Amor é o que se aprende no limite, depois de se arquivar toda a ciência, herdada, ouvida. Amor começa tarde. (CDA – Amor e seu tempo.)
Mulherengo Horácio não era. Definitivamente. Ficara viúvo muito cedo, em casamento no qual não se poderia dizer que ele foi feliz por inteiro, opinião talvez não compartilhada pela falecida. Poucos meses depois do velório resolveu fazer o que até então supunha não ter conseguido: aproveitar a vida. E ele que tivera praticamente como única namorada aquela Mariana, sua colega de faculdade, tendo vivido com ela por quase 20 anos, oscilando entre apenas ignorar suas bizarrices sem reagir, se omitir, ou optar por um afastamento completo e carregado de traumas e culpas. E assim ele enxergou o luto como porta aberta para se “lançar na vida”, em campo no qual se considerava pouco aquinhoado, inspirado pela experiência de muitos de seus amigos, de terem namorado ou mesmo apenas vivido amores fugazes sem passar pelo que acontecera a ele, que se amarrara a um amor de juventude, além de tudo por uma pessoa que tinha como grande desejo na vida chegar virgem ao casamento. Depois de tudo, se ver destinado a passar com ela todos os anos que lhe restassem.
Até que Mariana teve um câncer de mama e morreu.
E assim, tendo cumprido Horácio todas as obrigações familiares e sociais relativas ao luto, em poucos dias se percebeu como portador de uma sensação que nunca suspeitara usufruir em tais circunstâncias: alívio.
Já na fase do inventário, com poucos meses de viuvez, percebeu na advogada que o atendia no escritório de um amigo uns olhares significativos e até mesmo calorosos. No último dia de comparecimento ao escritório, assinada a papelada final, ousou o convite: não quer sair comigo para tomarmos alguma coisa? Um café, quem sabe? Ela o surpreendeu pela decisão rápida: sim, topo, só não pode ser hoje. Tenho um filho sem ter marido e preciso cuidar dele, mas no final de semana, tudo bem. Ah, sim: não tomo café, prefiro uma cerveja ou um vinho. E você?
O encontro rendeu-lhe bons frutos, pelo menos nas noites inaugurais, quando sem muita delonga foram até o apartamento dela e ali fizeram amor de forma intensa.
Mais do que com ela, foi um reencontro com ele mesmo.
Mas Dalva – era o nome da advogada – tinha aparentemente em relação ao amor, uma atitude de fundo totalmente carnal. Ele logo percebeu isso quando depois de alguns encontros tentou marcar com ela a próxima escapada, mas a advogada lhe foi sincera: vamos deixar para quando der vontade e tesão; aí eu ligarei para você. Mas passaram-se semanas e depois meses e ela nunca mais ligou.
Tudo bem, vivendo aprendendo, pensou. Aliás, depois de 20 anos de um casamento totalmente monogâmico e monótono, Horácio se deu conta que tinha muito ainda a aprender em tal quesito.
Depois veio a moça do salão, a Judith, que lhe cortava as unhas.
Delicada e miúda, mas portadora de um vulcão interno. Judith também revendia roupas íntimas e a cada encontro comparecia com uma novidade, como, por exemplo, umas calcinhas que por assim dizer só tinham contorno, em vertiginosa forma de “v”, além de uma espécie de cordão, que lhe descia por entre as nádegas, com todo o restante território descoberto pela quase total ausência de pano, a não ser por um exíguo triângulo dianteiro. Mas ele logo desistiu dela, por se sentir pouco capaz de atender aquele furor tectônico. Além do mais, a moça deu para lhe pedir dinheiro emprestado com alguma frequência, sem falar de suas visíveis limitações intelectuais. Certo dia ele comentou que ela lhe lembrava um personagem de Bukowski, ao que a moça lhe indagou se este aí era aquele famoso jogador do Flamengo. E com isso ele logo viu que era hora de desembarcar, antes que uma separação dolorosa se fizesse necessária.
Mas com essas duas experiências, ele percebeu que algum aprendizado em relação às relações amorosas já lhe chegava: era preciso ser mais seletivo, inclusive no plano do espírito, além de aprender a administrar o tempo de uma relação, de forma a se tornar capaz de antever o sutil momento em que se instala o desinteresse, em qualquer dos membros de um par de amantes. Não precisava correr atrás de ninguém. O melhor era deixar as coisas fluírem.
