Se bem me lembro (II): 60’s – a década que não terminou

Assim falou Zuenir Ventura desses anos que muito marcaram a vida política brasileira. Quanto a mim, no plano puramente pessoal, tenho a impressão que esses anos tiveram – ou têm ainda – duração inusitada, pois muito do que vivi e do que eu sou de fato, tem origem seguramente em tal momento. O mais significativo nessas vivências é o fato de que entrei nesses anos menino, de calças curtas, deles saindo quase médico e homem casado. Com efeito, me formei em 1971, ano em que igualmente me casei com Eliane, ou seja, um tempinho de nada depois que a tal década terminou. Para mim – e para todo mundo no Brasil – os anos sessenta começaram com a inauguração de Brasília. Já aí me vem uma recordação especial: entoando nosso hino, o “Rataplã do Arrebol”, nos arrancamos de BH em uma manhãzinha de abril de 1960. O caminhão Chevrolet tinia de novo (uma gíria da época) e levava nossa tropa, o Grupo Escoteiro do Colégio Estadual, para participar da inauguração de Brasília. Dentre nós, talvez, os mais viajados mal haviam passado de Lagoa Santa, ou adjacências, sempre em companhia dos pais. Mas teve mais, muito mais, a tal década: o golpe e ditadura militar, os festivais da canção, o surgimento de vários expoentes na música brasileira, a contracultura, o fenômeno Beatles – Rolling Stones, a chegada do homem na Lua, o início da derrocada dos conceitos tradicionais de família, comportamento sexual, posição subalterna das mulheres e dos jovens na sociedade, o uso ampliado da maconha, entre outros. Querem saber mais? É só prosseguir na leitura.

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A lavanderia universitária

Já nos meus tempos de professor universitário confesso que me causava espanto a inclusão em certos portfólios disciplinares de temas polêmicos, sem maior embasamento na velha e boa ciência. Faz parte, diriam alguns, afinal a academia tem também por missão a refutação de teorias falsas. O problema é que coisas assim, ainda hoje,parecem cada vez mais frequentes e até respeitadas como se legítimas fossem. Temas polêmicos? Sim – e até aí, tudo bem – mas eu poderia também destacar a respectiva marginalidade em relação a algum modo de comprovação científica (não tenhamos medo de tal expressão, por favor!). Nisso aí se incluem procedimentos psicológicos de autoajuda, d’après certos gurus indianos; terapias energéticas (seja lá o que isso signifique…); divulgação de teorias autoconcebidas como se tivessem validade ampla; citações em teses e artigos de textos de autores esotéricos; inclusão de temas como mediunidade, reiki, clarividência, e psicografia nas pautas de pesquisa, sem os devidos cuidados formais, além de outros. Não que eu pense que a menção a tais assuntos, por assim dizer extraordinários, devesse ser vetada no ambiente universitário, mas a questão se me afigura como de outra natureza, ou seja, sua inclusão em um cardápio de ofertas temáticas como se pertencessem à mesma categoria epistêmica da teoria da relatividade de Einstein, da física quântica de Bohr, da genética de Mendel, da teoria da evolução de Darwin, por exemplo. A palavra “quântico”, por exemplo, às vezes é tratada como um achado epistemológico que se aplicaria não apenas ao campo da Física, mas também à Educação, à Psicologia e à Saúde Mental e outros temas das ciências humanas e biológicas. Tudo bem, faz parte da dinâmica universitária a liberdade de pensamento e ensino. Entretanto, acredito que a introdução na pauta curricular de tais assuntos me parece ignorar e desprezar o razoável limite entre o rigor acadêmico de questões ligadas a um esoterismo não apoiado em evidências reais, aproximando assim a Academia Universitária de outra instância calcada em práticas corporais e mentais propostas por gurus diversos e voltada para a busca de um suposto e vago bem-estar. Tais coisas me parecem um autêntico processo de lavagem de propostas vulgares e sem base em evidências, de forma a lhes conferir perfume, brilho, textura e apuro através da Academia. Percebi então que a palavra lavagem, que também significa comida de porcos, ultrapassou seu âmbito simbólico original, ou seja, de se ater a mentes e dinheiro, passando a expressar também um tipo de operação, igualmente pouco lisonjeira, desta vez praticada pelas universidades.    

