Se bem me lembro (IV): Encontros com Pessoas notáveis

Não sou daqueles que rejeitam liminarmente a inserção de palavras estrangeiras na língua. Se o fosse, ficaria em apuros diante de palavras como futebol, lanche, drinque, drible, basquete, pizza e muitas outras. Mas quando se pode falar a mesma coisa em língua pátria, para que buscar auxilio, ainda mais de forma canhestra e apressada, em outras línguas, geralmente o inglês? Vou direto ao ponto, quero falar aqui é da cafonice abrigada pela expressão influencer, para designar, primeiro, pessoas que não têm uma profissão muito bem esclarecida, beirando sentidos como aproveitadores ou charlatães; segundo, por conferir a tais indivíduos um estatuto duvidoso de sucesso profissional; terceiro, por já existir em bom português a palavra influenciador, cujo único possível defeito em relação ao termo gringo é ter duas sílabas a mais… Com efeito, gosto do verbo influenciar, cuja sonoridade líquida, particularmente na sílaba “flu” me parece pertinente ao seu significado, derivado do latiminfluere, ou seja, fluir para dentro. É assim que me encanto com a possibilidade de melhor entender certas coisas que fluem para dentro de mim e, principalmente, dos agentes humanos de tal fluxo (outra palavra simpática, de mesma raiz, que lembra alguma coisa gotejando com suavidade e constância). Assim, permitam-me os leitores, trago aqui uma seleção das reais personalidades influenciadoras, no sentido mais nobre da palavra, que conheci ao longo de minha vida, chegando a uma dúzia de pessoas (embora em um exercício mais intensivo eu possa ampliar tal lista.) Um conjunto de narrativas relativas a tais pessoas segue adiante, retirada de meu livro de memórias (Vaga, Lembrança), mas para começar uma breve digressão simbólica e afetiva do significado de cada uma delas em minha existência como ser humano, cidadão, profissional, ser amoroso etc.

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Viagem ao Sul (profundo) de Minas

É comum alguém me indagar sobre algumas coisas referentes à minha suposta mineiridade. Ou seria mineirismo? Por exemplo, se em minha casa se comia pão de queijo ou tutu de feijão todos os dias, se respeitávamos as tradições culturais e religiosas, se guardávamos dinheiro debaixo dos colchões ou comida em gavetas. Talvez tenha decepcionado meus interlocutores ao responder-lhes um sonoro não para algumas dessas perguntas. Em termos de pão de queijo, por exemplo, o que comíamos geralmente eram os biscoitos de polvilho das padarias, crocantes e até gostosos em alguns casos, mas que de queijo não tinham nada. A iguaria hoje nacional tinha que ser saboreada em lugares específicos, como era o caso de uma antiga Churrascaria Camponesa, situada na rua dos Goitacazes, quase esquina de Bahia, em BH (já não existe, faz tempo). Pão de queijo numa churrascaria, vejam só… A questão é simples de resolver e o próprio nome do meu estado, plural que é, explica tudo: não existe uma Minas, mas muitas delas – e uma costuma não ter muita coisa a ver com a outra. A zona central, onde ficam BH, Ouro Preto, Congonhas e mesmo minha terra, Itabira, foi (e é) dominada pela mineração (ouro e depois ferro) e nela pontificam as influências da escravidão, da religiosidade, da devastação ambiental. Ao Norte, existe a força da pecuária e de culturas agrestes, como a do algodão, importadas através do caudal do rio São Francisco. A Oeste, o Triângulo, de colonização tardia, recebeu fortes influências paulistas que a ele trouxeram o linguajar, o café, a ferrovia e talvez o espírito empreendedor. O Noroeste não era quase nada, mesmo Paracatu, sua importante vila oitocentista, estava decadente quando lhe chegou o sopro desenvolvimentista da construção de Brasília. O Leste era território dos valentes botocudos, que resistiram à invasão branca até o início do século 19. E assim por diante.

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Se bem me lembro (III): E a Medicina?

Tenho realizado aqui uma (re)visita a temas já contemplados em meu livro de memórias (publicado aqui no blog também (ver Vaga, lembrança (Memórias) – Vereda Saúde), tendo produzido textos sobre o efeito dos anos 50 e 60 em minha vida (e do resto da humanidade também – ver acima). Retomo hoje tal iniciativa, ou melhor, resgato um texto de dois anos atrás no qual eu … Continuar lendo Se bem me lembro (III): E a Medicina?

