De um diário alheio: Viagens

Estamos no seguinte pé: minhas tentativas de fazer contato com o professor Ignoto falharam por completo. Não era ele o obscuro morador da periferia de Brasília e nem mesmo aquele Dr. Euclides, que já residia em Portugal há algum tempo e que com certeza não seria a mesma pessoa com quem eu encontrara num voo para Lisboa, indo lá fazer um período sabático. Havia uma diferença importante de datas entre o meu encontro no avião e a retirada de Euclides para residir naquele país. Mas enfim, bola pra frente. Aquele caderno continha outras revelações importantes e até certo ponto esclarecedoras sobre seu autor, que aos poucos revelarei, tenham calma leitores! O fato é havia ali, também, algo que me interessava muito de perto: relatos de viagens. Por sorte, havia pelo menos dois textos que falavam da região central de Minas Gerais, o chamado território da Estrada Real e, por coincidência (se é que isso existe de verdade), eu tinha recebido uma proposta para realizar um documentário fotográfico e textual em tal região, para uma revista de turismo. Vamos ver estes dois relatos a seguir. Ambos me mostraram o seguinte: primeiro que o Ignoto parecia conhecer a região com certa profundidade; que sua análise ia além de um plano técnico ou geográfico, incursionando por sendas poéticas, sentimentais e filosóficas, e mais ainda que ele parecia ter ligações de nascença com tal território. No primeiro texto ele faz recomendações a amigos que vão trilhar a Estrada Real entre BH e Diamantina; no segundo ele arrisca uma narrativa mais literária pela região do chamado Mato Dentro, na qual inclui observações de natureza afetiva e ecológica, culminando num protesto contra a devastação da mata atlântica pelas atividades de mineração no trajeto.

O cara tocava, realmente, sete instrumentos, ou mais.

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Pela Estrada Real

Depois de numerosas idas e vindas pelas estradas que hoje fazem parte da “Estrada Real” (elas são muitas, considerando a necessidade de fugir do fisco desde os primórdios de tal caminho…), passei a ser considerado um especialista no assunto. Assim, quando amigos me pedem orientações, já lhes entrego quentinho o texto seguinte.

Pra começar: saindo de Confins, tomem a estrada pra BH, mas só por poucos km, pois logo ali na frente verão o trevo de Lagoa Santa, no qual entrarão para a esquerda. Feita a curva no trevo, olhem em frente e lá no horizonte verão uma barreira de montanhas azuis – é a Serra do Cipó e em menos de uma hora vocês estarão lá, em plena Estrada Real!

No rumo de Lagoa Santa, passarão pelo trevo que dá acesso à Gruta da Lapinha, poucos km à esquerda. Visitar ou não visitar a gruta? Para quem já conhece Maquiné, um pouco mais ao norte, a Lapinha não oferece grandes novidades, embora também seja muito bonita. Para quem não conhece a Gruta-Mãe – e nem grutas em geral – poderia ser uma parada recomendável. Mas, atenção, é programa para no mínimo uma hora. Para quem quer chegar ao Serro ainda com dia claro – e é aconselhável que assim seja – pode ser uma perda de tempo, algo para deixar para outra vez.

Lagoa Santa, há décadas passadas, foi a praia dos belorizontinos ricos, que ali mantinham casas de campo bacanas. Mas há muitos anos o assoreamento e a esquistossomose lhe destruíram todas as ilusões Trata-se de uma cidade meio grande e meio pequena; meio feia e meio bonita; meio rica e meio pobre…. Tem um problema a mais, fica bem aquém do “meio” do caminho. Portanto, o negócio é seguir em frente.

Em Lagoa Santa, uma breve parada pode ser recomendada. Na avenida que é o prosseguimento da rodovia dentro da cidade, há uma enorme padaria, um bom ambiente, onde se vende, além do habitual, belos sanduíches, pão fresco, frios e queijos de boa qualidade. Parada para abastecimento da barriga! Dentro da cidade, tomem o Rumo da Serra do Cipó – é só perguntar, coisa que as mulheres a-d-o-r-a-m fazer!