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Com Deus ao nosso Lado

Bob Dylan, que para mim representa (mesmo que ele deteste tal ideia) uma das formas em que Deus se faz presente na terra, em sua passada fase de menestrel de protesto, escreveu uma canção que ficou famosa na época, embora hoje ande um tanto esquecida:  With God on our side, em tradução direta: Com Deus ao nosso lado. Ali ele fala de diversas situações da história do EUA nas quais a figura do Deus Judaico-Cristão, na visão de seus súditos naquelas paragens, esteve totalmente favorável e mancomunada a determinadas ações que os americanos do norte praticaram por lá e no mundo como um todo. Inicia comentando de terem sido todos ensinados a sempre obedecer às leis de uma terra que acima de tudo tinha Deus a seu lado e queem lidas guerreiras valorizadas nos seus próprios livros de história, colocou sua cavalaria, em seus fortes Apache, a matar indígenas sem conta. Afinal, era um jovem país, e Deus estava do lado deles.

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Um Encontro no Urucuia

Em janeiro de 2025 eu e meu amigo Cristiano Barbosa, de Uberlândia, realizamos um uma viagem pela região do Urucuia, lugar personagem de Grande Sertão: Veredas, onde tivemos a sorte de encontrar, ao vivo, um verdadeiro personagem deste livro. Aqui vai, documentado em vídeo, o nosso feliz encontro com ele, o Agemiro, residente no Distrito de Sagarana, em Arinos, intitulado URUCUIA: UM RIO, UM PERSONAGEM. … Continuar lendo Um Encontro no Urucuia

Suicidas: egrégios e emblemáticos

Antes de começarem a ler isso aqui peço a atenção dos eventuais leitores: não tomem o presente tema como uma escolha ou sintoma mórbidos de minha parte. Se não é isso, o que seria então? Aceitem que seja apenas uma curiosidade sobre tal assunto, também conhecido como automorte, como pode ser confirmado em outras publicações minhas aqui no blog. Além do mais, como disse Camus, não existe problema filosófico mais fundamental do que o suicídio, justificando, assim, o meu interesse por tal assunto. Mas o fato é que encontrei na Wikipedia uma página inesperada: uma longa lista de gente que pôs fim à própria vida, desde antiguidade até os dias atuais. Tal lista não seria, de forma alguma, rigorosa ou exaustiva, muito longe disso, porque seus componentes, acima de tudo, não são gente comum. Se o fossem, não estariam presentes em nenhuma lista, sem qualquer destaque, em qualquer tempo ou lugar do mundo. Assim ditam as regras da sociedade humana, fazer o quê? Resolvi fazer tal trabalho mediante amostragem, já que tal conjunto é muito extenso, procurando assim as possíveis tendências presentes neste tipo de recorte, particularmente em termos do modo e instrumento de execução do gesto, do momento histórico e da atividade exercida pelos afetados durante suas vidas. Deixo duas ressalvas, de antemão: (1) não há detalhes disponíveis sobre como as coisas realmente ocorreram e nem sobre os possíveis fatores desencadeantes; (2) repito, a vasta maioria dos que suicidaram em todos os tempos não chegam a alcançar tal estatística, destinada realmente a pessoas de extração mais egrégia, à falta de outra expressão. Entretanto, para não perder o sentido que tem a palavra egrégio (ilustre, notável ou distinto, enaltecimento de alguém ou algo de forma extraordinária), acrescento ao final uma análise de tipo-ideal, agrupando as diversas situações por fatores comuns. No mais, convenhamos: toda vida, sem exceção, tem pelo menos uma partícula egrégia… Boa leitura!

