A história d’O Paca

Sim, o Paca. Filho de um outro Paca e já tendo até filho com tal apelido também. Figura curiosa, se não extraordinária, ali na Fazenda Santa Rosa, do meu amigo Dr. Guimarães. Palavras, bem poucas dispunha, além de sim, não, hum-hum, opa, eita, espia aí, brigado e mais algumas outras, sempre medidas e parcimoniosas. Quando indagado do nome, que era oficialmente Jair, Jovair, Isvair, ou coisa assim, apenas respondia: é Paca mesmo. Era tido como um tipo meio ou bastante abilolado pelos camaradas e pelo povo dali, embora respeitado, mas o Guimarães o tinha em conceito diferenciado: já vi piores, esse aí conseguiu até se casar.

Vivia o Paca ali em Santa Rosa desde que nascera, de uma família que aparentemente existia no mundo apenas para ser sucessora dos antigos escravos.– Aqui e em toda a região existe uma vasta ‘pacaria’, me explicava o fazendeiro, com certo preconceito, mas também com alguma empatia, porque sem dúvida apreciava o modo como aquele humilde empregado cumpria suas tarefas.

Tinha outras qualidades, porém. Ninguém para esgotar os peitos das vacas com tal habilidade e delicadeza. Mesma a Camélia, coiceira como ela só, se submetia a ele todas as manhãs, vinda ao curral em clima de total entrega e docilidade, diferente do que fazia com os demais vaqueiros. Para curar um umbigo de bezerro ou uma bicheira, uma descorna, fazer uma castração, não tinha como ele, era botar a mão naquilo, dizer umas palavras secretas, rezas, ou coisa assim, que só ele parecia conhecer e pimba! problema resolvido.

Ler ou escrever? Nada, nadinha. O que se dizia dele é que fora enviado à escola, como o geral da criançada por ali, mas nunca conseguiu ir além do bê-a-bá ou do dois-mais-dois regulamentares. Seu pai, desde sempre analfabeto, pelo que eu soube, não fazia questão disso. O importante é que entrasse uns cobrinhos a mais no orçamento da família, cada final do mês. Quem e que precisava mais do que uma coisa assim? Mas em compensação o Paca havia revelado seus dotes com os vacuns de forma precoce, sendo assim acolhido e até respeitado pelo capataz e pelo patrão.

E aí, Paca por que este seu nome?

– Família tudo é Paca, né? Meu pai, eu, meus fio Paca e Paquinha.

Tinha mão boa para plantas também. Com um doutor agrônomo que passara por ali aprendera a fazer enxertos em laranjeiras e com ele as operações sempre davam certo. Em muitos quintais por ali havia laranjeiras com também produziam limões, ou mexericas, quase sempre obras cirúrgicas do Paca.

Zefa, mulher do Paca, era que nem o marido, de poucas palavras, mas tudo que fazia, fazia direito. Para plantar o alho na Semana Santa, engomar uma camisa do patrão ou temperar um franguinho, não havia outra como ela. Dr. Guimarães, para mangar deles, dizia que era um mistério terem conseguido namorar e até casar, quem sabe até o primeiro sim acontecera sem qualquer palavra pronunciada. Mas se entendiam. Os Paquinhas iam pelo mesmo caminho, sérios, compenetrados, de boa paz, e de pouquíssimo palavreado. Frequentavam a escola e consta que até iam bem no aprendizado, podendo assim superar o analfabetismo que lhes parecia ser congênito.

Mesmo na roça, onde o pessoal não é muito palavroso, o laconismo do casal Paca chamava a atenção. Alguns diziam que nunca tinham visto eles trocar palavras entre si, pelo menos em público. Não que fossem infensos à comunicação, mas o faziam muito bem através de pequenos gestos, às vezes um discreto psst. Com os paquinhas, a mesma coisa. Porém, justiça lhes fosse feita, ao contrário da maioria por ali, eram suaves, ou pelo menos não violentos, com os filhos, que bem os obedeciam sem a necessidade de alterações no tom da voz ou a aplicação de castigos físicos visíveis.

Luís Antônio, o genro de Guimarães, fotógrafo de profissão, quis registar as artes vaqueiras do Paca, seguindo-se um diálogo memorável.

– Paca posso fazer uma foto de você tirando leite?

– Senhor que sabe…

– Um retratinho

– Retrato? Já tenho.

– Sim, Paca, vire-se para cá e vamos fazer um retrato.

– Para que quer isso de mim?

– Para levar de lembrança, Paca!

– Leve umas laranja lá do quintal de casa. Sá Zefa tem ovo também. Não é melhor?

– Paca, agora vou dar um close.

– O que mesmo o senhor quer dar pra mim?

Certa vez o patrão lhe indagou:

– Paca, você já sabe em quem vai votar para Prefeito?

– Sei sim senhor…

– E em quem vai ser, Paca?

– Ni quem o senhor mandar, uai…

Os agentes do IBGE, que vieram fazer o censo recente na fazenda não tiveram sucesso com o Paca:

– Seu nome?

– Paca.

– Paca de quê?

– Só Paca

– Nascido onde  ?

– Não sei não, acho que foi em casa.

– Quantas pessoas moram na sua casa?

– A casa não é minha, pergunte ao sêo dotô, ele é que é o dono.

– Tem geladeira, fogão, enceradeira?

– Num tenho nada não, de meu só um cachimbo.

Com o padre que veio rezar missa na fazenda, no dia da padroeira Santa Rosa:

– Meu filho, o que você achou da eucaristia?

– Sêo Padre, a carestia tá brava mesmo, né, ainda ontem fui comprar um fuminho na venda e me cobraram os óio da cara.

– …

– Paca, você precisa levar os paquinhas para fazer a primeira comunhão.

– Tô sem recurso, Sêo Padre, quem sabe mêis que vem.

Quando uma comadre veio avisar aos empregados da fazenda do falecimento de dona Lidinha, esposa do Dr. Guimarães, o comentário do Paca foi inusitado, mas dentro de seu estilo:

– Engraçado…

– Paca, a patroa morre e você acha “engraçado”?

Sim, engraçado: ontem estava viva e hoje está bem morta….

Com o médico, em visita à comunidade, com vistas á prevenção do câncer de próstata, após lhe explicar o procedimento:

– O que o senhor quer de mim mesmo?

O doutor insistiu, mais de uma vez, para depois desistir, de vez:

– Conversa com o Maneco de Dona Zulmira, ele é que gosta dessas coisas. Comigo não, agradeço.

Lembro-me de uma coluna da velha e famosa Seleções, chamada Meu tipo Inesquecível, na qual personalidades de todo o mundo, talvez principalmente dos Estados Unidos, eram lembradas e perfiladas. Taí, proponho ao Paca um título semelhante.

O fato é que Dr. Guimarães morreu, os filhos venderam a fazenda e passei anos em ter notícias, do lugar e de seus personagens, do Paca inclusive. Roberto Guimarães, o filho mais velho, a quem reencontrei um dia, por acaso, num aeroporto, me trouxe notícias daquele mundinho perdido no tempo, do qual ele também era saudoso.

– O Paca? Morreu faz muitos anos, deu de inchar, Doença de Chagas, como tantos por ali. O mais inesperado foi seu enterro. Apesar de ser considerado um esquisitão de marca maior, nunca se viu tanta gente reunida num velório como o dele, veio gente de longe, muitos ex-empregados da fazenda, que haviam trabalhado ao lado dele.  E Sá Zefa, em total mutismo, junto com os paquinhas, se debulhavam em lágrimas, coisa de fazer dó.

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