Morte e Vida: reflexões à luz da obra de Philippe Ariès

Ao contrário do que alguns poderiam pensar ao me ver envolvido com um assunto como este, eu não amo a Morte. Não! Eu amo é a Vida! E é por estimar tanto esta valiosa propriedade do carbono, do hidrogênio e do oxigênio, que é a Vida, apenas cedida a mim por empréstimo, que tenho o desejo de transformar a Morte que a esta se sucederá, sem apelação, em algo natural e até saudável. Acima de tudo, que a minha vida tenha um desfecho digno, aliás, não só para mim, como para todos que estiverem ao meu redor. E mais importante ainda: que o tema da Morte não cause repulsa e afastamento a ninguém, ao contrário, é preciso pensar nela nem que seja para escapar do verdadeiro infortúnio que é uma má morte. Sim, porque a meu ver existem boas e más mortes.

Para falar sobre isso, nada como recorrer a Philippe Ariès (1914-1984) importante historiador francês, autor de variadas obras sobre a vida cotidiana comum, inclusive um brilhante estudo sobre ela mesma: A Morte.

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A morte voluntária assistida de Jean-Luc Godard

Na história das personalidades que optaram corajosamente pela morte voluntária e assistida, está Jean-Luc Godard (1930-2022), cineasta franco-suiço que se notabilizou como uma das figuras centrais do movimento da Nouvelle-Vague dos anos 1960. Godard não era propriamente um paciente terminal, mas mesmo assim preferiu recorrer à morte voluntária por estar acometido de condições múltiplas e incapacitantes, vivendo havia décadas de modo recluso em Rolle, na Suíça. Um amigo informou que Godard não estava propriamente doente, mas simplesmente exausto, tendo assim, voluntariamente, dado por encerada sua existência. Ele já havia prenunciado seu gesto em 2014, quando numa entrevista afirmou que não era seu desejo estar vivo a qualquer custo, ironizando: “caso eu esteja muito doente, não gostaria de ser carregado em um carrinho de mão”. Porém, questionado sobre a morte assistida na mesma ocasião, Godard respondeu, talvez ainda um tanto vacilante, que “sim… por enquanto” e que tal escolha era “ainda era muito difícil”. O procedimento de morte voluntária e assistida, na Suíça, em 2022, ocorreu em sua própria residência e segundo sua mulher se deu de forma calma e pacífica.

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O que vale uma criatura a não ser poder amar?

Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar?  sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Drummond, sem dúvida, sabia muito sobre tal assunto, haja vista sua trajetória amorosa pessoal, dividida entre um casamento convencional e um amor de perdição, melhor dizendo (talvez) de real encontro. Juntar pedaços de seu oratório neste campo é exercício inspirador e eu poderia me deter sobre isso, quilometricamente, porque tal tema é permanente em sua obra. Aliás, me lembro de uma famosa entrevista do Poeta ao Pasquim, quando ele, para justificar sua pretensa negativa em atender jornalistas e outros personagens em busca de entrevistas, lacrou com a seguinte afirmativa, ou algo assim: não vejo necessidade, de fato, em dar entrevistas, eu já me exponho mais do que qualquer pessoa através de meus poemas, crônicas e contos. Isso me toca diretamente, como pessoa que também costuma se expor neste quesito. Como eu já disse antes e reitero agora, amor é sempre amor; imaginado ou vivido por inteiro – ou por partes; amor com ventura ou com angústia; com alegria ou tristeza; com esperança ou desespero; com alivio ou dor. Sempre o mesmo e sempre diferente. É assim que aqui vai mais uma seleção de textos meus sobre este candente tema que é o Amor. Como veem, eu também me exibo e já me esbaldei em escrever sobre tal tema, mas gostaria mesmo é de tê-lo praticado de forma mais intensiva e, principalmente, bem sucedida. Antes de passar aos meus textos, indicados abaixo, vamos a Drummond, que sempre diz o que é preciso dizer: Amor é privilégio de maduros / Estendidos na mais estreita cama, / Que se torna a mais larga e mais relvosa, / Roçando, em cada poro, o céu do corpo. /É isto, amor: o ganho não previsto, / O prêmio subterrâneo e coruscante, / Leitura de relâmpago cifrado, / Que, decifrado, nada mais existe / Valendo a pena e o preço do terrestre, /Salvo o minuto de ouro no relógio / Minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / Depois de se arquivar toda a ciência / Herdada, ouvida. Amor começa tarde

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De um diário alheio: Autorretrato

