O dia em que fui homenageado pela homenageada

Tentando resumir o que aconteceu comigo nesta última semana, fui arrebatado por um encontro entre o previsível e o surpreendente… Comecemos pelo primeiro termo. A Universidade de Brasília resolveu homenagear alguns de seus ex alunos, que se notabilizaram em atividade profissional, social ou científica. Na verdade, trata-se de coisa inédita, embora devesse ser previsível, porque a corporação universitária (como a dos médicos e dos advogados, entre outras) é mais voltada para si mesma e quando homenageia alguém é dentro daquele famoso rótulo de honoris causa, ou seja, acaba contemplando quem até pode ser uma pessoa “de fora”, mas com toda possibilidade pertencente à mesma geração e estatuto social dos homenageantes.

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Morrer com dignidade

Depois dos 80 (que já estão chegando para mim…) fica tudo muito cheio de riscos e problemas. Não. Não estou falando de estradas, mas sim da vida como um todo. Nesta quadra da existência, o direito à vida é algo inquestionável, mas há uma diferença profunda entre direito e dever quanto a isso, o que implica em que cada uma seja um protagonista essencial nas decisões sobre os cuidados que esteja disposto a receber na etapa final de sua vida. Cada um deve ter acima de tudo, o direito de viver, mas jamais o dever de se continuar vivo contra a própria vontade. Cabe, assim, a cada pessoa desenvolver e exercer a percepção de sentido que a vida deve ter e rejeitá-la quando isso escapar de sua concepção de bem vivê-la. Não é que seja preciso amar a morte ou desejá-la, mas sim ampliar o debate sobre os fatos que rodeiam, sem preconceitos e ideias pré-concebidas, sem medo, como etapa natural da existência. A morte, afinal, deveria ser “vivida” de acordo com as aspirações e crenças, além da liberdade e autonomia das pessoas. Mais do que simples destino deve ser considerada direito humano fundamental, a ser experimentado com dignidade, de forma que ninguém seja constrangido a continuar vivo sendo portador do que considera um grau insuportável de sofrimento. Uma boa morte deveria ter como cortejo a autonomia, a autodeterminação, a dignidade e, no limite, a morte voluntária e assistida, incluindo-se nisso: a recusa terapêutica; o direito aos cuidados paliativos, ao invés das “heroicas” experimentações terapêuticas; as funestas iniciativas que porventura venham apenas a prolongar o processo de morrer; e, finalmente, a morte assistida. É dentro e tais conceitos que registrei em cartório as seguintes Diretivas Antecipadas de Vontade.

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Morte indigna? Comigo não!

O debate sobre fim de vida está no centro das transformações globais em saúde. A revista @time incluiu Kevin Díaz na lista TIME100 Health 2026, que reúne os líderes mais influentes do mundo na área da saúde. Díaz é defensor da autonomia no fim da vida e presidente da organização Compassion & Choices. Seu trabalho tem contribuído para ampliar o debate sobre cuidado centrado no … Continuar lendo Morte indigna? Comigo não!

Miudezas ao Léu

Neste último domingo, 22 de fevereiro de 2026, fui agraciado por um convite para algo que vai se repetindo, quase que a cada ano: o lançamento de um novo livro de meu amigo Mauro Marcio de Oliveira, denominado O Livro das Miudezas. Nesses tempos que qualquer um que compartilhe em uma das tais redes sociais duas palavras com você, ou até menos do que isso, mesmo assim seja chamado de amigo, eu já nem sei se posso dedicar esta mesma palavra a Mauro. Somos bem mais do que isso: irmãos, admiradores recíprocos, membros de uma confraria de dois, unha e carne, Simon e Garfunkel, Tom Sawyer e Huckleberry Finn, algo assim. O que não impede que também tenhamos discordâncias ácidas. Mas isso aí só nos soma em termos de proximidade afetiva. E não é que desta vez, além do convite e da amizade, fui honrado com a escrita do prefácio da obra, além de, até mesmo, um posfácio, por assim dizer, escrito a quatro mãos com ele? No meio das miudezas de Mauro, tal convite representou para mim um verdadeiro Pão de Açúcar de cortesia e generosidade. É demais, né? Assim iniciei meu texto: Ao ler pela primeira vez os textos deste Livro das Miudezas que meu amigo Mauro Márcio de Oliveira me pediu para… Para o quê mesmo? Sei lá ao certo, para que eu avaliasse e tentasse encontrar alguma diretriz para que fossem publicados, com a honrosa incumbência que eu assumisse o papel de editor – seja lá o que isso pudesse significar.

