Madame Bovary revisitada

– Focácio, dê um pulo no IML para ver se apura alguma coisa sobre o suicídio daquela mulher. – Mas o senhor deve saber que a linha do jornal deve obedecer a certas regras, entre elas a não divulgação de coisas assim. – Meu filho, desse negócio de ‘linha do jornal” entendo eu, não queira se meter no meu lugar, vai acabar no prejuízo.

Este aí é o Baltazar, que eu chamo, por conta própria, de Baita-Azar ou, simplesmente, Baita, chefe da redação deste Correio do Vale. Se é que se pode chamar assim esta espelunca que não passa de uma sala e um banheiro, em um fundo de corredor num prédio prá lá de fuleiro, onde só trabalhamos eu e ele. Ele jornalista sem diploma, que já tentou a vida em várias redações, grandes e pequenas, mas no geral medíocres e eu, estudante de jornalismo. Ele me chama de Focácio (ou como ele insiste, com dois “c”: focaccio), não por alguma referência gastronômica e sim porque aqui eu sou o “foca”. Mas o meu verdadeiro nome é Gustavo.

– Vai lá e vê se apura alguma coisa que ainda não sabemos, porque afinal de contas não é uma morte comum, mas sim da mulher de um delegado de polícia. – Sim senhor!

A única coisa que eu faço aqui, na qual ele parece depositar confiança irrestrita, é ir apurar este tipo de coisa no IML, porque ele sabe que tenho relações lá, ou seja, conheço o Melo, criatura sinistra, meio primo de meu pai, que trabalha por lá deve fazer um século. E o que é pior, adora o que faz, aquele negócio de guardar e liberar cadáveres das geladeiras, depois de lhes examinar as vísceras. Tal sujeito nunca ligou para minha cara, mas depois que me viu trabalhando no Correio do Vale, parece que viu nisso uma oportunidade de ter um upgrade em sua vida irrisória de defunteiro, e volta e meia me passa informações quentes, como, por exemplo, aquela de um pênis cortado que foi achado em um matagal aqui perto.

Coisas assim o Baita adora, claro. Eu não, meu negócio é outro. Estou no jornalismo porque gosto de escrever e, principalmente, de ler. Tenho simpatia especial pelos chamados clássicos, me ligo num Machado de Assis, num Pessoa, num Eça, num Saramago, sem esquecer dos franceses que são meus prediletos, ah, um Flaubert, um Zola, um Vitor Hugo… O Baita? Este aí nem sei o que já leu na vida… Talvez o almanaque do Biotônico Fontoura. Eu podia ter feito vestibular para Letras, mas fiz jornalismo porque tenho simpatia por tal carreira, principalmente quando vejo que muitos escritores foram também jornalistas ou, pelo menos escreveram para jornais, como Drummond, Cony, Rubem Braga, Ruy Castro, Trumbo, Orwel, Hemingway, e muitos outros que admiro. E eu um dia quero chegar lá: escrever livros e, principalmente, ter leitores e até ficar famoso.

Mas não é que dessa vez o Baita tinha razão? O Melo logo me falou de algo sensacional, relativo à defunta, mas primeiro me fez garantir que o meu chefe de redação iria colocar uma notinha sobre ele na coluna social do Correio. Como o Melo me garantia que era coisa boa mesmo, liguei para o Baita e ele me falou que sim, principalmente se eu confirmasse com ele, de forma prévia, a relevância de tal achado.

Tinha acontecido o seguinte, a mulher do delegado, de nome Eva, se atirara debaixo do metrô, na calada da noite, em momento que não tinha ninguém na estação para empurrá-la, coisa que até ficou registrada nas câmeras de segurança. No seu modo mórbido e atroz, o Melo ainda me contou que ela não tinha ficado retalhada pelas rodas do trem, pois fora projetada para o canto da linha e teve “apenas” traumatismos generalizados, morrendo na hora.

Mas afinal, o que você tem assim de tão importante para me mostrar – indaguei eu. Ele foi até um armário nos fundos de seu cômodo de trabalho e me trouxe uma bolsa de mulher, meio amarfanhada e com marcas escuras, provavelmente de sangue. – Espie aí dentro, me falou ele. Eu abri e nomeio daquela bagunça típica das bolsas de mulher tinha um caderno. – Leia, disse ele. Isso ficou esquecido aqui.

