Minha vida é a de um avaliador de velharias, que é o nome que eu dou ao que faço profissionalmente, ou seja, acompanhar as frequentes demolições de imóveis em busca de madeira, vidros, esquadrias e outras coisas de valor, que começam a ficar muito valorizadas aqui nesta cidade, que já foi nova e moderna, mas agora é apenas mais uma das cidades velhas deste país. Neste ofício, que para muitos se realizaria sem maiores emoções ou focos de interesse, além de seu prejuízo aos alérgicos (coisa que felizmente eu não sou), volta e meia me aparecem coisas interessantes, das quais, fosse eu um historiador ou literato, teria mil histórias para contar.
Mas falo como sujeito curioso mesmo. Que os tais intelectuais especialistas no passado me corrijam e mostrem o rumo certo das coisas. Fui seminarista e até posso dizer que manjo um pouquinho das tais ciências sociais, mas prefiro falar só do que vejo, com meus olhos quase leigos, mas acima de tudo sinceros.
Vejam este caso, por exemplo.
O casarão da colina que leva ao palácio do governo teve sua morte decretada, não por algum governador, prefeito ou outra autoridade, mas pelo dono da maior empresa imobiliária aqui da capital, o senhor Antônio não sei das quantas. Deixa pra lá tal detalhe…
O prédio já havia sido esvaziado pelos antigos moradores fazia tempo, e saqueado sistematicamente por uma série de invasores, com a colaboração de ratos e traças, ao longo dos anos. A mim cabia avaliar o estado das portas e janelas e outras peças de madeira da construção, algumas bastante inteiras, por sinal.
Vocês perguntariam: mas não seria essa uma das construções tombadas na cidade? A resposta é sim, claro, mas por algum artifício, urdido na calada da noite em algum gabinete oficial, aquele casarão escapara da “maldição” do tombamento, que é como as imobiliárias denominam os decretos governamentais que determinam tal destino às edificações da cidade.
Havia ali muita madeira e esquadrias ainda aproveitáveis, principalmente para o uso específico e valorizado de se dispor de tal material envelhecido para a fabricação de móveis e outros objetos, além de peças que poderiam ser utilizadas mesmo em construções contemporâneas, no caso das portas e janelas, feitas em peroba e outras madeiras nobres.
Mas no meio daquela barafunda toda, para além do cheiro de mofo e de urina de rato, me chamou a atenção uma velha estante corroída pelo tempo, com seu conteúdo de livros espalhado a seus pés, a maioria já se desfazendo no meio daquele desmazelo, mas um ou outro em estado até razoável e ainda legível. E foi um desses que me chamou a atenção, por estar separado do conjunto e me parecer, como se confirmou em seguida, especialmente antigo.
Era de fato um velho livro, chamado Horas Seraphicas do Officio de N. Senhora Rainha dos Anjos Maria Santíssima, que à falta de outro pretendente, guardei comigo, no ato, quem sabe para penetrar melhor e depois em seus possíveis mistérios, pois imaginei que estes certamente surgiriam daquele alfarrábio. Encapado em couro e com as páginas amareladas pela ação do tempo, logo que vi que aquele livro era, por si só, uma curiosidade rara, tirado que foi em uma quarta impressão mais acrescentada, em Lisboa, na Oficina de certo Miguel Manescal da Costa, Impressor do Santo Ofício, no ano de 1764. Uau!
Mais do que seu valor de relíquia, de história certamente acidentada, com as licenças necessarias do Santo Offício, como consta de seu frontispício, o que me tocou mais fundo foi o que vi a seguir. Em páginas sem impressão, certamente acrescentadas em alguma de suas possíveis e sucessíveis encadernações, havia algumas dezenas de anotações, feitas a mão, possivelmente usando pena de ganso.
Atenção para a surpresa: tratava-se de uma autêntica crônica do cotidiano de uma família do interior de Minas, com a tinta frequentemente esmaecida pela ação do tempo ou, quem sabe, de algumas lágrimas. Mostro para vocês algumas passagens, mantendo a grafia original.
«Cazei-me com a Sra. Theresa Maria de Jesus Paixão aos 30 de julho de 1859».
«Aos 16 dias do mez de junho do anno de 1860 nasceo o meu filho Florindo, que foi baptizado aos 26 do mesmo mez. Forão padrinhos Antonio Teixeira da Paixão e Theresa Maria de Jesus. O sacramento foi ministrado pelo Vigário Ignácio J. Nogueira».
«Aos 13 de julho de 1861 falleceo meu sogro faltando 4 dias para completar 82 annos, sendo sepultado no dia 14».
«Aos 7 de dezembro de 1861 nasceo meu filho Antonio, que foi baptizado aos 15 de janeiro de 1862 pelo Vigário Ignácio Joaquim Nogueira.
«Das 2 as 3 da madrugada de 9 de abril de 1863 tremeo a terra».
