Zygmunt Bauman explica o bolsonarismo e o negacionismo

Zygmunt (ou, aportuguesando, Segismundo) Bauman foi um filósofo polonês, cujo pensamento tem uma trajetória curiosa. Filho da família judia perseguida pelo Nazismo, teve que se exilar de sua terra natal, mas a ela retornou como combatente contra os nazistas. Fez carreira militar e pertenceu ao exército da nova Polônia, agora sob domínio comunista e forte influência soviética. Mas sua independência em relação aos dogmas vigentes em tal ambiente logo o tornaram, de novo, um exilado. Radicou-se, então, na Inglaterra, onde foi professor na Universidade de Leeds até a sua morte, em 2017. Um dos conceitos sociológicos originais desenvolvidos por ele foi o de modernidade líquida, para configurar uma época em que as relações sociais, inclusive amorosas, além das econômicas, políticas e de produção se tornaram frágeis, fugazes e maleáveis, à maneira dos líquidos. Tal mudança se opõe ao conceito de modernidade sólida, vigente secularmente até meados do século 20, quando as relações sociais eram, segundo ele, estabelecidas de maneira mais firme e duradoura. Para Bauman tal mudança não representa propriamente uma ruptura com o estatuto anterior, mas sim uma continuação, só que conduzida de maneira diferente.  A tal liquidez pode parecer vantajosa em alguns aspectos, mas segundo Bauman ela pode ser também porta aberta para distopias um tanto sórdidas. A partir dessas ideias tentarei aqui desenvolver uma explicação da situação política brasileira atual, tendo o bolsonarismo e o negacionismo científico como focos.

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Um Barão alemão e o Capitão de Eldorado Paulista

Karl Friedrich Hieronymus, autor (ou precursor) das famosas histórias do Barão de Munchausen nasceu em 1720, em Bodenwerder, no que é hoje a Alemanha. Ele fez carreira militar e depois de se retirar, passou o resto da vida em sua aldeia, onde não perdia uma oportunidade de seduzir os camponeses e outros vizinhos seus com a narrativa de suas façanhas, sempre com muito exagero, mas sem perder a naturalidade. Contudo, nem todas as histórias reunidas no livro sobre o tal barão foram contadas na vida real por Karl Friedrich, eis que um amigo seu, Rudolf Raspe não só reproduziu como criou novas anedotas que atribuiu ao Barão. Na verdade este é um tema comum na literatura de diversas origens, haja vista, por exemplo, o personagem Alexandre (e outros heróis), de Graciliano Ramos, mais tarde incorporado por Chico Anysio como Pantaleão, aquele do clássico bordão “é mentira, Terta?”, com suas histórias mirabolantes, curiosamente desmentidas por um “bobo” (aparentemente), Pedro Bó (na novela de Graciliano por um cego, Firmino), que assim se revelavam mais espertos do que os demais basbaques reunidos em torno do mentiroso. E Alexandre não perdia oportunidade de desqualificar seu detrator: cala a boca, você não é cego? Mesmo na cidade onde morei por 15 anos, Uberlândia, havia um personagem assim, conhecido como Dr. Laerte, médico e fazendeiro rico, um barão a seu modo, que passou a vida encantando os roceiros, amigos e mais quem se aproximasse com histórias igualmente saborosas e inofensivas. Mas o que o capitão de Eldorado está fazendo aqui, em tão nobres companhias? Deixa que eu explico…

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Bolsonaristas: monstros ou palhaços? Reflexões à luz de Hannah Arendt