Até o Cipó são 40 km, aproximados. Não há muito a ver, salvo quando se aproxima o pé da Serra. Mesmo o famoso rio das Velhas, que corta a estrada a cerca de 20 km dali, é aqui bastante minguado, barrento e ainda poluído pelo esgoto da região metropolitana de BH. E atenção para uma das lindas marcas registradas da bacia do Chico (ao qual o rio das Velhas pertence): a enorme quantidade da palmeira Macaúba, que aliás dá nome a um lugar espetacular – um mosteiro – um pouco mais ao Sul (à direita de vocês), mas cujo acesso seria apouco recomendável nesta viagem, pois gastarão no mínimo duas horas a mais para ir e voltar. Fica pra próxima…

De repente, vocês já estão no sopé do Cipó. Notaram as árvores maiores e até mesmo matas fechadas? O rio Cipó, de águas escuras e limpas, oferece belos banhos. Vão topar? O lugarejo de Cardeal Mota (também conhecido como Serra do Cipó) tem restaurantes razoáveis, pousadinhas simpáticas, lanchonetes etc, tudo num ambiente “podes-crer” que lembra muito os lugares turísticos da nossa Chapada dos Veadeiros.

Logo a seguir, a subida da Serra do Cipó, que faz parte da famosa Serra do Espinhaço, que percorre, qual uma coluna vertebral central, o estado de Minas e parte da Bahia. A Chapada Diamantina nada mais é do que um prolongamento da cadeia de montanhas que vocês começam a subir agora. A cadeia divide as águas de dois importantes rios nacionais: São Francisco, do lado de cá da serra e Doce, do lado de lá.

A subida da Serra já é feita pela Estrada Real! Notem as proteções laterais, coisa rara nas estradas em geral. Muito caminhão, muita carroça, muita mula já despenaram nessas ribanceiras… Cuidado!

Das amuradas da subida, apreciem as belas paisagens do Vale do rio das Velhas, a legião das macaúbas e as pedreiras de mármore, hoje embargadas em nome da defesa ambiental. Depois de poucos km de subida, vocês estarão no planalto. É hora de apreciar paisagens magníficas, composta por montanhas de pedra, além dos campos de altitude, com suas canelas de ema, sempre-vivas e o capim barba de bode.

No planalto há várias pontes e outras benfeitorias remanescentes da Estrada Real antiga. Vocês as verão a todo momento, algumas até sinalizadas. Atenção para a Fazenda Palácio e para a estátua do Juquinha. O planalto terminará 20 ou 30 km adiante na descida do rio Santo Antônio, que corre para o rio Doce – bela paisagem, aproveitem! Aqui, um pouco do que sobrou da antiga Mata Atlântica. Prestem atenção na mata, nas montanhas em volta, na velha ponte sobre o rio. Mas cuidado, muito cuidado, com as curvas!

Mais adiante, a velha Conceição do Mato Dentro. Cidade graciosa, sem dúvida, mas não percam tempo com ela, pois o que virá à frente é muito melhor. A sua simples travessia, caminho compulsório, é o bastante para conhecê-la. Sigam em frente, o rumo é (perguntem…) Serro.

Agora acabou de vez o asfalto, ou pelo menos se encontra em obras eternas…São 60 km de estrada empoeirada, cheia de curvas e de costeletas, mas vocês não se arrependerão! Estão vendo as altas montanhas lá na frente? É para lá que vocês vão. Comecem aprestar atenção nos desvios, pois aqui e ali aparecem surpresas, velas vilas da era do ouro, hoje quase abandonadas, só denunciadas pelas torres de suas pitorescas igrejas. Dois destaques que vale a pena entrar e conhecer: Itapanhoacanga e Mato Grosso, que hoje atende pelo gracioso nome de “Deputado fulano de Tal”. Três a quatro km de desvio, para conhecer cada uma delas. Vale a pena!

Em Mato Grosso, perguntem pelo local das romarias, no alto da montanha e não deixem de enfrentar o caminho, um tanto íngreme, mas sempre surpreendente. O que verão lá em cima, nem conto… Deixo a surpresa e o encanto por conta das viajantes!

A esta altura, já deve estar tarde. Sigam para o Serro sem outras paradas…

Sobre o Serro, melhor deixar vocês descobrirem, não vou dizer nada. Sobre a cidade, falou um viajante do Século XVIII: lugar penhascoso, batido de frigidíssimos ventos…Espero que tenham mais sorte!

