Histórias, histórias, histórias… Falta de ter o que fazer ou excesso de criatividade. Deixo a critério dos leitores decidirem. Aqui vão mais algumas, sem precisão temática e sem maiores critérios seletivos definidos. Ou melhor, fazem parte da seleção a que denominei Matéria Médica, seja lá o que isso for. Sejam complacentes em sua leitura. Boa sorte, para mim, pelo menos. Esses perus aí vocês logo saberão porque estão presentes.
| TÍTULO | ENREDO |
| Continuação | Fantasia sobre um conto de Guimarães Rosa, no livro Tutameia: “João Porém, o criador de perus”: um roceirinho, doente, à beira da morte vê o Amor lhe chegar. |
| Eu sou assim | Um garoto, portador de doença genética rara reflete sobre vida, música e amizade. |
| Boi de carro | Reflexões sombrias de um velho clínico do interior, incapaz de se adaptar às mudanças da sociedade e da profissão. |
| O barbeiro Valdemar | Um falso paciente psiquiátrico e suas peripécias, dentro e fora do hospício, tendo por testemunha um estudante de medicina. |
| Conversa de botequim | Um homem com mais de noventa anos entrega a seus companheiros de boemia lições de vida, aprendidas de um mestre. |
| Amarcord de sabores | Um diabético internado por inadimplência dietética e seus sonhos sobre as boas comidas de sua infância em casas de sua família. |
| O apocalipse, segundo JB | Um rapaz pobre, portador de um distúrbio paranoide, vê o mundo desabar em torno de si, em meio a mensagens bíblicas e terríveis ameaças. |
| Promised Land, Now | Uma história de religiosidade, repressão, aventura, sexo e loucura no coração da Amazônia (inspirada em Joseph Conrad – No Coração da Treva) |
Continuação
(Fantasia sobre o conto “João Porém, o criador de perus”, de Joao Guimarães Rosa (in Tutaméia))
Não, Lindalice era a outra. Eu sou Gerismina.
Foi assim: João vivia para seus perus. Mangavam dele os amigos, dizendo que havia, nas redondezas, uma moça loura que o olhava e queria conhecer, Lindalice. Esta, de verdade, não existia. Mas João, dito Porém, que só sabia de perus, milho e terreiro, transtornava-se. Queria porque queria. Os amigos, maldosos, não lhe diziam a verdade. Pelo contrário, traziam recados, propunham respostas, ofereciam para escrever cartas de amor. João deu de gastar, perfumes, terno de brim, botinas – coisas que nunca tinha usado na vida. E queria tertúlias com a amada que não via – e nem podia ver.
Os amigos, apoiavam. Marcaram encontro, para dizer, à última hora, que Lindalice, adoecida, tivera que viajar para a cidade, atrás de doutor.
João penava, queria saber quando, e se, e onde. Descuidava da criação. Uma ninhada inteira de peruzinhos, solta no terreiro em altas horas, por puro descuido do dono, sumira, atacada por algum bicho da noite. O milho para as aves, antes negociado escrupulosamente com vizinhos, já mal se via nos improvisados cochos espalhados pelo terreiro. Os perus davam de invadir os quintais dos outros, onde se fartavam das abóboras ainda não colhidas ou maduradas. João Porém, na porta da venda provava de bebidas que até então desconhecia. E não poucas vezes foi visto cambalear pelas ruas da corrutela.
Um dia, jogou pedras na janela da casa das professoras, julgando estar sua amada ali escondida. O cabo meteu-o no xadrez, o sujo banheiro da delegacia do vilarejo. Dalí, humilhado, foi solto ao romper do dia. Na rua, chusma de garotos gritava “João Porém, João Pooorém…” Ele, atormentado, ainda pálido e amarrotado pela carraspana, mais zarolho que nunca, corria atrás. E o escárnio se recolhia, para reaparecer adiante, atrás do muro da Igreja, de dentro das salas da Escola.
Foi aí que vieram os amigos me buscar. Que eu fosse e passasse por ser aquela Lindalice de troça, mesmo sendo Gerismina. Que Porém não me conhecia e tinha, da outra, apenas imaginada, a visão de loura cabeleira, em tranças composta. Eu, bem sarará e de bexigas, além do mais ganhando a vida do jeito que todo mundo no arraial sabia, nunca que ia enganar ninguém, mesmo um peruzeiro caolho que nem João. E eles insistiam, propondo até me pagar, que eu aceitei, por que não? Sou pobre e honesta, mas um qualquer dinheirinho que entra faz bem, não é?
Então fui. Era de tardinha e João, sentado num toco à porta de casa, olhava para o chão. Em volta, a peruzada ciscava e gorgolejava. Mesmo dentro da cafua era uma barafunda de penas e titica. Parei ali e fiquei olhando o pobre. Ele de repente me viu, o sol me pegando por detrás. A cara triste e amarela, de repente se iluminou. Ficou de pé e me olhava, olhava. No princípio, achei que não era comigo aquilo, mas logo percebi que era um olho apenas. O outro, me fitava sério, úmido, amoroso, como o de um cachorrinho no pé do dono. João me estendeu a mão, grossa, suada, fria. Me puxou para dentro de casa. Fez café, ofereceu cadeira. Pediu licença pra fumar, me ofereceu o pito. Quase não falava, só olhava com o olho são, o outro revirava a conferir o mundo em volta.
João, num fio de voz, disse: “a gente ficamos aqui, de romances…”. Já escurecia. Um daqueles perus, ali perto, gluglulejou e João nem acabou o que ia dizendo. Minha suava junto com a dele. Daí, ele encostou a cabeça no meu ombro e uma peninha de peru me fez cócegas no nariz. Fiz força para não espirrar. Gostava daquilo. Assim vimos o dia nascer…
Semana passada ele se foi. Finou. Deu de inchar, ficou mais amarelo que o costume. O doutor, na cidade dizem, tirou dez litros de água da barriga dele. Voltou para ser enterrado, numa rede encharcada. A saudade aperta, mas não chega a maltratar de verdade quem tem ofício de herança. João Porém quis que eu continuasse sua lida, e eu me entendo com ele por meio de todos esses perus, aqui em roda, precisando de mim. Carecia dar essa ajuda a ele.
***
Eu sou assim…
Quem quiser gostar de mim, eu sou assim. Ouvi isso no radio outro dia. Gostei. Parece comigo. Aliás, sempre gostei de música, queria até ter aprendido quando criança, mas minha família morava longe de tudo e minha mãe não tinha e acho que ainda não tem dinheiro para pagar um professor para me ensinar. Quando pego a batucar nas carteiras da escola, nas panelas lá de casa, ou em qualquer lata velha, ninguém me segura. Quando acho em algum canto algum objeto que eu considere musical, como um balde, caixotes, garrafas e até um penico, como aconteceu outro dia, não resisto em testar para ver o som que tem.
Antes que me esqueça, meu nome é William, com dois “l”, coisa da minha mãe, diz ela que é nome inglês. Um dia descobri que este nome tem tudo a ver comigo, mas só depois vou contar. É surpresa.
A escola? Gosto de ir lá, mas acho que já aprendi tudo que podia, sou muito distraído. As tias gostam de mim, mas vejo que elas me tratam de forma diferente dos outros alunos. Ficam me paparicando e às vezes me cuidam como se eu fosse uma criancinha. E eu já tenho 15 anos! Mas já aprendi a ler e escrever, de um jeito que até acho que dá para o gasto. Fiquei bamba em fazer bilhetes e historinhas engraçadas, que boto para circular na classe, fazendo a turma morrer de rir. Sei escrever até bem, eu acho, mas ainda não aprendi a diferença entre sessão, seção, cessão e mais outra palavra parecida, que agora eu esqueci, mas me disseram que é difícil mesmo, pouca gente sabe.
Será que não dá para levar a vida normal assim do jeito que eu sou? Acho que dá, normal mesmo.
Pois é, eu sou assim. Assim, como? Sei lá, não sei explicar direito. Mas quando vejo os outros garotos – e isso eu sei desde criança – vejo que eles são diferentes de mim. Ou eu é que sou diferente deles, quem sabe. Eles têm outras brincadeiras, sempre entre eles mesmos, parece que não gostam muito dos adultos, a não ser para pedir dinheiro. Eu sou o contrário, me sinto melhor perto de minha mãe, dos meus tios e das amigas dela, tudo adulto. Não falo de meu pai porque pouco sei dele. Ele vem me ver de vez em quando e quase não conversa comigo. Acho ele estranho. Eu nunca peço dinheiro para ele e nem para ninguém, a não ser para minha mãe, e mesmo assim é pouco. Vejo que minha mãe gosta disso, pois sempre me elogia.
Mas é realmente com os adultos que me dou melhor. Eles também me tratam bem, ao contrário das pessoas da minha idade que vivem fazendo troça com a minha cara e inventam para mim um tanto de brincadeiras sem graça. Contam umas piadinhas sobre meu jeito de andar, sobre meu rosto, meu nariz, minhas orelhas, sobre as coisas que eu digo, não sei que graça acham nisso. Mesmo quando curtem os bilhetinhos que eu fico passando nas aulas, desconfio que alguns ficam fazendo zoeira com a minha letra e as coisas que escrevo. Acho que não é porque gostam, de mim ou dos bilhetes, é apenas para zoar de mim. Eles são assim. Malvados.
Outro dia um desses garotos me perguntou se eu já nasci desse jeito. Não entendi a pergunta e ele só riu e me deu as costas. Deve ser da minha cara que ele falava. Quando me olho no espelho, pra falar a verdade, também me acho meio estranho. Se não, com quase 15 anos, minha cara parece ainda como a de uma criança. Sei lá como explicar: uma cara pequena para o tamanho de minha cabeça, com uns dentes meio tortos, nariz levantado pra cima, meio zarolho. Um desses chatos da escola me disse outro dia que meu nariz parece estar sempre cheirando pum. Sei lá o que é isso.
Sou pequeno também, aliás, o menor de toda a turma. Com a idade que tenho, só agora estou chegando a um metro e meio. Mamãe diz que eu ainda vou crescer. Mas não acredito. Ela é quase alta, meu pai também. Quando pergunto para ela quanto ela mede, nem me responde, apenas me pergunta por que isso me preocupa. Pois é, me preocupa mesmo. Parece que vou ficar pequenino o resto da vida. Mas eu queria ser grande, para ver se pelo menos os garotos da escola me respeitavam mais.
Tenho amigos, sim. Poucos, mas muito legais. Como já falei, prefiro ter adultos por perto, mas tem a Aninha, que é da minha sala na escola, que faz parte, como eu, da turma dos diferentes. Ela é baixinha que nem eu, meio gordinha, tem os olhos puxados. Botaram o apelido nela de Japa, Japinha, coisa daqueles que também me perseguem. Mas ela não liga. Está sempre sorrindo pra todos, é boa para fazer amizades, não é como eu que às vezes fico zangado, principalmente quando abusam. Gosto de conversar com ela, embora não entenda muito bem o que ela diz, com sua língua presa. Sempre passamos o recreio juntos, dividimos nosso lanchinho e eu fico no lucro, porque o dela é sempre melhor que o meu. Quase todo dia tem presunto, requeijão, morangos. Bom demais. Ela está sempre de boa, mas se irrita quando acham que é sua avó, e não sua mãe, que vem trazê-la todo dia na escola. Bobagem se incomodar com isso, eu digo para ela, mas ela sempre fica nervosa e triste.
Não é que eu não goste de crianças e adolescentes como eu. O problema, eu já disse, é que me tratam mal, fazem piadinhas comigo. Menos esta Aninha, claro. Os adultos me tratam melhor, bem melhor. Desde que me entendo por gente é assim. Minhas tias e primas mais velhas, e os amigos e amigas de minha mãe, sempre me rodearam, pedindo para contar alguma de minhas histórias, tirar um som em algum pandeiro ou tamborim. Gosto muito de música e decoro rápido as melodias, mesmo aquelas que têm uma letra enorme, Faroeste Caboclo, por exemplo. Sou fã de Renato Russo, quando vejo as fotos dele acho que até pareço um pouco com ele. Pena que já morreu.
As pessoas amigas sempre me pedem também para fazer caras engraçadas e imitações, de gente, de bichos, de personagens da televisão. Eles se divertem e eu também. Uma tia minha falou que eu até podia ser ator. Quem sabe?
Outra facilidade que eu tenho é encontrar rimas para as palavras. Qualquer uma. É só a pessoa me dizer que eu acho logo, às vezes até umas coisas meio malucas. Outro dia minha prima pediu que eu encontrasse uma rima para Tijuca, para onde ela ia viajar, e eu falei açúcar. No começo riram, mas depois acharam que tinha tudo a ver. Para romântico encontrei atlântico, mas fiquei com inveja de Caetano Veloso quando vi que ele rimou esta mesma palavra com anti-com (putador). Isso é que é saber fazer rimas! Mas eu chego lá!
Acho que sou assim desde menininho. Essa coisa de chegar nas rodas de adultos e logo ir puxando conversa e fazendo graça é comigo mesmo; às vezes acho que já nasci assim. Quando conto certas histórias para minha mãe, ela às vezes diz que não é possível eu me lembrar de coisas que aconteceram quando eu tinha menos de três anos de idade, mas eu sei que é verdade, apenas me lembro, não sei como, mas me lembro. Talvez isso venha de eu pedir muito a minha mãe para falar de coisas de quando eu era criancinha. Ela sempre me atende. Diz que eu custei pra andar, pra falar, parar de fazer xixi na cama e nas roupas. Com sete ou oito anos sempre acordava molhado, mas depois melhorei. Falava tudo errado até esta época e acho que ainda falo algumas coisas esquisitas até hoje, trocando as letras de lugar, mas às vezes faço isso de propósito, para me divertir e aos outros. E assim saem coisas como Bezolironte, paraxodo, embaixanha da espada, paulo de são folha, otondologia, esfizocrênico, merexica, acatadão e outras mais. E todo mundo morre de rir. Eu me divirto com isso.
