De um diário alheio

Foi em uma das minhas viagens à Europa. Eu não estava feliz – mas também não infeliz – porque acabara de romper meu relacionamento de três anos com a Renata e topei viajar, mesmo sem ela, para tentar esquecer de tudo que tinha vivido nos últimos tempos. E havia, realmente, para mim pelo menos, muita coisa a não ser lembrada. É a vida, nada mais. Viagem de avião, sabem como é, só fica boa mesmo quando acaba, primeiro pelo fato notável de a gente continuar vivo, e não ser devorado pelos tubarões no mar, depois por ter chegado ao fim aquele suplício de passar uma noite em claro, com as pernas encolhidas, ainda mais terminando de forma inglória com aquele esdrúxulo café da manhã servido na incômoda hora das cinco e meia da madrugada, quando a gente tem que fazer um esforço danado para convocar a fome. Isso tudo depois de enfrentar a situação meio prosaica, meio constrangedora, de passar uma noite inteira, dormindo ou tentando dormir, bem ao lado de um desconhecido, ombro a ombro e coxa a coxa com este aí. Mas eu queria falar era de um camarada que tinha assento do meu lado. Um tipo talvez uns dez anos mais velho do que eu, aparência de intelectual, de poeta, sei lá, cabeça branca, bem vestido, cachecol no pescoço, livro nas mãos, na cabeça uma boina de personagem das antigas bande-dessinèes francesas, aquelas do Tintin, sabem? Na decolagem, trocamos duas ou três palavras, apenas convencionais, tipo boa noite, com licença etc. Mas por alguma razão, o papo engrenou somente durante aquele café da manhã extemporâneo, quando fiquei sabendo que ele era professor universitário aposentado, que ia cumprir um período sabático em Lisboa, por conta própria, que morava em Brasília, trabalhava na área de saúde (seria médico?) e mais algumas informações adicionais, sem maior relevância para a história que vou contar aqui. Ele ficaria em Lisboa, eu seguiria adiante, pois tinha um voo de conexão para Paris mais tarde. Então, ok, bom dia, boa viagem, muito prazer em conhecê-lo. Ao se erguer da poltrona, sua mochila se abriu, desastradamente, jogando ao chão alguns livros, uma espécie de caderno de anotações e caixinhas daquelas que se usa para carregar pasta e escova de dentes. Juntou aquilo tudo de forma atabalhoada, parecendo um pouco desconexo nos seus gestos e saiu do avião antes de mim, aparentemente por estar de fato muito apressado, ou então porque era desajeitado mesmo.

Aí começa a história que vou detalhar em seguida.

Quando finalmente consegui me organizar para também sair, reparei que como resultado da abertura acidental da mochila do companheiro de voo, ele havia deixado no chão um caderno, que eu recolhi, com a intenção, é claro, de devolvê-lo ao dono, logo em seguida, na fila da imigração.

O problema é que, de repente, por algum motivo, suspenderam o desembarque, que era remoto, e tivemos todos os passageiros remanescentes que aguardar por uns vinte minutos, até que estacionasse ali, ao pé do avião, um daqueles ônibus de aeroporto.

Resumindo a história, quando finalmente cheguei na tal fila da imigração, por milagre ela estava bastante reduzida naquele dia e o dono do caderno já tinha se livrado dos burocratas alfandegários, devendo estar, naquele momento a bordo de um taxi ou, de toda forma, praticamente inalcançável. E muito provavelmente sem dar falta do seu caderno esquecido.

Pensei comigo que poderia deixar o tal caderno no setor de perdidos e achados do aeroporto e até tentei localizá-lo naquela inóspita imensidão, mas a tradicional cortesia lusitana em fornecer informações a brasileiros me ajudou em nada, pelo contrário, somente me confundiu. Como eu ficaria por ali algumas horas deixei para fazer tal procedimento em momento seguinte, mas o fato é que quando fui fazê-lo eu tinha trocado o tal caderno de lugar, inadvertidamente, jazendo agora ele em minha mala, que eu havia (re)despachado para o meu destino final, Paris. E eu assim fiquei com aquela batata quente nas mãos, ou melhor, na bagagem, dando asas à imaginação sobre como resolver aquilo em outro momento.  Pensei comigo: vai ter que ser quando eu voltar ao Brasil, afinal o passageiro era brasileiro e seria mais fácil que ele recuperasse seu objeto no país de origem, que afinal era ao meu também, o que me pareceu mais razoável.