O mais vocês saberão em seguida.

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O que é Testamento Vital?

Falar sobre testamento vital é falar sobre autonomia de fim de vida, dignidade e cuidado. Este documento é uma forma de deixar claro quais cuidados uma pessoa deseja (e quais não deseja) receber no fim da vida, caso não possa mais se expressar. Ele protege a vontade dela, orienta médicos e alivia familiares de decisões difíceis tomadas sob pressão. No site da entidade à qual … Continuar lendo O que é Testamento Vital?

A morte voluntária assistida de Jean-Luc Godard

Na história das personalidades que optaram corajosamente pela morte voluntária e assistida, está Jean-Luc Godard (1930-2022), cineasta franco-suiço que se notabilizou como uma das figuras centrais do movimento da Nouvelle-Vague dos anos 1960. Godard não era propriamente um paciente terminal, mas mesmo assim preferiu recorrer à morte voluntária por estar acometido de condições múltiplas e incapacitantes, vivendo havia décadas de modo recluso em Rolle, na Suíça. Um amigo informou que Godard não estava propriamente doente, mas simplesmente exausto, tendo assim, voluntariamente, dado por encerada sua existência. Ele já havia prenunciado seu gesto em 2014, quando numa entrevista afirmou que não era seu desejo estar vivo a qualquer custo, ironizando: “caso eu esteja muito doente, não gostaria de ser carregado em um carrinho de mão”. Porém, questionado sobre a morte assistida na mesma ocasião, Godard respondeu, talvez ainda um tanto vacilante, que “sim… por enquanto” e que tal escolha era “ainda era muito difícil”. O procedimento de morte voluntária e assistida, na Suíça, em 2022, ocorreu em sua própria residência e segundo sua mulher se deu de forma calma e pacífica.

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Mensagem de Natal

AOS MEUS PRECIOSOS LEITORES (CASO EXISTAM) ENVIO ESTA MENSAGEM DE NATAL, ATRAVÉS DO TEXTO LUMINOSO DO ESCRITOR MINEIRO BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIROZ <<ERA SILENCIOSO O AMOR. PODIA-SE ADIVINHÁ-LO NO CUIDADO DA MÃE ENXAGUANDO AS ROUPAS NAS ÁGUAS DE ANIL. ERA SILENCIOSO, MAS VIA-SE O AMOR ENTRE SEUS DEDOS CORTANDO A COUVE, DESFOLHANDO REPOLHOS, CRISTALIZANDO FIGOS, BORDANDO FLORES DE CANELA SOBRE O ARROZ-DOCE NAS TIGELAS.    … Continuar lendo Mensagem de Natal

Calendário florístico de Brasília: cega-machado

No auge da seca o cerrado é capaz de coisas extraordinárias, como a florada do cega-machado. E ela não vem sozinha, entrando em cena ainda com os ipês exorbitando sua amarelice, concorrendo com os ipês-rosa, embora estes sem dúvida sejam mais modestos do que ela e antecedendo, por pouco tempo, a alvura de neve de outros ipês e também explosão variegada  de sapucaias e cagaiteiras. É um tempo de farra florística e cromática na qual ninguém ousaria botar defeito! Vamos ver o que nos dizem os tratados botânicos.

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José Olympio de Freitas Azevedo: este deixou sua marca

Tive inéditos momentos de “queridinho” quando cheguei em Uberlândia, para ser o professor de Doenças Infecciosas e Parasitárias, em 1975, na recém-nascida e de nome redundante Escola de Medicina e Cirurgia. O fato é que agradei tanto, que no final do ano, tendo sido professor de duas turmas sucessivamente, uma “da vez” e a outra em atraso com a matéria, fui lembrado pela representação dos alunos no colegiado da faculdade como eventual indicado do corpo discente para a direção da instituição. Era demais para mim, bem o sei, mas devo dizer que me fez muito bem para a autoestima.

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Tributo a Ricardo de Freitas Scotti, com quem muito aprendi

Quando soube da passagem deste meu amigo, procurei logo saber informações biográficas mais detalhadas sobre o mesmo, pois gostaria de homenageá-la aqui neste espaço. O Conass, Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde, em cuja construção ele teve participação fundamental, me atendeu e me municiou logo sobre tal pedido, mas cheguei à conclusão de que não precisaria dispor de tais dados, pois o que realmente fazia sentido para o meu relato era o que a memória me trazia de maneira farta, sem outros adereços.

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