A primeira página me mostrou que aquilo era um diário, e começava assim:

Merda de vida. Para quem perdeu a mãe cedo, mas teve um pai super afetuoso a cuidar de si, minha vida poderia ter sido melhor. Estudei em colégio de freiras, dos melhores da cidade, sempre tive para mim tudo o que queria, fazendo inveja às minhas colegas de situação financeira até melhor que a minha. Com quinze anos ganhei uma viagem de avião para São Paulo e lá passei uma semana com umas primas de meu pai, fazendo os passeios mais variados, comprando roupas e livros, e até mesmo conhecendo o mar em Santos. Ah, o mar, que maravilha é o mar! Ali, de frente para aquela imensidão, eu prometi para mim mesma que ainda iria fazer grandes viagens através dela, em grandes navios ou, pelo menos, participar de algum daqueles cruzeiros em que Roberto Carlos canta, no mês de dezembro. E que teria boa companhia para isso, claro.

Liguei de novo para o Baita, li este trecho para ele e lhe falei que aquilo era apenas um fragmento do que havia no tal caderninho. Ele mais que depressa me falou que dissesse ao Melo que publicaria não só uma, mas várias notas na coluna social, uma por semana, para não dar na vista, em troca daquilo. Nisso, eu lhe dei total razão, porque aquele material de fato prometia revelações importantes, principalmente porque ao folhear rapidamente algumas páginas seguintes pude ver que havia nelas citações a pessoas importantes da cidade, inclusive ao marido. Aquilo era prenúncio de um achado e tanto, mas eu não estava interessado em furos de reportagem ou em alguma coisa ilícita, mas nas histórias que aquele caderno devia conter. Meu radar de quase-futuro-escritor me dizia que ali deveria haver algo substancioso. Mas juro por Deus que eu me via naquilo mais como um possível cronista ou romancista de que como um reles jornalista, ainda mais aprendiz.

Como já estávamos no final do expediente no jornal, deixei para mostrar aquilo ao Baita somente no dia seguinte e corri para degustar aquela maravilha em casa. No dia seguinte meu patrão saberia de tudo, mas era minha a primazia.

A narrativa da falecida de fato não decepcionava e ela até dominava razoavelmente bem e até com capricho as manhas da escrita. Ela falava longamente de seu pai, um plantador de tomates, ou coisa assim, que ficou viúvo quando ela tinha cinco ou seis anos. Criou-a praticamente sem o apoio de uma família, por alguma razão, e a lembrança da infância dela era muito ligada a roças, a chuvas e estiagens, a entregas no CEASA, a pragas de tomateiros, a períodos de fartura associados a escassez. O pai parecia ter se conformado à viuvez e pelo visto era um homem muito casmurro, embora ela o elogiasse o tempo todo como pessoa carinhosa e cuidadosa com ela.

Sobre o colégio, aliás, uma conhecida escola de freiras aqui da cidade, ela fez revelações sombrias, sobre como eram distinguidas as alunas, em termos de classe social. Ela, por exemplo, filha do tomateiro, se sentia tratada com desprezo, jamais convidada para subir ao altar nas coroações anuais de Nossa Senhora do mês de maio, ou mesmo para receber dignatários com os discursos ensaiados de praxe. Isso acontecia apesar de ser ela uma das melhoras alunas da classe, que se destacava especialmente na escrita. Sobre os rapazes ela era especialmente aguda:

Eles ficavam na porta do colégio, toda tarde, para nos ver sair e ficar dizendo gracinhas, eu não ligava, mas tinha colegas que achavam aquilo o máximo. Me achavam metida a besta, mas a verdade é que sempre me considerei um degrau acima, em termos intelectuais, das pessoas da minha idade, principalmente dos rapazes, que eram um horror em termos de imaturidade. E já havia ali discriminação. Quando uma turma mais periférica começou a frequentar as tais saídas da tarde, a madre superiora simplesmente chamou a polícia para espantá-los, coisa que ela nunca tinha feito quando eram apenas os boys da classe média e média alta, boa parte deles irmãos das próprias alunas do colégio Nossa Senhora das Dores, que ali estavam. Entre aqueles outros, mais pobrezinhos, estava o Bogari, que acabou entrando, malgrado meu, em minha vida.

Este Bogari vai fazer história, como se verá adiante.