No Serro não há muitas opções de hotel. Um desses, muito agradável, de nome Serro Frio ou Vila do Príncipe, ficava rua principal, logo acima e do lado contrário da agência do Banco do Brasil. Virou loja de móveis… Mas vale a pena ainda o trajeto por onde ele não está mais, pois estarão atravessando alguns dos quarteirões coloniais mais formosos e preservados de todo o Brasil! Para comer, me lembro de um restaurante que fica ao pé da escadaria que dá acesso a uma das principais igrejas, local de romaria anual. Indaguem. E não deixe de comer um lombo com tutu ou frango ao ora-pro-nobis.

Serro é terra de ótimos queijos e boa cachaça. Se quiserem presentear este modesto escriba, não façam cerimônia…

Pernoitar no Serro é a melhor opção, pois o trecho seguinte de Estrada Real é mais penoso e também mais bonito. Melhor percorrê-lo durante o dia. A direção a tomar agora é a de Milho Verde e de São Gonçalo do Rio das Pedras e, só depois, Diamantina. Mas, atenção: não perguntem pelo caminho para Diamantina, pois fatalmente indicarão para vocês a estrada asfaltada. Aliás, vocês a percorrerão por apenas uns dois ou três km, quando tomarão um desvio à direita, que vai dar em Milho Verde. O trecho total de Serro até Diamantina, por tal caminho – a verdadeira Estrada Real – não é maior do que 50 km mas o tempo necessário para bem percorrê-lo é de no mínimo três ou quatro dias…. Brincadeira! Mas é melhor ir devagar para apreciar tudo o que têm direito!

Este agora é um trajeto mágico. Observem as montanhas, as pedras, as casas, as matas. Notem como a estrada muda de tonalidade a todo momento, passando do branco ao vermelho, do preto ao amarelo. E tome pedras, pedras e mais pedras! Logo vai surgir uma vilazinha simpática, mas não se entusiasmem, vocês ainda não viram o principal!

Milho Verde… Que palavras usarei para descrevê-la? Enquanto vocês mesmas procuram as tais palavras (ou é melhor nem tentar?) parem um pouco na Dona Anete (Pousada Morais), para uma cervejinha e um almoço, se a fome já tiver batido. Lembranças à Dona Anete. Digam para ela que é de parte do mais velho dos dois irmãos que pararam lá numa noite de terrível chuva, em um remoto março. Ela não deve se lembrar, mas não custa nada dizer isso.

São Gonçalo do Rio das Pedras… Não confundi-la com sua quase xará, do Rio Preto, que fica além de Diamantina e também é formosa, mas não tanto como aqui. O mínimo que posso dizer deste lugar é: ele é perfeito, é o mais gracioso de Minas e, portanto, do Mundo!

Aqui também se come bem, comida mineira, coisa e tal. Se forem dormir, sugiro a Pousada dos Amigos, bem fácil de localizar. Aliás, toda a vila tem uma única rua.

A breve menção a SGRP é totalmente desproporcional ao tanto que vocês vão adorá-la e ao tempo que ficarão nela. Tenho certeza! Se gostaram tanto podem deixar Diamantina para amanhã…

Pé na estrada? O rumo agora é Diamantina e este é o pior trecho de estrada, mas certamente trafegável no auge da seca, como agora. O único problema é a poeira, mas parece que vocês ainda nem a notaram, não é? Então, continuem desligadas!

No caminho de Diamantina, apreciar o Rio Jequitinhonha, próximo às suas nascentes, mas já perigoso e matador. Mas aqui ele é mais vítima do qualquer outra coisa. Vocês verão as cicatrizes do garimpo predatório por toda parte. Quantas pedras, hein? E que tal acharam do Vale do Ribeirão do Inferno?

Chegando em Diamantina tem um local chamado Salitre, num desvio à direita, de poucos km. Belas formações rochosas que podem ser apreciadas sem sair do carro… Fica a critério das viajantes entrar ou não.

E, finalmente, Diamantina! A entrada é feia, como em quase todas as cidades deste Brasil. Mas prossigam, as belezas maiores já estão próximas. Não preciso dizer mais nada. Agora é com vocês!

Em Diamantina, não deixem de visitar Biribiri, um verdadeiro presépio, antiga vila residencial de uma fábrica de tecidos.

O retorno a BH se dará pelo asfalto, talvez com buracos… São trezentos e poucos km e a previsão é de 4 a 5 horas de viagem até BH. O único atrativo é o planalto, na saída de Diamantina, por uns 30 km, mas é paisagem que vocês já conhecerem em outros trechos da estrada. Gouveia, no caminho, é um centro de artesanato (rendas). Curvelo, mais adiante, não possui maiores atrativos, salvo pela fabricação da Cachaça “Parol” e do licor de pequi “Cristal”.

