A Odisseia revisitada

Não. Eu ainda não fui assistir ao filme Odisseia, de Christopher Nolan, talvez por preguiça, porque filmes com mais de três horas de duração têm que me garantir qualidade e entretenimento totais para que eu me anime a sair de casa, enfrentar um shopping, talvez com filas ou engarrafamento, para não falar de eventuais multidões. Mas os temas ali tratados, sem dúvida, me interessam, se não à própria humanidade. A própria palavra “odisseia”, confesso que me chama a atenção há muitos anos, mesmo antes de compreender o exato significado de sua raiz grega. Eu fazia dela uma analogia com “ódio”, mas há muito descobri que não é disso que se trata. Sem dúvida, o tema narrado por Homero é particularmente provocativo, essa história de acontecimentos extraordinários, difíceis ou inesperados, sejam viagens, realizações pessoais, investigações, processos de aprendizado, superação de obstáculos – para o bem e para o mal. Assim, aprendi que uma “odisseia” pode não ser somente aquela narrativa de aventuras, mas também – e acima de tudo – uma metáfora de ousadias, resiliência, coragem e desenvolvimento pessoal. Daí, recorrendo a boa dose de coragem, resolvi cometer mais uma ousadia, a de colocar à luz uma daquelas famigeradas e (re)contadas histórias de segunda mão, com que volta e meio presenteio meus generosos leitores. Aí seguem, assim, as aventuras de Ulisses em seu retorno ao seu reino em Ítaca, ou melhor, de Ulício voltando a sua aldeia natal de Itacari, não mais nas ilhas gregas, mas nos sertões brasileiros, depois de alguns anos de ausência. Ao final um pequeno glossário explicativo.

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A História de Romário e Juliana

Aqui vai mais uma daquelas Histórias de Segunda Mão, ou seja, escrita a partir de temas que vou catar na literatura séria para inventar uma nova versão, geralmente ambientada em situações mais próximas ao dia a dia e à atualidade. Já fiz isso com Camões, Guimarães Rosa, José de Alencar, Leonard Cohen, Monteiro Lobato, Dostoievsky, Calderón de La Barca e também com a Bíblia, a mitologia grega, fábulas medievais e vai por aí a fora. Ainda não fui processado e muito menos condenado por tal atitude. Aliás, cabe lembrar que isso também faz parte da boa literatura, sendo que o próprio Shakespeare escreveu Romeu e Julieta inspirado em vários textos escritos antes dele, em toda a Europa e até na Índia. Aliás, por falar no grande bardo renascentista e de sua obra mais conhecida, aquela que fala dos jovens amantes de Verona, para mim, sua reinterpretação mais magistral é o filme hollywoodiano West Side Story (Amor, Sublime Amor, no Brasil) no qual a conhecida história é transplantada para a periferia pobre da Manhattan dos anos 50, dando-lhe um sabor totalmente contemporâneo, pertinente ainda hoje, 70 anos após seu lançamento. Pois bem, resolvi eu também contar tal história, desta vez localizando-a na periferia da cidade de Brasília, dentro, é claro, de um background cultural bem distinto daquele do filme de Robert Wise. Intitulei tal ousadia, por motivos até certo ponto óbvios, de A História de Romário e Juliana. Advirto que tomei algumas licenças poéticas, por exemplo, com o trágico desfecho da história – Wise também fez isso – deixando Julieta viva ao final, embora profundamente ferida, física e mentalmente. Aproveitem para dar uma olhada, acessando os links ao final, nas duas séries de Histórias de Segunda Mão que já foram aqui publicadas. Agradeço a atenção. Espero que gostem.

