Meu tipo inesquecível

Sempre achei bacana alguém ser herdeiro daquelas boas histórias originadas de se ter família radicada no interior. Eu felizmente tive algo parecido em minha vida, mas confesso que foi pouco, gostaria de ter tido ainda mais. Dos meus tios paternos, por exemplo, guardo excelentes e afetuosas recordações, da bizarrice ingênua e inofensiva dos acontecimentos que ouvia contar deles, pelo menos para o meu olhar infantil.

O interior onde ficava Paineiras, berço da família de meu pai, já nem era tão remoto na época na minha infância, mas no passado o fora, com certeza. Antes, quem quisesse ir à capital tinha que enfrentar uma longa viagem, em modos diversos de condução, que começavam no lombo de mulas, depois em carrocerias de caminhão, para finalmente desaguar em trem de ferro. Era coisa para dois dias, no mínimo. Foi assim que aquela gente foi criando costumes próprios, que se conservaram mesmo depois de muito tempo após a chegada do asfalto.

Assim, depositário fiel de tal modo de ser típico dos fundões do país profundo, era este Tio Antônio, irmão de meu avô, por alcunha Ti’Tonho ou então, simplesmente, cognominado de Torto, como diziam seus colegas ali da cidade, por conta ter nascido de um provável parto complicado, do qual escapara vivo, embora com a clavícula partida, ficando assim entortado pelo resto da vida. Mas mesmo com aquele pescoço anguloso não fazia má figura, sendo um mestre no humor típico dos roceiros, o qual ele complementava com caretas engraçadas, potencializadas por aquele pescoço não só desviado como curto.

Na minha infância ainda não havia luz elétrica por ali. Depois ela chegou, mas com horas certas para se ligar e desligar, isso se o motor da Prefeitura estivesse de boa paz. Uma lembrança antiga de Ti’Tonho era a distribuição de velas, na boca da noite, a seus hóspedes, entre os quais, algumas vezes, eu, meus pais e meus irmãos, visando suprir as costumeiras falhas energéticas da cidade. Quando acendidas elas projetavam sombras engraçadas e às vezes assustadoras nas paredes, ocasião em que aquela cabeça fora de prumo de meu tio compunha um jogo misto de sombras no texto e nas paredes, entre o horror e humor, como se fosse o verdadeiro Quasimodo.

Mas justiça seja feita, o Torto não fez parte sozinho de minhas lembranças exóticas infantis. A mãe dele, minha avó Sinhana, por exemplo, era uma nonagenária que simplesmente ainda não tinha entendido bem a luz elétrica e a jardineira, tendo estacionado existencial e tecnologicamente na era dos lampiões e das mulas. Falava pouco e era surda como uma parede, sendo boa parte do que ela enunciava apenas exclamações, mostrando-se sempre surpreendida, a respeito de tudo e de todos. Quando foi nos visitar pela primeira vez, na capital, ao ser apresentada à televisão e indagada sobre o que achava daquilo, apenas respondeu que estava gostando, mas que não conseguia compreender bem o que era aquilo. E tal impressão parece que não se desfez, apesar das explicações que nós, seus netos, e também meus pais lhe forneceram.

Vó Sinhana, que era viúva desde sempre, vestia sempre roupas escuras, geralmente pretas, que ela um dia consentiu que tivessem tecidos com algumas pintinhas bancas, o que lhe dava uma aparência de galinha da angola, bicho que eu conheci na mesma época, em uma de nossas viagens a Paineiras, e associei a ela, para sempre, de forma inseparável. Uma vez tive um sonho em que ela caminhava pela casa repetindo a onomatopeia de tais bichos: tô fraco tô fraco tô fraco. Não sei se as risadas que tal imagem me provocava me acordaram ou se acordei apenas para gargalhar com aquilo.

Ti’Tonho tinha uma penca de irmãos, cada um mais curioso, à sua maneira. Ti’Chico morava num asilo, quase que desde sempre, e era dono de uma timidez tão atroz que era quase impossível conversar com ele, que jamais encarava seu interlocutor. Talvez por isso, era impossível entender o que dizia. Seu exílio na tal instituição certamente tinha a ver com tais dificuldades na comunicação com os semelhantes. Consta que nem saía do seu quarto, a não ser para comer e para as necessidades mais prementes.

Ti’Vicente era farmacêutico prático, dono de uma botica na rua principal, mas o que gostava mesmo era de caçar, no que foi contemplado em Paineiras por muitos anos de fauna abundante e ausência absoluta de autoridades fiscalizadoras. Em sua casa havia duas ou três carabinas guardadas de forma descuidada e com uma delas meu irmão mais novo, um curioso de marca maior, resolvi um dia fazer um teste. Por sorte dele – e dos demais – o cano estava voltado para o teto, no qual se abriu um buraco de meio metro de largura. Ti’Vicente passou, desde então, a cumprimentar o artilheiro ou se referir a ele como o Caçador.

