Eram dois na noite escura. Esta era a primeira frase do livro que eu ia escrever. Na realidade, éramos dois que perambulávamos pelas ruas estreitas de nosso bairro de ruas calçadas em pedra, onde acordávamos todo dia com o apito da fábrica de tecidos, na nossa casa que pouco se distinguia da moradia dos operários, naquela cidade oprimida entre montanhas, em muitas noites escuras, que a singeleza das luminárias amareladas era incapaz de clarear. Passamos a ser três quando um primo de meu amigo se juntou a nós. Saíamos todas as noites, pela hora da novela, que então já “entorpecia as massas”, como rezava nossa cartilha militante, filosofando, tramando obras literárias, tentando equacionar o futuro da humanidade e, quem sabe um dia, participar da revolução no país.
Entre nós, Alfredo era o mais intelectualizado, lia Schopenhauer e Nietszche. Afonso, seu primo, era ligado em ciência e em plena época do ginásio nos explicava a fissão do átomo e a teoria da relatividade. Eu com a minha cultura de Reader’s Digest, ficava ali, meio capenga, entre eles. Mas nas artes da vida, me considerava melhor. Pelo menos já tinha tocado em mulher, embora só o bastante para um beijo furtivo.
Éramos três apaixonados, ou seres propensos a isso. Vivíamos no rastro de mulheres diversas, certa morenona do ônibus, a loura da Igreja, a moreninha do ônibus do colégio das freiras, a japinha filha do vendeiro da esquina, sobre a qual fazíamos conjecturas pornográficas, a respeito do sentido norte-sul ou leste-oeste de sua genitália. Por elas, dependendo da situação, mataríamos e até quem sabe seríamos capazes de morrer, coisa que fato acontecia, de verdade, apenas na mortandade de bilhões de seres caudados em determinadas ocasiões, não confessadas nem em nossas conversas mais íntimas. Quem não?
O único problema é que nenhuma daquelas garotas fora avisada disso. Nem seus nomes sabíamos, para falar a verdade. Éramos extremistas em muitos sentidos da palavra, inclusive no campo platônico. Viver não seria preciso, embora não conhecêssemos, na ocasião, o dito dos navegadores romanos popularizado mais tarde pelo compositor baiano.
O cinema, certa época, ocupou nossas conversas deambulantes naquelas noites longínquas. Era o tempo de neorrealismo, nouvelle vague, cinema novo. Ficamos sócios de cineclube, não perdíamos sessão e não sei como amealhávamos os cruzeirinhos necessários para quitar as mensalidades, que deviam ser de fato muito baratas. Travávamos profundos papos eram sobre a incomunicabilidade humana, o não-ser, o ridículo existencial, a náusea do ser, em sintonia e intimidade total com Antonioni, Goddard, Sartre e Fellini. Um dia eu, o menos preparado intelectualmente na trinca, caí na asneira de criticar o gênero western, por achá-lo “alienado”, uma palavra da época, acho que não se usa mais. Meus dois amigos caíram de pau, impiedosamente, em cima de mim, dizendo que alienado era eu que não conseguia perceber a “desconstrução do estereótipo americano” de Peckinpah, ou qual quer coisa que o valha.
Nossa vidinha acanhada, naquele abril, deu uma cambalhota, pegos que fomos inteiramente de surpresa. Nós, que amávamos e ansiávamos pela Revolução, tínhamos a certeza de que ela viria através de Jango, da UNE e do CPC. Fizemos aproximação com uma célula do Partido Comunista, com domínio quase exclusivo na esquerda, naquela ocasião, através de um colega mais velho de nosso colégio. Queríamos armas, dinamite, uniformes de campanha, seja lá o que fosse. Para nossa decepção, o “contato”, irmão mais velhos de um colega nosso na escola, nos disse que o importante no momento era agitação, propaganda. Aguardamos o momento, disciplinadamente.
No dia, ou melhor, na noite, da tal “agitação”, nas ruas adjacentes a um batalhão Polícia Militar, mandaram para a gente um saco de papel com panfletos, na verdade, uns poucos papéis amarelados e amarfanhados, com os quais gastamos não mais do que vinte minutos de trabalho. Nem uma dupla de policiais ou uma radiopatrulha, um toque de sirene, por longínquos que fossem, deram o ar da graça. Nosso frio na barriga foi em vão. A revolução não tinha o charme nem o perigo que nós, seus amantes, de fato esperávamos.
Nos dias que se seguiram, no caminho de casa, vi uma fila de rapazes no portão do quartel da PM, gente da minha idade, provavelmente proveniente de bairros populares. O que era aquilo, meu Deus? Para meu espanto e decepção, entretanto, estavam ali para se alistar como voluntários em um suposto comando de caça a comunistas e subversivos, como eu, como nós. Não seria em favor deles, para libertá-los da pobreza e da ignorância que queríamos fazer a tal da revolução?
Tudo passou, como tem que passar. Não precisamos procurar outro rumo, a vida nos ofereceu isso, gradual e imperceptivelmente. Poucos anos depois, tínhamos barba na cara, namoradas firmes, responsabilidades inimagináveis e até mesmo, no meu caso e de outro deles, emprego, patrão, horários e cumprir. Era a vida, simplesmente, correndo sua rotina cinzenta, numa cidade sem horizonte, num país desesperançado.
O que nos restava, então, a fazer, era esperar. E sobreviver. Só isso, sem poesia, sem frio na barriga, sem revolução popular, sem apelação. Ficamos ou, eu pelo menos me vi, carregando o sentimento de que daríamos tudo para acender, de novo, nem que fosse por alguns poucos momentos, a chama que carregamos juntos, nós aqueles rapazes ingênuos e iludidos, em alguma noite escura, perambulando, filosofando, discutindo, brigando, mentindo, fazendo literatura mental, amando platonicamente, acreditando em uma improvável revolução. Sem poder perceber, todavia, que ao mesmo tempo a juventude fugia de nós tão depressa, de forma inapelável, para nunca mais.
