Miudezas ao Léu

Neste último domingo, 22 de fevereiro de 2026, fui agraciado por um convite para algo que vai se repetindo, quase que a cada ano: o lançamento de um novo livro de meu amigo Mauro Marcio de Oliveira, denominado O Livro das Miudezas. Nesses tempos que qualquer um que compartilhe em uma das tais redes sociais duas palavras com você, ou até menos do que isso, mesmo assim seja chamado de amigo, eu já nem sei se posso dedicar esta mesma palavra a Mauro. Somos bem mais do que isso: irmãos, admiradores recíprocos, membros de uma confraria de dois, unha e carne, Simon e Garfunkel, Tom Sawyer e Huckleberry Finn, algo assim. O que não impede que também tenhamos discordâncias ácidas. Mas isso aí só nos soma em termos de proximidade afetiva. E não é que desta vez, além do convite e da amizade, fui honrado com a escrita do prefácio da obra, além de, até mesmo, um posfácio, por assim dizer, escrito a quatro mãos com ele? No meio das miudezas de Mauro, tal convite representou para mim um verdadeiro Pão de Açúcar de cortesia e generosidade. É demais, né? Assim iniciei meu texto: Ao ler pela primeira vez os textos deste Livro das Miudezas que meu amigo Mauro Márcio de Oliveira me pediu para… Para o quê mesmo? Sei lá ao certo, para que eu avaliasse e tentasse encontrar alguma diretriz para que fossem publicados, com a honrosa incumbência que eu assumisse o papel de editor – seja lá o que isso pudesse significar.

O mais vocês saberão em seguida.

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Suicidas: egrégios e emblemáticos

Antes de começarem a ler isso aqui peço a atenção dos eventuais leitores: não tomem o presente tema como uma escolha ou sintoma mórbidos de minha parte. Se não é isso, o que seria então? Aceitem que seja apenas uma curiosidade sobre tal assunto, também conhecido como automorte, como pode ser confirmado em outras publicações minhas aqui no blog. Além do mais, como disse Camus, não existe problema filosófico mais fundamental do que o suicídio, justificando, assim, o meu interesse por tal assunto. Mas o fato é que encontrei na Wikipedia uma página inesperada: uma longa lista de gente que pôs fim à própria vida, desde antiguidade até os dias atuais. Tal lista não seria, de forma alguma, rigorosa ou exaustiva, muito longe disso, porque seus componentes, acima de tudo, não são gente comum. Se o fossem, não estariam presentes em nenhuma lista, sem qualquer destaque, em qualquer tempo ou lugar do mundo. Assim ditam as regras da sociedade humana, fazer o quê? Resolvi fazer tal trabalho mediante amostragem, já que tal conjunto é muito extenso, procurando assim as possíveis tendências presentes neste tipo de recorte, particularmente em termos do modo e instrumento de execução do gesto, do momento histórico e da atividade exercida pelos afetados durante suas vidas. Deixo duas ressalvas, de antemão: (1) não há detalhes disponíveis sobre como as coisas realmente ocorreram e nem sobre os possíveis fatores desencadeantes; (2) repito, a vasta maioria dos que suicidaram em todos os tempos não chegam a alcançar tal estatística, destinada realmente a pessoas de extração mais egrégia, à falta de outra expressão. Entretanto, para não perder o sentido que tem a palavra egrégio (ilustre, notável ou distinto, enaltecimento de alguém ou algo de forma extraordinária), acrescento ao final uma análise de tipo-ideal, agrupando as diversas situações por fatores comuns. No mais, convenhamos: toda vida, sem exceção, tem pelo menos uma partícula egrégia… Boa leitura!

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O que é Testamento Vital?

Falar sobre testamento vital é falar sobre autonomia de fim de vida, dignidade e cuidado. Este documento é uma forma de deixar claro quais cuidados uma pessoa deseja (e quais não deseja) receber no fim da vida, caso não possa mais se expressar. Ele protege a vontade dela, orienta médicos e alivia familiares de decisões difíceis tomadas sob pressão. No site da entidade à qual … Continuar lendo O que é Testamento Vital?

A história de Percival e Cecília

Vocês não imaginam o que é morar em uma favela. Não imaginam mesmo. Eu, Josefa de Alencar, que nasci e sempre vivi aqui tem hora que presencio certas coisas… Até Deus duvidaria, eu acho. Aliás, chego eu mesma a duvidar de ter nascido e estar viva num lugar como este. Não estou falando somente do que se passa debaixo de minha janela. Não, é muito mais do que isso! Dentro da classe de ensino médio, na Escola Estadual Frantz Fanon, onde leciono, aí é que até o diabo se arrepia. E não é só violência que rola, não. Vocês podem não acreditar, mas tem chefe de tráfico, um Antônio Marins, chefão de chefões, por exemplo, que poderia até ser chamado de pai exemplar. Carinhoso, provedor, compreensivo… Isto é, compreensivo até certo ponto, aos poucos eu explico. Sei disso porque Cecília, sua única filha mulher, nascida de Lauriana, cantineira da escola onde leciono, se tomou de amizade por mim e me conta muita coisa. E costuma não poupar nem o pai nem a mãe em suas revelações.

