Como eu dizia, carecia de escrever mais linhas e até mais páginas para dar conta daquilo tudo, daquele feixe de anotações íntimas de um desconhecido, vindo parar nas minhas mãos, esquecido, por acidente, dentro de um avião. Mas preciso deixar claro e mais uma vez o porquê disso: longe de ser uma bisbilhotice, o meu interesse no conteúdo de tal fatídico caderno é puramente literário. Já dei indícios e faço questão de reiterar que também pertenço a tal ramo, seja como jornalista em atividade, embora focado na reportagem fotográfica, seja como escritor, não muito profissional ou acadêmico e nem em tempo integral, mas já tendo publicado um livro de contos e outro de poemas, auferindo com este último um prêmio literário. Tudo bem, foi num concurso organizado por uma universidade do interior do país, mas o fato é que concorri com algumas dezenas de candidatos e ganhei o prêmio, o que me rendeu a publicação do livro e até uma singela reforma em meu apartamento. Ok assim? Mas realmente as páginas do tal caderno perdido me queimavam as mãos – e a mente – e eu já andava querendo saber o que via nelas de tão importante assim. Acho que me identificava com as histórias daquele homem, que parecia meio mulherengo, na verdade, entretanto sem ser vulgar, mas que apresentava um lado poético e sensível, isso era inquestionável. Eu queria devolver aquele caderno para ele, talvez como desculpa para conhecê-lo pessoalmente. E aconteceu que folheando o volume mais uma vez, me dei com um número de telefone anotado na contracapa, que eu não tinha visto antes. Só um número sem código de localidade, sem nome anotado, nada. Mas pensei: quem sabe daí encontro alguma pista.
Liguei uma vez, duas, por engano, pelo código de São Paulo, onde moro e nada. Tentei o meia-um de Brasília, que era a cidade do ignoto. Neste número finalmente alguém me atendeu, já se apresentando antes que eu perguntasse alguma coisa: alô, fulano de tal, corretor de seguros, às suas ordens. Esperei sua arenga comercial se encerrar e expliquei-lhe o motivo da ligação. Acho que ficou decepcionado com o fato de que eu não era um cliente, mas sim alguém à procura de uma informação que não tinha nada a ver com o negócio dele. Ele, na sua cortesia burocrática me disse que não se lembrava de ninguém, nenhum cliente, com as características que eu descrevia, mas que ia anotar meu telefone, caso lembrasse de alguma coisa, daria notícias. Isso posto, aproveitou para indagar se eu não estaria interessado em fazer seguro de carro, de moto, de residência, seja lá do que fosse ou, quem sabe, adquirir um plano de saúde, uma cota de cemitério, uma corrente financeira.
Em um minutinho percebi que com tal indivíduo eu perdia meu tempo. Agradeci e me despedi.
Não é que passados alguns dias, o corretor retorna a ligação, dizendo que quem talvez eu procurava fosse um outro cliente, do qual ele acabara de se lembrar, um professor, segundo ele, com as características de idade e fisionomia que eu lhe indicava? Desse aí, entretanto, só podia me passar o endereço residencial, porque, segundo ele, era uma pessoa sistemática, que nem tinha telefone celular. Por alguma razão imaginei que não deveria ser de fato o meu alvo, mas como eu tinha um velho conhecido em Brasília, um colega de reportagem na Folha que tinha sido transferido para lá, passei-lhe uma mensagem pedindo que tentasse localizar a tal pessoa.
Ele me respondeu daí a alguns dias dizendo que fizera um périplo complicado, pois tal endereço estava numa área de chácaras e invasões, na qual não havia indicativos de ruas ou quadras, perdendo muito tempo com isso. Quando finalmente chegou ao suposto endereço viu que era um lote vago e que os vizinhos também não sabiam de nada. Uma Dona Maria que passava por lá, ouvindo sua demanda, lhe disse que poderia ser um tal de Altamiro, que era o dono do lote, mas que, pelo que ela sabia já tinha morrido e que aquilo estava, já há algum tempo, fazendo parte de uma acirrada disputa de herdeiros.
Pior ainda: enquanto ele fazia tais investigações por ali, vieram uns pivetes e lhe arrombaram o carro, surripiando uma bolsa com documentos e algum dinheiro, não muito, felizmente. Eu me dispus a lhe ressarcir o prejuízo, mas ele me disse que não precisava me preocupar.
Outro tiro n’água, portanto.
Antes de me dar por vencido, me lembrei do Teixeira, um cara que jogou futebol, comigo. Ele era técnico ou alguma coisa assim da área de controle de doenças endêmicas e já tinha trabalhado em Brasília. Nas anotações do ignoto havia alguma menção a sua atuação também em tal área, provavelmente na capital federal. É tudo ou nada, pensei. Não tive dificuldade em localizar o Teixeira, embora não o visse há tempos e ele, mesmo com evidente estranheza a respeito da lógica do meu pedido, se dispôs a ajudar, dizendo que precisava fazer alguns contatos com antigos colegas de serviço. Os indicativos para procurar o ignoto eram realmente débeis, um possível médico, alto, de cabelos brancos. Falei até da boina e do cachecol, embora duvidasse se tais indícios ajudariam em alguma coisa. Ele ficou de averiguar, pois no momento não se lembrava de alguém assim, mas no dia seguinte me ligou logo cedo, trazendo notícias. Apurara que no Ministério da Saúde trabalhou um Dr. Euclides com aquelas características, mas que estava aposentado e teria se mudado para Portugal fazia tempo. Não; não tinha como apurar o contato dele, pelo menos por ora. Eureka, ou quase!