Meu avô, Zezé, era outro deles, com sua energia totalmente dedicada aos negócios. Comprava e vendia fazendas, casas, veículos, gado, mulas, apólices como quem sai para tomar um cafezinho. Suas mudanças, de casa e até de cidade, eram anunciadas para minha pobre avó Ermelinda apenas na véspera da data programada. E a coitada tinha que dar conta. Acho que ele foi mais um esportista dos negócios do que um verdadeiro capitalista ou investidor, porque nunca ficou rico com aquilo, terminando seus dias num apartamento de quarto e sala no centro da capital, casado de novo com uma turca, depois de ficar viúvo de minha avó, mas, principalmente, ao que parecia, muito feliz.

Mas Ti’Tonho, sobredito O Torto é que é o personagem principal disso aqui. Sujeito deveras peculiar, como se verá a seguir.

Gostava de interromper suas tertúlias botequineiras com os amigos para dizer que o desculpassem, mas precisava ia à fazenda. No princípio, um ou outro até acreditava naquilo, mas a maioria bem sabia de que se tratava exatamente tal desculpa, sendo ele uma pessoa bastante distante de ser considerado rico ou nem mesmo remediado para ser proprietário de algo assim. Vivia de uma aposentadoria mixuruca, conseguida a duras penas, da mesma forma que a patroa, Zica. Os dois, para se manterem, alugavam um ou dois cômodos da casa em que viviam, que felizmente era deles, para dois rapazes solteiros, que ali viviam uma vida bem acolhida, quase como os filhos que eles nunca tiveram. Um deles, funcionário do INSS, acabou conseguindo para o casal aquele bendito benefício continuado, sem o qual certamente passariam fome e necessidades.  

A fazenda? Ele tratava aquilo como um latifúndio, mas na verdade não passava de um terreno de no máximo dez por trinta metros, herança da Zica, logo perto de onde moravam, onde ele plantava de um tudo, aí incluindo, na época certa, o milho, um feijãozinho, e mais cará, abóbora, taioba, inhame, cheiro-verde, além de manter um ou dois limoeiros e uma moita de bananeiras. Mas conseguia retirar dali tal fartura que não raramente tinha que implorar aos amigos que acolhessem suas cestas de verdura, para não ter que jogar aquilo no lixo. Produzia ali também alguns episódios farsescos, como foi o caso da galinha.

Foi o seguinte. O vizinho ao lado tinha um galinheiro em seu terreno, criação que o fazendeiro do lado evitava, porque, como se sabe universalmente, a combinação de galináceos com horticultura costuma ser deletéria para esta última. Mas não se fazia de rogado, abrindo um buraco na tela divisória e armando, de seu lado, vez por outra, uma espécie de arapuca munida com iscas de comida, o que lhe garantia circunstancialmente um bom frango para o almoço de domingo. O vizinho dava pela falta de algumas cabeças e até chegava a comentar com ele, mas Ti’Tonho fingia se preocupar com o assunto e até se oferecer para ficar de espreita, para ver se algum gatuno, humano ou não, estaria praticando tal ilícito. E assim incriminava, sem provas, os saruês da vizinhança ou, quando precisava variar, a molecada da rua. Assim, diante do favorecimento com meia dúzia de espigas de milho e alguns limões, o vizinho, que era crédulo e generoso, de vez em quando lhe oferecia uma penosa de seu galinheiro, num escambo de perfeita harmonia, como só vigorara nas harmônicas sociedades antigas.

Quem mais agradecia, ao que parece, as virtudes da tal fazenda era Dona Zica, que assim se via livre para costurar, rezar seu terço na igreja e participar das intrigas na vizinhança, sem ter a presença constante do seu marido Torto ao lado. Não que ela o desprezasse ou se sentisse muito incomodada com a presença dele, longe disso, mas casal antigo, sabe, como é… Melhor desse jeito do que muito coladinho um no outro. Assim diz a sabedoria popular e certamente é o modo como devem ser as coisas.