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Sobre o Direito à Vida (bem vivida)

Pois é, andam me questionando sobre a presença um tanto intensa e talvez inesperada da palavra MORTE aqui neste espaço. Deixa eu esclarecer: eu amo a vida, da mesma forma que odeio a hipótese de ter uma morte lenta, sofrida e desgastante para mim e para minha família. Direito à vida e direito a uma morte digna para mim se confundem, com todo respeito a … Continuar lendo Sobre o Direito à Vida (bem vivida)

Titão e Izilda

Tito é o nome dele. Tito Anastácio. Sobrinho do capitão Livio Anastácio, um potentado, dono de quase tudo por aqui, desta fazenda Irlanda e muito mais. Sobrinho de verdade? Ou teria com ele algum outro tipo de parentesco? Sempre houve controvérsias…  Tito perdera a mãe muito cedo, uma sobrinha do Capitão, na realidade uma pessoa que ninguém conheceu de perto por aqui. Livio Anastácio, consta, talvez não seja exatamente um tio-avô de Tito, mas na verdade seu pai, é o se diz. Ele mantinha com a tal sobrinha um caso secreto, mas com rescaldos escandalosos. Assim, o que também segredam é que o Capitão mandou matar a própria parente, por suspeita de traição ou, como alguns desconfiam, para não dividir herança. Aliás, não se duvide: mandar matar e desejar tudo para si seriam atitudes cabíveis a este capitão Lívio Anastácio, pelo que sempre se soube de sua história. E assim um dia, com o garoto já na idade escolar, o Capitão o trouxe para morar nessa fazenda Irlanda, tirando-o do fundão de roça onde ele morava com a família da falecida mãe. O mais, não se sabe, só se especula, como aliás tudo que diz respeito a Anastácio, sua família e seus negócios.

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Morte e Vida: reflexões à luz da obra de Philippe Ariès

Ao contrário do que alguns poderiam pensar ao me ver envolvido com um assunto como este, eu não amo a Morte. Não! Eu amo é a Vida! E é por estimar tanto esta valiosa propriedade do carbono, do hidrogênio e do oxigênio, que é a Vida, apenas cedida a mim por empréstimo, embora indevolvível, que tenho o desejo de transformar a Morte, que a esta minha Vida se sucederá, em algo natural e até saudável. Acima de tudo, que a minha vida tenha um desfecho digno, aliás, não só para mim, como para todos que estiverem ao meu redor. E mais importante ainda: que o tema da Morte não cause repulsa e afastamento a ninguém, ao contrário, é preciso pensar nela nem que seja para escapar do verdadeiro infortúnio que é uma má morte. Sim, porque a meu ver existem boas e más mortes.

Para falar sobre isso, nada como recorrer a Philippe Ariès (1914-1984) importante historiador francês, autor de variadas obras sobre a vida cotidiana comum, inclusive um brilhante estudo sobre ela mesma: A Morte.

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A morte voluntária assistida de Jean-Luc Godard

Na história das personalidades que optaram corajosamente pela morte voluntária e assistida, está Jean-Luc Godard (1930-2022), cineasta franco-suiço que se notabilizou como uma das figuras centrais do movimento da Nouvelle-Vague dos anos 1960. Godard não era propriamente um paciente terminal, mas mesmo assim preferiu recorrer à morte voluntária por estar acometido de condições múltiplas e incapacitantes, vivendo havia décadas de modo recluso em Rolle, na Suíça. Um amigo informou que Godard não estava propriamente doente, mas simplesmente exausto, tendo assim, voluntariamente, dado por encerada sua existência. Ele já havia prenunciado seu gesto em 2014, quando numa entrevista afirmou que não era seu desejo estar vivo a qualquer custo, ironizando: “caso eu esteja muito doente, não gostaria de ser carregado em um carrinho de mão”. Porém, questionado sobre a morte assistida na mesma ocasião, Godard respondeu, talvez ainda um tanto vacilante, que “sim… por enquanto” e que tal escolha era “ainda era muito difícil”. O procedimento de morte voluntária e assistida, na Suíça, em 2022, ocorreu em sua própria residência e segundo sua mulher se deu de forma calma e pacífica.

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O que vale uma criatura a não ser poder amar?

Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar?  sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Drummond, sem dúvida, sabia muito sobre tal assunto, haja vista sua trajetória amorosa pessoal, dividida entre um casamento convencional e um amor de perdição, melhor dizendo (talvez) de real encontro. Juntar pedaços de seu oratório neste campo é exercício inspirador e eu poderia me deter sobre isso, quilometricamente, porque tal tema é permanente em sua obra. Aliás, me lembro de uma famosa entrevista do Poeta ao Pasquim, quando ele, para justificar sua pretensa negativa em atender jornalistas e outros personagens em busca de entrevistas, lacrou com a seguinte afirmativa, ou algo assim: não vejo necessidade, de fato, em dar entrevistas, eu já me exponho mais do que qualquer pessoa através de meus poemas, crônicas e contos. Isso me toca diretamente, como pessoa que também costuma se expor neste quesito. Como eu já disse antes e reitero agora, amor é sempre amor; imaginado ou vivido por inteiro – ou por partes; amor com ventura ou com angústia; com alegria ou tristeza; com esperança ou desespero; com alivio ou dor. Sempre o mesmo e sempre diferente. É assim que aqui vai mais uma seleção de textos meus sobre este candente tema que é o Amor. Como veem, eu também me exibo e já me esbaldei em escrever sobre tal tema, mas gostaria mesmo é de tê-lo praticado de forma mais intensiva e, principalmente, bem sucedida. Antes de passar aos meus textos, indicados abaixo, vamos a Drummond, que sempre diz o que é preciso dizer: Amor é privilégio de maduros / Estendidos na mais estreita cama, / Que se torna a mais larga e mais relvosa, / Roçando, em cada poro, o céu do corpo. /É isto, amor: o ganho não previsto, / O prêmio subterrâneo e coruscante, / Leitura de relâmpago cifrado, / Que, decifrado, nada mais existe / Valendo a pena e o preço do terrestre, /Salvo o minuto de ouro no relógio / Minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / Depois de se arquivar toda a ciência / Herdada, ouvida. Amor começa tarde

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