Cansei de procurar o autor daquele caderno de notas. O melhor de fato foi assumir que tal objeto agora me pertencia, de fato e de direito. Tendo explorado nele os filões amorosos, familiares, líricos e relativos a viagens, descobri que havia algo precioso no final daquelas páginas, uma espécie de autobiografia resumida do autor, aparentemente um prefácio ou introdução para algo de maior porte. De certa forma, isso me trazia o encontro com pessoa real, ou quase isso, que ele era, o que eu vinha tentando fazer nos últimos meses. Acabei por não saber o seu nome e nem detalhes circunstanciais de sua pessoa, mas talvez o essencial de sua trajetória estivesse registrado naquelas linhas. E o que é melhor: nas palavras dele mesmo, com a vantagem de ter dividido sua trajetória em períodos bem marcados e de características diferenciadas, que ele denominou, de forma bem didática e demarcada cronologicamente como gênesis, noviciado, vita activa, mar aberto, persona e torre de vigia. Assim, ele começa com o soneto de Camões já citado, embora de forma incompleta, em outro momento de seu texto, que talvez revelasse informação adicional sobre sua personalidade e sobre sua autopercepção da vida, revelando assim um retrato mais seguro dele, desse nosso, agora nem tanto, Ignoto. Está tudo aí, a seguir.

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De um diário alheio: Viagens

Estamos no seguinte pé: minhas tentativas de fazer contato com o professor Ignoto falharam por completo. Não era ele o obscuro morador da periferia de Brasília e nem mesmo aquele Dr. Euclides, que já residia em Portugal há algum tempo e que com certeza não seria a mesma pessoa com quem eu encontrara num voo para Lisboa, indo lá fazer um período sabático. Havia uma diferença importante de datas entre o meu encontro no avião e a retirada de Euclides para residir naquele país. Mas enfim, bola pra frente. Aquele caderno continha outras revelações importantes e até certo ponto esclarecedoras sobre seu autor, que aos poucos revelarei, tenham calma leitores! O fato é havia ali, também, algo que me interessava muito de perto: relatos de viagens. Por sorte, havia pelo menos dois textos que falavam da região central de Minas Gerais, o chamado território da Estrada Real e, por coincidência (se é que isso existe de verdade), eu tinha recebido uma proposta para realizar um documentário fotográfico e textual em tal região, para uma revista de turismo. Vamos ver estes dois relatos a seguir. Ambos me mostraram o seguinte: primeiro que o Ignoto parecia conhecer a região com certa profundidade; que sua análise ia além de um plano técnico ou geográfico, incursionando por sendas poéticas, sentimentais e filosóficas, e mais ainda que ele parecia ter ligações de nascença com tal território. No primeiro texto ele faz recomendações a amigos que vão trilhar a Estrada Real entre BH e Diamantina; no segundo ele arrisca uma narrativa mais literária pela região do chamado Mato Dentro, na qual inclui observações de natureza afetiva e ecológica, culminando num protesto contra a devastação da mata atlântica pelas atividades de mineração no trajeto.

O cara tocava, realmente, sete instrumentos, ou mais.

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De um diário alheio: Poesia

Como eu dizia, carecia de escrever mais linhas e até mais páginas para dar conta daquilo tudo, daquele feixe de anotações íntimas de um desconhecido, vindo parar nas minhas mãos, esquecido, por acidente, dentro de um avião. Mas preciso deixar claro e mais uma vez o porquê disso: longe de ser uma bisbilhotice, o meu interesse no conteúdo de tal fatídico caderno é puramente literário. Já dei indícios e faço questão de reiterar que também pertenço a tal ramo, seja como jornalista em atividade, embora focado na reportagem fotográfica, seja como escritor, não muito profissional ou acadêmico e nem em tempo integral, mas já tendo publicado um livro de contos e outro de poemas, auferindo com este último um prêmio literário. Tudo bem, foi num concurso organizado por uma universidade do interior do país, mas o fato é que concorri com algumas dezenas de candidatos e ganhei o prêmio, o que me rendeu a publicação do livro e até uma singela reforma em meu apartamento. Ok assim? Mas realmente as páginas do tal caderno perdido me queimavam as mãos – e a mente – e eu já andava querendo saber o que via nelas de tão importante assim. Acho que me identificava com as histórias daquele homem, que parecia meio mulherengo, na verdade, entretanto sem ser vulgar, mas que apresentava um lado poético e sensível, isso era inquestionável. Eu queria devolver aquele caderno para ele, talvez como desculpa para conhecê-lo pessoalmente. E aconteceu que folheando o volume mais uma vez, me dei com um número de telefone anotado na contracapa, que eu não tinha visto antes. Só um número sem código de localidade, sem nome anotado, nada. Mas pensei: quem sabe daí encontro alguma pista.