Eva continua narrando: o certo é que havia rapazes à espreita daquelas moçoilas, seguramente todas elas virgens. As freiras se desdobravam na vigilância, distinguindo, naturalmente, a classe social dos possíveis predadores. Mas quem se impunha em tal cenário era o pai. Vinha frequentemente buscá-la, em sua velha camionete, no final das aulas, fazendo cara feia para algum dos rapazes mais atrevidos no qual percebesse algum gesto de flerte ou apenas desconfiasse disso. Na roça era ainda mais taxativo e fechado a interlocuções com a filha, quase não permitindo sua aproximação com os rapazes locais, a não ser em momentos de festas religiosas, vedando terminantemente que algum deles viesse até a casa e até mesmo afugentando algum mais ousado. Ela afirmava que muitas vezes ouvia do pai a justificativa de que estava apenas protegendo-a, mas que quando chegasse a hora – e a pessoa certa para ela – certamente haveria de relaxar a ferocidade que demonstrava todo o tempo.

Até que aparece o Bogari, apelido pelo qual era conhecido um certo Carlos, filho de outro Carlos, também cognominado Bogari, assim como outros membros da família. Tal apelativo, de origens obscuras, talvez fosse sobrenome mesmo. Ele era filho de uma família das redondezas, mas havia saído para estudar fora, para ser advogado, e só retornava à comunidade nas férias. Eva, na flor da idade – e dos hormônios – começou a prestar atenção nele em uma das tais festas da igreja, quando ele, a partir do nada lhe ofereceu um morango-do-amor, sem maiores palavras. Só se viram seis meses mais tarde, nas férias de final de ano e aí ele foi mais caudaloso nas palavras. Mas não provocou na mocinha maior entusiasmo. Nas palavras dela mesmo:

Parecia que finalmente alguém se interessou por mim. E por milagre, meu pai viu e não fez a cara feira de sempre. Aquilo era melhor que nada com certeza, mas eu sinceramente achava ele muito sem jeito, um tipo envergonhado e sem assunto, sempre insistindo nas mesmas coisas. Na ocasião só falava das aulas que tinha na faculdade de direito, como se quisesse me ensinar a ser também advogada, mas sem prestar atenção se eu estava ou não interessada naquilo. O pior de tudo: estava se preparando para fazer concurso na polícia, o que para ele era o máximo, mas para mim uma boa porcaria. Um dia, a partir do nada, pediu diretamente a meu pai se ele podia nos visitar e o velho, como eu já esperava, concordou. Aí começou a pior parte, porque ele começou a vir duas ou três vezes por semana, contando com total neutralidade, ou melhor dizendo, com visível apoio de meu pai, que chegava até a preparar um café com bolinhos para ele, coisa que nunca fez para ninguém, chegando até a me lembrar que era hora de um tomar banho e me aprontar para receber tal visita. Cruzes! Quando finalmente terminou o período de férias, me senti aliviada, esta é a verdade!

Eva conta que não podia de fato se queixar de nada. O pai vivia tentando lhe adivinhar os pensamentos, presenteando com qualquer novidade que visse nos magazines da cidade, de aparelhos de som até vestidos que ela nem conseguia usar direito, de tão mal ajeitados que ficava em seu corpo. Um dia ela decidiu que era hora de viver sua vida própria e considerou que Carlos Filho, agora já emancipado e delegado concursado na polícia se tornasse o caminho para que isso acontecesse, não como destino verdadeiro – ela foi clara no que escreveu – mas sim como passaporte para chegar lá. E assim cumpriu as formalidades da época e do lugar: virgindade mantida, troca de alianças de noivado, enxoval e, finalmente, após um ano de preparativos, casamento na capela do lugar.  

A vida conjugal começou de forma um tanto medíocre para ela. O noivo, ao contrário do que poderia se esperar de um membro da carreira policial, era para lá de cauteloso nas artimanhas eróticas, pecando por extrema falta de iniciativa. Ela voltou virgem da lua de mel, porque o Bogari filho achou que as emoções das cerimônias religiosas, civis e familiares do casamento poderiam estar afetando os humores do corpo da esposa e sendo assim, seria melhor esperar. Não era bem o que ela desejava, mas como já estava possuída de certa gastura com os modos dele, aceitou aquilo sem se lamentar, embora continuasse a suspirar por eventos mais significativos na esfera do sexo, de acordo com o que ela lia, com curiosidade e desejo, em certos livros e revistas dedicadas ao assunto.