Só nunca consegui aprender a andar de bicicleta… Ah, e detesto barulhos também. Lá em casa já pedi à mamãe para vender ou dar para os outros aquele liquidificador velho que temos. Aspirador de pó – Deus me livre – nem pensar! A furadeira de meu vizinho de apartamento, que ele liga todo dia, nem sei para que, faz uma zoeira danada e também me incomoda muito.
Acho que sou muito curioso. Há tempos que tenho o maior gosto pela meteorologia. Minha mãe diz que desde pequeno eu era ligado na previsão do tempo, quando via aquela moça na TV falando sobre isso. E até me arriscava a fazer as minhas previsões também, sempre usando o palavreado que ouvia na TV, tipo amanhã chuvas esparsas formação de nuvens temperatura estável ciclone tropical inversão térmica El Niño – essas coisas que eles sempre falam. Dona Sônia, minha professora de Estudos Sociais conseguiu uma visita para mim no Centro de Previsão do Tempo aqui da cidade e já fiz boas amizades ali. Tem um cara lá, o Elisio, que é gente boa demais, que me disse ter nascido para meteorologista, pois o seu nome é um nome de vento. Ele me dá a maior atenção e às vezes me manda mensagens falando sobre mudanças do tempo que estão para acontecer e até me perguntando minha opinião sobre isso. Ele é muito legal, ficamos amigos de verdade!
É isso aí: vou à internet todo dia para saber se vai chover, qual é a velocidade do vento, a umidade do ar, onde está seco ou úmido, o movimento das massas de ar, máximas e mínimas. Acho sensacionais aqueles mapas do Brasil e do mundo com as massas coloridas de ar e de nuvens se movimentando pra lá e pra cá. Se um dia eu for fazer faculdade vai ser para meteorologista, não para o teatro, que para mim é só brincadeira. Mas meteorologia, que para farrear eu chamo de merateologia é uma coisa bacana. Eu até acho que tenho uma intuição para isso. Às vezes acho que vai chover e acontece de verdade. E eu, por via das dúvidas, nessas ocasiões sempre carrego um guarda-chuva comigo.
Falar em guarda-chuva, outro dia eu estava com o meu no banco da praça aqui perto de casa e uma mulher puxou conversa comigo. Era uma moça, da idade das minhas primas, não uma mulher mais velha. Queria saber por que eu estava de guarda-chuva se fazia sol. Minha mãe sempre fala para eu não conversar com estranhos, mas ela tinha a cara tão boa e um jeito sorridente e tão camarada que resolvi bater um papo com ela. Expliquei o porquê do guarda-chuva e ela parece que gostou da minha explicação, tanto que danou de me fazer perguntas. Quis saber da minha família, da escola, dos meus amigos, se eu tinha irmãos, do que eu gostava e não gostava. Falamos de música, de batucada, de previsão do tempo, de minha amiga Aninha, dos chatos dos meus colegas e outras coisas da minha vida. Ela me falou que era psicóloga – psilócoga, eu logo brinquei com ela, que riu muito – e me disse que estudava pessoas assim diferentes que nem eu. Ela não usou esta palavra, mas sim outra, que não me lembro mais, mas que no fundo queria dizer a mesma coisa. Me falou que era muito interessada neste assunto porque ela também se sentia uma pessoa diferente – e logo me mostrou suas mãos com seis dedos em cada uma. Já gostei dela de cara, ainda mais depois de ver tal curiosidade. Perguntou se podíamos encontrar mais vezes e que, se fosse o caso, ela iria falar com minha mãe também, para tranquilizá-la. Falei que sim, eu estava adorando aquilo.
Falando sério, depois dessa conversa com Anamaria, que é o nome dela, acho até que tenho facilidade de me entender com pessoas com este nome, é que resolvi escrever essas coisas aqui. Ela me fez achar que isso tem importância, pelo menos me ouviu com uma atenção tão grande que eu me senti prestigiado de verdade. E não é que Anamaria até está fazendo a revisão das páginas escritas que eu levo para ela, porque passamos a nos encontrar uma vez por semana. Minha nova amiga já foi lá em casa e minha mãe gostou muito dela.
Anamaria me falou que eu tenho um troço chamado Síndrome de Williams, mas eu não entendi bem como funciona. Parece que isso torna uma pessoa diferente, como eu, no tipo de corpo, na forma do rosto, na mentalidade. Me explicou que eu sou diferente, de fato, mas não sou anormal, que posso aprender muitas coisas e ser uma pessoa muito útil para os outros, que tenho até facilidades que outras pessoas não têm, na memória, na busca de rimas ou na facilidade para música, por exemplo, e que isso faz de mim uma pessoa não só diferente dos outros, como também especial. Disse que eu posso fazer faculdade e até me especializar em qualquer coisa que eu desejar, em meroteologia – hehehe – por exemplo.
Faz tempo que não falo com a outra Ana de minha vida – a Aninha – que também tem alguma síndrome assim especial, como me explicou minha nova amiga. Preciso contar para ela que nós não somos menos importantes que os outros, que acham que são “normais”. Ser diferente, como aprendi com Anamaria, significa também ser uma pessoa bacana e interessante, e quando temos por perto pessoas que gostam, curtem e compreendem a gente, isso é uma coisa muito boa, que faz a diferença num mundo que seria muito chato se só tivesse gente daquele tipo “normal”, que vive zoando dos outros que não são iguaizinhos a eles.
Cada um é cada um, da sua maneira, do jeito que sabe ser e gosta. É o que eu acho.
***
Boi de carro
Seu José? Não! Sou o Doutor José Adamastor da Fonseca. Médico! Sim, chefe deste Centro de Saúde. O que desejam de mim. Como? Entrevista para escola? Voltem outra hora, estou muito ocupado neste momento. Agora é assim, toda hora vem um pirralho me entrevistar. Será que esses professores do Grupo Escolar não têm outra coisa para pensar? Um dia, talvez, quando tiver mais tempo, explicarei tudo direitinho para eles, mas por enquanto, não me amolem.
Fico pensando… O que foram estes quarenta anos de medicina aqui nesta cidade? De fato, já vi muita coisa. A grande diferença dos meus tempos antigos é que não havia ninguém querendo saber detalhes das coisas que um médico faz ou deixa de fazer. Agora, toda hora vem um especular. Para não falar daqueles pacientes que já chegam aqui sabendo de tudo, porque consultam sei lá o quê na tal da internet, e já vêm com diagnóstico e até receita pronta. Como se aqui estivessem só para confirmar o que acabaram de descobrir. Quando não para contestar minhas receitas e diagnósticos. Mas aí eu ponho para correr. Não admito!
Quando eu cheguei, tantos anos atrás, era tudo muito diferente. Mas muito diferente mesmo! Eu queria ter ficado na capital, tinha convites de professores meus para trabalhar com eles em hospitais de lá. Mas a herança de meu pai, aquela fazendinha que acabei vendendo porque só me dava prejuízo, acabou me arrastando para cá. Hoje já me conformei, com isso de morar no interior, pelo menos, porque o jeito moderno de fazer medicina, definitivamente não aprovo, não está em mim.
Naquele tempo, um médico era respeitado de verdade. Mesmo quando a gente errava, o povo reconhecia que, pelo menos, ele tinha se esforçado. Achavam que era sempre melhor ter um médico um pouco atrapalhado do que não ter nenhum. Mas isso não era o meu caso. Aliás, pensando bem, sempre fiz o que pude pelos meus pacientes. Com a falta de recursos que era isso aqui, acho que eu até fazia milagres, ou quase. E não foram poucos. Aquelas mulheres que vinham da roça arrebentadas pelas parteiras, por exemplo. Cruzes! Quantas noites passei em claro esperando um parto se realizar com a força da natureza. Lá de vez em quando nascia um já morto, mortinho, mas não era culpa minha. E muitos que nasciam bem voltavam uma semana depois estropiados, com tétano, gastroenterite, o diabo.
Com sinceridade digo: o grande mal do Brasil é a ignorância do seu povo. Fico desesperado quando essa gente da imprensa fica falando mal dos médicos, que nós isso e aquilo. É pura política deles! Comigo não, o buraco é mais embaixo. Essa combinação de política e gente ignorante não pode dar boa coisa mesmo. De política eu fujo, apoio sempre algum candidato para prefeito, vereador ou deputado, arranjo até uns votinhos para ele, mas definitivamente não me meto na política grossa. E não é por falta de convite, pelo contrário. Se fosse me envolver com essa gente estaria liquidado. Ou seria no mínimo prefeito ou vereador, mas fujo disso.
Com os colegas, infelizmente, não posso ser lisonjeiro. Fiquei sozinho aqui na cidade por muitos anos e com sinceridade acho que era melhor assim. O que já apareceram aqui de médicos estranhos ou suspeitos, melhor nem dizer. Acho que alguns deles nem diploma tinham de verdade. Mas teve alguns de outra variedade, os que já nasceram sabendo de tudo e querem sempre botar regras nas coisas que a gente faz, quando não me criticavam diretamente junto aos pacientes. Safados também, estes. Vão enfrentar a barra que eu enfrento aqui, dia após dia, ano após ano, para verem o que é bom.
Mas os piores mesmo são os que eu chamo de comunistas. Tem um agora atendendo aqui no posto que é desta raça. Ficam horas e horas proseando com os pacientes, fazem reuniões com eles e já fiquei sabendo até que perguntam para alguns que tipo de remédio preferem, se pomada ou comprimido, caro ou barato, injeção ou oral; vê se pode… E no final só sabem receitar caminhadas ou banhos de assento. Deus me livre, acho que não fazem a mínima ideia do que seja a autonomia do médico. É por isso que a nossa classe anda tão desmoralizada. E este sujeito aí, o tal do comunista, veio falar comigo que é preciso compreender e respeitar a cultura dessa gente, sem ficar querendo mudar isso.
Ora me poupe… Para mim é um verdadeiro exagero chamar isso de “cultura”. O remédio para quem está errado é correção mesmo, não ficar tentando “compreender” alguma coisa neles. Não é à toa que aparecem estes tipos de clientes que já chegam sabendo de tudo e querem discutir – veja só – com o médico, como se eu fosse igual a eles. Eu passei por uma Faculdade, me respeitem!
Este comuna ainda me apronta mais. Agora deu de trazer para o consultório um desses computadores de mão, aqueles que parecem uma televisão pequena. E fica com aquilo na mesa, datilografando coisas enquanto conversam com os clientes e segundo ouvi dizer, até mostrando para eles figuras e outras informações médicas. Cruzes, onde vamos parar? Eu sou do tempo em que os aparelhos médicos eram estetoscópio, aparelho de pressão, termômetro, essas coisas, não essas novidades que tenho minhas dúvidas se ajudam os pacientes em alguma coisa. E o tal sujeito ainda veio me falar que estão lançando uma bela novidade, que permite que o médico e o paciente se encontrem para uma consulta sem ser um na frente do outro. E o dito cujo achando isso a maior maravilha. Não acredito que isso funcione, definitivamente. Comigo é olho no olho. E nem precisa de muita conversa. Em quinze minutos eu mato qualquer charada clínica.
Nada como a experiência, que essa gente nova não tem e nem sabe o que significa. Há poucos dias, por exemplo, o tal doutorzinho movido a computador estava encrencado com um paciente febril cheio de manchas pelo corpo. Isso eu sei porque me contou a Sebastiana, que trabalha comigo desde que cheguei aqui e parece que nunca vai se aposentar. Eu só de ver, de longe, já daria o diagnóstico: lepra. Fácil para mim que conheço a família toda, aliás, conheço todo mundo por aqui. Eu nem mandei avisar para ele, achei que era boa oportunidade para uma lição. Ficou um mês naquele rame-rame, naquele exagero de pedir exames para chegar naquilo mesmo que eu já havia diagnosticado. Espero que tenha aprendido a lição que conheço desde sempre: bom mesmo é a clínica, nada de computadores e reuniões desnecessárias, que fazem os clientes se sentirem os tais, aquelas considerações culturais e vai por aí a fora. Sejamos objetivos, ora essa.
Acho que medicina é difícil mesmo, mas não é bicho de sete cabeças. Neste festival de novidades que virou minha vida, agora apareceu mais uma. A Secretaria mandou um dos tais computadores aqui para o Posto e determinou que toda a documentação que a gente manda para lá, no final de cada á mês, tem que ser d-i-g-i-t-a-d-a, que é como eles falam agora. Sebastiana já falou que não contem com ela. Comigo muito menos. E tem mais: a programação dos remédios que distribuímos aqui, tem que passar por igual processo. Os prontuários dos pacientes, também. E que no futuro vamos ter que conversar com os clientes usando o tal aparelhinho infame que o comunista tanto aprecia. Se for assim, peço minha aposentadoria. E Sebastiana já me disse que pedirá a dela também. Quero ver como vão se arrumar.
Com tudo isso, sinceramente, começo a me sentir que nem meu primo Aristeu, que era representante comercial, um dos tais viajantes, ganhou um bom dinheiro rodando interior com sua perua, visitando o comércio até que um dia descobriu que não precisavam mais dele, porque havia telefone, internet, computadores, redes e não sei mais o quê para fazer o que ele fez durante toda a vida. Seu ganha-pão foi extinto e ele agora anda por aí que nem alma penada, sem ocupação, sem destino, sem qualquer alegria de viver.