Adiante de Curvelo, o trevo da BR-040 (estrada BH – Brasília) inicia um trecho de muito trânsito, em exagero de caminhões. Mas felizmente já está duplicado.

Em Sete Lagoas, atravessem a cidade, no rumo de Pedro Leopoldo, de onde chegarão facilmente a Confins, encerrando a viagem.

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No Mato Dentro

Para sairmos da grande cidade é preciso trilhar seus tristes caminhos de periferia, lixo jogado nas ruas e o povo pobre nos pontos de ônibus. Mas lá na frente, mal e mal vislumbradas, as montanhas já nos auguram, em pálido azul que se confunde com o cinzento, a passagem por mais aprazíveis lugares. Em marcha sinuosa e intercalada pelos quebra-molas, passagens de linha de ferro e semáforos, ladeando as grandes filas de moradias toscas e sem reboco, vamos deixando para trás essa “mancha urbana” – coisa que aqui é sempre uma “mancha”, pelo menos em relação ao destino que esta gente deveria ter, mas não tem. Mas é ir em frente – fazer o quê?

E assim alcançamos a velha cidade, vizinha quase emendada à metrópole adjacente, herdando dela e até piorando o que de mal possa haver. Mas em todo caso, além da ponte do rio histórico, alguma coisa mais bela se anuncia e logo se confirma, mas se reduz a uma única rua, só, aquela fileira de casarões, seus telhados sobranceiros, uma ou outra igreja ou capela, o que sobrou de um chafariz ou de um aqueduto. As placas comerciais escandalosas, anunciando negócios e mercadorias, em barafunda, meio que estragam ou contaminam tudo. Mas pelo menos os quintais ainda ostentam suas mangueiras centenárias, neste momento em florada, cujo cheiro é possível sentir mesmo dentro do carro. Logo novo panorama, contudo, se impõe, e nele os pastos com seus boizinhos e cavalos, as fanzendolas, as onipresentes palmeiras macaúbas, além de uma ou outra casinha de janelas azuis. E mais adiante o rio, o velho rio da história desta terra, pelo qual já circularam vapores, muito ouro foi buscado e muito índio preado, no vale onde já cumpriram sua vida uns animais gigantescos. Hoje, tudo parece que ficou pobre e sujo, mas aos poucos vai passando; a cada porção de estrada se tem mais o que é rural, verde e arejado, e menos o que é urbano, cinzento e constrito, para a nossa saudável alegria.

Finalmente vemos o que se nos afigura como um momento de quase sonho: o velho Mosteiro, com suas paredes brancas e janelas azuis, sua capelinha acanhada, mas digna. As freiras que ali estão seriam hoje apenas uma espécie de funcionárias de uma entidade, mais do que as penitentes de outrora. Já não rezam para nos remir de nossos pecados; apenas industriam e põem a venda seus modestos produtos, geleias e biscoitinhos que compramos menos para degustar, sabores que já se perderam, mais para ajudar essas pobres criaturas. Mas é belo o Mosteiro, vale a pena se deter um pouco ali, nem que seja para respirar o ar vindo de escuros desvãos, que rescende a madeira velha, a paramentos guardados em alfazema, a velas de estearina, a incenso e fumaça de fogão de lenha. Hora também de trazer a lembrança das inumeráveis mocinhas, retiradas do convívio familiar ao longo de dois inteiros séculos, não só para uma vida monástica nem sempre desejada, mas também para os intermináveis períodos escolares, que iam de fevereiro a dezembro. De lá chegavam e saíam a cavalo, moradoras que eram de remotos lugares, ao longo e além da grande massa montanhosa que a vista já alcança. Um último olhar para as árvores de vinhático da chegada do prédio e às macaúbas, agora centenas e centenárias, que enfeitam as margens do rio, logo ali abaixo; é hora se seguir em frente.