A consumação do casamento ocorreu daí a poucos dias, mas foi um episódio totalmente anódino e até indolor para Eva, longe de representar o clímax tão sonhado a partir das leituras da Contigo que ela colecionava. Resignou-se, tentando captar o que poderia haver de vida mais colorida além dos limites do pequeno apartamento em que viviam. Assim, assinou revistas, aprendeu flauta doce, passou a frequentar cinemas de forma quase compulsiva e, principalmente, se transformou em uma leitora voraz, consumindo todo tipo de literatura, assinando clubes de leitura e comprando livros após livros, antes mesmo que desse conta da aquisição anterior. Já o casamento, ia de mal a pior:

Inacreditável como este cara é vazio. Concorda com tudo o que eu falo (e eu confesso que às vezes falo umas doideiras só para ver reação dele), e então, no máximo, faz cara de interrogação e na maioria das vezes concorda, balançando a cabeça como um jumento. Deus me livre! Mesmo seus hábitos higiênicos impecáveis, o que para outras pessoas poderia até ser um fator positivo, me cansam. Fica uma hora inteira no banho, duas vezes ao dia e quando escova os dentes, ocupa uma meia hora a pia do banheiro, me obrigando a escovar os meus dentes e lavar o rosto no tanque da área ou na pia da cozinha. Tudo nele é fora de medida. Não ri quando eu conto alguma piada, fica me olhando com cara de quem não entendeu. No entanto, quando assiste um daqueles programas de besteirol na TV dá risadas enormes e barulhentas, como se sofresse de uma crise convulsiva, de um modo estranho, que certamente incomoda os vizinhos. Que horror, meu Deus!

Havia testemunhas naquela vida tão desbotada. Um vizinho, farmacêutico e também senhorio do casal, que ela não identifica pelo nome, passa a visita-los quase diariamente, para irritação dela. Igualmente, tenta se tornar numa espécie de conselheiro na vida deles, indesejado por ela, mas acolhido com satisfação pelo marido, com o qual priva inclusive de tertúlias à beira de boas cervejas no botequim da esquina. O tal farmacêutico, sua esposa, os filhos do casal e até a empregada doméstica deles passam a circular pela casa de Eva e Bogari como se não houvesse qualquer separação entre uma residência e outra, vizinhas de terreno. Da mesma forma, o dono de um armarinho de bairro, Jacó, também comerciante de roupas e bijuterias se aproxima do casal, ou melhor, particularmente de Eva, dado o volume de compras e encomendas que ela lhe fazia, gerando inclusive a abertura de uma “caderneta” informal de anotações para pagamento a crédito. Acima de tudo uma terceira e indesejada pessoa, a mãe de Bogari, separada do marido e em estado permanente de mal estar com este, além de tendenciosa na defesa intransigente do filho, passa a lhes frequentar a casa, sem medir a intensidade e a frequência dos palpites que lhes dedica, em questões financeiras, relativas a vestimentas dela, das relações com a vizinhança, aprovadas ou não por ela, etc. Sogra e nora mantêm relações azedas, envolvendo nisso o pobre Bogari, que fica inteiramente abobalhado e sem ter o que dizer ou o que fazer diante das polêmicas que surgem a cada dia entre as duas. Com grande alivio, ela registra a partida da sogra, dizendo que esperava que ela não retornasse mais à sua casa e à sua vida. Carlos Bogari podia ser valente em sua delegacia, mas em casa era uma figura completa e acabada de um ser incolor e sem opinião formada sobre qualquer coisa.

Nas aulas de flauta no conservatório da cidade, aparece a Eva um personagem novo, Leo, um funcionário de repartição pública, que ali estudava também, por quem ela demonstra inequívoca simpatia e com quem passa a ter encontros em uma sorveteria, depois das aulas musicais, sendo tratado por ela ora com olhos maternais, ora com certa volúpia, contida a princípio, mas depois escancarada. Ela trata o rapaz como um possível “amante”, mas nada confirma que tenham tido de fato alguma relação carnal, ou mesmo de contato físico mais profundo. De toda forma, em outro momento da narrativa, ela lamenta e até se desespera com a perspectiva, logo confirmada, da transferência dele para trabalhar em outra cidade.

