Pelas Veredas do Grande-Sertão

Não me considero um especialista em Guimarães Rosa. Pensando bem, não passo de um fã, lembrando a origem verdadeira desta palavra: fanático. Assim, se me faltam fundamentos de crítica literária, me sobra emoção ao falar de sua obra, particularmente de Grande Sertão: Veredas, que para mim é simplesmente O Livro. Admito a minha fixação nesta obra, tendo acabado de lê-la pela sétima vez durante a … Continuar lendo Pelas Veredas do Grande-Sertão

Sobre “Cristofobia”

Intolerância religiosa. Já havia tratado de tal assunto aqui antes e hoje retorno a ele, eis que a inesgotável capacidade de falar besteira do Escrotíssimo Senhor Presidente da República o colocou em pauta novamente, através de seu discurso patusco perante a Assembleia Geral da ONU, realizada neste 21 de setembro. Menos mal que foi online, isso deve ter contribuído para reduzir a má repercussão internacional produzida por tais perdigotos, e assim, quem sabe, amenizado um pouco a nossa vergonha.  Mas, enfim: existiria, de fato, algum tipo de intolerância religiosa no Brasil de hoje?

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Cidade em trabalho de parto: assim Chaya Pinkhasovna viu Brasília

Clarice Lispector nasceu na Ucrânia pré soviética, recebendo o estranho nome acima. Judia na origem, virou pernambucana, carioca e finalmente brasileira, da variedade universal. Muito do encanto complexo de sua escrita vem exatamente de uma estranheza ela nos provoca, mas que ao mesmo tempo, por vezes, também nos abisma pela cristalinidade que ela é capaz de nos trazer, a partir do nada. Chaya viu Brasília nascendo, ou quase. E se estranhou o que viu, também se extasiou.  Esplendorosa foi um dos adjetivos que utilizou para a cidade, em uma das duas longas crônicas que escreveu sobre ela. Foram três as suas passagens por aqui: 1962, 1974 e 1976 e os textos que escreveu, em duas dessas ocasiões, mostram alguém que tenta decifrar a identidade daquela estranha cidade recém-criada. Nesta, a força de um discurso oficial e de um planejamento centralizado, junto com a ausência de multidões e também de esquinas, chamaram a atenção da escritora. Aqui vai uma seleção de suas impressões. Estávamos na década de 60, é bom lembrar: era outra cidade, era outro Brasil; outras eram as esperanças. O Brasil, de certa forma, também estava começando. Depois capotou. Vamos aos delírios de Chaya. Continuar lendo “Cidade em trabalho de parto: assim Chaya Pinkhasovna viu Brasília”

Cidade em trabalho de parto: Sinfonia da Alvorada

Trouxe aqui há poucos dias as impressões de uma criança, na verdade encarnada no olhar de Guimarães Rosa, sobre esta cidade de Brasília, ainda nas dores de seu nascimento. Pretendo estender tal série de registros sobre nossa cidade em seu estado nascente, pelo menos até quando possa ou encontre informações. As poucas pesquisas sobre tal tema que fiz até agora me deixaram animado. Hoje trago o poema de Vinicius de Moraes que compõe, junto com Antônio Carlos Jobim, uma Sinfonia da Alvorada criada especialmente para a inauguração de Brasília. Penso que a obra, de feição épica, está quase caindo no esquecimento – mais um motivo para trazê-la de volta, portanto. Nos registros da web foi possível capturar que ela representa um poema sinfônico, datado de 1959, já celebrando a inauguração da nova capital, que se daria no ano seguinte. A obra é dividida em cinco movimentos, com diferentes temas, tais como a paisagem anterior à construção, a chegada do homem, a chegada dos trabalhadores, a construção da cidade em si e, por fim, um cântico de exaltação àquela que então já havia sido denominada de A Capital da Esperança. A história de tal peça sinfônica foi, contudo, tumultuada. Deveria ter sido executada já na inauguração da cidade, em abril de 1960, mas problemas administrativos o impediram. Adiada para o sete de setembro do mesmo ano, também não ocorreu, pois então havia escândalos de corrupção (isso não é de hoje, portanto…) que a inviabilizaram.  Acabou sendo lançada como LP em fevereiro de 1961, mas a primeira apresentação pública só aconteceu em 1966 na antiga TV Excelsior. Estreia em Brasília, só em 1986, seis anos após a morte de Vinicius, com orquestra regida por Alceu Bocchino e com Susana Moraes, filha de Vinicius, fazendo a leitura do poema.