Sem querer ser dramático, isso me lembra também a história dos bois de carro, Melado e Meloso, que sobraram na fazendola de meu pai. Ficaram sem função, quase que esquecidos num pastinho por muito tempo, até que um morreu picado de cobra e outro, quase só pele e osso, foi vendido para um açougueiro, por um preço que mal pagou o frete da entrega. Percebo assim que eu, o Doutor José Adamastor, com toda minha sabedoria, meus anos de faculdade, minha fiel Sebastiana, minha perspicácia clínica, vou ter que dar um jeito na vida. Perigo acabar apenas como um caixeiro viajante sem clientela, um esquecido boi de carro ou um abestalhado zé… Zé ninguém.
Isso se eu não morrer antes.
***
O barbeiro Valdemar
- O doutor não tem medo de que um bichinho desses suba pelo canudo deste microscópio e lhe contamine os olhos?
- Não se preocupe, as lentes protegem.
Depois de uma risada monumental, volta à carga:
- O senhor não percebe que estou de gozação? Meu jeito é assim mesmo, desculpe.
O faxineiro estava ali, vestido com aquele pijama azul regulamentar do hospital psiquiátrico onde eu era estagiário no laboratório de análises. Fazia ali o que chamavam – ele logo me revelou, de forma crítica – de laborterapia. Mas acrescentou que seu caso era outro, não era nem louco nem empregado do hospital. Não, em absoluto. Apenas cumpria pena recolhido ali, admitindo, com certa candura, ter amigos influentes que o livraram de pegar vinte anos de cadeia em espeluncas.
Que crime teria cometido aquele homem, para ter pena tão longa? Eu logo soube, por ele mesmo: havia flagrado sua mulher com outro homem e a matou, no ato, sangrando-a no pescoço. Não pôde fazer o mesmo ao amante, pois este lhe escapara. Mas dedicou à falecida meia dúzia de palavrões cabeludos. Valdemar, este era o nome do falso louco e faxineiro matador. Vinha todos os dias conversar comigo, sempre trazendo uma história nova ou um chiste, que eu acolhia com a maior atenção, afinal um refrigério naquelas jornadas de trabalho marcada por cheiros e manuseio obrigatório de sangue, urina e fezes. Sem dúvida, ali estava um sujeito inteligente, divertido e até culto; valia a pena gastar tempo com ele. Não raramente me trazia mangas e outras frutas colhidas no grande terreno do hospital.
Contou-me que era barbeiro de profissão e que havia trabalhado em estabelecimentos que atendiam a elite da cidade. De tal contato vieram os tais amigos influentes, que ele contava às dezenas, como me disse. Aliás, era até convidado por alguns deles para participar de festas em suas mansões. Sabe-se lá a veracidade disso, mas bem que eu me divertia com suas histórias.
Daí a propor que me atenderia para cortar as madeixas, já que barba eu tinha ainda muito pouca, foi um passo. E que o faria de graça! Aceitei logo, proposta melhor não haveria, ainda mais para mim, nada mais do que um pobre estagiário. E no salão improvisado, debaixo das mangueiras no grande quintal do hospital, eu me submetia aos cuidados do solícito Valdemar, em uma cadeira alta e larga que ele improvisara, não daquelas típicas dos salões de barbearia. E tais sessões se prolongavam em bate-papos intermináveis, cheios de detalhes picantes que sempre atraíam minha curiosidade.
Invariavelmente ele me falava daquelas amizades importantes. Contava, por exemplo, que as cadeiras de uma barbearia eram como divãs nos consultórios de psiquiatria, pois as pessoas ali sentadas para um corte de cabelo ou um escanhoamento logo adquiriam a tendência de se abrirem e revelarem casos de suas vidas opulentas.
– Sabe doutor, este negócio de mexer na cabeça as pessoas, parece que as estimula a revelar seus segredinhos…
E assim, citando nomes que eu conhecia dos jornais e das colunas sociais, ia desfilando uma série de histórias de adultérios, desfalques, perversões, desvios sexuais e muita coisa mais. E acrescentava:
- Quanto mais rico, doutor, mais degenerado. Pode acreditar.
Um crime que ficou famoso na cidade na ocasião, de um milionário libanês morto supostamente pelo sobrinho enquanto dormia, ainda não totalmente esclarecido pela polícia e pela imprensa, na sua voz ganhava tintas sensacionais:
- Este sobrinho aí estava de olha na herança do tio, sim, como dizem. Mas há muito mais por detrás disso! Segundo ele, a dupla trafegava em mão dupla nas suas preferências sexuais e participava de orgias tremendas, com rapazolas disponíveis e pagos para tanto.
De maneira, dizia ele, que ali havia motivos de sobra para fazer uma “queima de arquivos”. E arregalava os olhos, mantendo a navalha em suspenso enquanto me fazia o “pé” no cabelo da nuca:
- O doutor não imagina como estes ricaços são safados…
Perguntei-lhe sobre a navalha, guardada em caixinha de baquelite, que ele tratava com especial deferência, quase cerimonial, amolando-o em um artifício formado por uma tira de couro liso, sustentada nas duas extremidades de uma espécie de arco de madeira. Ele se animou com o assunto, contando que a mesma era da marca Solingen, alemã, importada, de um tipo que não tinha mais na praça. E acrescentou, para minha total surpresa:
- Foi com esta maravilha aqui que matei aquela filha-da-puta…
Não deixei de me arrepiar, pois naquele momento a tal maravilha deslizava suavemente pelo meu pescoço. Ele percebeu meu incômodo e fez questão de me tranquilizar, dizendo ser na verdade um sujeito pacífico e incapaz de fazer mal sequer a uma mosca.
- Aquela, ali, doutor, era um caso perdido. Chifre ainda foi a coisa mais leve que deixou para mim. Ela me arruinou as finanças e a moral, pois vivia espalhando na vizinhança e entre os amigos que eu não dava conta dos meus deveres de marido. E era generosa com tudo quanto era homem que aparecia. Veja só…
Neste tempo eu almoçava na casa de minha avó, que ficava próxima ao Hospital e ela era fã das histórias que eu trazia de meus ambientes de estudo ou trabalho, sempre curiosa a respeito da bizarrice e de detalhes escatológicos. Minha amizade com Valdemar, que eu revelei desde o início, como um fato curioso, era tratada com recomendações de que eu me cuidasse e não ficasse tão perto dele. As mangas que eu às vezes trazia para a sobremesa, presentes de meu amigo, eram recusadas por ela.
- Podem estar envenenadas… Vai saber… Ele é um louco, meu filho!
Quando lhe contei a história da navalha, foi com real horror que ela me falou, com os olhos arregalados de pavor:
- Além de tudo, ele é um a-s-s-a-s-s-i-n-o, meu filho!
A história foi a gota d’água, provocando nela pânico tão descomunal, que fez com que implorasse, alarmada, que eu me afastasse de alguém tão perigoso. Mas eu, é claro, não queria perder a oportunidade de usufruir de uma companhia como aquela, tão ilustrada e curiosa. Mas até então as revelações de Valdemar tinham como foco os escândalos familiares, quase sempre de cunho sexual. Mas ele logo entrou em uma seara ainda mais apetitosa, a da política. Vivíamos então no período imediatamente após o golpe militar e ele, associando informações talvez reais, obtidas em seu divã de barbeiro, com toda certeza também associadas a uma gloriosa imaginação, me trazia informações momentosas. Segundo ele, as tais amizades importantes continuavam lhe municiando de histórias, mesmo ali no hospital. Alguma razão ele tinha, pois por mais de uma vez vi pessoas visitarem-no, trazidas por carros luxuosas, com motoristas de terno e gravata e tudo mais.
– Pois é doutor, eu fiquei sabendo da revolução uma semana antes. O general fazia a barba comigo e ouvi ele comentar sobre isso com o desembargador que estava na cadeira ao lado. E nem me pediu segredo!
Como eu me mostrasse interessado em saber mais, não se fez de rogado, incluindo em suas narrativas detalhes de romances entre militares e filhas (e filhos) de políticos, de adultérios no primeiro escalão de governo, desfalques no Banco do Estado, orgias de figurões – coisas assim.
Acabei me afastando de tão curioso personagem, o barbeiro Valdemar, porém a contragosto, não que o achasse de fato temível, mas porque minha bolsa no hospital acabou e não foi renovada. Algum tempo depois o vi na rua, bem junto ao local onde havia funcionado a barbearia onde ele pontificara. A esta altura, o hotel que a abrigava tinha sido desativado e o ponto entrara em funesta degradação, servindo de base para mendigos e viciados em crack. De alguma forma ele havia escapado da vida de falso louco e quase presidiário, por obra e graça dos amigos importantes, talvez. Mas agora a sorte não lhe sorria mais.
Estava maltrapilho, sujo, com um olhar esgazeado que denunciava que lhe circulava no sangue, talvez, algo fora do normal. Aliás, botou os olhos em mim, mas vi que não me reconheceu, embora eu lhe tivesse esboçado um cumprimento. Os dias de glória de Valdemar, o barbeiro, haviam terminado, sem dúvida. Ali restava apenas um restolho daquela vida aventurosa da qual compartilhara algumas cenas comigo. O dinheiro apurado na possível venda da Solingen deve ter sido dispersado em fumaças perdidas no ar da metrópole engolidora de ilusões.
***
Conversa no botequim
Meu amigo José Vespasiano de Mattos Alencastro, que em nossa roda de final de tarde, no Bar Alecrim, é conhecido como Matusalém e mais uma manada de apelidos, que nele pegam como visgo, tais como Vespa, Vespúcio, Alencoito e por aí a fora, pois que ele não se incomoda em absoluto com isso. Leva sua vida em harmonia com a idade e com o mudo ao redor. Viúvo há muitos anos tem por companhia apenas uma empregada, a Marieta, quase da sua idade, sobre a qual as piadinhas dos amigos são quase inevitáveis. Para mim ele é Matusalém, não apenas por sua idade, quase 90 anos, mas pela vontade e graça que encontra em tudo na vida, sua capacidade de enxergar “além” da realidade. Pessoa muito querida por todos, é uma espécie de conselheiro que temos quando bate em alguém um certo desgosto com a vida e particularmente com a idade, em um grupo que o mais novo já beira os 70. Por esses dias ouvi em tal patota a conversa seguinte, que tento reproduzir aqui.
- Eita, Matusalém, qual é o segredo afinal?
- Que segredo, sujeito?
- Este seu, de viver tanto e ainda achar graça em tudo…
- Não tem segredo, acho que já nasci assim.
- Vai, conta pra nós… Que elixir andas tomando, além dessas cervejinhas aqui? Porque umas louras todos nós apreciamos, mas ninguém aqui tem a sua disposição, ainda mais sendo o mais velho desta turma.
- Querem saber mesmo?
- Desde que você seja sincero…
- Primeira coisa, não é por força de nenhum remédio. Aliás, tenho uma história para contar sobre uma pessoa que conheci na juventude. As novas gerações desta cidade, como vocês, talvez pouco ou nada sabem sobre ele. É aí que começa e acaba o meu segredo.
- Vespúcio, você por acaso está chamando a gente de “nova geração”? Já começa com gozação, ou mentindo!
- Deixa eu contar a minha história, hoje não posso ficar até tarde.
- Vai marcar ponto com a Marieta, hahaha.
- Seguinte: ele era médico, natural da outra banda do estado e trabalhou aqui na cidade desde sua formatura, ainda nos anos trinta. No começo, era radiologista, destacando-se também como esmiuçador de uma doença sofrida por muitos, chamada por aqui de mal do engasgo, um impedimento de que a comida ganhasse seu necessário curso no organismo, pelo menos passando do esôfago ao estômago. Coisa que inutilizou muita gente em toda a nossa região, veiculada por um percevejo do mato, em sociedade com tatus e gambás, mediante abrigo em cafuas de pau-a-pique. E a tarefa dele era de diagnosticar o mal, em seu equipamento radiológico, mas ele logo viu que só isso não bastava, tinha que tratar aqueles coitados também, que não conseguiam realizar nem mesmo a mais simples e essencial das funções necessárias à existência animal: comer. O alimento simplesmente lhes parava no meio do caminho, de algum ponto da pacuera, como diziam, e dali não prosseguia, devolvido à boca e ao prato com pesar e dor intensos. E isso lhes acontecia mesmo que passassem a tentar ingerir o arroz com feijão de cada dia em doses dignas de passarinhos. Comer carne ou qualquer coisa mais dura ou volumosa, como um bom pedaço de mandioca frita, ou uma boa manga Sabina, por exemplo, nem pensar.
- Mas então o que esse doutor fazia com seus pacientes??
- Tinha um método de tratamento simples: amarrava uma camisa de vênus na ponta de um tubinho e fazia a pessoa engolir aquilo. Uma vez localizado o artifício no ponto certo, através dos raios de seu aparelho, adaptava na ponta livre do tubo a uma pera de aparelho de pressão e inflava aquilo, em sessões repetidas a cada semana, com um grau de dilatação cada vez maior. Não chegava a curar totalmente ninguém, mas produzia reconhecido bem-estar, que se traduzia pelo ganho imediato de peso para muitos deles, além da felicidade de voltar a comer quase normalmente, pelo menos por algum tempo. Depois era só repetir o processo de novo.
- Que coisa mais estranha…
- Mas não pensem vocês que foi só isso. Aquela associação do mal do engasgo com o percevejo do mato não era reconhecida pela ciência médica da época, que atribuía o problema à falta de algumas vitaminas no organismo. Ele, entretanto, percebendo que a coincidência geográfica entre o tal engasgo e a dilatação do coração, esta já atribuída ao contato com o percevejo-barbeiro, poderia ter a mesma explicação, insistiu em tal tese, procurou sua confirmação através de alguns exames laboratoriais já disponíveis e apresentou seus resultados num congresso de luminares. Quase foi massacrado por certo catedrático da grande universidade paulista, mas poucos anos depois sua teoria provou ser a correta. Mas a esta altura ele já havia mudado de especialidade.