«A meia noite do dia 16 para 17 de fevereiro de 1864 nasceo meu filho João, foi baptizado aos 19 do mesmo pelo Vigário Ignácio. Aos 18 de abril de 1866 nasceo meu filho Galdino e foi baptizado aos 16 de junho do mesmo anno pelo Vigário Ignácio».
«Aos 10 de maio de 1868 nasceo minha filha Pascoa e foi baptizada pelo Pe. Ignácio aos 9 de junho do mesmo. Na quarta feira 19 de maio falleceo minha mãe deixando 5 filhos».
«Em 17 de agosto de 1878 nasceu minha filha Theresa e foi baptizada aos 6 de outubro do mesmo ano pelo Vigário Cônego João Alves Coelho.
«Aos 26 de abril de 1873 falleceo meu filho João a 11 e ½ horas da manhã e como foi de bexigas enterrou-se as 2 da tarde do mesmo dia, tendo de idade 9 annos, 8 mezes e 10 dias».
«Em 18 de janeiro de 1874 falleceo meu irmão João na Cidade de Ouro Preto e foi sepultado em S. Francisco de Paula a 19 do mesmo mez».
«O Benjamim foi para o Collegio de Congonhas do Campo a 14 de junho de 1890».
E então, o que acham disso?
Não é pouca coisa, realmente: trinta anos de vida, morte, sustos, partidas, celebrações e tudo mais que faz da condição humana este caldo fascinante de dor, alegria e mistério.
Mas havia mais. Isso aí acima era o que constava das páginas acrescentadas ao começo do livro. Havia mais, na porta dos fundos, já com uma grafia aparentemente mais atualizada. Eram anotações semelhantes, porém de conteúdo – estas sim – de fundo mais político e social, surgidas, ao que parece, das mãos de um outro e ignoto proprietário do livrinho, quem sabe um descendente daquele anterior, o esposo da sra. Thereza Maria de Jesus Paixão, de nome igualmente desconhecido. Esse último agora residente não mais no interior das Minas Gerais, mas em pleno Rio de Janeiro. O ano, 1904.
«O povo aqui no Rio de Janeiro está damnado da vida. Não é que o governo do Rodrigues, com o pretexto de controlar a varíola, além de outras moléstias, faz por querer constranger as pessoas a tomarem o que chamam de vaccina?»
«Aqui, o tal do Pedreira Passos, o prefeito da cidade, bem merece o nome que tem, sua alma deve ser de fato feita de duras pedras. E não é só a vaccina, há uma destruicção generalisada dentro da cidade. Aquelle Rio de Janeiro do Chalaça, de Dom Pedro I e de Manuel António de Almeida vae perecer e até deixar de existir completamente. O que sobrará em seu lugar?»
«Pedreira de um lado e Cruz do outro. No caso, o Doutor Oswaldo, que até parece a barca da Cantareira, passando por cima de tudo. Dizem que é o preço do progresso, mas eu mesmo não sei dizer se as cousas devem ser assim mesmo.
«Somente esta semana morreram dois amigos meus, em uma trágica coincidência fonética: o Bulhões, de peste bubônica e o Quintela, de febre amarela. Desse jeito vou acabar dando como corretos ,que me escusem o trocadilho, os Passos na via Crucis do doutor Oswaldo.»
«Temos uma vantagem no meio desse chaos todo: os pobres estão sendo obrigados a se retirar dessas cabeças de porco que eles chamam de caza aqui nos centros da cidade. Onde já se viu uma urbis que mantém essa miséria e essa sujeira toda em suas artérias centraes? Indago: será que na Paris de Vitor Hugo, de Balzac ou de Flaubert existe ou existiu algo assim? Cáspite! Melhor exibirem as porqueiras deles longe daqui.»
«Agora a porca torce o rabo! O governo publicou o decreto da vaccina obrigatória e de agora em diante vae ser preciso ter um diploma disso até para se matricular um filho nas escolas, para se ter emprego e até para casar! E olhe lá que quem não fizer assim como o governo quer vae ser até penalizado, e arcar com multas! O bom Deus que nos livre! O cidadão de bem não tem nenhum sossego mais.»
«Pancadaria para todo lado. A polícia vai dando bordoadas a torto e à direto. Dizem que em São Cristovam ontem morreram dois, ou até mais, baleados pela polícia. Que morram esses baderneiros. Eu mesmo na rua do Ouvidor, outro dia, quase levei uma porretada no alto da sinagoga. Aproveitei para mandar em alto e bom som um morra a República, mas parece que ninguém ouviu. Mas pensando bem, foi melhor assim. Agora, além de reclamar da vacina, estão a se queixar também das demolições, dos atos do governo, das barcas de Nichteroy. Qualquer hora vão reclamar até das mães que em má hora os pariram. Atenção senhores Rodrigues Alves e Pedreira: vossas mercês pensam que um dia vão satisfazer este povinho aí? Pois é, estão muito enganados.»
«Os militares são a nossa salvação, mais uma vez. Não deviam ter despachado o Imperador, mas agora têm que dar conta do recado, e o devem proceder sem demora. Estão falando por aí que um magote de florianistas e positivistas já está tomando as rédeas. Oxalá que assim seja! Quero ver aonde vamos chegar, mas uma cousa é certa: como os tempos do Imperador, não os há de haver, jamais.»