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Era um burrinho pedrês, miúdo e resignado

Quando alguém me indaga como aprender a ler Guimarães Rosa, tomando-me por especialista no assunto, só porque viajei pelo Grande: Sertão por oito jornadas, esclareço: leia O Burrinho Pedrês, o primeiro conto de Sagarana. Se gostar, vá em frente; se não gostar, desista e vá ler outra coisa. Mal comparando, é o mesmo argumento que usaria para falar de música clássica, citando as Quatro Estações, de Vivaldi: se não gostar, vá procurar outra coisa, talvez Chitãozinho e Xororó. (Brincadeira, ainda não fiz tal coisa com alguém, sou uma pessoa educada…). Mas este conto, quase uma novela de 70 páginas é realmente sensacional. O personagem principal é um Burro, chamado Sete de Ouros, inteligente e matreiro, embora imensamente modesto, mas que já fora tão bom como outro não existiu e não pode haver melhor. Herói improvável para qualquer aventura é justamente algo assim que o consagra, no final (dizer mais seria dar spoiler, para quem ainda não leu). A narrativa é saborosa, envolvendo histórias do Sertão mineiro nas beiradas do rio das Velhas; ricas descrições topográficas, botânicas e meteorológicas; tramas de poder, amor, partidas e morte; além, principalmente, da lida com o vacum, que está no centro da história, que trata da levada de uma boiada enorme, da Fazenda da Tampa, propriedade de uma potestade, o Major Saulo, até uma estação de trem de ferro, para embarcá-la finalmente rumo a algum matadouro.  Creio que já li o Burrinho pelo menos meia dúzia de vezes e nunca deixo de me encantar, com a história em si, com o estilo rosiano, com o cheiro de esterco e terra molhada, com passagens inteiras que têm o ritmo do deslocamento de uma boiada, com a fineza de espírito do emérito muar, principalmente. E assim, tomei a liberdade de pedir emprestado tal enredo, para contá-lo em versos talvez canhestros, porém respeitosos. Já tinha cometido a mesma ousadia tendo como objeto o conto Um Moço muito branco (de Primeiras Histórias), conforme poderão ver no link ao final. Em tempo: Rosa era mestre em colocar caracterísitcas humanas em animais,como nas fábulas antigas. Além deste Burrinho temos os bois de carro em Conversa de Bois (neste mesmo Sagarana),a onça Maria-Maria (em meu Tio o Iauaretê – Primeiras Estórias) e certamente em outros casos que por ora não me lembro

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O Futuro, agora…

O futuro ainda não existe e o passado já se foi, o que nos resta é apenas o presente. Assim disse alguém, mais sábio e filosófico do que eu, mas o fato é que tal entidade, o que ainda está por-vir, tem marcado sua presença comigo por esses dias, me fazendo acreditar que talvez o melhor para nós, seres humanos, seja ficarmos mais atentos a ele.

Tudo começou quando lia uma obra que me chegou às mãos, por acaso, da qual deixarei o nome em suspenso, por enquanto. Trata-se de um livro escrito ainda nos primeiros anos do século vinte, começando a contar uma história que se encaixava dentro de outra. O narrador sofrera um acidente de estrada, é recolhido a uma mansão rural, ali conhece um cientista e sua filha, por quem acaba se apaixonando, assim tomando contato com uma máquina de observar o futuro, chamada um tanto poeticamente de porviroscópio, inventada pelo tal cientista para produzir tempo artificial, segundo seu criador.

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Urbe et Orbi

Que cidade era aquela, a si mesmo indagava Otávio. Como ele chegara até ali? Pensava: o que vive na memória não perece, assim como os sonhos. Para ele, entretanto, tudo ali era surpresa e portal de um mundo ainda não visto, embora aos poucos se abrisse alguma brecha. Mas de início, pelo menos, ele não fora capaz de perceber por onde andava e nem porque estava ali. Vagamente, alguns minutos antes, ele se sentira sonolento, mas de nada mais se dava conta

A vida é como um fado: descer para onde não se sabe, para subir de outro lado, havia uma trilha musical no ar. E já que vou subir, pensava ele, aproveitarei para observar o que lá de cima minha visão alcançasse.