- Conta mais, Vespa, conta! Parece que o caso é bom. Melhor ainda se for verdade…
- Foi assim: ele já havia ficado famoso em tal tarefa, mas enfrentou um sério problema, dadas as muitas horas que passava exposto aos raios X, seja como diagnosticador ou tratador do mal do engasgo. Os efeitos deletérios disso ainda eram pouco conhecidos na época, mas ele esteve envolvido com tais tarefas por mais de duas décadas. No final suas mãos tinham verdadeiras chagas abertas, as queimaduras actínicas, conforme a linguagem médica, com risco de se agravarem e se transformarem em câncer, levando até à amputação. Foi assim que ele teve que parar com a radiologia e procurar outro emprego.
- Mas me pareceu, Alencoito, que você não ia nos ensinar alguma coisa sobre viver bem, ou viver muito? O que tem a ver com esta história até agora?
- Esperem, eu chego lá.
- Fechou o consultório e empacotou o equipamento, que logo foi vendido ao hospital da cidade vizinha. Ficou a ver navios, literalmente, sem ter o que fazer da vida. Resolveu se dedicar à política. Como já tinha simpatia pela causa comunista, mesmo com todos os preconceitos de sempre no país, resolveu se candidatar a vereador pelo tal partido, sendo facilmente eleito, com o apoio, certamente, de uma multidão de engasgados e de seus familiares.
- O cara era ousado… Aliás, dizem que comunista quando dá para trabalhar ninguém segura. É tudo pela causa, pela ditadura do proletariado…
- Pela abolição da mais valia, da propriedade, da família…
- Seja como for, aquele ali não deixou por menos. Transformou-se em precursor da legislação sanitária na cidade, onde se costumava criar porcos nos fundos de quintal, se jogava lixo no meio da rua, até mesmo as placentas de quem nascia; e também abrigavam mulas e vacas nos terrenos domiciliares. Tudo isso era coisa comum. Curiosamente, seu parceiro nessas empreitadas era outro vereador, também médico, mas filiado à corrente oposta aos comunistas, o integralismo. As divergências de pensamento não impediram que os mesmos fizessem coisas boas para a cidade.
- Vespa, este aí não é aquele mesmo cara que dá nome ao viaduto sobre a BR?
- Ele mesmo. Um dia veio a receber tal homenagem de suas excelências, mas só muito tempo depois de morto, sendo dado seu nome ao tal viaduto e a uma unidade de saúde, em bairro pobre da cidade, onde viria a atuar depois.
- Antes tarde do que nunca…
- Mas o fato é que extinto seu mandato pela proscrição do partido comunista, novamente desempregado, foi convidado por um colega a assumir as tarefas do Serviço de Lepra aqui na cidade, pois aquele começava a se firmar no território privado e tal emprego já lhe causava alguma rejeição na clientela. Assim, o médico desta história escapou da radiação ionizante, caiu na discriminação ideológica e ato contínuo foi dar no brejo do contágio e da estigmatização. Sobre isso apenas dizia, então: não quero é ficar parado.
- E ficou nisso? Na lepra? Qual é afinal a moral desta história, Matusalém?
- Se você tiver paciência, eu explico.
- Ali na lepra esteve por uma dúzia de anos, ganhando simpatia e amizades. Os vizinhos se incomodavam, pois, era comum que alguns pacientes o procurassem diretamente em casa. Não tinha sossego aquele homem. Arranjou encrenca também com os burocratas do serviço, quando resolveram rebatizar a doença, agora a ser apelidada de hanseníase. Acatou a medida e nem tinha como deixar de fazê-lo, mas um comentário seu ficou famoso e repercutiu além dos limites de seu mundo interiorano: isso é igual vender o sofá no qual se surpreendeu a mulher em colóquio amoroso com outro homem.
- Até que um belo dia, já passado dos sessenta anos, sentindo algumas dores e percebendo a presença de sangue nas evacuações, resolveu fazer um check-up. Foi-lhe então diagnosticado um câncer no intestino.
Foi atendido por um filho também médico que fora fazer residência nos Estados Unidos e por lá ficara. Este, valendo-se do proverbial pragmatismo norte-americano, recomendou-lhe cirurgia radical, executada sem maiores delongas.
- De volta à velha casa onde vivia com a esposa, ali na parte baixa da cidade, vocês sabem onde, portador de uma bolsa de colostomia temporária e sem maiores garantias de cura do tumor maligno, resolveu tomar iniciativas em relação à vida, como se ela não lhe fosse já suficientemente movimentada. Reformou sua casa, construiu um enorme viveiro para colibris, adquiriu equipamento fotográfico de última geração e começou a fotografar aves, paisagens, árvores e pessoas, ganhando inclusive sucessivos concursos de fotos artísticas.
- E viveu para sempre depois disso?
- Não. Morreu, mas apenas passados mais de dez anos, não de câncer e sim de ataque cardíaco. Com o quintal cheio de beija-flores e uma prateleira de medalhas e troféus de concursos fotográficos. Tenho quadros com fotos dele até hoje lá em casa.
- Nossa! Aí entram os tais “projetos”, então?
- Sim, aquele homem estava com câncer e tinha muitas incertezas sobre sua saúde. Mas uma coisa lhe era certa: seus projetos mais estimados precisavam ser iniciados ou continuados. Poderia ser chamado de “doente” alguém assim?
- Doente sim… Mas ao mesmo tempo sadio este aí? Sei lá…
- Já concluo: já vi muita gente morrer em gozo da mais perfeita saúde, mas também viver em estado de decomposição física e mental. A história deste homem é bem demonstrativa disso. É assim que lhes revelo o meu segredo, sem medo de errar: a grande força que mantem as pessoas vivas é aquela que as leva a se imaginar no futuro, ou melhor, apostar sempre na capacidade de realizar algo dentro do tempo de que ainda dispõe nesta vida.
- Poxa, gostei do arremate, Vespúcio!
- Em outras palavras: o importante é ter projetos para manter a saúde. E eles podem ser materiais, espirituais, amorosos, políticos, oníricos, normais ou amalucados – sei lá quantas possibilidades existem.
- Eita, acho que você tem razão. Mas certamente não se aplica a todos os casos. Eu, por exemplo…
- Seu caso individual não importa. A regra de vida deve ser: ter saúde é ter projetos. Tal frase não é minha, creio que foi um cientista que ganhou o Prêmio Nobel nos anos 60 que a pronunciou. Mas não importa, faço dela uma profissão de fé. Assim de memória até consigo lembrar de pessoas que levaram isso a sério, mesmo que não tivesse formulado explicitamente algo parecido. Trago a lembrança de São Francisco de Assis e de Betinho, para falar de dois santos do meu oratório pessoal. Mas a história nos oferece muitos outros exemplos de gente a quem a doença ou a proximidade da morte não retiraram a vontade de fazer as coisas acontecerem. Vocês mesmo devem conhecer alguém assim.
- Eu que sou médico, Vespasiano, tiro disso o seguinte: acho que é preciso valorizar os projetos dos nossos pacientes. Acho que seria o caso de incluirmos em nossos interrogatórios uma simples pergunta: que projetos você tem para sua vida? Assim a gente poderia, quem sabe, levantar e programar como parte do tratamento dessas pessoas – com a ajuda de outros profissionais – o desenvolvimento de seus projetos pessoais, sejam de qualquer natureza.
- Você toca em um ponto corretíssimo…
- Resultaria disso um enorme benefício para os pacientes, com certeza. Afinal, quem tem projetos em vista possui, pelo menos potencialmente, muito mais saúde do que quem não os tem e disporá, por isso mesmo, de mais razões para continuar vivo e se cuidando, ajudando assim os médicos e suas balas milagrosas se tornarem de fato mais efetivos. Um dia, quem sabe, isso se tornará realidade. Chega por hoje, é o que tinha a contar para vocês.
- Demais, Matos-Matusalém. Você é nosso ídolo!
- Mas eu completo, além de tudo é preciso ter foco no que se faz e sempre buscar e acreditar nas coisas que a vida nos oferece. E se me dão licença, agora vamos para a saideira.
- Muito bem Vespa, aplausos para você!
- Vou saindo, minha aula de dança grega – aquela do Zorba – me espera.
***
Amarcord de sabores
Deitado nesta cama de hospital, esperando uma alta que não sei quando virá, só me resta botar a cabeça a viajar, porque já não aguento mais essas luzes piscando, esse bib-bip infernal, essas pessoas gemendo, esses banhos de gato, esse cheiro não sei de quê.
Eles vêm aqui medir minha glicose e outras coisas a cada hora e me olham como uma cara que vai da lástima ao horror, e não adianta interpelá-los que não me contam o que está acontecendo. Mas eu bem sei, desta vez passei dos limites, essas festas de fim de ano são uma perdição para dos diabéticos, como eu. Querem me enganar, mas acho que eu engano essa gente muito mais do que eles a mim.
Esta enfermeirinha que acabou de sair é uma graça de pessoa. Ruiva com estes óculos na ponta do nariz – ninguém resiste. Nunca me diz o valor da dosagem, mas a cara com que me fita e olha a fita já diz tudo. Quando lhe indago alguma coisa, ela apenas demonstra pesar, me passa a mão de leve no ombro ou nos cabelos, e se vai para o seu posto. Quando eu lhe perguntei alguma coisa outro dia ela se voltou para mim e vi seus olhos cheios de lágrimas. Ai meu Deus, eu não mereço!
O pior são as coisas que ando sonhando, quase sempre no cochilo da tarde, porque nas noites não consigo dormir. Outro dia, por exemplo, sonhei estar na casa de meu irmão, cumprindo ritual que me é familiar e sempre me deu grande prazer: enfiar a cabeça na caixa aberta daquele velho piano e aspirar com sofreguidão o cheiro de madeira velha, tão peculiar, que entra ano, sai ano, continua ali guardado. Cheiro de piano não tem graça, claro, mas o problema é que isso abre portas para que me penetrem nos sentidos um sem número de aromas e sabores que marcaram minha infância, na casa ancestral de meus avós, onde aquele piano esteve estacionado por décadas. Não sei de onde fui tirar essas lembranças tão seletivas. A família me diz que tenho uma memória enorme para fatos, não sei bem se é assim, mas das comidas e dos perfumes de minha infância, realmente não me esqueço.
Semana passada tive outro desses sonhos meio malucos. Eu ainda era criança e estava numa casa da família. Devo dizer que entre outras alegrias, tivemos, eu, meus irmãos e primos uma infância marcada pelas boas comidas e também por bons rituais em torno delas. Uma de minhas lembranças mais antigas é a da fabricação de goiabada na chácara de meu avô, em uma pequena cozinha anexa, na qual havia um fogão de lenha com um tipo de cavidade em formato de bacia, onde se encaixava perfeitamente o tacho de cobre. E eu sonhava com aquilo. Aquela pasta espessa, de tom marrom avermelhado, mexida com longas colheres de pau, em inquieta erupção que formava crateras aqui e ali, logo se desmanchando, um espetáculo inesquecível. Aquilo era nítido, como se fosse a realidade mais completa e até o cheiro da goiabada eu sentia. Fui acordado pela plantonista da noite que vinha medir minha glicose, apenas me acordando, mas entrando muda e saindo calada, como de hábito.
Mas aquela goiabada continuou em erupção na minha mente. Lembrava-me que nós crianças era permitido, apenas, observar de longe, pelo risco de queimaduras. Mesmo assim, era muito divertido. E melhor ainda ficava quando, ao final, éramos autorizados a degustar a «rapa», nos próprios tachos já resfriados. Um de nós ao ser indagado sobre qual o doce que mais o deliciava, não teve dúvida: «é a rapa!»
Em outra noite não sonhei com goiabada, que era apenas uma delícia entre tantas outras. Neste dia o tema foi o doce de laranja em calda, pela qual tenho especial predileção desde a infância, embora tal iguaria, um tanto amarga, nem sempre fosse apreciada pelas crianças, com exceção de mim. No sonho eu fazia o tal doce e até me metia a poetizar sobre o mesmo, indo recitar, sob aplausos gerais da plateia familiar, a minha composição ad-hoc. O sonho ficou melhor ainda quando o tal doce, feito com a proverbial laranja-da-terra, foi moído, recozido e transformado em pasta de se cortar, a laranjada. E isso está há tanto desaparecido das mesas da família! Mas no meu sonho esteve presente.
Doces de frutas era uma especialidade da família, seja na produção, pelas mulheres, seja no consumo, com destaque especial para o meu caso. E havia de tudo: doce de banana seja em pasta, em calda queimada, além da tradicional banana frita com canela e açúcar; doce de figo, em calda e em pasta (delícia!); doce de mamão, de espelho, em talhadas, enroladinho, com rapadura… Aliás, do mamão se fazia doce até do miolo branco do tronco do mamoeiro. E mais, doce de carambola, geleia de jaboticaba (na Chácara de meu avô os pés dessa fruta se contavam às dezenas), doce de manga. E se espremer a memória ainda vou me lembrar de mais variedades.
Teve uma noite – ou uma tarde, não sei mais – que me veio à mente um certo tipo especial de doce, modesto em sua origem, mas igualmente de eterna e adorável lembrança. Era aquele que resultava do aproveitamento de determinados alimentos em vias de serem jogados fora, uma espécie de subproduto dos mesmos, mas que apesar disso era saboreado em clima de festa. Exemplo disso era o famoso doce de leite talhado, assim meio encaroçadinho e um pouco azedo, queimado na medida. Uau! E não poderia ficar de fora, embora penso que não tenha entrado no tal sonho, a banana em calda, uma especialidade de minha mãe, que dava àqueles pedaços de banana caturra hiper madura, que de outra forma iriam para a lata de lixo ou para as galinhas, o auxílio luxuoso de uma calda de açúcar moreno-dourada.