«A última moda aqui no Rio de Janeiro é criar rato. Sim, criar rato. E não seria para comer, o governo está pagando por cabeça – ou seria por rabo? – a ser entregue nos postos da Hygiene. Ó tempora, ó mores.»
Não posso deixar de comentar isso aí, mesmo que careça de certos dotes intelectuais ou, pelo menos, sociológicos. Fui confirmar na internet o que significa esta expressão aí, o tempora, o mores, aliás, em latim é sem acento nos “o”: “ó tempos, ó costumes” e se refere a uma exclamação atribuída ao tribuno romano Marco Tulio Cícero, que viveu no século anterior a Jesus Cristo e que com tais palavras deplorava a perversidade dos homens e os costumes dissolutos da sua época.
Interessante isso, me despertou pensamentos um tanto azedos, na verdade. Só mesmo um dos tais intelectuais da história humana para dizer se eu estaria eu certo, ou não. Talvez não esteja, mas mesmo assim vou me arriscar a considerar aqui.
Esses escritos representam, de certa forma, uma visão de mundo separada por poucas décadas. São dois brasileiros, um vivendo no Rio de Janeiro, outro no interior de Minas e suas concordâncias certamente são muito maiores do que eventuais discordâncias. A grande diferença é que o ouropretano está mais focado na família, e o outro, na política e nos costumes. Provavelmente ambos são membros de uma classe média já estabelecida, coisa demonstrada pelo simples fato de serem ambos letrados. O mineiro demonstra simpatias pela religião; o outro não menciona isso, mas como quase todo mundo no Brasil da época, deveria ser católico apostólico romano, deixando entrever alguma simpatia pela filosofia positivista, que tinha tendências anticlericais, ma non troppo. O carioca, sem dúvida, se mostra imbuído de uma visão política, com desprezo pelos pobres e simpatia com os poderosos da ocasião, inclusive pelos militares, ainda ressentido da viuvez ou orfandade que lhe foi imposta em relação ao Império, destituído pouco mais de uma década antes. Pode ser que o mineiro também pensasse assim, mas não nos deixou indícios sobre isso.
Em tempo, não tenho argumentos para negar ao ouropretano alguma tendência conservadora na política e muito menos ao carioca uma preocupação com os destinos da sua própria família, embora em termos de costumes ele deixe pistas conclusivas.
Aqui o sociólogo amador e irresponsável entra em cena: não estaria sendo nidificado o ovo de serpente do qual resultaria, em nossos dias, a eclosão dessa direita chucra e pouco afeita a argumentos razoáveis? Sei não, que os verdadeiros sociólogos respondam.
Cicero entra nessa história como seu conterrâneo e quase contemporâneo Pilatos. Ele é o único personagem dessa trinca do qual eu posso ter informações seguras, graças à Wikipedia. Vejamos o que se diz ali.
Marco Túlio Cícero foi um advogado, político (Cônsul), escritor, historiador, tradutor, orador e filósofo romano que viveu entre 106 e 43 a. C. Era filho de uma família nobre e teve vida política intensa, exercendo cargos de relevância na Roma imperial. Ele ainda é lembrado pela sua trajetória intelectual, como orador e prosador de alta relevância para a cultura e a própria língua latina, com influências que se desdobram até na formação ideológica do chamado renascimento europeu, bem como da filosofia iluminista, muitos séculos depois de sua morte. Foi também o grande responsável pela introdução das ideias dos filósofos gregos na Roma antiga.
Embora tenha sido um dotado orador e um advogado de sucesso, Cícero acreditava que sua carreira política era sua conquista mais importante. Entretanto foi ferozmente perseguido pelos poderosos de sua época, taxado como inimigo do Estado e finalmente executado pelo Triunvirato em exercício, sendo suas mãos e sua cabeça exibidas no Fórum romano.
E daí, o que tem uma coisa a ver com a outra… e a outra?
Aparentemente quase nada, a não ser o seguinte: que o passar dos séculos e o declínio dos impérios pouco muda a gana da humanidade por poder; que os que pensam diferente da média acabam perseguidos; que a violência e o apego ao passado são coisas quase inerentes ao ser humano, independente da época em que vivam; que as leis, para quem é realmente poderoso é coisa a ser relativizada, além de que a história é escrita, embora não totalmente realizada, pelos poderosos de ocasião.
Que desabe sobre mim, agora, como aconteceu a Marco Túlio, a cega espada dos donos da palavra e da interpretação da história.
Tenho dito.
***
Vai aqui uma explicação indispensável. Os registros da primeira leva, ou seja, da lavra do mineiro de Ouro Preto, são autênticos, derivam de um breviário que minha vó Dodora Santos Andrade me deixou como herança, pertencente à sua família, sendo de autoria de seu avô. O resto é invenção minha mesmo, pelo que assumo total responsabilidade.