Além da roda no botequim, que ele frequentava cada vez menos, porque Dona Zica não aprovava aquilo e além do mais a cerveja andava muito cara, outra das paixões de Ti’Tonho era a pescaria. No corguinho que banhava a cidade, outrora piscoso, já não havia muitos mandis ou mesmo lambaris à disposição, mas quem é que precisava de peixes para se divertir? Tonho, metódico como ele só, lá comparecia em dia fixo da semana, devidamente liberado pela patroa, mas com a observação taxativa de que, se o marido pescasse, que ele mesmo cuidasse de limpar os eventuais peixes, o que quase nunca acontecia, por não se concretizar a captura a não ser muito raramente, dessa forma não carecendo cumprir tão terrível ameaça. De toda forma, ele tinha sempre pronta, na ponta da língua, a desculpa de que havia peixes até demais naquele dia, ao ponto de saltarem fora d’água, mas que ele gentilmente abrira mão de trazer sua parte para casa, cedendo uma boa fieira ao companheiro que estava com ele, que dizia estava passando até necessidades em casa.

As pescarias semanais, em dias especiais se transferiam, agora com uma chusma de desocupados, para um açude em na fazenda de conhecidos, não muito distante da rua. Ali ele se esbaldava, mais em se divertir e provocar os companheiros do que propriamente pescar. Ficou famoso naquela turma o caso do tamanduá. Foi assim: estavam pescando à noite e Ti’Tonho resolveu voltar ao carro onde se guardava a merenda para comer e bebericar alguma coisa. No caminho um tamanduá tentou abraçá-lo, de acordo com sua versão posterior dos fatos. Ele tratou o bicho a pauladas, atordoando-o, tomando em seguida uma linha grossa de pesca, amarrou com firmeza e atirou o bicho na água, correndo em seguida a avisar os companheiros que tinha pego peixe grande, que eles o ajudassem a puxar a linha, porque ele não estava dando conta do recado. A sequência, previsível, provocou apenas risadas, porque a artimanha foi facilmente revelada, quando nada pela cara marota e mal disfarçada do autor da farsa.

Outros já diziam que não havia tamanduá nem nada naquela linha, a não ser um pneu velho e que ele inventara aquela história na mesa do botequim, sendo aplaudido pela plateia, sempre disposta a incentivá-lo, pelo inusitado e pela criatividade da situação descrita.

As pescarias no açude despertavam em Dona Zica forte preocupação, porque ele não sabia nadar, e mais de uma vez foi retirado da água pelos amigos. Ele explicava aquilo, sem muito sucesso, como um gesto premeditado, apenas para assustar os companheiros. Dizia também que já tinha até se matriculado em aulas de natação no clube da cidade, sendo, entretanto, dispensado pelo instrutor por suas habilidades escassas, pois nadava como um machado sem cabo, ele se auto ironizava.

Tanto tinha a esposa de carola como ele de relaxado nessas coisas de igreja, embora fosse amigo do padre Carlinhos, que não raramente. acompanhava a turma do açude nas pescarias.  Porém aquele gesto de acender uma churrasqueira à beira da calçada em plena procissão do Senhor Morto despertou a ira de Dona Zica, que o expulsou de casa por uma semana, com total apoio de suas amigas carolas. Dessa vez até o padre Carlinhos se pôs contra ele, dizendo-lhe que mesmo que não fosse à igreja se confessar iria lhe impor uma penitência grave, o que acabou se passando em bancas nuvens. Era irresistível o Torto, nem o direito canônico seria capaz de enquadrá-lo.

Ainda se meteu com o padre em outra ocasião, quando este descobriu que Apolo, o sacristão, muito amigo do Torto e também membro da confraria piscatória-botequineira andava patrocinando saideiras para sua turma, à custa do sagrado vinho Bom Bosco, usado nas missas, devidamente surripiado da sacristia. Para o padre Carlinhos ele se fez de inocente e carola, sem convencê-lo, entretanto: – seu padre é que eu tinha feito uma promessa para este santo aí, o tal São João Dão Bosco

Tem mais uma: quando ele foi visitar a parte da família que residia na capital, nós o levamos a conhecer o Museu de Arte, imaginando que ele, curioso como era, certamente apreciaria as exposições que havia por lá. Queríamos também apreciar suas reações diante de algumas “instalações” modernistas que lá existiam. Antes de entrar no recinto ele se deteve, contemplativo, diante de uma escultura de mulher nua, voluptuosa, com ancas e seios bem fornidos, que havia na entrada do prédio. Exclamou, então, num suspiro profundo, sua avaliação de tal obra de arte: – parece muito com a muié do Aniba

O Aníbal era um personagem verdadeiro em Paineiras, assim como sua esposa, que despertava a ira das mulheres por seus modos abusados e seu corpão dadivoso. Foi aí que entendemos a fúria de Dona Zica, que munida de sua sombrinha correu atrás dele a aplicar valentes pancadas no lombo, enquanto Tonho, com seu pescoço torto e as caretas de sempre, ria desbragado, fingindo se lamentar do ataque.

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