E se vai pelo mesmo caminho trilhado até agora – sua continuação. Do lado direito a cordilheira, que só será escalada mais adiante; do lado esquerdo, o rio, correndo sempre e direto para o Norte, em busca de seu parceiro maior. É somente à frente que nos cabe prosseguir. Uma ou outra cidade ou lugarejo se interpõem. É de se louvar alguma torre de igreja, algum casarão de fazenda, um chafariz, mas em pouco número e quase sempre castigados pelo tempo e pela falta de cuidado humano. Lá adiante finalmente, a serra, a cordilheira a ser transposta. Em seu sopé desce, jeitoso, o rio de águas escuras e limpas. Ali os cidadãos da metrópole que ficou para trás há muito vêm passar seus finais de semana, aproveitar seus carnavais e feriados. A estrada, sombrosa e ainda agradável de se por ela pass(e)ar, é pontilhada de pousadas, restaurantes, postos de gasolina, comércios diversos e até agências bancárias – eis que os que aqui vêm, cansados da cidade grande, aspiram a expandir seus domínios, mesmo à custa de trazer um pouco da metrópole para cá. Talvez valha a pena experimentar alguma quitanda e tomar um cafezinho por aqui, sem esquecer do fato que depois que o orgulho pelas coisas da terra virou moda, nem sempre a qualidade dos produtos que são oferecidos como tal seja de fato garantida. Mas como o melhor está por vir, sigamos em frente.

Transposto o rio, a subida da serra logo se apresenta. Já foi tormentoso e matador este caminho, principalmente no trajeto de volta, mas hoje a pista asfaltada e bem sinalizada requer menos cuidados e em alguns minutos já grimpamos até as alturas do Planalto, da mesma forma que a descida se transformou em algo sem maiores mistérios. À nossa esquerda imenso vale, no qual as macaúbas são legião ainda maior. Mas este Planalto, assim com “P” maiúsculo, em si, já valerá a viagem. Toda a miséria e toda a balburdia da grande cidade e dos arredores contaminados por ela agora realmente ficaram para trás. Agora o que se tem são aqueles “campos rupestres”, pedregosos, pontilhados pelas sempre-vivas e quaresmeiras, cortados aqui e ali por riachinhos caprichosos. Dá vontade de parar, não de prosseguir, para poder apreciar um pouco deste estado de natureza e de espírito. Adiante, uma antiga, majestosa e bem cuidada sede de fazenda, anuncia que o mundo agora certamente já tem diversa figuração. Mas é cedo para acreditar em mudanças tão profundas. E o Planalto, em suas paisagens, se repete, quilômetros a fio, sempre o mesmo, sempre novo, sempre apreciável. Aqui em cima o clima, em todas as acepções da palavra, já é realmente diverso. A gente chega a ansiar por uma espécie de máquina do tempo, não para fazê-lo voltar ou acelerar, mas para que passe mais devagar e assim nos permita melhor aproveitar tudo isso.

Aqui está instalada certa fronteira entre a vida urbana e uma outra vida mais amável, mas não é só. Esta serra também divide dois mundos, neste trecho da paisagem, em certo sentido histórico. De seu lado direito, as Minas; do esquerdo, os Gerais. E é para este lado direito que vamos, com suas matas que já cobriram despropósito de terras, suas cristas de montanhas eriçadas, a esconder tesouros minerais, seu incessante trafego de mulas, de fiscais e soldados da Coroa. E mais os atores inaugurais da brasilidade, seus Emboabas, Inconfidentes e Tiradentes. E também os vales extintos e secados a golpes de dinamite e de enormes máquinas-tratores, fazendo vilas se soverterem pelo rompimento de barragens mal projetadas. Riqueza que não era para todos e acabou por gerar mais pobreza. Território de uma “derrota incomparável”, como disse um poeta nativo dessas terras.

É para lá que vamos, para o lado de Dentro do Mato, para a banda oriental, para o vale do Doce Rio amargo. Mas de tais tristezas tentaremos retirar, se não algumas alegrias, pelo menos lições de vida e carinhos para os olhos. E um pouco mais adiante, sob o olhar vigilante dirigido ao Nascente, do sempre-presente Juquinha em estátua feito, o coletor de sempre-vivas, vamos finalmente adentrar ao território da antiga e larga floresta – supondo, na fantasia, que ela ainda esteja de pé. Seus habitantes primitivos, chamados pejorativamente pelos colonizadores brancos de “Botocudos”, há muito já se foram. E assim chegamos ao que um dia foi o Mato-Dentro. Alguma coisa terá restado do passado, a longa rampa na banda oriental da cordilheira logo nos indica a presença de altas árvores, em capoeiras, um dia coalescentes. Entre elas os renques de eucaliptos, impostos a tal paisagem.