Quando finalmente descobri o tal caderno, mais tarde, já no Hôtel de Seine, entre minhas cuecas, camisetas e meias, meu primeiro ímpeto foi de mantê-lo fechado, por algum pudor de estar devassando uma vida alheia, pois já tinha percebido, de passagem que seu conteúdo indicava uma espécie de diário, pelas anotações da primeira página, que mal entreabri. Guardei-o de novo, rapidamente, mas nos dias seguintes, como chovia desesperadamente na Cidade Luz, fui obrigado a permanecer no hotel e assim, ainda com certo resguardo, resolvi dar uma olhada mais profunda naquilo, que me desculpasse o nobre professor.

Voltei àquela primeira página e confesso, não consegui mais parar. Aquilo era um prato cheio, além do mais muito bem escrito, um registro sensível, profundo, com bons momentos poéticos, de situações relativas à vida, à família, à amizade, ao amor, principalmente este último sentimento, acrescido de referências literárias interessantes – e o fato é que eu, sem dúvida, me identifiquei com aquilo. A questão, acima de tudo, é que sou uma pessoa ligado à escrita, depois eu explico.

Na verdade, somente fui olhar aquilo com mais profundidade quando retornei ao Brasil. Estava tudo escrito a lápis, mas eram visíveis os riscos coloridos, indicando um processo de revisão em curso, indicando que talvez o professor estivesse cogitando publicar suas anotações. Realmente prato-cheio é uma metáfora pobre para descrever o conteúdo daquele caderno. Havia muita coisa ali, de registros simplórios e burocráticos do cotidiano do autor a considerações sobre sua vida amorosa e familiar, além de poemas, escritos soltos, relatos de viagem, alguns desenhos (toscos) e sabe-se lá quanta coisa mais. Digamos que a qualidade do material não era uniforme, mas aquilo me atraía de verdade. Fiquei curioso, também, com a inscrição na capa do caderno: Memória Vol. I, indicando seguramente que havia mais coisa sendo preparada

Melhor ainda, aquilo trazia organização: um caderno escolar, grosso, daqueles com seções de cores diferentes e folhas de rosto devidamente identificadas quanto ao tema de cada uma de tais seções, tudo redigido numa letra vacilante, mas ainda em boa parte legível.

Assim, já em casa, tentei finalmente devolver o caderno a seu dono. A companhia aérea mantinha de fato, em São Paulo, um setor no qual poderiam ser registrados os achados e perdidos. Melhor ainda, eu nem precisava ir lá, bastava preencher um formulário, declarar o objeto e meu telefone de contato e aguardar a manifestação de quem seria do único e legítimo interessado. Era moleza e eu assim procedi de imediato. Para resumir a história, uns três meses depois, como não houvesse manifestações, entrei em contato de novo e eles confirmaram que o objeto não tinha sido realmente procurado. Pensei: é todo meu, então!

Que me desculpe o ignoto professor, mas não resisto em transcrever aqui alguma coisa de sua respeitável lavra. A separação em seções coloridas e temáticas que ele mesmo dispôs me facilitou bastante o trabalho.

Acho que podemos começar pelo Amor, um tema que me é caro, até pelos meus percalços em tal campo. Mas para amenizá-lo, ou ampliá-lo, poderíamos incluir aqui também o que o professor tinha a dizer sobre (sua) Família.

No amor, ele mostra uma história movimentada, com referências diversas a diferentes mulheres, nenhuma delas, aparentemente, esposa formal ou oficial. Pelo que se vê nas anotações, ele é um homem separado ou divorciado, que tem pelo menos duas gerações de filhos, de idades bastante diferentes entre si. Mas no campo amoroso propriamente dito quem domina o cenário é Atheneia, provável pseudônimo, atribuído ad-hoc, a uma mulher ligada à sua história afetiva pregressa, quando ainda era casado, com desdobramentos no mundo do trabalho, também atravessando, mediante aproximações e separações, os relacionamentos dele com outras mulheres. Em relação a ela são demonstrados, de forma intensa, erotismo e até mesmo alguma sacralidade, além de profundo respeito intelectual, com manifesta intenção de um dia poder se juntar a ela à luz do dia, vontade que, porém, não tinha sido concretizada por inteiro, devido a fatores do entorno deles. Há encontros esporádicos dos dois, às vezes entre uma paquera e outra do nosso herói, encontros esses que ganharam foro sagrado, digamos assim, em um especial momento em que os dois experimentaram no reduto rural dele. O personagem, chamemo-lo de “I*” (de Ignoto), não mede palavras para falar de sua musa.

– Um telefonema – um simples telefonema! – na noite de verão e eis que o milagre se repete, mais uma vez, e como sempre, fazendo a salamandra arder em chama que não queima. O que seria a vida sem isso? Minha Deusa!