Em 1960 o ex-oficial das SS nazistas, Adolf Eichmann, um dos responsáveis pela “solução final” do regime em relação aos judeus, foi sequestrado em um subúrbio de Buenos Aires por um comando israelense do Mossad e em seguida levado para Jerusalém, onde foi submetido ao maior julgamento de um nazista após Nuremberg. Porém, ao invés do monstro que todos esperavam, surgiu aos olhos do mundo apenas um simples funcionário do estado nazista, bastante medíocre, preso a clichês burocráticos, incapaz aparentemente de refletir mais profundamente sobre seus atos. É aí que o olhar lúcido da filósofa Hannah Arendt, judia alemã que havia sido perseguida pelo regime de Hitler, revela o que chamou de “banalidade do mal”, associada à capacidade, bancada ou intermediada pelo Estado, de igualar a violência homicida ao mero cumprimento de metas. Banal por um lado, mas ainda assim uma imensa ameaça às sociedades democráticas. Por alguma razão o bolsonarismo no Brasil de hoje, na sua banalização de atitudes e palavras fora de propósito sobre a pandemia, suas agressões e ameaças à democracia, me parece também bastante explicável pelos conceitos lançados pela filósofa judia. Senão, vejamos.

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Uberlândia não merecia isso…

Não sou natural de Uberlândia, mas residi nesta cidade por quase 15 anos, aí criei meus filhos, fiz muitas amizades, fui Secretário Municipal de Saúde em duas ocasiões, nas administrações de Zaire Rezende. Tenho motivos de sobra para me orgulhar desta cidade, assim como tenho razões agora para comentar o que está acontecendo no campo da saúde local e manifestar, além de minha tristeza, o meu espanto com os fatos atuais. Posso resumir meus sentimentos em uma simples frase: Uberlândia não merecia isso. Com efeito, na cidade das grandes indústrias e do comercio atacadista mais pujante do Brasil, na sede de um polo de convergência ao mesmo tempo geográfico, econômico, rodoviário, educacional, político e mesmo sanitário – uma pergunta não se cala: como foi possível chegar à presente situação de descalabro face à atual pandemia?

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Médico e diabético: um depoimento

Já reparei – e certamente os leitores também – que tem se tornado comum o gesto de se solicitar aos médicos que registrem as maneiras peculiares de como lidam com as doenças quando se tornam pacientes. Não deixa de ser uma coisa arriscada essa de abrir o jogo sobre nossos hábitos saudáveis (ou nem tanto). É sempre possível que nos denunciemos aos pacientes e estes percebam que somos muitas vezes bons para ensinar as pessoas a lidar com seu corpo, mas já nossas práticas pessoais costumam deixar a desejar, como, aliás, todo mundo sabe. Mas deixemos de prolegômenos e vamos lá.

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Chapada dos Veadeiros

Aqui é a Chapada dos Veadeiros. Ou melhor, estamos em um dos muitos vales que foram abertos pela força das águas que correram através dos tempos a partir das terras mais altas, acima dos mil metros de altitude, como é o caso daquelas onde se hoje assenta a cidade de Alto Paraiso. Um dia, há mais de cem milhões de anos, tudo isso foi o fundo de um grande oceano. Quando as imensas placas que formam a superfície da terra se moveram, a água de tal mar simplesmente fez o que ela sempre faz, agiu sob a força de gravidade e rolou para as partes mais baixas. No seu caminho, abriu vales como este, do ribeirão São Bartolomeu, que corre para o rio Paranã, que corre para o Tocantins, que corre para o Amazonas, e para o mar, desaguando na Bahia de Guamá, onde está a cidade de Belém.

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Para uma amiga que partiu

A nossa Maria Helena partiu. Deixou para mim muitas lembranças. Por exemplo e para começar: a amizade e verdadeira devoção que tive a uma figura verdadeiramente paterna para mim, Dr. José Garcia Brandão, seu pai. E também do que ele me dizia de sua filha, que morava em BH na época em que eu o conheci, anos setenta: você vai gostar dela; pensa as mesmas coisas que você…