Se bem me lembro (II): 60’s – a década que não terminou

Assim falou Zuenir Ventura desses anos que muito marcaram a vida política brasileira. Quanto a mim, no plano puramente pessoal, tenho a impressão que esses anos tiveram – ou têm ainda – duração inusitada, pois muito do que vivi e do que eu sou de fato, tem origem seguramente em tal momento. O mais significativo nessas vivências é o fato de que entrei nesses anos menino, de calças curtas, deles saindo quase médico e homem casado. Com efeito, me formei em 1971, ano em que igualmente me casei com Eliane, ou seja, um tempinho de nada depois que a tal década terminou. Para mim – e para todo mundo no Brasil – os anos sessenta começaram com a inauguração de Brasília. Já aí me vem uma recordação especial: entoando nosso hino, o “Rataplã do Arrebol”, nos arrancamos de BH em uma manhãzinha de abril de 1960. O caminhão Chevrolet tinia de novo (uma gíria da época) e levava nossa tropa, o Grupo Escoteiro do Colégio Estadual, para participar da inauguração de Brasília. Dentre nós, talvez, os mais viajados mal haviam passado de Lagoa Santa, ou adjacências, sempre em companhia dos pais. Mas teve mais, muito mais, a tal década: o golpe e ditadura militar, os festivais da canção, o surgimento de vários expoentes na música brasileira, a contracultura, o fenômeno Beatles – Rolling Stones, a chegada do homem na Lua, o início da derrocada dos conceitos tradicionais de família, comportamento sexual, posição subalterna das mulheres e dos jovens na sociedade, o uso ampliado da maconha, entre outros. Querem saber mais? É só prosseguir na leitura.

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Se bem me lembro (I): Anos 50

Amarcord é um filme de Federico Fellini, realizado em 1973 cujo título se refere à expressão m’ arcord (eu me lembro), no dialeto romagnolo, ou seja, da região italiana da Emilia-Romagna, de onde o cineasta é originário. Segundo o próprio Fellini, a obra não seria necessariamente autobiográfica, embora tenha reconhecido semelhanças com a sua própria infância na cidade de Rimini. Na bela língua italiana, “amarcord” significa ‘io mi recordo’ ed è usato per indicare una rievocazione nostalgica del passato, ou ainda um ricordo, ma trasmette anche la nostalgia e la malinconia legate alla rievocazione di momenti passati. Mas o que isso tem a ver comigo? Muita coisa! Eu venho de tentar compor um autêntico Amarcord íntimo, ao dar à luz, quatro anos atrás, às minhas memorias, intituladas Vaga, Lembrança (disponíveis em Vaga, lembrança (Memórias) – Vereda Saúde). Hoje tal publicação está fisicamente esgotada, não por excesso de leitores, mas porque foi produzida em pequena escala e distribuída diretamente a parentes e amigos. Sua edição em meio virtual não abriu portas para seu desempenho como best-seller. Assim é que inicio aqui uma série que revê as tais memórias mediante uma outra escala, em parte cronológica, em parte formada por marcos existenciais, numerada sequencialmente e iniciada com a presente rememoração. Minha intenção inicial era de nomeá-la como Amarcord: 1, 2, 3 etc. mas achei melhor me expressar em português mesmo, no qual a expressão ‘Se bem me lembro’ me parece perfeita, até porque nostalgia ed malinconia não são coisas apenas de um Fellini, mas minhas também. Me acompanhem, por favor, leitores! 

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A arte da perda

Quando as pessoas resolvem escrever suas memórias – e eu já o fiz – é natural que valorizem e deem primazia às coisas boas que lhes aconteceram na vida. Não fiz diferente em meus registros, mas ao mesmo tempo não deixo de imaginar como seria uma (auto)biografia em que alguém narrasse suas perdas, não suas conquistas.

Pus-me de fato a pensar nisso com mais profundidade quando li um poema de Elisabeth Bishop, poeta americana cuja vida teve uma passagem pelo Brasil, intitulado exatamente One Art, no qual ela confere à lida com as perdas um estatuto de sabedoria, ou mais: de verdadeira arte.

Tal poema magistral vai, ao final deste texto, acompanhado de uma talvez canhestra tentativa minha de traduzi-lo, não literalmente, mas sim, digamos, poeticamente. Que me perdoem os fãs de Mrs. Bishop se eu os traí, ou à verve poética da escritora americana.

Foi assim que, pensando a minha vida à luz das perdas que experimentei, cheguei à conclusão que nos anos 60 elas foram mais expressivas e marcantes.