Tinha também o arroz-doce, mas este, coitado, acabou deixando lembranças menos agradáveis, pelo menos para mim, não sei se para toda a turma de irmãos. A história é a seguinte: nossa eterna caçulinha foi acometida durante seus primeiros anos de vida de dores de barriga atrozes (para ela e para os circunstantes…). Assim, a receita da época – e creio que ainda de hoje, que confirmem os pediatras, era ministrar aos pequenos doentes alguns litros de água de arroz por dia. E este produto provem do cozimento do arroz que «sobra» no processo, que, aliás, em nossa casa não sobrava, por ser logo transformado em arroz doce. E tome arroz doce. Não tínhamos o privilégio, à época, de sobremesa todos os dias, mas com o arroz-doce era outra história: podíamos comê-lo à vontade. Só que com pouco tempo, sobrevinha um efeito de overdose e ninguém mais queria saber dele. Mas agora, tantos anos passados, eu bestando nessa UTI lúgubre e monótona, daria tudo para saboreá-lo de novo.
E por aí caminhavam minhas memórias gustativas. Cheguei até a ansiar pela hora de repouso, apenas para me deliciar oniricamente. E tome mais comidas. Para ficar não apenas no trivial, sonhei rabanadas, ovos nevados, pavês, docinhos de damasco, fatias de amendoim, pudim de pão (injustamente alcunhado de engasga-lobo), amor-em-pedaços, broinhas de milho, casadinhos e outros biscoitinhos diversos. E olha que em boa parte de minha vida meus quilos a mais e a minha insulina de menos me disseram que não convinha exagerar nos doces!
Isso tudo sem esquecer do capítulo dos salgados – não menos refinado e variado, que vai do simpático maneco-sem-jaleco (as novas gerações nem suspeitam do que seja), passa pela proverbial torrada com pasta de espinafre com queijo e ovo, até chegar ao grande momento da sopa de bolinhas de queijo; para não falar das costeletas de porco fritas, da canjiquinha, do creme de milho.
E mais a peça de honra: o (a) cake (queca) de minha mãe, que deixo para ser homenageada no final: divina, maravilhosa, suculenta, olorosa, sofisticada – cabem nela tantos adjetivos quantos são seus ingredientes.
Ainda bem que a natureza me deu vinte e dois anos para aproveitar tantas comidas condignamente, antes de ser traído pelas tais ilhotas. Mas eu confesso que enquanto pude, não perdi tempo! E mesmo sem poder, muitas vezes.
Agora estou aqui apenas podendo sonhar com tanta coisa boa, de que sinto às vezes até o cheiro e o gosto com tanta nitidez. Ainda bem que sonhar não requer nenhuma dose extra de insulina. Preciso criar juízo, bem sei, mas é duro ser diabético. Nem Sísifo, nem Prometeu, nem Hércules passaram por desafios como estes que enfrento no meu dia a dia.
Estava eu nesses devaneios quando a ruivinha veio me dar uma notícia: eu ia ter alta da UTI e passar para a enfermaria. Achei que ia para casa, mas ela me explicou que devido à minha bagunça metabólica eu ficaria mais uns quinze dias no hospital, para acompanharem de perto minhas dosagens. Não eram notícias tão boas ou, pelo menos, próximas das que eu esperava. Nem tudo estava perdido: a moça não era enfermeira e sim médica residente e tinha vindo me dizer que ia cuidar pessoalmente de mim, pois tinha muito interesse nesta doença, tendo perdido seu pai por causa dela, com pouco mais de 40 anos. E de cara foi me mostrando o dedinho e dizendo, com ternura, mas fingindo de brava: mas comigo o senhor vai se cuidar direitinho, não admito enrolação!
Há males que vêm para o bem, pensei. De toda forma minha moral estava baixa demais para que eu contestasse qualquer coisa. Assim me entreguei à ruivinha, de muito bom grado. Mas preciso perguntar a ela se não existiria um remédio que fosse capaz de cortar os sonhos das pessoas…
***
O Apocalipse segundo JB
Bem aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo. Apocalipse 1:1-3
Caminhar pelas ruas da cidade era antigo costume de João Batista, JB para os mais íntimos. Desempregado, então, fazia daquilo quase um ofício. Andava pelos quatro cantos, procurando novidades ou coisas fora da rotina, quaisquer que fossem: construções inacabadas, praças e ruas em fase de reparos, lixo jogado em lugares inapropriados, automóveis abandonados, pneus e colchões em desuso jogados a esmo, algum vazamento de água ainda não corrigido. Em uma pequena caderneta anotava tudo, para dar parte, dizia ele, sem declarar quem seria o objeto de tal comunicação. Se houvesse alguma criança ou criação perdidas nas ruas, deixassem com ele também.
O que importava de fato era anotar, registrar, de alguma forma fazer aquilo ganhar substância. Depois haveria de procurar o que fazer de tanta acumulação. E havia muito trabalho a cumprir, naquela vila que ele via em total desmazelo, antes de um arremate de sua missão. Depois, um dia, se veria…
Passava repetidamente pelos mesmos lugares, em jornadas que apenas gradualmente se ampliavam, sem maior pressa, todavia. Era preciso prestar contas, talvez principalmente a si mesmo, de cada canto percorrido e da inspeção de cada lote vago, antes de ampliar sua exploração cotidiana.
E foi ali, debaixo do pontilhão da estrada de ferro que ele ouviu a voz pela primeira vez. E ela dizia qualquer coisa sobre um cavalo branco, cavalgado por um homem armado de arco e flecha. E mais ainda, que tinha sido dado a tal homem uma espécie de manto, para quando ele saísse vencedor de terríveis batalhas.
A voz o chamava pelo nome, mas dizendo apenas João, sem usar o Batista, nome pelo qual era mais conhecido. Ele olhou em torno, espantado. Não por ter ouvido a voz, pela qual ele afinal já esperava há tempos, mas por não imaginar que ela lhe chegaria em lugar tão estranho, com tanto lixo atirado, cheirando a esgoto, com ratos e moscas por todo lado. Mesmo assim se regozijou, pois afinal de contas algo há muito augurado lhe alcançava.
Depois de anotar as condições do local na caderneta, se assentou no chão para ouvir melhor. Sem deixar de se preocupar com as condições do local, viu que havia muito a ser compreendido naquelas longas e complicadas sentenças que a voz lhe trazia, apontando terríveis acontecimentos. A menção repetida a palavras como “revelação” e “anticristo” lhe sugeriu que aquilo tinha ligação com algo de fundo mais religioso ou espiritual. E a voz também lhe dizia, repetidamente: “são quatro, são quatro”! Quatro o quê? Indagou a si mesmo, pensando se poderiam ser quatro cantos, quatro ventos, quatro queijos. O que significaria isso, afinal?
A voz parecia se alterar, em modos de irritação e ameaça. Falou também de um cordeiro degolado, além de peste, de guerra e de fome. Aquilo fazia sentido para ele, ao lembrar daquela imagem inicial do cavaleiro armado e montado em uma mula branca. E a voz agora sussurrava: “João, atenção! Este é o que traz a peste em seu cavalo branco, a peste! Mesmo os que se cuidam não escaparão”.
JB ficou de fato perturbado, a cabeça agora lhe latejando com intensidade. Resolveu caminhar para fora daquele lugar, temendo que aquela voz cada vez mais ameaçadora se voltasse contra ele. Saiu dali a vagar fora de seu domínio habitual, até que se recostou à parede de uma oficina abandonada e adormeceu ali. Exausto.
Mas logo se viu desperto. Seus ouvidos, tão próximos àquela parede nua e fria, a ouviam de novo. E a voz agora falava em grandes acontecimentos, com o número quatro sendo substituído pelo sete: sete pragas, sete selos, sete pecados. E mais, agora chamando alguém: “Daniel, Daniel, Daniel, onde está você?” Uma coisa nova era pronunciada, lembrando mais uma vez o tom místico da conversa de antes: “um cordeiro foi morto, pode ser uma coisa assim, João? E muita guerra virá”, dizia ainda a voz.
Não saberia dizer se dormiu de novo, se vagou mais ainda pela cidade, se voltou para casa. Só se lembrava de ter estado por outros diversos lugares, agora de volta a seus percursos habituais. Passava então por uma chácara já conhecida, na periferia da vila, quando novamente ouviu: “João, meu filho… sim, você mesmo!” E aquilo parecia partir agora de dentro de um muro de pedras que cercava a propriedade.
E prosseguiu a voz, falando agora de um cavalo vermelho, cujo cavaleiro, ameaçador, armado de uma grande espada, seria capaz de extinguir toda a paz da terra, fazendo com que os homens se tornassem inimigos entre si. O tom ameaçador era cada vez mais assustador e isso o fez estremecer. Mesmo assim, ou por isso mesmo, resolveu seguir adiante.
Agora a voz parecia o perseguir, brotando de cada muro, mureta, cerca e até mesmo do chão cru. Às vezes apenas dizia seu nome, de forma ácida, se calando em seguida. E seguiu falando de um profeta que iria reunir seu rebanho e ao mesmo tempo travar batalhas contra os inimigos ameaçadores. E a alusão ao cordeiro morto voltava a ser repetida, inúmeras vezes, como se buscasse a vingança de um crime terrível. Um cavalo negro foi anunciado e galopando com ele o flagelo terrível de uma fome como nunca se viu antes. “Como nunca ninguém pode ter visto, João, em nenhum lugar deste mundo de Deus”.
Seguiu adiante, assustado, cada vez mais afastado de seu território habitual. A velha igreja, há tempos fechada por falta de padre, lhe pareceu bom lugar para repouso e distância daquilo que certamente lhe movia alguma perseguição. E ali ouviu mais, a referência a um cavalo preto, cavalgado por um homem que portava uma balança de peixeiro em uma das mãos. E a voz, sempre ameaçadora, dizendo algo ainda mais misterioso, como trocar partidas de trigo e cevada por dinheiro, com azeite e vinho como parte de tal negociação. “João, presta atenção, tudo isso é muito sério, é o Senhor que quer assim!” E ouviu chamar novos nomes, além do Daniel já citado, como Zacarias, Ezequiel e Oziel, fossem lá quem fossem. Ele realmente não sabia quem seriam e qual papel teriam naquela provação que agora lhe chegava.
Seguiu em frente, cada vez mais esbaforido. De novo no pontilhão da ferrovia julgou ser possível se proteger ali. E ali a voz, mais uma vez, cresceu em tonalidade e ameaças. O personagem equino era agora uma mula ou amarelo esverdeada. “João: este é da mesma cor de um cadáver que se decompõe!” E era o quarto e último, assegurou a voz, com tal montaria sendo portadora de morte e tragédias diversas. Talvez não fosse uma mula, mas uma égua esquálida, pela hora da morte. E seu ginete era simplesmente a Morte, com todo um cortejo de seres enviados ao inferno e destinados à extinção eterna a seguindo de perto.
A voz, cada vez mais insistente e tenebrosa dizia que aqueles quatro cavaleiros e suas montarias branca, vermelha, negra e baia, estavam chegando para anunciar o fim dos tempos. “Presta atenção, João, seu pecador infeliz!” Esses aí eram os escudeiros do Anticristo e para quem bem soubesse entender representavam Peste, Guerra, Fome e Morte. Seus ginetes não salvariam ninguém de nada, pois eram os verdadeiros e últimos carrascos a punir a humanidade em pecado.
Ele então percebeu que não seria possível alcançar salvação para ele, aliás, para ninguém, ninguém mesmo. Tinha que escapar, no mínimo para algum lugar onde não houvesse paredes ou muros, entidades que carregavam não só aquelas notícias tão más, mas junto com isso uma feroz capacidade de executá-las.
Tomou assim a estrada principal e por ela caminhou, noite adentro e também no dia seguinte, apesar do sol, da poeira, da canícula opressiva daquela época do ano. Era preciso escapar. Ele sabia que era inocente absoluto em relação a tudo o que a voz apregoava. Não! O filho de sua mãe não seria pego, com certeza.
No dia seguinte, já ao crepúsculo, alguns trabalhadores rurais o descobriram e os homens da ambulância municipal o resgataram em seguida. Estava caído numa valeta lateral da estrada, com a cara suja de lama, língua seca como uma canela de ema, olhos vidrados. E balbuciando sem parar palavras com sentido misterioso e desconhecido, como Apocalipse e Armagedon, além de outras, entre as quais a palavra Besta se destacava. Murmurava cheio de ira e ansiedade se alguém vira por ali quatro cavalos, ou mulas, cada qual de uma cor diferente. E invocava sem parar a proteção de São João, jogando nomes feios sobre uma desconhecida Salomé, jurando vinganças terríveis contra o ser que ele denominava Anticristo.
No terceiro dia sua mãe, uma humilde lavadeira que morava longe, veio visitá-lo no hospital psiquiátrico. E trouxe para o filho, um livro, a Bíblia, que ele, segundo ela, costumava ler com avidez havia meses, passando assim até noites em claro. Para a mãe, João Batista sempre fora uma pessoa calma e normal, sempre muito rigoroso e cumpridor de seus afazeres. Começou a ter mudanças de atitudes depois que perdeu o emprego de frentista em um posto de gasolina e se separou da mulher. Por causa disso começou a frequentar uma igreja evangélica, sendo acolhido como uma espécie de protegido do Pastor, que lhe influenciava naquelas leituras da Bíblia. Ela precisava comunicar a este homem sobre os acontecimentos dos dias anteriores, aquelas mudanças tão graves de comportamento do filho, quem sabe ele o ajudaria. Precisava só arranjar um dinheirinho para colocar o dízimo da igreja em dia, atrasado desde que JB perdera o emprego.