– O velho mito se ergue (o Amor com sua espada), em meu peito fez albergue, mudando minha jornada. Fortuna que me sorri, um tanto de minha virtude, tudo se junta, aqui.

– Eterno reencontro [com ela], agora temperado como sabor da maturidade.

– Atheneia, doce e distante presença, fiz bem em novamente buscá-la. Mas será que ainda credita em mim? Em perspectiva, dois dias juntos em passeios pelo velho e glorioso Rio de Janeiro, cidade de minhas paixões, onde já provamos do bom fruto.

– De novo navegando em turvas águas, sem dúvida revoltas (para os que enxergam de fora), mas há diferenças com relação ao passado: agora, nada de sofreguidão, nada de decisões heroicas, trágicas (e insustentáveis). A nau é forte e nós marinheiros já conhecemos caminhos do mar.

– Viva Atheneia! O certo é que amo ela como ninguém e esses encontros devem continuar, estou sempre querendo marcar o próximo, que vai ser nos longes dela. E milagrosamente é tudo suave, sem pressa, sem sofreguidão. Amor de madureza, agora sim!

Em dado momento lamenta que num encontro com ela tenha sido traído pelo “Sr. P”. Custou-me, porém mais tarde percebi que aqui ele usa um eufemismo para falar, quem sabe, da irrigação dos corpos cavernosos, na esfera genital. Afinal, ele talvez já tivesse passado dos 60 anos de idade quando escreveu isso. Esse “P” pode ser também indicativo de poético ou de profano, sejamos condescendentes.

As idas e vindas de seu romance com sua musa às vezes passam por percalços, lamentando tê-la magoado às vezes, com sua incontida ânsia amorosa, ou talvez com sua impaciência em esperar dela uma decisão de abrir a relação deles à luz do dia, como ele reiterava:

– Acho que magoei Atheneia novamente, por não lhe ter comunicado em tempo mais ágil que de novo estou com alguém. É sempre isso, mas também da parte dela não há movimentação, o que eu posso fazer?

Atheneia esteve presente ali, não só de alma, como de corpo, no caso, mãos. Em uma página um bilhete estava grampeado, num guardanapo de papel, sem assinatura, com a anotação dele de que foi a única coisa escrita que ela lhe teria enviado, pelo seu medo fóbico de ser descoberta. Lá estava:

– Nem anjo nem demônio, você mesmo. Muitas vezes doce, outras severo. Sempre com opinião sobre tudo. Sabe dizer a vida em versos sempre que alguma coisa desata em seu coração. Recebe com coração e comidinha quente. Tem a casa iluminada na medida certa, nem mais nem menos do que o necessário para se ver o essencial. Sabe guardar as relíquias da vida na memória, que pode ser reativada sempre que a saudade traz lembranças gratificantes. Enfrenta o desafio de “resignificar” a rotina e os pequenos detalhes da vida. É este homem que gosto. Beijos.

Em outra página, logo a seguir, do nada ele aparece com esta:

– Sete de maio: blow-up! Aconteceu, aconteceu, aconteceu! De novo. E sempre!

O sujeito é caudaloso em suas declarações de amor, embora a duração de seus relacionamentos não faça justiça a seus ímpetos na escrita, mostrando pouca persistência temporal, na maioria das vezes. Mas não deixa de se autocriticar:

– Bem que meu pai, de triste lembrança, já me acusava de não ter persistência nas coisas que eu fazia, como uma criança que tem muitos brinquedos e logo enjoa deles. No meio de tantas asneiras que ele costumava dizer, nesta aí ele parece ter acertado, já estou de partida mais uma vez, agora quem fica pra trás é a Sun. Estrelas também morrem…

Declara mesmo, em um momento, em relação a suas conquistas amorosas, a sensação de sempre estar assistindo um filme pela segunda vez.

Em certo momento, em referência especial à sua história com sua musa principal, de força tão intensa sobre ele, porém de consecução não realizada dos desejos dele, recorre aos versos de Camões: “erros meus, má fortuna, amor ardente, em minha perdição se conjuraram”. E assim vai I*, a trafegar entre amor, sexo, família, trabalho, vida, poesia, viagens, entre o êxtase e o arrependimento; a alegria e a mágoa; as certezas e as dúvidas atrozes; os sentimentos de vitória e de derrota.