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No Mato-Dentro

Para sairmos da grande cidade é preciso trilhar seus tristes caminhos de periferia, lixo jogado nas ruas e o povo pobre nos pontos de ônibus. Mas lá na frente, mal e mal vislumbradas, as montanhas já nos auguram, em pálido azul que se confunde com o cinzento, a passagem por mais aprazíveis lugares. Em marcha sinuosa e intercalada pelos quebra-molas, passagens de linha de ferro e semáforos, ladeando as grandes filas de moradias toscas e sem reboco, vamos deixando para trás essa “mancha urbana” – coisa que aqui é sempre uma “mancha”, pelo menos em relação ao destino que esta gente deveria ter, mas não tem. Mas é ir em frente – fazer o quê? E assim alcançamos a velha cidade, vizinha quase emendada à metrópole adjacente, herdando dela e até piorando o que de mal possa haver. Mas em todo caso, além da ponte do rio histórico, alguma coisa mais bela se anuncia e logo se confirma, mas se reduz a uma única rua, só, aquela fileira de casarões, seus telhados sobranceiros, uma ou outra igreja ou capela, o que sobrou de um chafariz ou de um aqueduto. As placas comerciais escandalosas, anunciando negócios e mercadorias, em barafunda, meio que estragam ou contaminam tudo. Mas pelo menos os quintais ainda ostentam suas mangueiras centenárias, neste momento em florada, cujo cheiro é possível sentir mesmo dentro do carro. Continuar lendo “No Mato-Dentro”

Visão de uma cidade em trabalho de parto: As Margens da Alegria

Li, por esses dias, dois textos que falam da visão de uma cidade nascente – Brasília – naquele período mágico em que tudo indicava que o Brasil ia dar certo. Éramos campeões mundiais de futebol, de tênis, de boxe e de esperanças. Uma nova capital estava sendo erguida nos fundões do país. Nada mais emblemático. Falarei do primeiro desses textos aqui, o conto “As Margens da Alegria”, de Guimarães Rosa. Na sequência quero trazer Clarice Lispector e Vinicius de Morais, Sophia de Mello Breyner e outros, enquanto vou tentando colecionar mais e mais. Antes de começar, um preâmbulo. JGR trouxe vários personagens infantis à luz em sua obra. O mais notório talvez seja Miguilim, em “Campo Geral”, mas não podemos esquecer do Quinzinho de “Conversa de Bois”; de Nhiinha, a “Menina de Lá”; dos irmãos e do primo de “A Partida do Audaz Navegante”, além de outros. Acrescento a tal galeria este outro menino, não nomeado que ia “com os tios, passar dias no lugar onde se construía a grande cidade. Era uma viagem inventada no feliz; para ele, produzia-se em caso de sonho. Saíam ainda com o escuro, o ar fino de cheiros desconhecidos”. Continuar lendo “Visão de uma cidade em trabalho de parto: As Margens da Alegria”

Vaga, lembrança…

Resolvi escrever minhas memórias… Pouco ortodoxas, diga-se de passagem. Por que?Minha história acabou? Por certo que não. Até este 30 de julho de 2020, dia em que finalizo estas linhas, ela continua firme e forte. E pretendo que se prolongue. Penso na Morte, mas espero que a recíproca não se verifique tão cedo, como disse Woody Allen. Mas devo dizer que, por muito tempo, achei … Continuar lendo Vaga, lembrança…

Lição de anatomia

Primeiro dia de Faculdade… A aula que assisti é impossível de ser esquecida, magna, na melhor acepção da palavra. Entramos no grande auditório da Faculdade, no antigo prédio da Avenida Alfredo Balena e lá nos esperava uma penca de professores, vestidos com longos jalecos e até alguns em paletó e gravata. Assistimos uma hora inteira de peroração empostada, que culminou com um teste de conhecimentos médicos e perguntas diretas a membros da plateia. Teve gente que tremia, inclusive eu, confesso. De duas dessas perguntas de que ainda me lembro: “como diagnosticar a condição chamada flatus morbidus acutissimus? Qual a indicação terapêutica do hálux? No final, como a potestade que coordenava os trabalhos tinha falado em exercícios a serem cumpridos para uma próxima aula magna, acerquei-me dele cheio de respeito para saber qual seria exatamente a tarefa demandada. A resposta que ouvi foi taxativa e me trouxe de volta à realidade: abre as orelhas, calouro! Cesar Augusto de Barros Vieira era o nome dele – e se tornou um grande amigo meu, anos mais tarde,

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O analista de Cordisburgo

Meu amigo não está entre nós há muito tempo. Só para contextualizar, quando ele se exilou, o Capitão ainda não havia deixado sua roça paulista e Sérgio Moro nem havia nascido e muito menos havia resolvido se prestava vestibular para o curso de Direito ou para Publicidade… Mas me impressiona muito o modo como ele é capaz de acompanhar e emitir opiniões pertinentes sobre a realidade brasileira, especialmente na política. Às vezes suas frases são meio misteriosas, mas logo se esclarecem, a cada fornada de notícias de jornal.

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Vai-se Aldir (como se já não bastasse o que se vive no país …)

Resposta Ao Tempo – Aldir Blanc Batidas na porta da frente é o tempo Eu bebo um pouquinho pra ter argumento Mas fico sem jeito, calado ele ri Ele zomba de quanto eu chorei porque sabe passar e eu não sei Num dia azul de verão sinto vento há folhas no meu coração é o tempo recordo um amor que eu perdi ele ri Diz que … Continuar lendo Vai-se Aldir (como se já não bastasse o que se vive no país …)