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Todos os homens são mortais

Meu tio Geraldinho. Ia fazer cem anos não demoraria muito. Quanto tempo? Ele saberia ao certo, mas não revelava,afirmando apenas ser coisa de um ano, talvez dois ou três. Mas a verdade é que ele já estava bem velhinho: velho pra burro, como ele dizia.

Nunca se casou, pelo menos pelo que se sabe. Há notícias de uma antiga namorada, a quem ele teria prometido casamento durante anos, décadas segundo alguns, mas que casamento mesmo não houve. Mas sempre afirmou – e continua afirmando – que gosta mesmo é de mulher. Um primo dele (e de meu avô), o Juca, confirmava isso até certo ponto, quando me disse, muito tempo atrás, porque este aí há muito se findou, que Geraldinho em seus bons tempos era o Rei da Zona na terra deles. Mas isso é coisa a ser confirmada. Ou melhor, a ser esquecida, quem é que se importaria com a veracidade de tal fato nos dias de hoje, quando já não estão vivos quaisquer dos conviventes dessa época, dos dois lados do balcão da tal zona?

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As atribulações do Professor Epaminondas

15 JUL: Não é que eu acredite em numerologia ou na força dos nomes na vida das pessoas, essas coisas. Mas este nome que meu pai decidiu me batizar, pelo amor de Deus… É uma carga terrível na vida de um cristão, ou membro de qualquer outra religião. Apelidos nunca me faltaram: micro-ondas, tira-ondas, quebra-ondas e por aí vai. Aquele velho metido a erudito diz … Continuar lendo As atribulações do Professor Epaminondas

Um dia qualquer na minha vida

Sinceramente, se um dia eu melhorar de vida, minha primeira providência será mudar de apartamento. Este aqui onde eu moro é uma apologia ao mal-estar habitacional, valendo isso para qualquer lugar do mundo. Talvez na Etiópia ou no Haiti fosse aceitável… Ora, vejam só. Para entrar em casa tenho que passar por este corredor escuro e interminável, com umas trinta portas enfileiradas. É tão escuro que eu não seria capaz de identificar a cara de qualquer um dos vizinhos se por acaso um dia os encontrasse à luz do dia. Nos fundos, dando para a cozinha, um inominável buraco central quadrado, para onde convergem dez andares empilhados, fluindo por ele coisas tão diversas como cheiro de comida (ou sei lá de quê), conversas (entre estas xingamentos e suspiros de amor), música (de todos os tipos, principalmente cafonas e detestáveis), rádios ligados (em volumes escandalosos) etc.

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Ó Deodoro…

– Sai cá fola Deodola, ganhar mulo na cachola. O nome dele era Deodoro, nosso professor de Geografia, uma rara unanimidade em termos de ódio – também de algum temor – por parte de quase todos naquela terceira série “C”. Graveto, nosso literato de ocasião, com vasta obra publicada nas portas dos banheiros da escola, a nos liderar no desprezo a tal figura, jogava com … Continuar lendo Ó Deodoro…

Conversa de mulheres 

Não se nasce mulher: torna-se mulher. Nossa! Esta frase de Simone me inspira. Vejo aqui neste consultório que ela é demonstrada a cada dia que passo aqui dentro, pois cem por cento das frequentadoras são mulheres. Vale diretamente para mim também, que me torno mulher a cada dia que passa. Homem aqui só os eventuais maridos ou namorados, além dos médicos em sua maioria. São bem vindos, é claro,mas não deixam de ser uma minoria – e como tal devem se comporetar. Aqui dentro, pelo menos.

Não. Não sou nenhuma intelectual. Longe de mim. Sou apenas uma secretária – ou recepcionista, se quiserem – em uma clínica para mulheres, com ginecologistas, esteticistas, dermatologistas, nutrólogos e outros menos votados. Como se só as mulheres precisassem disso…

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