Em certo momento, Eva registra uma gravidez e depois o nascimento de Berta, a quem ela dedica poucas linhas. Lamenta não ter dado conta do recado de ser mãe e nem ter quem ajudá-la em tais tarefas, de maneira que contrata uma mulher que também amamentava para cuidar da filha, ao ponto de permitir que esta levasse a criança para sua casa, para lá permanecer dias a fio. Em outro momento, resolve visitar esta suposta “creche” e só então se dá conta que a ama de leite vivia em estado de grande pobreza e que a filha ficava por ali jogada num colchão no chão, com a criançada e os cães, da casa e da rua, girando em torno dela, o que faz com que Eva resolva reverter a decisão e contratar uma babá para cuidar da menina na sua própria casa. Mas o certo é que sua relação com a filha alternava entre o total descuido e fases de aproximação e carinho exacerbado, tudo marcado por alternâncias de desgosto e culpa.

Entre o conformismo e a revolta, parecia ser o estado de espírito prevalente em Eva:

Ainda ontem ele chegou da delegacia mais cedo e me convidou para sair. Ou melhor, para comer uma pizza. As ideias românticas dele não passam disso. Nunca me propôs um cinema, uma noitada em um motel, uma viagem, mesmo a alguma cidade histórica próxima daqui, muito menos a uma praia. No meio disso tudo, uma tendência a declarações melosas, tiradas do nada, de feitio infantilizante. Fico até com nojo, lhe fecho a cara, entro em jejum sexual e nem assim ele se toca, chega a me pedir desculpas. Desculpas? Nem sei por quê. Mas essa vida que eu levo, acho que tenho que me conformar com ela. Se pelo menos tivesse uma profissão, um modo de ganhar a vida. Mas não tenho, dependo dele para tudo e para compensar tanta raiva é que, reconheço, lhe trato sem maior consideração, humilhando-o quando posso. Quando às vezes ele chega da delegacia querendo me contar das ocorrências do dia, prisões, batidas na favela, denúncias e outros acontecimentos banais, peço-lhe para parar com isso, porque tais assuntos só me afetam os nervos e me fazem mal. Não gosto de saber deles. E o picolé de chuchu me obedece imediatamente. Afe!  

Assim, a vida de Eva vai ficando insuportável, dia após dia. Por sugestão de uma das poucas amigas que tinha, Stael, resolve começar a frequentar uma igreja evangélica, mas logo se irrita com a avidez do pastor quanto ao pagamento do dízimo, e também porque em uma entrevista pessoal ele lhe pareceu querer seduzi-la, ao lhe propor uma espécie de sessão de exorcismo e descarrego, “no alto do monte, mais próximo de Deus”, à qual ela recusa e inclusive faz com que pare de frequentar a tal igreja, para tristeza e afastamento da amiga que lhe indicara tal procedimento. Na mesma ocasião, por sugestão do vizinho farmacêutico, que lhe achava “muito deprimida” e lhe receitava fortificantes e injeções de ferro, resolve também procurar um atendimento em saúde mental, em uma unidade de saúde pública do bairro. Ali, depois de um mês de espera, foi incluída, finalmente, em um grupo terapêutico, no qual frequentou duas ou três sessões. Isso, entretanto, só lhe fez piorar os sintomas, ao ver que os problemas que os demais traziam ali eram ainda piores do que os dela, além do mais quase sempre agravados pela péssima condição financeira das pessoas, geralmente mulheres, as quais, para piorar mais ainda a situação, geralmente falavam de maridos violentos e desocupados. Nada parecido com a vida dela, portanto.

Até que um dia ela conheceu Rodolfo. Assim ela o descreve:

Ontem eu fui comprar uns vasos para as samambaias que estou começando a cultivar agora. Aqui perto tem uma daquelas lojas de agropecuária, que vendem desde vasinhos de violetas até latões de leite, esporas, selas e sacos enormes de ração e adubos. Ele estava lá, o homem mais elegante e bonito que eu já tinha visto por ali ou em qualquer outro lugar, em toda minha vida. Devia ser cinquentão, mas não tinha um pingo de barriga, usava calça jeans meio suja, talvez por pegar no pesado, botas de couro que iam até os joelhos, camisa xadrez de caubói e mais a cara e os braços queimados de sol. Parecia um artista de cinema, até me lembrei daquele filme antigo, Ben Hur, que vi na TV há algum temp. Que pedaço de homem, meu Deus! E não é que ele bateu os olhos em mim e foi logo puxando conversa? Meu coração só faltou sair pela boca. La fora, deixou suas coisas em uma dessas camionetes 4×4, novinha em folha.    