Em uma viagem noturna de ônibus, ao Rio de Janeiro, estabeleceu amistosa conversa coma passageira ao lado. Elsa era uma mulher um pouco mais velha do que ele, mas dona de uma conversa interessante e insinuante, que terminou, às sete da matina, com a troca de telefones. Ele não deixou por menos, ligou uma semana depois, dando um tempo para ela voltar pra casa e marcou um encontro. Jantar, algumas doses a mais e cama para dois, a descoberta de um corpo enlouquecedor, com marquinhas de sol na medida, e em seguida a prática de um kama-sutra insano, regado a obscenidades verbais e gestuais. Pela manhã ele se despediu, um tanto constrangido, porque tinha ido parar ali naquele quarto meio cafona, completamente bêbado. Enquanto Horácio decidia se valeria a pena vê-la de novo, foi surpreendido por uma salva de telefonemas, convidado para sair, beber, fazer amor e mais coisas, numa linguagem digna de filmes adultos profissionais. Achou que aquilo já era um sinal negativo o bastante. Mudou o número do telefone depois de dizer a ela que passaria um tempo fora. E não mais a viu.
Um dia lhe apareceu uma prima distante da falecida, cujo nome ele nem se lembrava mais, que o procurou para matar saudades dela, mas que ele descobriu que na verdade o objeto era ele mesmo. Uma figurinha assemelhada a um barril e além do mais, fumante. Aplicou-lhe um até mais ver formal e ficou por isso mesmo.
Em outra ocasião, em uma festa de aniversário de formatura reencontrou Katia, uma antiga colega da Faculdade de Engenharia, que lhe revelou ter finalmente se divorciado de um colega deles, uma peste cujas peculiaridades de chato irremediável, além de violento, ele conhecia muito bem. Ela o convidou para ir a sua casa ainda naquela noite e ali acabou por seduzi-lo a ficar com ela até a manhã seguinte. Desta vez, foi ainda pior, pois ele não conseguir reunir o empenho cavernoso suficiente para consolá-la na cama, dentro de um quarto onde havia várias fotos do ex. Ou seja, aquilo era para dar errado mesmo. No final ela mostrou-se decepcionada, embora tenha dito que compreendia. Compreendia – o quê – ele ficou cismando. Mas por via das dúvidas, resolver que não deveria procurá-la mais.
Sua vontade de ter mulher passou a ser saciada, um tanto esporadicamente, através de Claudete. Ele sabia que até aquele nome era falso, mas se encantou com a maneira discreta e até doce como deu com ela em um anúncio de jornal: mulher madura, que sabe o que quer … não quer compromisso, mas sim, dar e receber prazer, fazer um homem bem feliz … atende a domicílio. Mas não atendia a qualquer um, exigindo ver primeiro foto e resultados laboratoriais dos pretendentes, ou melhor, dos clientes. Encontros só depois de pelo menos duas ou três boas conversas por zap. Claudete, que ele um dia viu que se chamava realmente Sebastiana, graças a uma conta de luz esquecida em sua casa, era uma flor de pessoa. Nem ligou para a questão do nome, pois ela própria jamais lhe perguntara o nome e usava para ele apelidos carinhosos diversos, tratando-o por senhor Horácio, ou se referindo a ele, eventualmente, como cliente, como muitos outros que certamente interagiam com ela. No final do mês ela lhe trazia um boleto bancário, ele pagava religiosamente e daí tudo bem. Quem ficaria infeliz diante de uma facilidade assim, tão objetiva e prática, sem deixar de ser prazerosa?
Começou sua relação com ela com certo temor, mas passado algum tempo viu que era mais um acerto do que um erro em sua vida, e assim foi mantendo-a por perto. Foi então que ele aceitou a fazer com ela aquela espécie de carnê mensal de prestação de serviços, coisa que reduzia o preço unitário dos mesmos em até 20 ou até 30 por cento.
E andou assim a colecionar, frustrações e encontros sem maior envolvimento afetivo até encontrar aquela mulher, tão diferente das demais que conhecera até então…
Ele estava numa livraria de shopping. Sozinho, pois este era o seu estado assumido prazerosamente na ocasião, já que Claudete Sebastiana não contava. Estava ali a folhear a esmo alguns livros, quando ela apareceu e foi logo perguntando, sem maiores preâmbulos, se já tinha lido e o que achara daquele livro aberto no momento. Não. Não tinha lido, mas aquilo era uma ótima deixa para prosseguir a conversa com aquela quarentona, bonita, perfumada, bem vestida e especialmente comunicativa. Pegaram a conversar sobre literatura em geral, tendo ele ficado impressionado com o leque de referências que ela tinha, mais amplas do que as dele.