Mas, pensando bem, a essa altura só desistindo.
Então voltemos ao ignoto, ou pelo menos a mais um fragmento do que sabemos dele: seus poemas. Aliás, uma seleção com toques eróticos ou meio filosóficos bem interessantes, como se pode ver abaixo. O poema que fala do doce de laranja é especial! Observem:
<Carmina>
Mergulho?
Sim, mas devagar.
Espanto?
Talvez, mas vai passar.
Sedução?
Sim e não. Só começar…
Espelho?
Normal. Corre a espiar.
Destino?
É caso de comprovar.
E então?
Deixa fluir, sem estancar.
Seu gozo, seu delírio
Eu quero
Mas faço melhor:
Espero.
<A nudez longínqua de uma pérola>
Para quê?
Se o sonho e a espera
Valem mais…
Despido de verdade está quem ignora
O pudor
De parecer e querer ser como os demais.
<Para que tanto corpo?>
Para que tantas palavras
Tanta contenção?
Tudo não passa de um estorvo
Para quem fez do corpo, apenas nuvem
já não se importa com o vento
Ou se faz inverno ou já é verão
Se a viagem é com os pés fora do chão
E o melhor dela está na travessia
O roteiro justo é o que nos faria
Fazer do corpo nuvem, sem freio ou direção.
Vamos resolver a equação da vida?
Comece você…
A fórmula – se é que tem fórmula
Não possui volta, nem ida.
<Eu não te quero aqui por muitos anos>
Eu não te quero vestida ou despida
Eu não te quero aqui e nem ali
Acordada ou desfalecida
Toda palavras ou emudecida
Sem sabor ou sabendo a sapoti…
Eu apenas desejo
A essência atemporal e abstrata
Que evola de ti.
Eu quero, entende?
Intransitivamente.
Que nome posso dar
À espera vespertina
De seu sms
No meu celular?
Passeio
domingo
vinho
entardecer.
causos.
afagos
querer mais?
Pra quê?
<Celebração de Eros>
Basta de poesia!
pelo menos essa
encarcerada em folhas de papel, livros
e telas de computador
eu quero agora poemas libertos
épicos libertinos, nada parnasianos
que subam pelas paredes
preencham as alcovas
escorram pelo chão
ou mais abaixo
(por que não?)
odes do céu e do inferno
elegias ao verão e ao inverno
poesia concreta; nem precisa ser discreta
escrita com suor e movimento
que seja feita com muito ou pouco invento
mas tenha gritos, gozo e tesão
cheia de si e recheada de beleza
e prenhe de nenhuma certeza
que se cumpre e é escrita fora do papel
em jogos e alfaias de cama e mesa
deixando marcas em algum colchão.
<Oferenda>
Alguns fariam poemas amorosos,
e eu próprio não me furto a tal ofício.
Outros mostrariam feitos corajosos,
ou quebrariam as barreiras do possível.
Há quem preferisse um duelo nas esquinas
e qual um bicho marcaria bem visível
seu lugar, seu território, seu pedaço.
Mas faço diferente em minhas oficinas
e não me pejo em trazer a teu deleite,
o produto original de meu mister.
Da terra nascido, no caótico pomar,
em que raízes trocam seus segredos.
É grande a lida até podê-la bem saber,
pois é fruta sumarenta e enredeira,
e ainda há por fazer, tão forte é o amargo.
Há que aprimorá-la, na crespa esteira
e na prima escaldação, como um batismo
e em águas móveis passá-la noite e dia.
Depois cozê-la, em brando e lento fogo,
com o açúcar a domar os maus espíritos.
Agora o temos, crescentes bem douradas,
em que calda e resina finalmente
fazem a síntese boa e necessária.
É tal minha oferenda, e não te rias
se a um macho é estranho tal presente.
Um vero homem não deve carecer
de tais saberes. Antes, em tal área
é que de fato mostra-se mais macheza.
Ao invés de duelos e escaladas,
arroubos e tudo mais o que se arranja,
oferecer à sua amada toda a beleza,
de um ilustríssimo doce de laranja.
<Uma coisa aprendo eu>
Uma coisa aprendo eu
Nesses dias de perigo:
Amigo de amigo meu
Nem sempre está bem comigo.
E também tenho comigo
Que inimigo de inimigo
Não poderá, só por isso,
Querer ser meu bom amigo.
E mais ainda acrescento:
Amigo de inimigo
Inimigo de amigo
Assim, sem mais nem menos,
Podem não me trazer
A verdade que persigo.
***
Algumas semanas se passaram e eis que eu recebo um zap de uma pessoa desconhecida, me indagando se eu estivera num voo da TAP para Lisboa, dois anos atrás, em data que me pareceu ser a mesma da minha viagem. Será que finalmente daria certo? Não sei como tal pessoa me achou, realmente. Respondi a mensagem de imediato, afirmando que sim, mas o danado ainda não se manifestou.