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Anos 50

Em texto que postei aqui recentemente, em homenagem a Mário Magalhães da Silveira, fiz uma espécie de apologia aos anos 50, dizendo o seguinte: << Movimentados anos 50. No Brasil, pelo menos, as coisas nunca mais foram as mesmas. Perdemos uma Copa do Mundo, ganhamos outra. Tivemos que lidar com o golpismo explícito ou implícito de militares e civis mancomunados. Entramos na guerra fria como se fosse coisa nossa. Nossos compatriotas migraram em massa das roças para as cidades. Jorge Amado e Guimarães Rosa projetaram a literatura brasileira para o mundo. Construímos Brasília. Apesar de alguns pesares, foi lícito pensar que chegara a nossa vez de tocar algum instrumento no concerto das nações. Não foi pouca coisa, realmente.>> Pois é, eu estive presente nesses “anos 50” e posso contar.  É provável que alguma coisa tenha acontecido nem no local, nem no tempo ou com as pessoas a que me refiro. Não importa. Vamos combinar: falo do que me lembro e como me lembro, tendo como ponto forte as coisas boas ocorridas. Permitam-me organizá-las e contá-las do meu jeito. Convido vocês para um giro na BH daquela época.

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Assim Sophia viu Brasília

Em minha primeira viagem a Portugal, flanava eu pelas ruas do Chiado e ato contínuo resolvi tomar um daqueles charmosos eléctricos amarelos, que subindo e descendo ladeiras acabou por me deixar em uma praça nos altos opostos ao meu ponto de partida, o Miradouro da Graça. Ali, em um pequeno paço, me vi diante de uma bela e extensa vista, que abarcava desde o bairro da Mouraria, ao rés do chão, até o Castelo de São Jorge e o bairro da Alfama, ao centro, com a Sé de Lisboa mais adiante e mesmo, além, a ponte 24 de Abril e um pedaço do Tejo. No logradouro propriamente dito um busto em bronze me avisava que o local era conhecido também pelo nome da homenageada, Sophia de Mello Breyner, que eu até então ignorava quem fosse. Nos dias seguintes vi o que minha imperdoável ignorância me negara: ela era uma das maiores escritoras e poetas de Portugal, comparada até mesmo a Fernando Pessoa. Seu nome estava não só em pracinhas como aquela, mas em outros locais públicos da cidade e, de maneira que revelava sua real importância, em uma série de poemas sobre o mar, inscritos nas paredes que ladeavam os enormes aquários do Oceanário de Lisboa, que visitei um ou dois dias depois. Assim ela chegou em minha vida.     

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Mais uma crônica da cidade em trabalho de parto: “Não vou pra Brasília”

Quem já estava no mundo nos anos 60, como eu, então criança e depois adolescente, certamente deve ter tido sua vida marcada pela criação de Brasília. Não se falava de outra coisa em todo o Brasil: JK prá lá e prá cá, ensejando desde marchinhas de carnaval a toada de Juca Chaves; estradas sendo rasgadas no Cerrado; a morte de Bernardo Sayão por suposto ataque de índios; o êxtase de visitantes estrangeiros diante das imensas obras em meio ao Cerrado; a descoberta da palavra Candango; as suspeitas de que o lago do Paranoá jamais se encheria; as denúncias de corrupção; a oposição ressentida da UDN e o entusiasmo sem peia de outros tantos. Acima de tudo era um país em desabalada carreira, seja para se encontrar seu futuro, ou pelo menos trazer esperança à multidão de analfabetos e marginalizados que aqui habitava. Um dos fatores que fomentava o clima de desconfiança que se instalara em alguns dos críticos da novacap era a questão do funcionalismo público, supostamente acostumado às “delícias” do Rio de Janeiro e totalmente infenso ou indiferente ao que o governo prometia na transferência para Brasília. E não eram poucas as promessas então, sendo a mais vistosa delas a tal “dobradinha” (não confundir com “rachadinha”), que permitia aos barnabés ousados que a ela aderissem simplesmente a multiplicação de seus salários pelo fator “2”. Mas mesmo assim havia os que resistiam. Foi o caso de Billy Blanco, compositor e cantor que já fazia sucesso nos tempos do rádio, mas antes de tudo funcionário público federal, lotado no antigo DNER, se não me engano.

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