da Morte não cause repulsa e afastamento a ninguém, ao contrário, é preciso pensar nela nem que seja para escapar do verdadeiro infortúnio que é uma má morte. Sim, porque a meu ver existem boas e más mortes.

Para falar sobre isso, nada como recorrer a Philippe Ariès (1914-1984) importante historiador francês, autor de variadas obras sobre a vida cotidiana comum, inclusive um brilhante estudo sobre ela mesma: A Morte.

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