Com relação às palavras que ele repetia sem cessar, “Margedão” e “Apocalipes”, a mãe desconhecia o significado delas, mas sentia que era coisa que parecia importar muito ao filho. Ela só queria que fosse curado daquilo, precisava dele demais, não só como companhia para sua velhice, mas também pelos trocados que bem ou mal ele lhe trazia no final de cada duas semanas.
Ficou ali no hospital por alguns dias, medicado e recuperando a serenidade habitual, sendo isso percebido com alegria pela mãe. Depois da alta, entretanto, passou a se mostrar angustiado ao extremo, quando por acaso ouvisse um eventual tropel de equinos nas ruas da cidade.
***
Promised Land, now!
Aqueles eram demônios fortes, viris, de olhos avermelhados, demônios que dominavam e instigavam homens… homens, estou lhes dizendo! Porém, de pé naquela encosta, tive a premonição de que, na luminosidade ofuscante daquela terra, conheceria um demônio flácido, dissimulado, de olhar débil, o demônio de uma loucura voraz e impiedosa. [Joseph Conrad – No Coração das Trevas]
Com as bênçãos do Senhor, aquele parecia ser um dia igual a qualquer outro. Não fazia frio nem calor, passarinhos cantavam, cães latiam, as irmãs da limpeza já começavam suas tarefas, entoando salmos e hinos conhecidos. Eu tinha aberto minha Bíblia e meditava um pouco sobre algo que disse Isaías, como faço diariamente, variando apenas de Profeta.
Ainda me lembro muito bem, Isaías falava que a terra de seu povo viria a ser assolada, suas cidades abrasadas por pragas e invadidas por estranhos. Hoje me penitencio por ter faltado fé verdadeira em mim, pois vejo que ali havia mensagens às quais não prestei a devida atenção, que diziam respeito, sem dúvida, ao que eu iria vivenciar em mais adiante. Ah, aquelas palavras falavam de gente estranha; de turvação nos corações; de devastação e traições; de conflitos e vinganças; de um Deus onipotente, porém ausente! Saber que também existiria por ali uma senda santificada, pela qual não passariam os imundos, ainda que aberta aos loucos e doentes, não me dava alívio.
A verdade é que fui pego de surpresa.
Foi assim, mal me levantara e me dirigia ao refeitório, Sigrid, a secretária do Doutor Wilhelm, me avisou que ele queria falar comigo. Logo de cara percebi que devia ser coisa séria, pois Sua Excelência raramente dava tal honra aos mortais comuns. Devia haver algo de grave naquilo, que me afetava diretamente, sem que eu soubesse o motivo. Alguma coisa realmente estranha se armava, só não sabia ainda por que envolvia a minha pessoa.
Wilhelm na verdade era além de Doutor, Pastor. Ele era filho de uma família brasileira descendente de pomeranos e havia feito sua preparação religiosa na Alemanha, lá recebendo tal título formal, pelo qual gostava de ser tratado. Dirigia aquela escola de formação religiosa luterana, o Diaconato Lutherhaus, com rigidez e devoção extremas. Ele me tratava de forma severa e com intimidade zero, aliás, como à maioria dos alunos, funcionários e demais pessoas que por ali andavam e trabalhavam. Mas encarei com coragem, embora um tanto ressabiado, o mal-estar de começar o dia com uma entrevista como aquela.
Para encurtar minha narrativa, em certo momento da conversa o Doutor me perguntou sobre Karsten Freitag, se eu o via com frequência, que tipo de contato tinha com ele nos últimos tempos.
Karsten era um cara da minha terra, que anos antes havia me ajudado a desviar do trauma que eu tinha com o catolicismo, por conta de um padre de má fé que era próximo de minha mãe e que, só mais tarde me dei conta, tentara me assediar sexualmente na infância e na adolescência. Ele pertencia a uma família de crentes e foi meu vizinho na infância. Quando um dia confessei a ele o mal-estar que eu sentia com os contatos forçados que eu me vi obrigado a ter com o padre Carlos, ele prontamente se ofereceu para me ajudar, fazendo com que eu me aproximasse de pessoas de sua confiança na Igreja Luterana da cidade, de cujo rebanho ele e sua família faziam parte. De fato, fui bem acolhido ali e como sempre tive uma inclinação espiritual, deixei-me levar pelos ritos protestantes e em pouco tempo me tornei um deles.
Karsten era quatro ou cinco anos mais velho do que eu e extremamente interessado e versado em assuntos religiosos. Tinha sempre uma bíblia no bolso e uma memória fabulosa, sendo capaz de recitar trechos inteiros do Antigo Testamento, trazendo muitas vezes a conversas banais citações apropriadas de salmos. Seu tio era pastor em uma cidade próxima à nossa e Karsten foi morar com a família dele quando terminou o ensino médio. Eu ainda era ginasiano, de maneira que praticamente nos separamos desde então, com encontros apenas ocasionais, nas férias minhas ou dele. Quando estive com ele, certa vez, me disse que tinha se decidido a virar pastor, assim como o tio, que lhe dera grande apoio e mesmo o encaminhara à sede da Confissão Luterana na capital.
A partir daí continuamos a nos encontrar apenas por cartas e numa dessas ocasiões confessei a ele meu desejo de também me aproximar da vida religiosa, tendo ele me recomendado, e ato contínuo me indicado à tal formação de diácono, justamente na Lutherhaus, onde tiveram início os fatos que narro agora. Ao terminar meu curso, Doutor Wilhelm, por algum motivo, achou que eu não deveria ser pastor, mas sim me voltar ao ensino religioso formal, em alguma escola ligada à Confissão Luterana. À espera de que isso acontecesse, já fazia bem uns seis meses, é que me levantei naquela manhã primaveril com o aviso que o Doutor me esperava para uma conversa.
Wilhelm tanto tinha de rigoroso e severo como de experiente no trato com as pessoas, mesmo subalternas, como eu. Foi logo me deixando à vontade. Perguntou se eu estava satisfeito com o curso, com os aposentos, com a comida, com os professores e demais encarregados; me ofereceu uma limonada. Tudo bem, tudo bem, eu repetia meio infantilmente, tentando entender o que viria depois. E o que veio depois demorou mais de meia hora para ser finalmente revelado – e envolvia diretamente o meu velho amigo Karsten Freitag.
O Doutor insistia em me indagar se eu recebera notícias recentes dele. Fazia pelo menos um ano que não nos víamos e nem trocávamos telefonemas ou mensagens. Eu o sabia baseado em algum lugar da Amazônia, com passagem por Santarém, ao que parece. Recebera a missão de evangelizar as comunidades ribeirinhas no Tapajós, que tinham sido deixadas à mingua da Palavra algum tempo antes, por falecimento de um veterano pastor batista norte-americano, que cuidara delas por décadas a fio. E o mais era apenas por ouvir dizer.
Ouvir dizer o quê, inquiriu o Doutor. Ele queria saber mais, por exemplo, se eu percebera algo diferente ou mesmo estranho no comportamento de meu amigo. A princípio neguei, mas depois resolvi abrir o jogo, pois na verdade um dos motivos do meu afastamento de Karsten era por percebê-lo um tanto heterodoxo com relação a certas tradições luteranas. Por exemplo, pelo uso repetido de palavrões nas conversas ou por algumas vezes ter me dito, como despedida, que ia beber umas em minha homenagem. Em uma ocasião me disse que a mulherada do lugar era infernal, expressões exatas dele, que eu sabia serem muito estranhas a um protestante, ainda mais em se tratando de um pastor luterano. Acabei por revelar, ao longo da conversa com o diretor, que tinha sido na verdade o próprio Karsten que deixara de me procurar a este tempo, antes de que eu fizesse o mesmo com ele. Era tudo o que eu tinha a dizer, Doutor…
Wilhelm me olhou de um jeito que me pareceu ser de confiança em mim e eu percebi que o pior já tinha passado – ou nem mesmo se ameaçara de verdade. Mas eu estava enganado.
Ele agora me confessava sua preocupação com Karsten, pois já sabia das coisas que eu lhe contara e, pior, tinha muito mais a acrescentar. O que acontecera com o aquele pastor, agora perdido, seja em meio à floresta amazônica ou em outros sentidos da palavra, era estarrecedor. Primeiro parara de dar notícias a seus superiores em Belém, depois se negara a prestar contas do dízimo recebido dos fiéis e de outros valores que lhe eram enviados pela Igreja. O material de divulgação que vinha da matriz em Porto Alegre começou a ser simplesmente devolvido, por falta de quem lhe procurasse no correio. Um diácono que passara pela comunidade onde Karsten era ministro, tivera apenas notícias vagas dele. Por exemplo, que abandonara a sua esposa legal, uma galega de Passo Fundo e agora vivia amancebado com uma cabocla, que havia transformado seu salão de orações em local para festas estranhas. Tinha ouvido dizer ainda, que ele pregava o amor livre, dizendo que isso era bom aos olhos de Deus, por se dar sem vínculos egoístas ou sentimentos de possessividade em relação a esposas e maridos. Não bastasse, dera para andar todo o tempo de calção e camiseta regata, como a maioria dos ribeirinhos, destoando completamente das normas luteranas do recato, aceitando também que em sua igreja os fiéis assim se vestissem. Convocado repetidas vezes pelos superiores em Belém e mesmo no Sul, ignorava solenemente os chamados.
A esta altura eu voltei a ficar preocupado. Afinal, o que poderia querer de mim o Doutor Wilhelm, diante de uma situação tão escabrosa, que ele próprio parecia se considerar impotente para enfrentar?
Ele logo me esclareceu. Queria que eu fosse ao local dos acontecimentos para confirmar se e até que ponto eram verídicos. Disse-me também que havia um plano para resgatar o pobre Karsten (qualificativo posto por ele) e reconduzí-lo à boa razão do espírito. E mais: que isso seria confiado a mim, que afinal de contas era uma pessoa que o conhecia desde a infância.
– Como? Eu quis saber, sem obter resposta no momento, já bastante temeroso com tais responsabilidades e com minhas preocupações acrescidas em várias oitavas.
Passei o resto do dia em estado de alerta, com um olho em Isaías e o outro, ou melhor, o ouvido, na campainha de meu quarto de diácono. No dia seguinte, Sua Excelência não me convocou. Pior, veio falar comigo pessoalmente, me convidando para uma conversa debaixo das mangueiras do quintal. Por dentro eu tremia, claro.
Desta vez não me fez prolegômenos, indo direto ao assunto. A Congregação pagaria minha passagem até Santarém e de lá forneceria o que fosse necessário para eu chegar a cidade de Belterra, onde Karsten agora estava praticamente homiziado. E deixou bem claro que a minha missão não era simplesmente de reconhecimento do terreno ou de apuração do comportamento do personagem. Bem mais do que isso, cabia trazer o trânsfuga (palavra dele) de volta, custasse o que custasse e para tanto havia sido preparada uma estratégia, que me foi logo apresentada: uma caixinha de metal com seringa e ampola de medicamento. E mais um recado claro: se Karsten resistisse à persuasão, que eu desse um jeito de pegá-lo à força e aplicar nele o conteúdo da seringa. Isso o tornaria dócil com um cordeirinho, me garantiu o doutor, aceitando me acompanhar até onde eu impusesse.
Não havia urgência, entretanto, dada uma seca muito forte em toda a região do Tapajós, com o rio baixo e a navegação impedida. Dentro de dois ou três meses, com certeza, haveria condições para a execução do plano. Enquanto isso poderíamos caprichar no planejamento, para o que também contava com a minha ajuda. E antes que eu dissesse pau ou pedra me alertou: – que isso fique somente entre nós. E mais: na volta e diante do sucesso da minha intervenção uma vaga estaria garantida para mim no principal colégio da Congregação. – Uma posição muito disputada – completou.
Era setembro. Passou um mês, e depois, quase dois. No final de outubro o rio voltou a fluir e eu peguei o avião para Santarém, com escala em Belém. Na capital fui recebido pela própria esposa do maioral de lá, que disfarçou, mal e mal, que não sabia da missão que me fora confiada – apenas que era algo muito importante para a Igreja e que seu resultado faria de mim uma pessoa abençoada.
Abençoado ou não, eu, um pobre diácono, aquilo era para mim missão a cumprir. No final do arco-íris havia um emprego, que era o meu sonho real naquele momento, pois queria me casar e ganhar independência total do regime que me era imposto em Lutherhaus. Fui para o sacrifício me consolando com a ideia – sem qualquer fundamento concreto até então – de que talvez as coisas não fossem tão difíceis como eu pensava. Desci do avião em Santarém ainda com tais pensamentos otimistas, mas o próximo passo, o embarque para Belterra já começou a me mostrar que o pior ainda estava por acontecer.
No velho porto sujo e cheirando a peixe e esgoto, sobrevoado por uma multidão de urubus, havia várias embarcações, de tamanhos variados aguardando passageiros. Não havia hora marcada para sair, pois isso só acontecia quando a lotação estivesse completada. O conceito de lotação significava ali, pelo que pude ver, pelo menos o dobro da capacidade recomendada, em termos de pessoas embarcadas e carga. O barco que me era destinado se chamava Tucuxi, o que me pareceu um nome em sintonia com a missão que me fora destinada pela Igreja. A partida ainda iria demorar, pois apenas uma pequena parte das redes abertas no convés superior estava ocupada. Não precisei comprar uma para mim, pois tal peça fazia parte do pacote da viagem, como se fossem as poltronas de um ônibus ou avião. Me acomodei naquele pano sujo como pude, procurando me abstrair do cheiro de corpos e sei lá o quê mais que dali se exalava. Cheguei no porto por volta das cinco da tarde e pouco depois da meia noite a viagem começou.