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Sobre o Direito à Vida (bem vivida)

Pois é, andam me questionando sobre a presença um tanto intensa e talvez inesperada da palavra MORTE aqui neste espaço. Deixa eu esclarecer: eu amo a vida, da mesma forma que odeio a hipótese de ter uma morte lenta, sofrida e desgastante para mim e para minha família. Direito à vida e direito a uma morte digna para mim se confundem, com todo respeito a … Continuar lendo Sobre o Direito à Vida (bem vivida)

Morte e Vida: reflexões à luz da obra de Philippe Ariès

Ao contrário do que alguns poderiam pensar ao me ver envolvido com um assunto como este, eu não amo a Morte. Não! Eu amo é a Vida! E é por estimar tanto esta valiosa propriedade do carbono, do hidrogênio e do oxigênio, que é a Vida, apenas cedida a mim por empréstimo, embora indevolvível, que tenho o desejo de transformar a Morte, que a esta minha Vida se sucederá, em algo natural e até saudável. Acima de tudo, que a minha vida tenha um desfecho digno, aliás, não só para mim, como para todos que estiverem ao meu redor. E mais importante ainda: que o tema da Morte não cause repulsa e afastamento a ninguém, ao contrário, é preciso pensar nela nem que seja para escapar do verdadeiro infortúnio que é uma má morte. Sim, porque a meu ver existem boas e más mortes.

Para falar sobre isso, nada como recorrer a Philippe Ariès (1914-1984) importante historiador francês, autor de variadas obras sobre a vida cotidiana comum, inclusive um brilhante estudo sobre ela mesma: A Morte.

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Notas de um avaliador de velharias e sociólogo amador

Minha vida é a de um avaliador de velharias, que é o nome que eu dou ao que faço profissionalmente, ou seja, acompanhar as frequentes demolições de imóveis em busca de madeira, vidros, esquadrias e outras coisas de valor, que começam a ficar muito valorizadas aqui nesta cidade, que já foi nova e moderna, mas agora é apenas mais uma das cidades velhas deste país. Neste ofício, que para muitos se realizaria sem maiores emoções ou focos de interesse, além de seu prejuízo aos alérgicos (coisa que felizmente eu não sou), volta e meia me aparecem coisas interessantes, das quais, fosse eu um historiador ou literato, teria mil histórias para contar.

Mas falo como sujeito curioso mesmo. Que os tais intelectuais especialistas no passado me corrijam e mostrem o rumo certo das coisas. Fui seminarista e até posso dizer que manjo um pouquinho das tais ciências sociais, mas prefiro falar só do que vejo, com meus olhos quase leigos, mas acima de tudo sinceros.

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Urucuia, um Rio, um Personagem

Eis aqui o roteiro, escrito por mim, do documentário que eu e meu amigo Cristiano Barbosa estamos lançando (ver link ao final).

Urucuia. Para muitos brasileiros, talvez a maioria, este nome não tenha maior significado. Mas para quem leu Guimarães Rosa e viajou pelas Veredas do Grande Sertão não é assim. É um rio, caudal de forte presença, acidente geográfico que não só é personagem do livro, também reserva da natureza, abrigo de fortes personagens. Estes, sertanejos, gente modesta, mas acima de tudo rija e valente. Por lá andamos eu, Flavio Goulart e meu amigo Cristiano Barbosa, no luminoso veranico de janeiro de 2025. Fomos atrás de tal rio-personagem e de suas personagens-pessoas. E aqui vamos narrar o que encontramos… Nas palavras de Guimarães Rosa, o Urucuia nasce em terras altas demais, nos montões oestes. Foi por aí que começamos nossa viagem, nos altos chapadões que cercam a cidade de Formosa, aqui tão perto do DF. Formosa esta que já não faz jus ao nome… E a partir do povoado de Bezerra, às margens da BR 020, encontramos águas matrizes deste rio, depois de alguns km. Um pequeno e precioso Lago Azul, uma de suas múltiplas nascentes, o anuncia, entre os municípios de Formosa, Buritis e Cabeceiras, em Goiás. Os fazendões e margens de bom render anunciados por Rosa já aqui mudaram de feitio, dominados pelo maquinário agrícola pesado e os exatos compassos dos pivôs centrais,