Rodolfo vai, assim, ocupar páginas e mais páginas de seu caderno. Era um sujeito ousado, talvez até atrevido, chamando-a para tomar um café, ali ao lado, naquele mesmo dia do primeiro encontro, porque, segundo ele, também queria cultivar samambaias e precisava trocar informações com ela sobre tal assunto. Ela, que mal se iniciara em tal mister agrícola, mesmo assim não teve forças para resistir. Era pura conversa fiada, ao que parecia, mas para ela, vivendo o que vivia, era a música dos anjos. Mais velho alguns anos do que ela, talvez mais de 10, ele se impunha perante Eva, com tal tarefa facilitada pelo estado de depauperação afetiva em que ela vivia, havia anos. As narrativas envolvendo Rodolfo se arrastam por páginas e páginas do caderninho de Eva, às vezes mostrando algum grau de arrependimento pelo adultério rapidamente admitido, outras tantas celebrando os encontros com ele, que se tornaram cada dia mais frequentes, com forte carga erótica, fazendo com ela, na cama, coisas que ela nunca imaginara.

Mas assim como entrou em cena, Rodolfo um dia se evadiu. O que se lê sobre isso, provavelmente escrito a posteriori, é um desabafo genérico, uma invectiva contra os homens em geral, citando apenas de passagem o nome de Rodolfo, demonstrando forte decepção com ele e com o amor, tratado como sentimento falso e desprezível.

A partir daí, a leitura do caderno de Eva foi cada vez mais acelerada, porque os acontecimentos se acumulavam e a narrativa dela ficava cada vez mais sôfrega, até incompreensível às vezes, mas sempre empolgante para mim.

A série de acontecimentos depois da deserção de Rodolfo incluía um retorno piedoso à vida familiar e à filha, gestos de comiseração com o marido, apoio a obras sociais e ajuda espontânea aos pobres. No meio do caminho a velha sofreguidão pelo amor, por uma vida mais brilhante e menos ordinária, em todos os sentidos. Em certo momento ela registra a volta de Leo ao seu convívio, agora com o recheio de forte erotismo, logo decepcionando-a, entretanto, por crises de ciúmes dela e pelo que lhe parecia descuido dele com o relacionamento. O que começa a dominar a narrativa, entretanto, é o registro de grande desequilíbrio financeiro em sua vida. Por gastos mal planejados e mesmo abusivos, muitos deles com joias e outras futilidades, além de presentes para os amantes, ela vê sua conta bancária, conjunta com o marido, ser congelada, sem que o titular, em um primeiro momento, pelo menos, percebesse a extensão disso. Um eventual salvador é procurado, o Jacó, lojista que lhe atendia nas quinquilharias que ela adorava comprar, mas que logo se revela um agiota descarado, negando-lhe mais crédito. Recorre á sogra, com quem estava rompida, mas isso só agravou a situação precária entre as duas, obrigando-a a bater em retirada, mais uma vez humilhada. Um outro indivíduo, da esfera de relações do marido, que ela considerava confiável, é também descartado, quando Eva percebe que havia por trás da acolhida dele a seus pedidos de empréstimo, o desejo de favores de cunho sexual. Como se envolvera com agiotas, tinha agora um desfile deles à sua porta, sendo obrigada muitas vezes e negar sua presença em casa ou sair pela porta dos fundos. Até mesmo Rodolfo, que ela localiza na cidade, depois de muito tempo sem vê-lo, se recusa a atender, também de forma explícita e humilhante, seu pedido de ajuda financeira.

Nestes momentos, o que se percebe é um movimento, morro abaixo, de suas ilusões, de sua moralidade, de sua autoestima. Há páginas repetidas em que ela fala de seu interesse em dar fim àquilo, custasse o que custasse. Pede que o vizinho farmacêutico lhe aviasse um calmante, que a permitisse dormir melhor. Engole um vidro inteiro daquelas cápsulas, na base de fitoterápicos, despede-se da vida por escrito, mas mal consegue dispor de um sono tranquilo, por uma única noite.