Ela lhe ouvia com atenção; ele retribuía. Sem dúvida, era uma companhia agradável e havia reciprocidade, pelo que percebiam. Um ritual previsível se impôs: que tal se fossem beber algo e conversar mais sobre suas referências literárias? Havia de fato nisso uma intenção que ia além disso, claro, nenhum dos dois tentaria, depois, negar. E foram a um café nas proximidades, onde, naquele momento, eram os únicos fregueses, e por ali ficaram até que a hora de fecharem a casa. Assuntos se amontoavam e se chocavam entre os dois, fazendo-os notar que precisariam de mais tempo para colocar em dia as impressões e revelações recíprocas despertadas pela conversa. Assim foi que na despedida novo encontro foi marcado, em breves dias, de forma totalmente espontânea. E afinal não haveria, absolutamente, alternativa diferente para aqueles dois recém conhecidos.
Daí ao enamoramento, ao primeiro beijo, às carícias ainda tímidas, mas promissoras, foi um passo bem curto.
Em poucos dias, a visita a uma livraria, bem mais repleta de opções literárias e musicais, que terminou com o que se parecia uma compra de “supermercado do mês”, selou, simbolicamente o novo estatuto que entre eles visivelmente se estabelecia, havendo somente certezas e felicidade naquilo tudo. Descobriram, entre outras coisas, serem criaturas desgastadas por relacionamentos mal escolhidos e malsucedidos e aquele encontro sugeria trazer a eles as chaves do Paraíso.
Passado algum tempo, ele pensou – e com certeza ela também – se não era hora de se conhecerem, no famoso sentido bíblico. Seria tão simples em qualquer situação, mas diante de uma relação tão extraordinária como aquela, ele se torturava sobre como fazer aquilo de maneira compatível com a ternura e a pureza epifânicas que haviam desenvolvido um com o outro ao longo daquelas semanas preliminares.
E assim, sem explicitarem com clareza o objetivo, marcaram um encontro no apartamento dele, onde teriam total privacidade, ao contrário do espaço dela, às vezes visitado por filhos que tinham a chave da porta e não precisavam pedir licença para entrar. Ele correu atrás de Martini Bianco, a única bebida alcoólica que ela admitia beber, preparou-lhe umas bruschetas (a única coisa que sabia fazer) e ansiosamente pôs-se a esperar a chegada dela. Teve a ideia de lhe fazer um cartão de boas-vindas, buscando alguma imagem e rima com o prato que então lhe preparava, mas recuou ao se dar conta que havia mais rimas para bruschetta, algumas totalmente pornográficas e de profundo mal gosto.
Daí a pouco, um tanto afogueada, seja pelos três andares de escada ou, quem sabe, pela emoção do momento, ela chegou, bem composta e perfumada como sempre, mas, desta vez, com um perfume diferente do habitual, o que augurou a ele acontecimentos interessantes na sequência.
Ele mostrou as dependências do apartamento e propositalmente, para dar efeito de maior informalidade, não a convidou a se sentar na sala, mas sim no quarto que lhe servia de escritório, onde havia, além da cadeira do computador, um sofá relativamente confortável. Ali, ao lado de um Martini Bianco com maraschino, conversaram por meia hora ou um pouco mais, mas na mente do dois pulsava a ideia de que aquele encontro tinha uma característica inédita e especial para eles. Ela saiu para ir ao banheiro ou à cozinha, enquanto ele atendia um telefonema inesperado, logo encerrado. Na volta, já com a ligação terminada, ele de costas para a entrada, recebeu dela um toque carinhoso na nunca e nos cabelos, que o fez arrepiar. Não deixou por menos, fez girar a cadeira e puxou-a para o colo, beijando-a com delicadeza e calma. Passou-lhe a mão por debaixo da blusa, sentiu o cetim da pele, tocou levemente os seios ainda cobertos pelo sutiã, correu os dedos pelo cós da saia, apenas prenunciando a curva generosa das nádegas, que nas semanas anteriores já lhe haviam chamado especial atenção.
Com um breve olhar, absolutamente isento de palavras, entraram em acordo que era hora de ir para a cama. Mas apesar da suavidade de tudo, ele ainda estremecia: como agir diante daquela situação, meu Deus? Ela não; mostrava-se absolutamente tranquila. Artes de mulher que sabe das coisas, pensou ele.