No campo amoroso mostra distinções de volumetria, ou seja, número de páginas ou linhas, e de adjetivos também, entre as diversas alusões às musas de seu caminho, falando delas, de modo geral, de forma calorosa no início dos relacionamentos, mas arrefecendo o ardor posteriormente, inclusive com relação a Atheneia, embora neste caso sempre ocorra um refluxo. Fala dessas variadas mulheres designando-as apenas pelas iniciais de seus nomes, além de uma outra, apenas nomeada pela alcunha Penélope. Atheneia é sempre designada por este nome, por extenso, o que me faz supor que seja um apelido criado por ele e certamente compartilhado pelo casal. Ele oferece alguns indícios a respeito do significado dessas pessoas na vida dele: uma parece ter sido esposa, por quem foi apaixonado, sem maiores indicativos de ter sido a primeira, ou não; outra delas é pessoa com a qual ele teve idas e vindas, numa relação aparentemente desgastante e à qual ele faz referências um tanto desabonadoras; uma terceira é uma moça mais jovem, cujo relacionamento com ele foi fugaz, apesar de muito intenso em termos eróticos; mais uma, às vezes referida com Sun, com referência na canção here comes the sun, dos Beatles, também foi uma relação fugaz, sem maiores consequências; houve ainda outra, uma mulher da idade dele, que passou por sua vida, mais uma vez, como um cometa, surgindo com muito brilho e calor e desaparecendo sem deixar qualquer rastro. Algumas dessas mulheres têm seus nomes registrados na íntegra, o que naturalmente suprimo aqui, por respeito à privacidade de gente que certamente ainda estaria por aí. Demonstra atenção pouco extensa, porém diferenciada e sem dúvida carinhosa, a mãe de seus dois filhos menores, também passageira em sua vida.

Sobre os filhos, não deixa por menos. Suas linhas mais emocionadas são dedicadas aos dois menores, temporões, ainda na primeira infância na época da escrita do diário, de cuja mãe ele dá mostras de já estar separado, quando escreveu sobre eles:

– Três é bom, mas certamente quatro (e depois cinco) não foram demais… Aos 55 anos pude experimentar, de novo, a paternidade. E veio num momento muito especial de minha vida, agora morando em …, tendo me transformado, outra vez, em algo que poderia chamar, com todo respeito, de um peixão no laguinho, mas – que nem assim escapou dos predadores. Especial momento pelo desafio profissional e também por usufruir cotidianamente da compensação de ter gerado mais um filho, e depois outra, que eu agora podia ninar e carregar no colo, muito mais do que mais velhos, nascidos em outra etapa de minha vida. Esses dois que assim me vieram foram e continuarão sendo a melhor coisa que pude conquistar na velhice, me fazendo antecipar a alegria da chegada de netos em quase uma década. As pessoas me viam na rua, ou em qualquer lugar, carregando um bebê ou o levando no carrinho, me indagavam – é seu neto? – Não, é meu filho! E eu, orgulhoso disso, já de cabeça quase toda branca, me derretia por dentro e mais ainda me divertia quando as pessoas pediam desculpas.

Quanto aos seus filhos mais velhos, há bastante citações, às vezes carinhosas, às vezes lamentando ser incompreendido por eles.  

Em uma das últimas páginas, após um aparente período longo sem qualquer registro, uma nota surpreendente: a morte de Atheneia, seguida de uma espécie de conto, em terceira pessoa, aparentemente narrando o ocorrido, em tintas não só amorosas como trágicas. Em seguida, também depois de um intervalo de alguns meses, a observação de que conhecera uma forte candidata a seu afeto, numa sessão de cinema, parecendo estar muito animado com aquilo, encerrando assim o capítulo amoroso de seu diário.

Pois bem, como disse Fernando Pessoa, todas as cartas de amor são ridículas, se não fossem ridículas, não seriam cartas de amor. Talvez possamos dizer a mesma coisa sobre as histórias de amor. Mas histórias de amor não são apenas as de Romeu e Julieta, de Tristão e Isolda, de Pedro e Inês. Gente comum também é capaz de construí-las e vivê-las intensamente. Penso que é o caso desse personagem, o professor I*, ilustre a seu modo, mas sobretudo uma pessoa comum. Por essas e por outras é que me encantei com este caderno de anotações, onde tantos segredos estão registrados, que chegou às minhas mãos não por virtude minha, mas como resultado de uma mente distraída, que o deixou cair ao meu pé, independente da minha vontade. Vejo nessas histórias qualidades e forte significado, longe de serem atos vulgares ou descuidados, e não quero deixar passar a oportunidade de entender e aprofundar, através delas, nas eternas questões da condição humana que aqui estão presentes e pulsantes e quem sabe lhes dar um trato literário.

Sem maiores filosofices, a verdade é que percebo muitas coisas de interesse nesse simples diário de bordo de tal cidadão aposentado. Revirar e compreender isso de forma aguda e profunda, além de respeitosa, é coisa que me exige mais linhas, ou páginas.

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