A partir daí o que há no caderno de Eva é uma série de rabiscos e de palavras soltas, tais como não suporto mais, morte, suicídio, vida ingrata, para mim chega, que se dane, foda-se e outras expressões do mesmo tipo. Há um trecho em que ela pede que alguém cuide da pequena Berta, sem especificar exatamente quem e nem às circunstâncias exatas disso, embora certamente se referisse a um gesto previsível de por fim à própria vida.

Depois disso, páginas em branco, algumas manchadas ou amarrotadas pelo estado geral da bolsa em que o volume escrito estava guardado.

Em plena madrugada, pois não havia conseguido suspender a leitura do caderninho de Eva nem por um minuto, comecei a imaginar que raio de coisa eu faria daquilo. Sem dúvida, ali havia enredo até para um romance, ou para uma série de contos. Que o Baita fizesse daquilo alguma reportagem ou algo assim, o que ele preferisse, dentro de sua ética profissional peculiar, era problema dele. Quanto a mim, meu interesse era bem outro e para tanto eu cuidaria de fazer no dia seguinte, logo pela manhã, uma cópia xerox de todas as páginas daquele caderno.

Antes de dormir, reli alguns trechos. Nessa segunda leitura achei que algumas frases me soavam de modo peculiar, como se já as conhecesse de outras leituras, como essa aqui, por exemplo:

Um homem ao menos é livre; pode percorrer as paixões e os países, atravessar os obstáculos, ir atrás das alegrias mais distintas. Ao mesmo tempo inerte e flexível, a mulher tem a seu desfavor as fraquezas da carne e as dependências da lei. Sua vontade, como o véu do chapéu retido por uma fita, palpita ao sabor de todos os ventos; sempre há algum desejo que arrasta, alguma conveniência que retém.

Eu tinha certeza, agora, mas faltava saber de onde eu conhecia aquilo. Seria possível o que eu estava pensando?

Corri à minha estante e de maneira meio sôfrega catei um surrado exemplar de um dos meus romances prediletos. Em poucos minutos localizei o que queria: na página trezentos e tantos estava ali, completo, o fragmento que me chamara a atenção, o qual se sucede a um dos seus encontros fortemente carregados de erotismo, seguidos de arrependimento, com Leo ou Rodolfo, não me lembro bem.

Eureka! Aquilo me levantava a hipótese de que talvez todo aquele diário de Eva não se tratasse de uma escrita original, mas sim um pastiche do magistral realismo de Flaubert, em Madame Bovary, mas de toda forma com um final trágico

Não eram poucas as coincidências. O próprio nome do marido, Bogari, já representava uma delas; Emma virou Eva; as filhas, Berthe e depois Berta; o vizinho farmacêutico, tão influente na vida dos casais, em um e outro caso; o nome dos amantes, León/Leo e Rodolfo, este último nem tivera seu nome alterado; a sogra intrometida e autoritária; a origem rural da personagem; o colégio das freiras; o bom pai amoroso – e por aí vai. Eu tinha agora um duplo mistério pela frente: entender, como jornalista, ou quase isso, as nuances verdadeiras daquele suicídio ou, além disso, deslindar se estava diante de uma simulação literária, de vida imitando arte, digamos assim, na qual uma mulher busca o suicídio por imitação de um livro que a impactara como, aliás, já acontecera na história da literatura com Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. Mas era preciso conhecer mais da vida daquela pobre criatura para compreender isso tudo direitinho. Entrevistar o viúvo seria o caminho mais direto, mas, naturalmente, absolutamente impraticável.

Eu próprio, já muito envolvido com aquela história , comecei a me incluir naquele mistério. Afinal, eu me chamo Gustavo, o mesmo prenome de Flaubert e sou também portador de algumas desilusões sentimentais na vida, de um caminho profissional ainda por se definir, de uma família meio desintegrada, o que me fez pensar na frase famosa do meu xará francês: Madame Bovary c’est moi, usada por ele para se defender da acusação de licenciosidade e desrespeito às normas burguesas, frente àquele romance que se tornou marco seminal do realismo. Modéstia à parte, eu começava a me sentir um flaubertzinho. Mas ainda não sabia o que fazer daquela torrente de informações e pressentimentos, que provocava um formidável redemoinho em minha mente.

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