Havia muitas perguntas a serem respondidas, mas pareciam afetar só a Horácio. No escuro ou com as luzes acesas? Aquele abajur de luz colorida, que mudava de cores automaticamente, aliás presente de Sebastiana, seria adequado ou pareceria vulgar e denunciaria a verdadeira história do regalo? Tirar toda a roupa ou ir por partes, em relação a ele e a ela? Despi-la ou deixar que ela mesmo o fizesse? Que ritmo dar aos toques mais íntimos e sensuais? O que dizer a ela que não parecesse forçado ou vulgar? Como atender de forma elegante aquilo que ela havia dito a ele alguns dias antes: que gostava muito de ser surpreendida, sem especificar se seria na cama ou em alguma outra circunstância.
As tais artes de mulheres iam se mostrando a cada passo, diante das dificuldades dele em saber o que fazer. Em dado momento ela desvestiu a saia e a blusa e voltou para a cama apenas de calcinha e sutiã. Ao observar tais peças ele resistiu, mas não deixou de se lembrar de algumas experiências suas, desde as ousadas tangas imateriais de Judith até a ausência total delas, como no caso da advogada, que já na primeira transa retirou o vestido pela cabeça e lhe apareceu em pelo, mostrando um corpo magnífico, onde se destacavam tatuagens eróticas, devidamente disfarçadas, certamente para não impedir a entrada da causídica em algumas varas dirigidas por juízes mais formalistas. Além de um caprichado aparamento de pentelhos. E riu consigo mesmo, de forma disfarçada, mas achou aquilo muito engraçado.
Ah, a roupa íntima dela… Ela usava uma peça de qualidade e marca, mas de total conservadorismo, com pelo menos 20 cm de largura nas laterais. Achou graça na comparação que lhe era possível fazer, sem deixar de considerar que aquele palmo de tecido era algo mais do que adequado, até mesmo consequente e indispensável em um primeiro encontro íntimo, como aquele.
Conseguiu relaxar e deixou-se conduzir. Ela parecia, se não experiente, pelo menos bastante prática naquilo. Ao vê-la quase nua, tirou parte da roupa e ficou só de cueca, aliás a mais nova que tinha e recém lavada, a propósito. Aliás, como em um passe de mágica tudo começava a ficar natural agora. Abraçou-a, beijou-lhe o pescoço, os braços, o ventre e as coxas. Ela se concedia a tais avanços e retribuía, com levíssimos gemidos que demonstravam prazer. O quarto, de repente tornado escuro pelo avanço do dia facilitou-lhes o passo seguinte: ele lhe retirou, sempre de forma delicada, a exuberante calcinha e o sutiã, tendo, porém, nesta última peça que contar com a ajuda dela, que em seguida aproveitou para lhe retirar a cueca.
E assim, nus como quer a natureza, humana inclusive, fizeram amor. Ele na casa dos 50 anos andava tendo certa dificuldade na penetração, coisa resolvida pela extraordinária experiência de Claudete Sebastiana em tal assunto, mas com ela, sua Dama da Tarde, voltou aos melhores momentos de sua juventude, sem que isso precisasse fazer retornar qualquer lembrança da falecida Mariana ou mesmo de Claudete.
Estimulados por algo que tocava no radio, passaram a brincar com a aplicação de pequenas mordidas na barriga, peito e coxas um do outro. Aí ele se deu conta que aquele corpo de 50 anos tinha uma vitalidade e sensualidade próprias, que ele não trocaria pela firmeza dos peitos, coxas e bundas, pela variedade das tatuagens que ele conhecera aqui e ali. Naqueles momentos, como em epifanias sucessivas, percebeu que a verdadeira beleza morava naquela mulher madura, ali bem a seu lado, a preencher vazios que ele nem suspeitara antes. Nenhum cântico dos cânticos poderia narrar momentos como aquele, nem Salomão em toda sua glória. Repetiu para ela estas frases e recebeu mil beijos profundos, com ela lhe segredando, em voz suspirante, nos ouvidos, uma canção de Leonard Cohen, a thousand kisses deep, que ela lhe apresentou em seguida, acessando no celular.
Aquilo só acabava para começar de novo. Após experimentarem mais de um orgasmo, deitaram lado a lado, ou então com ela apoiada com as coxas dela entre as dele. Com mais alguns minutos uma nova onda erótica crescia e viam a tesão florescer e pedir para ser colhida de novo. Só não deixaram o dia amanhecer com eles em tal estado porque ela tinha compromissos na manhã seguinte e precisava estar em casa para repousar um pouco.
– Você quase acaba comigo, disse para ele piscando um olho. Ao que ele respondeu, prontamente, cheio de si: – você ainda não viu nada.
