Laços de família

Tenho que admitir, minha família é meio diferente das outras mesmo.

Meu irmão Jonas, por exemplo. Não perde oportunidade de relatar como foi seu estágio na barriga de uma baleia, como foi vomitado por ela, quase se afogou até ser resgatado por pescadores, que eram também piratas e lhe tomaram tudo que tinha no bolso, principalmente a chave de uma arca que continha um tesouro acumulado pela família durante décadas, e que lhe fora repassado pelo nosso bisavô. Logo ele contando uma história dessas, filho temporão que nem conheceu nosso pai, muito menos o pai e avô dele. Mas tudo bem, a esquisitice dele é esta, temos que compreender. Não é à toa que os médicos lhe receitam uma dúzia de comprimidos ao dia, que entretanto ele nunca toma direito.

Mas Jonas parece até bem normal, quando comparado ao Josué, nosso irmão mais velho, já falecido. Esse aí, um belo dia, deu para se estacar na frente dos espelhos de casa, ou onde estivesse, com um hábito de ficar se olhando, mudando a cara de posição e passando a mão do nariz até o queixo, sem que ninguém entendesse aquilo. Minha mãe, preocupada, um dia o levou ao médico o qual, depois de várias consultas e profundos interrogatórios extraiu dele a confissão que tal preocupação era com o crescimento, na face, do que lhe parecia um bico de pato, coisa que ele pediu ao doutor que confirmasse, ou não. O médico lhe passou uns remédios, umas vitaminas, parece, que não lhe serviram de nada. Mais tarde ele melhorou daquilo sem maiores tratamentos, ou melhor, passou a ter a mesma atitude, só que desta vez virando o corpo penosamente, ele era meio travado das juntas, para ver se enxergava a sua própria bunda, na qual, na sua imaginação, crescia um belo rabo. Morreu atropelado por uma simples bicicleta, ao que parece repetindo este gesto, que se lhe tornou exaustivo, na avenida, em plena luz do dia.

E a nossa tragédia continua. Prima Izildinha tem o sestro de arear panelas. Fica horas e horas no quintal da casa de nossa tia Esmeralda, limpando e lustrando com denodo e persistência quantas vasilhas de alumínio ou ferro haja em casa, solicitando até que os vizinhos lhe tragam as deles, para dar às mesmas aquele trato brilhoso, que ela considerava imperioso e imprescindível, como se daquilo dependesse sua entrada no paraíso. Um dia, acharam demais tal mania e guardaram as tais vasilhas em lugar inacessível, parece que trancando as ditas cujas na despensa da casa, o que fez Izildinha pirar de vez, entrando em profunda crise de depressão e agitação, sendo sua mãe obrigada a levá-la ao hospital da cidade. Parece que agora está melhorzinha, fazendo seu serviço apenas com a louça da casa, que é menos numerosa e mais fácil de manter brilhante.

Já o primo Elesbão conseguiu, não se sabe como, frequentar aulas da Faculdade de Medicina, vestindo-se com apuro, até com terno e gravata para ir até lá. Um belo dia, com a ausência inesperada de um professor, simplesmente entrou na sala de aula e o substituiu, fazendo um discurso longo sobre a fluxo na veia porta e sua influência nos humores figadais – ou algo assim. Depois disso, naturalmente, não o deixaram mais frequentar as aulas, embora ele passasse a fazer ponto em um botequim da esquina da faculdade, de onde dirige provocações científicas e desafios clínicos aos médicos e futuros médicos que vão tomar seu cafezinho ali.

Meu irmão mais novo, o Joca. Este deve ser o campeão das esquisitices na família, onde já existem tantos abilolados. Sumiu no mundo, anda por aí, faz tempo que não temos contato com ele. Mas volta e meia alguém dá notícias do Joca por aí, vestido com roupas combinadas de verde com amarelo, desfilando pelas ruas da cidade, empunhando uma bandeira do Brasil, dando vivas à República e às Forças Armadas nas esquinas. Quando criança sua brincadeira predileta era de soldado, mas com a condição de que ele pudesse fuzilar os demais participantes. Deve ter herdado isso de um tio nosso, o Osório, que aliás nem conheci, ex-combatente na Itália, que passou o resto da vida vendo alemães pra todo lado e se escondendo estrategicamente para pegá-los de surpresa com um fuzil invisível. Isso quando não fazia ponto junto ao Consulado da Bélgica, que ele confundia com o alemão, tentando uma conversa particular com o diplomata encarregado – nunca realizando tal intento, felizmente.