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JGR em Mim

Conheci Guimarães Rosa, ou melhor, a obra dele, aos 19 anos de idade, recém ingressado na Faculdade de Medicina. Eu poderia me considerar, na ocasião, um bom leitor, pelo menos superior à média dos jovens de minha idade, apenas com a carreira da leitura interrompida pelas agruras daquele ano que passei me preparando para o vestibular. Conheci assim, antes disso, Machado de Assim, Jorge Amado, Graciliano, Monteiro Lobato, Mark Twain, Steinbeck, e muitos outros, mas JGR, até então, não. Naquele momento, vestibular resolvido, eu finalmente estava livre, aparentemente, para continuar a minha carreira de leitor. Pero no mucho, pois agora aquele livro pesadão de anatomia, o muito famoso Gardner, Grey & O’Hailly, me bloqueava as brechas para novas incursões que me compensassem o período de jejum quase total em termos de consumo literário. Assim, por algum motivo, curiosidade talvez, fui atrás daquele livro que já me pulsava no horizonte, o Grande-Sertão, do qual eu cansara de ouvir falar, embora sempre interditado por uma decantada dificuldade em seu destrinchamento. Mesmo assim resolvi partir para o grande desafio, indo em frente e adquirindo-o com uns trocados que havia ganho em aulas particulares. Nas minhas mãos, aquela marcante edição de 1965 de Grande Sertão: Veredas, com sua capa verde e negra, ilustrada por Poty e tudo mais que se tinha direito, fez bela carreira e até hoje, em versão encadernada para não desmanchar de tanto ser folheado, se mostra na estante bem aqui do meu lado. Aí entra uma boa coincidência: coisa semelhante parece ter acontecido, na época, com meu grande amigo, e colega de colégio e depois de faculdade, o curvelano-belorizontino Dalton Luiz Ferreira Alves, de tal forma que, de repente, fomos enfeitiçados pelo monólogo riobaldiano e passamos a dialogar com molde naquilo, de forma meio exagerada, inclusive diante dos cadáveres, nas aulas de anatomia. Na mesma ocasião, tivemos um recesso na faculdade e fomos, um pequeno grupo de quatro colegas, entre eles Dalton, passar uns dias no sítio do pai de um deles, nos arredores de BH. Ali, o espírito do Grande Sertão, ainda não baixado nos demais, fez de mim e Dalton exaustivos porta-vozes do universo rosiano, como se estivéssemos a atravessar o Liso do Sussuarão. Os colegas presentes ainda não dominavam tal universo como nós, de tal forma que logo se encheram daquilo, ao ponto de nos pedirem para acabar com aquela parolagem, que começava a cansá-los, dada nossa conversa permanentemente dialetal-riobaldiana. Mas não houve ofensa, com aqueles dias temperados por completa bonomia, a nos munir de disposição para voltar a enfrentar o insosso Gardner, Grey & O’Hailly e aquelas mesas de mármore do anfiteatro de anatomia. Por alguma razão, sem prever realmente algum desdobramento daquilo, anotei a lápis, na contra capa do livro, a data em que encerrei minha primeira leitura, no exato dia oito de abril de 1968, e também depois, por mais seis ou sete vezes, as datas correspondentes a cada término, sempre com encantamento e emoção. Infelizmente não me lembrei de fazer o mesmo com Sagarana, Primeiras Estórias e com as novelas do Corpo de Baile, mas bem que devia ter feito, para somar, quem sabe, talvez vinte ou trinta incursões, no total, por tais viagens tão marcantes. Tudo isso dá uma mostra do significado da obra de Guimarães Rosa em minha vida de leitor. Não satisfeito, nos últimos cinco ou seis anos, quando resolvi me dedicar à escrita com mais disciplina, passei a homenagear JGR, digamos assim, em textos de variadas têmperas, nos quais, ao lado de alguma irresponsabilidade, coloquei meu respeito e meu amor pela obra rosiana, tecendo assim paródias, compilações, comentários, excertos, resumos, invenções e outras brincadeiras (sérias) com aquele vasto sertão de narrativas, ideias e imaginação, que um dia me encantaram e continuavam a me encantar. É este material que aí segue, pelo que peço vênia aos eventuais leitores (e àqueles eventuais leitores que talvez conheçam, mais do que eu, a obra rosiana), com minha sinceríssimas desculpas por tal ousadia, que certamente será perdoada pelo sentimento de amorosidade por tal objeto, o qual não nego e procuro não me desgarrar. Sendo assim, vamos em frente.

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