Propôs a ela como saideira um banho a dois, ao que ela prontamente acedeu. E debaixo do chuveiro passaram mais uma boa meia hora, fazendo com que ela tivesse mais um orgasmo, o terceiro ou quarto do dia, apenas com a apreensão das coxas dela entre as dele, com leve pressão sobre seu sexo molhado e pulsante. Ao se soltarem teve a sensação de continuar sentindo, ali na coxa, a marca quente dos lábios do sexo dela, e desejou que aquilo ficasse assim por horas a fio. Nem quis se lavar.
Já em condições de ousar em palavras, sentenciou: quero merecer sempre essa espécie de ‘carimbo’ em minha coxa. Ela gostou.
Deitados lado a lado, não mais nus, mas certamente desavergonhados por completo, ele descobria o que nunca suspeitara, que um corpo maduro de mulher não perde em beleza e sensualidade. Para que uma bunda firme, peitos a olhar os céus, coxas de vênus, se a dona disso tudo não soubesse tratar um homem com se ele fosse um Rei – ou um Deus? Ele agora via de que substância era feita a tesão mais forte que sentira na vida. Um novo conceito de atração, uma nova verdade, se afirmavam para Horácio. Por que haveria de querer algo diferente?
Aquilo superava, e de forma total, todas as suas melhores expectativas em relação a um contato íntimo. Tinha até esquecido o que era ter momentos como aquele. Com certeza, nunca os tivera, seja com Mariana, Dalva, Judith, Elsa e outras mais, entre as mulheres lembradas ou já esquecidas.
Não combinaram o próximo encontro nem qualquer rotina para que estes acontecessem. Apenas deixaram fluir as vontades, e estas, por algum desígnio da natureza, sempre se faziam acontecer, fosse para num café no meio da tarde, um cinema, uma caminhada no bairro. Nos finais de semana, quando ela não estava em seu plantão de médica, procuravam um jeito de dormirem juntos. Ela nunca lhe perguntou sobre suas companhias anteriores e ele retribuiu-lhe de igual forma.
Estava Horácio vivendo momentos assim tão bons quando sentiu um sobressalto e percebeu que estava sonhando. Curiosas aquelas cenas, que haviam se transformado em um sonho que se repetia. Bem que ele queria que fosse verdade. Levantou para tomar um copo d’água e viu que Claudete tinha passado por ali, talvez porque tivessem marcado encontro, do qual ele se esquecera. Deixou um bilhete na cômoda: volto outra hora meu bem, fique com Deus.
Por este tempo, Horácio resolveu dar uma arrumação geral na casa, particularmente nos pertences de Mariana, que ele até então não tinha destinado a ninguém e nem mesmo sabia o que fazer deles. Havia uma caixa de cartas e outros escritos e entre estes um caderno com o título de Desabafos de Mari. Achou a princípio que não deveria abri-lo, mas logo mudou de ideia, pois a falecida esposa teve tempo suficiente para se desfazer dele e mesmo assim não o fez. Portanto, pensou, ela gostaria que ele lesse aquilo. Em determinada página ela se lamentava do que lhe dissera uma cartomante, que lhe revelou que ele, Horácio, somente encontraria o grande amor de sua vida mais tarde, talvez quando chegasse aos cinquenta anos ou mais. Assim estava escrito para ele.
Mariana nunca havia revelado tal fato a ele, mas Horácio se lembrou de certo momento, alguns anos da morte dela, quando a esposa se viu assaltada por uma espécie de ideia fixa. Ele achou aquilo meio maluco, pois coisas assim, aliás, faziam parte dos costumes dela e não lhe deu muita atenção, o que acabou facilitando, talvez, a suspensão de tal questionamento dentro de alguns dias ou semanas.
Sua desconfiança em cartomantes, pitonisas, ciganas, magas e assemelhadas arrefeceu um pouco. Mas achou melhor acreditar que se tal profecia fosse real, tudo bem, mas melhor ainda, o certo, certíssimo, era aquilo, não tendo qualquer dúvida sobre isso. E que tal coisa era um apogeu e uma síntese. Como engenheiro pensou: é o zênite! A verdade única e absoluta, na qual valia a pena acreditar, naquela sua vida tão errática até então.
E agora vinham aqueles sonhos, justamente quando ele estava prestes a completar 50 anos. Quem dera pudesse aquilo virar realidade. Afinal merecia que a vida fosse generosa com ele, e se prolongasse para lhe dar o tempo necessário para um encontro que finalmente acabasse com todas as suas procuras. Antes um começo tardio do que a espera do nunca, pensou, antes de ser tomado pela modorra de mais uma tarde tediosa e solitária.
***