Lentamente vadeamos e eu me distraí vendo as luzes lentamente fugindo em ambas as margens. Com menos de uma hora de viagem, o barco estacionou para pegar passageiros e entre encostar, aportar, acolher gente e carga, vadear de novo, havia transcorrido mais outra hora inteira. Tentei dormir, mas o calor e o barulho das conversas era tanto que isso me pareceu totalmente impossível. Além do mais, nunca consegui dormir em rede. Assim me resignei a passar uma noite em claro. Os passageiros nas redes ao redor de mim eram incansáveis em conversar, cantarolar, dar risadas, contar piadas, sem parar de comer seus quitutes oleosos e cheirando a peixe. Aqui um cristão paga todos os seus pecados, pensei. Aliás, por falar nisso, logo percebi que boa parte da gente que viajava comigo eram mulheres com saias no meio da canela, tanto elas como os homens vestindo camisetas em que frases bíblicas se repetiam, geralmente com erros de sintaxe e baixa sintonia com a realidade.
– Oh Deus, perdoai-os…
Lembrei-me de meu bom Isaías: anunciai-nos as coisas que ainda hão de vir, para que saibamos; ou fazei bem, ou fazei mal, para que nos assombremos, e juntamente o vejamos. Ajudai-me, meu Profeta, o que eu não daria para saber o que essa aventura me traria e se eu escaparia são e salvo dela…
Aquela viagem estava apenas começando… Logo que escolhi minha rede, vi que a dois metros dela estava uma senhorinha que não parecia muito bem. A filha, que a acompanhava, explicava para quem quisesse ouvir, que a mãe voltava para casa depois de algumas semanas internada na cidade, desenganada pelos médicos. Ela me pareceu estar, na verdade, agonizando, bem ali naquela rede, quase a meu lado. A filha, pródiga em detalhes, acrescentava que a mãe era uma pinhoneira na região, pois tinha vindo do Ceará ainda menina e havia trabalhado, como babá, para uma família de americanos da Companhia Ford na grande plantação de borracha, muitos anos antes. Depois tudo acabou, explicava, e sua mãe, que dera à luz a ela própria, a narradora, com assistência direta de médicos gringos, agora tinha que ir a Santarém mesmo para pequenas consultas médicas. – Este lugar só piora, suspirava.
Em estado de piora mesmo, e a olhos vistos, estava a velhinha. Ela mantinha os olhos fechados, sem se comunicar com a filha ou com qualquer outra pessoa, respirando com algum ruído. Lá pela meia noite pareceu sair de sua letargia, abriu os olhos, tentou se levantar na rede, balbuciou qualquer coisa e tombou inerte. Estava morta. Isso desencadeou um movimento previsível na vizinhança, apinhada de redes e curiosos. Ninguém sabia ao certo o que fazer. O Imediato foi chamado e disse que a chegada a Belterra estava prevista para quatro da tarde do dia seguinte, mas só se corresse tudo bem, alertou. Um curioso disse que o melhor era desembarcar o corpo, pois transportar defuntos era contra as leis, e além do mais poderia dar azar. Este logo se calou porque a filha da falecida lhe advertiu que se intencionava fazer isso, que fosse com a própria mãe dele, não com a dela.
Dois dos expectadores, em momento diferentes, se aproximaram e segredaram alguma coisa à filha. O primeiro deles puxou da mochila uma Bíblia e começou a ler algum versículo, atropeladamente e ignorando totalmente vírgulas, pontos e parágrafos. E ia alterando a voz, chegando quase aos gritos, como se estivesse num púlpito de sua congregação pentecostal. O outro esperou a arenga terminar e de certa forma a repetiu, com um pouco mais de cerimônia, contenção verbal e letramento.
Enquanto isso, a velha defunta, na sua rede, tomava parte em tudo, com a serenidade dos mortos.
Findo o tumultuado ofício, vi que os dois pastores se dirigiram à proa do barco e ali começaram a conversar; logo percebi que era um diálogo um tanto acalorado. Em poucos minutos chegaram às vias de fato, com o mais alto deles tentando jogar o oponente dentro do rio. Armou-se o deixa-disso, mas a participação de dois tripulantes deixou os ânimos aparentemente domados. – O que seria aquilo? Indaguei da minha vizinha da direita. Briga antiga, ela me esclareceu. Há muito viviam às turras, cada um acusando o outro de estar roubando fiéis de suas respectivas igrejas de periferia. Outra mulher acrescentou: – que nada, tem rabo de saia no meio disso! Segundo ela, o baixinho também era acusado pelo outro de ter lhe roubado uma fiel especial, a mulher com quem ele mantinha um romance.
Será que Isaías, que viveu em uma época de muito tumulto e disputas, teria presenciado alguma cena como aquela?
Nisso um baque surdo se ouve, o motor se silencia e na sequência o barco estaca, em uma curva do rio, longe das duas margens. Um alarme soa. Alguém fala em incêndio e muitos se agitam em suas redes. De uma fileira de luzes na margem esquerda chega o som de uma lambada, além de vozes e gritos frenéticos, de homens e mulheres. Me envergonha repetir o que se cantava, mas o faço por fidelidade ao momento: – chega aqui meu benzinho, vem sentir o meu quentinho, o meu carinho. Quanto mais se sofre aqui, mais se esbalda – pensei. Durante uma ou duas horas, sem outra explicação que não fosse a especulação dos passageiros, depois de ruídos de quem bate um martelo, o Tucuxi retoma a marcha, embora agora parecesse mais fatigado, pela mudança do barulho que o motor produzia abaixo de nós.
Mal retomada a viagem, um empurra-empurra domina o convés. Era uma confusão entre duas mulheres, que logo se engalfinharam, bem no estilo dos dois pastores. Eu tinha visto que o filho de uma delas era autista ou algo parecido, pois gritava de tempos em tempos, por nenhum estímulo. Apenas berrava, de forma dolorosa e sem sentido. Uma delas, pelo que percebi, reclamara da mãe, que incontinente partiu em defesa do filho, atacando a ofensora. Esta não se deu por vencida e rebateu a outra, dizendo que aquele devia ser um filho que a infeliz tivera com o Diabo, um castigo de Deus. A turma do deixa-disso parecia estar em plantão permanente, pois logo apareceram dois ou três para acalmar os ânimos. Daí em diante eu só ouvi os gritos da pobre criança, cada vez mais rouca, cada vez mais espaçados. Parece que finalmente conseguira adormecer.
Numa breve parada, em um lugar sem nome e sem maiores predicados, em plena madrugada, uma família sobe a bordo: pai, mãe e dois filhos já quase adultos. Novo rebuliço no convés. Da rede vizinha ouço o comentário que são leprosos e por isso todo mundo quer fugir deles.
A sequência de perigos e emoções parece nunca terminar a bordo do Tucuxi. Logo em seguida uma voadeira rodeia o barco e tenta abordá-lo. Dois homens gritam que é um assalto e que todos deveriam mostrar o que tinham nas bolsas e sacolas. São interrompidos, entretanto, pelo Imediato acompanhado de dois dos marinheiros, que os expulsam com um bastão de choque elétrico, reforçado por enérgicos golpes de remo. Um dos assaltantes fica ferido e grita palavrões. Fogem.
Uma mulher obesa tenta atravessar o emaranhado de redes para ir ao banheiro e é hostilizada pelos demais passageiros, que reclamam que seu corpanzil perturbava a imobilidade das redes. Chegam a dizer para ela até mesmo que gente com aquela bunda toda deveria ficar em casa, ao invés de perturbar a paz dos outros. Surgem risadas e vaias, entremeadas por palavrões. A ofendida ao mesmo tempo que responde às agressões com nomes sujos, empurra alguns dos que reclamavam dela. Naquele momento cheguei a imaginar que a pancadaria iria rolar solta, mas tudo terminou em risadas, e depois silêncio, eis que a manhã já se anunciava no horizonte da margem esquerda do Tapajós e o sono parecia, finalmente, ter tomado conta de todos.
Manhã chegada, topamos com duas ou três canoas que atravessavam o rio com imagens de santos e bandeiras e gente além da sua capacidade de carga. Alguém comentou que era dia de finados e que aquelas pessoas, de filiação católica, iam reverenciar seus mortos em um cemitério que ficava do outro lado do rio. Novo agito no convés, com um outro grito do tipo vão enterrar o Papa e chega de idolatria, com gestos de mão pouco lisonjeiros. Uma mulher, de saias incrivelmente curtas, decote profundo, peitos gelatinosos, pernas grossas e pintura carregada na cara, que até então permanecera quieta, resolveu intervir e passar, aos gritos, uma lição de moral nos demais, dizendo que a religião dos outros deveria ser respeitada. Gritos e vaias ecoaram das fileiras de redes mais distantes e alguém acrescentou: – logo você para dizer isso? Essa é boa…
Lembrei-me novamente de Isaías. Impossível não recordar dele a cada momento desta travessia. Ele deve ter dito alguma coisa apropriada a momentos com estes que vivi no Tapajós. E toda a história estava apenas em seu começo.
Em certo momento pude ouvir alguém falar de um pastor chamado Carste e sua seita “PLN”, ou algo assim. Apurei os ouvidos. A narrativa, entre divertida e escandalosa, falava em sessões públicas marcadas por grande agitação, com promessas de liberdade e cura, mas também seduções e até sexo com menores. Haveria também certas experimentações com ervas nativas capazes de produzir estados alterados na mente das pessoas. Era só o que faltava no cenário e isso me fez atinar realmente com a grossa confusão em que havia me metido. Mas tudo bem, se no final eu fosse pelo menos recompensado com um bom emprego ou quem sabe até um cargo na hierarquia administrativa da Igreja. O fato é que o ponto de possível retorno já havia sido ultrapassado, mesmo antes de eu pegar o avião em São Paulo.
Aquela viagem parecia que nunca ia terminar, mas finalmente desembarcamos em Belterra. Depois de me equilibrar perigosamente na pinguela que conduzia os passageiros do barco à terra firme e tendo escapado de um banho nas águas lodosas, fedidas e repletas de detritos do porto, alcancei o alto da barranca para procurar um merecido pouso, com um mínimo de conforto, quem sabe um banho e cama com lençóis limpos. Na escalada vi meio enterrado na lama um barco pequeno, que aqui chamam baleeira, que tinha escrita na lateral a mesma sigla que ouvira na conversa alheia, um pouco antes, ainda a bordo do Boto Tucuxi: PLN. Tudo indicava que o foco da minha procura finalmente seria alcançado. Restava saber o que significavam aquelas letras.
Procurei um hotel decente, mas o que encontrei foi uma pensão que não chegava perto disso, muito antes pelo contrário. Fazer o quê? Fiquei por ali mesmo. As paredes de madeira deixavam o quarto em calor insuportável, embora já fosse quase noite. Um velho ventilador fazia mais ruído do que propriamente produzia vento. Um cartaz advertia ser proibida nos quartos do estabelecimento a entrada de pessoas prosaicas, fosse lá o que isso significasse. Fui dar uma volta pela cidade e depois de perguntar aqui e ali sobre o Carste, descobri que ele agora morava numa vila rural, distante uns poucos quilômetros da sede, mas que sua igreja ainda existia não ficava longe de onde eu estava. Fui até lá, apenas para constatar o abandono de um prédio que mais seria adequado a uma oficina mecânica, mas que pelo menos em uma de suas paredes, um letreiro tosco, já esmaecido pelo tempo, esclarecia o significado da misteriosa sigla PLN: Promised Land Now. Mas porque em inglês, meu Deus?
A cidade ainda guardava vestígios de sua época de ouro com a presença dos norte-americanos, com algumas moradias no padrão daquelas que a gente vê em filmes made in USA, com jardins, ausência de muros, telas mosquiteiras, vidraças quadriculadas, alpendres. Mas havia, naqueles restos do sonho insano de Mister Ford, a marca do tempo, do descuido amazônico e do clima úmido dos trópicos. Aquilo tinha a ver com o slogan encontrado por Karsten? Será que ele andava a prometer a seus fiéis as benesses de um paraíso imediato, na próxima curva do rio? A volta a um passado glorioso que fora varrido pela floresta e pelas doenças? Mas por que em outra língua? Aquilo realmente não fazia sentido para mim…
As pessoas com quem eu conversei me indicaram que o homem que eu procurava estava por perto, no povoado de São Gabriel, cerca de 20 km floresta adentro. O encontro com Karsten era agora questão de tempo, cada vez mais curto, aliás, pois queria alcançar o homem antes que o Tucuxi voltasse rio abaixo, dentro de três a cinco dias. Uma nova viagem precisava ser feita, entretanto, felizmente bem mais curta. E lá fui eu corcoveando pela floresta, em um caminhãozinho Toyota, na carroceria transformada em lotação, entre porcos, galinhas, sacos de mantimentos e adubo, latões de querosene, mais algumas pessoas, inclusive a mulher que eu já vira no barco, aquela defensora dos católicos, com suas pernas maciças, lábios pintados e tudo mais. E ela, não sei por que, e que não tirava os olhos de mim.
A vila de São Gabriel, meu destino final – assim eu esperava – na procura de Karsten era um lugar desolado, perdido mesmo naquele fim de mundo, com restos de floresta, cães, porcos, ratos e lixo – muito lixo por toda parte. Achei estranho ver as ruas desertas, da mesma forma que em Belterra, na véspera. Logo, porém, caiu uma chuva e tudo se encheu de gente. Imaginei que assim fizessem as pessoas para se refrescar. E assim pude apreciar a fauna humana local, mulheres e meninas em camisetas e shortinhos, com as roupas molhadas mostrando-lhes os corpos em quase total transparência. Para os homens o obrigatório par formado por bermudões e camisetas regata. E pareciam todos felizes assim, quem era eu para desdizê-los?