O primo Quincas é da categoria dos inofensivos, pelo menos até o momento. Teve uma infância normal, aparentemente, mas depois que foi reprovado duas ou três vezes na habilitação do Detran, entestou de ser guarda de trânsito. Fica por aí com um apito, certamente mais atrapalhando do que ajudando o trânsito, com preferência na porta das escolas, onde a criançada adora vê-lo em ação, com passos coreografados e apitadas frenéticas, retribuindo aos aplausos e gestos de admiração de tal público com mesuras teatrais, ou melhor, circenses. Mas é manso e sorridente, de excelente convívio na família e com seus admiradores infantis, somente alterando seu humor quando alguém por acaso ou por picardia faz reparos à gestão de trânsito na cidade. E fazem isso de maldade, apenas para provocá-lo.

Curiosa mesmo é a história da nossa prima Francisca, que se apresenta como Francesca, mas na intimidade conhecida como Chiquinha. Ela sempre foi muito religiosa, apesar de ter um pai e vários tios comunistas de carteirinha. Quando pequena fugia de casa para assistir missa e outros ofícios religiosos na igreja do bairro. Ajudava missas, até mesmo fazendo o responsório em latim, conquistando assim as graças de todos os padres que passaram por ali. Com a idade adulta, ficou mais roxa ainda, em termos de religiosidade, chegando a percorrer um rosário inteiro três vezes ao dia. Consta que ultimamente já amanhece na igreja e quando chega a hora da missa se ajoelha no centro do corredor, dobra-se inteira, como uma contorcionista, quase encostando a testa no chão, com as duas mãos estendidas em direção ao altar. Até aí tudo bem, mas o problema é que ela, nos intervalos de sua genuflexão, passeia pela igreja obrigando, com palavras e até com safanões, as pessoas a se ajoelharem nos devidos momentos. Pelo que sei o padre já pediu orientações ao Bispo e tudo indica que mais dia menos dias ela será recolhida a alguma casa de saúde mental, talvez contida em uma camisa de força. Coitada da Chiquinha, é o peso da família…

Chiquinha é irmã de Astolfo, também conhecido como Totó. Este puxou a comunistice do pai e dos tios, mas o seu proletariado são os cachorros do bairro. Não satisfeito de ter sempre uma dúzia deles adotados em casa, deixando a pobre de sua mãe ainda mais enlouquecida do que ele, puxa uma fila de cães abandonados pelas ruas do bairro, aos quais conquista com ossos e comida, proferindo discursos veementes nas esquinas a favor da união em favor dos cães abandonados de todo o mundo, que jamais serão vencidos, apelando para argumentos que incluem palavras de ordem como luta de classes, hegemonia e mais-valia.  

Talvez o caso mais extraordinário, entre tantas manifestações estranhas, seja o que acontece com o Josafá. Ele nem é primo de verdade, mas sim casado com a Clarisse, nossa prima, que é uma pessoa quase normal, não fosse seu hábito de conceder determinado tipo de graça ou favor a numerosos rapazes. Talvez essa doideira familiar seja contagiosa, sei lá, mas o fato é que o Josafá, que foi até o casamento um sujeito digamos normal, filiou-se a uma igreja evangélica e passou a fazer pregações nas ruas, a favor da moralidade e dos bons costumes, escolhendo como púlpito um caixotinho portátil eventualmente instalado defronte a alguns endereços da parte baixa da cidade, onde proliferam os bordéis e outros estabelecimentos de má fama. Os cafetões e cafetinas, claro, já estão reclamando até na polícia, porque o Josafá, com aquela gritaria Em Nome do Senhor Jesus, está assustando e afastando a clientela dos tais estabelecimentos, que até então, na era pré-Josafá, conviviam em perfeita paz com os cidadãos de bem.

Às vezes me perguntam como eu posso ser assim tão normal, como todo mundo sabe que eu sou, sendo membro de uma família cheia de pessoas que se desviam da normalidade. Eu esclareço para eles que… Bem, na verdade, não sei como explicar; só sei que é assim. Minha vida, entretanto, não tem sido fácil, enfrento muitas dificuldades, até de índole moral, pela incompreensão de alguns, mesmo dentro de minha própria família, na qual alguns chegam ao absurdo de me acusar de ser um inventor de histórias fora de propósito, um tanto irresponsável mesmo e que ainda vou me dar mal com isso, quando por acaso minhas revelações atingirem alguém fora de nossa esfera familiar mais próxima. O primo Josafá, por exemplo, até já veio tomar satisfações comigo por conta daquela história dele na porta de puteiros. Mas, pensando bem, pode ser que eu estivesse enganado mesmo, pois talvez tenha sido outro e não ele o autor de tais façanhas. Pode ser que seja o Deusdeth, um outro parente nosso, também evangélico de coração. Vou precisar investigar e se for o caso pedir desculpas.

Não é possível! Acho que me enganei de novo: o Deusdeth, primo de terceiro grau, é o cara que abriu um quiosque de produtos importados do Paraguai na porta da Delegacia da Receita Federal. O sujeito do bordel já não sei mais quem é, acho que é um cunhado da minha irmã Terezinha. Vou esclarecer direitinho e depois conto para vocês.

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