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De um diário alheio: Amores

Foi em uma das minhas viagens à Europa. Eu não estava feliz – mas também não infeliz – porque acabara de romper meu relacionamento de três anos com a Renata e topei viajar, mesmo sem ela, para tentar esquecer de tudo que tinha vivido nos últimos tempos. E havia, realmente, para mim pelo menos, muita coisa a não ser lembrada. É a vida, nada mais. Viagem de avião, sabem como é, só fica boa mesmo quando acaba, primeiro pelo fato notável de a gente continuar vivo, e não ser devorado pelos tubarões no mar, depois por ter chegado ao fim aquele suplício de passar uma noite em claro, com as pernas encolhidas, ainda mais terminando de forma inglória com aquele esdrúxulo café da manhã servido na incômoda hora das cinco e meia da madrugada, quando a gente tem que fazer um esforço danado para convocar a fome. Isso tudo depois de enfrentar a situação meio prosaica, meio constrangedora, de passar uma noite inteira, dormindo ou tentando dormir, bem ao lado de um desconhecido, ombro a ombro e coxa a coxa com este aí. Mas eu queria falar era de um camarada que tinha assento do meu lado. Um tipo talvez uns dez anos mais velho do que eu, aparência de intelectual, de poeta, sei lá, cabeça branca, bem vestido, cachecol no pescoço, livro nas mãos, na cabeça uma boina de personagem das antigas bande-dessinèes francesas, aquelas do Tintin, sabem? Na decolagem, trocamos duas ou três palavras, apenas convencionais, tipo boa noite, com licença etc. Mas por alguma razão, o papo engrenou somente durante aquele café da manhã extemporâneo, quando fiquei sabendo que ele era professor universitário aposentado, que ia cumprir um período sabático em Lisboa, por conta própria, que morava em Brasília, trabalhava na área de saúde (seria médico?) e mais algumas informações adicionais, sem maior relevância para a história que vou contar aqui. Ele ficaria em Lisboa, eu seguiria adiante, pois tinha um voo de conexão para Paris mais tarde. Então, ok, bom dia, boa viagem, muito prazer em conhecê-lo. Ao se erguer da poltrona, sua mochila se abriu, desastradamente, jogando ao chão alguns livros, uma espécie de caderno de anotações e caixinhas daquelas que se usa para carregar pasta e escova de dentes. Juntou aquilo tudo de forma atabalhoada, parecendo um pouco desconexo nos seus gestos e saiu do avião antes de mim, aparentemente por estar de fato muito apressado, ou então porque era desajeitado mesmo.

Aí começa a história que vou detalhar em seguida.

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Laços de família

Tenho que admitir, minha família é meio diferente das outras mesmo.

Meu irmão Jonas, por exemplo. Não perde oportunidade de relatar como foi seu estágio na barriga de uma baleia, como foi vomitado por ela, quase se afogou até ser resgatado por pescadores, que eram também piratas e lhe tomaram tudo que tinha no bolso, principalmente a chave de uma arca que continha um tesouro acumulado pela família durante décadas, e que lhe fora repassado pelo nosso bisavô. Logo ele contando uma história dessas, filho temporão que nem conheceu nosso pai, muito menos o pai e avô dele. Mas tudo bem, a esquisitice dele é esta, temos que compreender. Não é à toa que os médicos lhe receitam uma dúzia de comprimidos ao dia, que entretanto ele nunca toma direito.

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Amor que começa tarde

Amor é o que se aprende no limite, depois de se arquivar toda a ciência, herdada, ouvida. Amor começa tarde. (CDA – Amor e seu tempo.)

Mulherengo Horácio não era. Definitivamente. Ficara viúvo muito cedo, em casamento no qual não se poderia dizer que ele foi feliz por inteiro, opinião talvez não compartilhada pela falecida. Poucos meses depois do velório resolveu fazer o que até então supunha não ter conseguido: aproveitar a vida. E ele que tivera praticamente como única namorada aquela Mariana, sua colega de faculdade, tendo vivido com ela por quase 20 anos, oscilando entre apenas ignorar suas bizarrices sem reagir, se omitir, ou optar por um afastamento completo e carregado de traumas e culpas. E assim ele enxergou o luto como porta aberta para se “lançar na vida”, em campo no qual se considerava pouco aquinhoado, inspirado pela experiência de muitos de seus amigos, de terem namorado ou mesmo apenas vivido amores fugazes sem passar pelo que acontecera a ele, que se amarrara a um amor de juventude, além de tudo por uma pessoa que tinha como grande desejo na vida chegar virgem ao casamento. Depois de tudo, se ver destinado a passar com ela todos os anos que lhe restassem. 

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Notas de um avaliador de velharias e sociólogo amador

Minha vida é a de um avaliador de velharias, que é o nome que eu dou ao que faço profissionalmente, ou seja, acompanhar as frequentes demolições de imóveis em busca de madeira, vidros, esquadrias e outras coisas de valor, que começam a ficar muito valorizadas aqui nesta cidade, que já foi nova e moderna, mas agora é apenas mais uma das cidades velhas deste país. Neste ofício, que para muitos se realizaria sem maiores emoções ou focos de interesse, além de seu prejuízo aos alérgicos (coisa que felizmente eu não sou), volta e meia me aparecem coisas interessantes, das quais, fosse eu um historiador ou literato, teria mil histórias para contar.

Mas falo como sujeito curioso mesmo. Que os tais intelectuais especialistas no passado me corrijam e mostrem o rumo certo das coisas. Fui seminarista e até posso dizer que manjo um pouquinho das tais ciências sociais, mas prefiro falar só do que vejo, com meus olhos quase leigos, mas acima de tudo sinceros.

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