Sobre a roupa molhada tornada transparente pela água da chuva já não me espantei. Aliás, começava a achar tudo normal ali. Lembrei-me da frase daquela canção que fala sobre não existir pecado ao sul do Equador – principalmente no meio dele, pelo visto. De fato, era pouca coisa que ainda me poderia surpreender por ali, pois no aeroporto de Santarém já havia visto um cartaz que anunciava um concurso chamado Miss Camiseta Molhada, com fotos sugestivas, revelando, sem qualquer pudor, mamilos, umbigos e curvas femininas, além de reentrâncias diversas. Dose cavalar para um protestante como eu.
Logo na chegada a São Gabriel a dona dos atributos físicos já descritos me perguntou se eu não pagaria uma cerveja para ela. – Não bebo, eu disse – mas quero sim conversar com você. Nada de intenções pecaminosas, claro, pois luteranamente aprendi a ser resistente aos vícios não só do álcool como da carne, mas pensei que talvez aquela criatura pudesse me dar informações sobre o objeto de minha viagem até ali.
Ela de fato conhecia o Carste, aliás de longa data, mas não ia com a cara dele, primeiro por ser católica (não das mais praticantes, claro), depois porque achava aquela história de PLN uma babaquice (palavra dela) sem muito sentido, por ali se misturar religião e pouca-vergonha de diversas qualidades. De fato, eu percebi que ela dominava o assunto, quando enumerou algumas das tais sem-vergonhices. Aproveitou para me contar um pouco de sua história, sem que eu perguntasse por isso. Ela fora criada pela avó ali em São Gabriel, mas que vivia em Santarém há tempos, onde trabalhou de doméstica e babá, mas que agora havia feito um curso de massagista. E que se chamava Genitália, porque a mãe, Geni, era fã de um jogador de futebol italiano. Eu lhe atalhei a conversa, porque tinha pressa e além do mais só tinha um interesse agora, o Karsten – e a Toyota voltaria a Belterra antes do final da tarde.
Com o beiço estendido Genitália me mostrou lá adiante um prédio rosachoque, a sede da tal seita. De fato, no frontão havia um anúncio em neon, apagado àquela hora do dia, mas que logo pude ler de perto: Promised Land, Now: aqui você se salvará.
Era uma construção inacabada, na qual havia um salão sem reboco ou caiação, com alguns bancos e uma espécie de púlpito ao fundo. Estava deserto naquele momento, mas quando rodeei o terreno para ver se dava com alguém, me apareceu, surgido do nada, um sujeito baixinho, bem do tipo originário, perguntando o que eu desejava. Uma figura que minha mãe rotularia de cara-lambida, moreno, imberbe, com os cabelos, umedecidos pelo suor, caindo pelo rosto e pela nuca. Indaguei do Carste e ele fez um sinal com a mão, como me pedisse para esperar, o que me deixou animado.
O tal sujeito convidou-me a sentar dentro do “templo” e lá se apresentou como Epotamênides Good, fazendo questão de acentuar o sobrenome em inglês (não é Gud nem God: é Good, com dois ‘o’!), que significava bom ou bacana, segundo ele. Quanto ao primeiro nome, que tive que anotar em seguida para não esquecer, atribuiu ao seu pai judeu, orando ele próprio por tal credo até certo tempo atrás, abandonando-o por ter se convertido à fé verdadeira cristã. O sobrenome inglês tinha sido adotado por ele, depois que conhecera um missionário batista norte-americano, chamado Calvin, que passara por sua terra. Me disse ainda que era o secretário da PLN e que ajudava o reverendo em suas tarefas, até que ele adoecera e teve que se afastar dos cultos. Ele falava de Karsten, claro, tratando-o de Reverendo. No mais, me disse que era um estudioso da Bíblia, especialista em Velho Testamento. E num gesto que me pareceu magnânimo, aquiesceu que eu poderia tratá-lo como Popó, simplesmente. Pelo visto ali as pessoas gostavam de falar de si mesmas – eu não havia perguntado a ele nada, ainda.
Sobre o nome Promised Land me garantiu que fora ele que tinha sugerido a Karsten, que logo o aprovou, acrescentado depois vírgula Now. E que isso era resultado das conversas que teve com Calvin, que lhe revelou ser membro de uma igreja com igual denominação em Louisiana, nos Estados Unidos.
Dito assim, parece ter sido uma conversa simples e rápida, mas sei eu o quanto me custou. Popó era completamente gago e transformava cada sílaba em três, quatro ou mais, lembrando uma metralhadora ou um motor avariado de baleeira, sei lá. Naquela terra, realmente, tudo era possível: de Genitália a Epotamênides, tudo em uma única manhã.
Sobre ela, Popó me disse que havia visto nós dois conversando e que eu não deveria acreditar muito nas coisas que ela tenha me dito, pois Genitália era intrigante como quê. Ela fora discípula da PLN e mesmo usufruíra da intimidade de Karsten, mas que haviam se separado por excesso de ambição dela.
Insisti que queria ver o reverendo e ele aquiesceu. Me guiou por um caminho no mato, que dava acesso a uma espécie de barracão, no fundo do terreno da igreja. Entrei no ambiente escuro e pude ver, finalmente, em um catre no fundo do cômodo, a pessoa que eu procurava. Mas não era o mesmo filho de alemães que eu conhecera em minha cidade, sacudido e saudável. Karsten Freitag era agora apenas uma sombra do outro. Muito magro, esquálido mesmo, com a barba de muitos dias, olhos injetados de amarelo e sangue, bafejando um hálito terrível. Saudei-o e ele mal respondeu. Disse a ele a que vim e quem me mandou buscá-lo e ele reagiu com um gesto resignado de concordância, inclusive aceitando partir comigo ainda naquele mesmo dia. Aquela seringa e a ampola de remédio não seriam necessários, felizmente.
Daí a prepará-lo para entrar na Toyota foi um átimo. Bagagem sua era apenas uma malinha de mão, tão leve que parecia estar vazia. Popó me ajudou levá-lo até a parada e lá tivemos praticamente que carregar seu corpo inerte para instalá-lo num dos bancos da carroceria. E assim fomos pela floresta a fora, cada solavanco recebido com um esgar de dor e mal-estar por parte do resgatado.
Ele de repente se manifestou com palavras, que me eram quase incompreensíveis. Mas consegui entender bem o que me soava lugubremente como uma ladainha: horror, horror…O horror. E repetia isso sem cessar.
Meu mal-estar com tudo aquilo ainda estava longe de acabar. A volta do Tucuxi estava prevista para daí a cinco dias. Pelo menos agora eu conseguira vaga em um hotelzinho simplório em Belterra, mas pelo menos equipado com um ventilador que fazia jus ao nome. Tive que pegar um quarto com duas camas, uma para mim, outra para Karsten, que piorava cada vez mais. Em alguns momentos se retirava para um mundo de sombras, onde passava horas inteiras. Às vezes, no meio da madrugada, tinha ondas de lucidez. Numa delas me falou de Leatriz, Beatriz ou um nome assim, que eu entendi ser uma pessoa muito importante para ele, talvez a galeguinha de Passo Fundo, de quem eu já havia ouvido falar. Na ocasião, pediu que eu lhe trouxesse a mochila ensebada e de lá retirou o único volume, um envelope cinzento grosso, que parecia cheio de papéis, talvez fotos e cartas. Pediu que eu fizesse chegar às mãos dela – e eu prometi que o faria, embora não tivesse a mínima ideia de como e onde encontrar tal pessoa. Tive que me aproximar de seu rosto para poder ouvi-lo e confesso que o hálito de alguém nunca me pareceu tão desagradável. Aquele homem estava, de fato, muito doente. Vi nele a materialização de uma frase de um livro que eu havia lido certa vez, que falava de um homem portador de uma loucura voraz e impiedosa, possuído por algum demônio dissimulado, de olhar débil.
Três dias depois, depois de ter passado uma manhã e tarde ofegante e nauseado, recitando ainda a sua ladainha, percebi que ele se calara na cama ao lado, no meio da noite. Estava morto. Esperei o dia amanhecer e fui tomar as providências cabíveis. Por sorte, pelos préstimos do porteiro do hotel, que parecia estar acostumado a situações como aquela, havia uma funerária disponível na cidade, que me atendeu prontamente, cuidando do atestado de óbito e de outras providências burocráticas. Com o saldo que ainda havia na conta que Wilhelm abrira em meu nome, encomendei para ele um enterro sem maiores honras, a ser realizado naquele mesmo dia. Acompanhei o caixão coberto do pano roxo ao pobre cemitério de Belterra, que sem dúvida não pertencia à era fordiana, e na companhia de um cão sarnento e solitário que por lá apareceu – ou ali habitava – prestei a Karsten Freitag as despedidas possíveis, em uma cova rasa. Não havia tempo para mais do que isso.
Assim voltei a Lutherhaus. Quando lá cheguei me informaram que Wilhelm tinha viajado para a Alemanha, onde passaria alguns meses. Quis saber se havia deixado algo para mim, mas nada havia. Sigrid, a velha secretária dele, apenas me disse que o Doutor entraria em contato comigo tão logo retornasse. Falei a ela da encomenda para Beatriz,
nome que ela corrigiu para Leatrice, dizendo saber quem era e que faria contato com ela.
Assim se passaram mais de dois meses.
Um dia recebi um telefonema de alguém, em nome de Wilhelm. Era uma enfermeira, ou alguém com tal função, que trabalhava em uma instituição para idosos pobres e abandonados, mantida pela
Congregação Luterana no sul do país. Ela me disse que havia uma vaga para assessor no tal asilo, mas quando lhe perguntei para qual função exatamente foi evasiva, falando apenas de prestar assistência espiritual aos internados, fazer contato com as famílias deles, resolver burocracias, coisas assim. Sobre o salário, foi ainda mais vaga, me dizendo apenas que eu teria ali cama e comida de graça. Agradeci, aquilo estava longe de ser aquela tarefa apostólica que o Doutor me prometera. Como eu insistisse na questão do vencimento, a mulher falou de uma quantia que era pouco mais do que um salário-mínimo, de maneira que recusei enfaticamente, avisando que iria procurar outro tipo de oportunidade.
Poucos dias depois Sigrid me avisou que eu podia levar a encomenda do Karsten até Lutherhaus, porque a destinatária estaria por lá às tantas horas. Lá fui apresentado a uma mulher mais ou menos de minha idade, loura e muito pálida, com longas tranças e vestida como uma crente tradicional, que esboçou o que me pareceu ser uma contração de desgosto na face quando lhe falei do envelope cinzento. Mas pegou-o de minha mão, sem qualquer entusiasmo e eu me despedi dela e da velhota de forma ainda mais contrafeita. Passei pela tesouraria da Congregação para receber umas diferenças das despesas da viagem que ainda me eram devidas, fui à cozinha beber um cafezinho e rever algumas das minhas irmãs de fé que lá trabalhavam e desci à rua.
Não sei se isso chegou a me surpreender, mas vi atirado na lata de lixo da portaria da Lutherhaus, sem sequer ter sido aberto, o envelope que Karsten parecia especialmente empenhado em que fosse entregue a Leatrice. Em todo caso, resolvi recolhê-lo, não sei bem por que, talvez para dar àquilo um destino mais digno. Isso adiantou pouco, pois na mesma noite, voltado para casa, fui assaltado a caminho da rodoviária e me levaram a mochila onde tinha guardado o tal pacote.
De toda forma, não tive mais notícias de Leatrice, mas na conversa com a velha secretária da Luther tiver certeza que era ela, de fato, a galeguinha de Passo Fundo, de quem eu ouvira falar antes.
E assim se encerra esta história?
Não totalmente.
Eu retomara minha vida, arranjara um emprego de conferente de cargas em uma empresa de construções e já me conformava com esta nova situação, longe da hierarquia religiosa e sem grandes chances de crescimento profissional. Um dia me chegou uma carta, de ninguém menos que Popó, que agora estava em Roraima, pelo que vi no carimbo dos Correios.
O gaguinho me surpreendeu pela fluidez de sua escrita. Ele se mostrava até competente naquilo, o oposto verdadeiro de sua comunicação pela palavra falada. Sobre o Reverendo Karsten, me contou que providenciara para ele um túmulo mais digno do que aquela cova rasa. Disse que resolvera “adotar” a minha já conhecida Genitália, para fazer com que ela levasse uma vida menos ou nada pecaminosa e que viviam juntos agora. Deu notícias gerais de sua nova vida e finalmente chegou ao ponto culminante: um convite para que eu e ele criássemos uma Igreja lá no lugar em que agora vivia, onde havia, segundo ele, não só muito dinheiro circulando como também muita gente, principalmente venezuelanos, precisando de assistência espiritual. E mais, que eu era talhado para aquilo, pois conhecia bem a Bíblia e tinha o dom da palavra. Já ele, que não tinha tais atributos, poderia cuidar da parte administrativa e “comercial”, acrescentando que Genitália já dava mostras de recuperação espiritual e estava se revelando uma discípula fiel e compreensiva a respeito dos ideais de uma empreitada como aquela, se destacando em arrebanhar novos fiéis. Ela poderia nos ajudar bastante.
Tinha até um nome em vista para tal empreendimento, Missão Sagrada do Gozo e da Alegria, adicionando à carta um versículo de Isaías onde tal expressão aparecia – pelo menos agora em português.
Os resgatados do Senhor voltarão e virão a Sião com júbilo; alegria eterna se derramará sobre suas cabeças; gozo e alegria os alcançarão e deles fugirão a tristeza e o gemido.
Fiquei pensando de mim comigo se isso não poderia ser uma proposta a considerar… Sem preconceitos.
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