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A lavanderia universitária

Já nos meus tempos de professor universitário confesso que me causava espanto a inclusão em certos portfólios disciplinares de temas polêmicos, sem maior embasamento na velha e boa ciência. Faz parte, diriam alguns, afinal a academia tem também por missão a refutação de teorias falsas. O problema é que coisas assim, ainda hoje,parecem cada vez mais frequentes e até respeitadas como se legítimas fossem. Temas polêmicos? Sim – e até aí, tudo bem – mas eu poderia também destacar a respectiva marginalidade em relação a algum modo de comprovação científica (não tenhamos medo de tal expressão, por favor!). Nisso aí se incluem procedimentos psicológicos de autoajuda, d’après certos gurus indianos; terapias energéticas (seja lá o que isso signifique…); divulgação de teorias autoconcebidas como se tivessem validade ampla; citações em teses e artigos de textos de autores esotéricos; inclusão de temas como mediunidade, reiki, clarividência, e psicografia nas pautas de pesquisa, sem os devidos cuidados formais, além de outros. Não que eu pense que a menção a tais assuntos, por assim dizer extraordinários, devesse ser vetada no ambiente universitário, mas a questão se me afigura como de outra natureza, ou seja, sua inclusão em um cardápio de ofertas temáticas como se pertencessem à mesma categoria epistêmica da teoria da relatividade de Einstein, da física quântica de Bohr, da genética de Mendel, da teoria da evolução de Darwin, por exemplo. A palavra “quântico”, por exemplo, às vezes é tratada como um achado epistemológico que se aplicaria não apenas ao campo da Física, mas também à Educação, à Psicologia e à Saúde Mental e outros temas das ciências humanas e biológicas. Tudo bem, faz parte da dinâmica universitária a liberdade de pensamento e ensino. Entretanto, acredito que a introdução na pauta curricular de tais assuntos me parece ignorar e desprezar o razoável limite entre o rigor acadêmico de questões ligadas a um esoterismo não apoiado em evidências reais, aproximando assim a Academia Universitária de outra instância calcada em práticas corporais e mentais propostas por gurus diversos e voltada para a busca de um suposto e vago bem-estar. Tais coisas me parecem um autêntico processo de lavagem de propostas vulgares e sem base em evidências, de forma a lhes conferir perfume, brilho, textura e apuro através da Academia. Percebi então que a palavra lavagem, que também significa comida de porcos, ultrapassou seu âmbito simbólico original, ou seja, de se ater a mentes e dinheiro, passando a expressar também um tipo de operação, igualmente pouco lisonjeira, desta vez praticada pelas universidades.    

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Com Deus ao nosso Lado

Bob Dylan, que para mim representa (mesmo que ele deteste tal ideia) uma das formas em que Deus se faz presente na terra, em sua passada fase de menestrel de protesto, escreveu uma canção que ficou famosa na época, embora hoje ande um tanto esquecida:  With God on our side, em tradução direta: Com Deus ao nosso lado. Ali ele fala de diversas situações da história do EUA nas quais a figura do Deus Judaico-Cristão, na visão de seus súditos naquelas paragens, esteve totalmente favorável e mancomunada a determinadas ações que os americanos do norte praticaram por lá e no mundo como um todo. Inicia comentando de terem sido todos ensinados a sempre obedecer às leis de uma terra que acima de tudo tinha Deus a seu lado e queem lidas guerreiras valorizadas nos seus próprios livros de história, colocou sua cavalaria, em seus fortes Apache, a matar indígenas sem conta. Afinal, era um jovem país, e Deus estava do lado deles.

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O Futuro, agora…

O futuro ainda não existe e o passado já se foi, o que nos resta é apenas o presente. Assim disse alguém, mais sábio e filosófico do que eu, mas o fato é que tal entidade, o que ainda está por-vir, tem marcado sua presença comigo por esses dias, me fazendo acreditar que talvez o melhor para nós, seres humanos, seja ficarmos mais atentos a ele.

Tudo começou quando lia uma obra que me chegou às mãos, por acaso, da qual deixarei o nome em suspenso, por enquanto. Trata-se de um livro escrito ainda nos primeiros anos do século vinte, começando a contar uma história que se encaixava dentro de outra. O narrador sofrera um acidente de estrada, é recolhido a uma mansão rural, ali conhece um cientista e sua filha, por quem acaba se apaixonando, assim tomando contato com uma máquina de observar o futuro, chamada um tanto poeticamente de porviroscópio, inventada pelo tal cientista para produzir tempo artificial, segundo seu criador.

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Urbe et Orbi

Que cidade era aquela, a si mesmo indagava Otávio. Como ele chegara até ali? Pensava: o que vive na memória não perece, assim como os sonhos. Para ele, entretanto, tudo ali era surpresa e portal de um mundo ainda não visto, embora aos poucos se abrisse alguma brecha. Mas de início, pelo menos, ele não fora capaz de perceber por onde andava e nem porque estava ali. Vagamente, alguns minutos antes, ele se sentira sonolento, mas de nada mais se dava conta

A vida é como um fado: descer para onde não se sabe, para subir de outro lado, havia uma trilha musical no ar. E já que vou subir, pensava ele, aproveitarei para observar o que lá de cima minha visão alcançasse.

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