A primeira cidade logo se apresenta. Já teve importância na história, até mesmo tecnológica, pois ali se fundiu o ferro pela primeira vez no país, por obra e graça de um barão estrangeiro. Agora é menos, quase nada. Mas ainda vale a pena parar por alguns momentos, para apreciar os resíduos barrocos que ali teimam em persistir: igreja, uma dúzia de sobrados casarões, nada mais. As fazendas antigas que beiram a estrada que segue vale abaixo nos oferecerão mais, mas não muito. Há que se aproveitar cada fração de tal caminho. Aqui já estamos na estrada, dita “Real”, um dia vigiada pelos extintos Botocudos, por onde muita riqueza se escoou e a Coroa fez passar sua lei e sua ordem. Há que se aproveitar a paisagem, sobretudo, que agora está invertida em relação ao momento anterior, eis que o Espinhaço da cordilheira se nos apresenta do lado do poente. É tratar de aproveitar as paisagens que nos proporciona, pois agora nossa estrada, que perdeu a capa de asfalto, em compensação segue rente à montanha e nos obriga a andar devagar. E atenção para as dobras e cimos que às vezes lembram corcovas e frontes de animais.

Logo veremos outra vez a consequência do espírito hedonístico dos moradores da metrópole, ainda não totalmente distante. Pousadas, hotéis, restaurantes – uma certa pretensão cosmopolita presente em tudo, chegando a ocultar o sereno provincianismo original. Mas, menos mal, esta é sem dúvida uma indústria limpa, que traz emprego, dignidade e renda aos habitantes destas terras, que em outros momentos não tinham outro recurso que não o de engrossar as favelas do outro lado da montanha. Aqui se deve trafegar com pouca pressa, não apenas pela topografia e má sinalização da estrada, mas porque há muito o que ver em cada grota, em cada desvão da grande serra. Aqui e ali, as “manchas”, não mais de edificações, mas de Mata Atlântica verdadeira, a matriz deste Mato-Dentro. E será assim por léguas a fio, até se chegar à pequena vila, industriosa esta, com seu comércio sólido, suas ruas e praças calçadas no capricho, seu parque de exposições e sua fábrica de bons laticínios. Há mesmo um pequeno hotel que prima pelo asseio e pelo encanto da cortesia do casal de proprietários. Ele, um cego completo que reconhece as pessoas pela voz, mesmo que tenha conversado com elas apenas em passado remoto. Aqui o café com quitandas é garantido. Quem sabe até um pouso para a noite, também, para quem quer melhor explorar a região.

Seguir em frente agora – ou depois? A vida é feita de escolhas. Mais alguns quilômetros e teremos a vila vizinha, um pouco mais pujante, com seu Museu do Tropeiro, seu casario antigo e relativamente bem conservado e, se o viajante tiver sorte, sua festa anual dedicada aos bravos condutores de mulas, que fizeram a fama e a singela riqueza deste lugar. Aqui de novo o asfalto mostra sua textura, embora isso nem sempre faça a alegria daqueles que apreciam de fato este tipo de viagem. E tem mais: aqui se come bem também, sendo recomendável o restaurante que fica na rua principal, em frente à Igreja.

Seguindo em frente vamos dar à cidade-sede da região, verdadeira sub metrópole hoje, mas na verdade o que sobrou de décadas de mineração. Como previu seu filho mais ilustre “E virá a companhia inglesa e por sua vez comprará tudo e por sua vez perderá tudo e tudo volverá a nada e secado o ouro escorrerá ferro, e secos morros de ferro taparão o vale sinistro onde não mais haverá privilégios, e se irão os últimos escravos, e virão os primeiros camaradas […] e os antepassados no cemitério se rirão se rirão porque os mortos não choram”. Na verdade, depois dos ingleses vieram os nacionais, que completaram a obra dos primeiros. Vamos lá assim mesmo? Constatar tanta destruição talvez nem valha a pena.

Mas é o solo natal de quem guia esta viagem, há que chegar até lá. Não há muito mais o que ver. Uma rua principal ainda guarda duas dezenas dos antigos sobradões. Mais à frente havia uma bela igreja barroco-tropical, mas há muito ela ruiu e foi substituída por um monstrengo de concreto. Procurando é possível achar alguma coisa, mas pouca hoje em dia. Sobe-se uma rua e se desce outra, o cenário é invariável. Uma mixórdia de construções de variadas épocas e estilos. As casas e outras coisas antigas praticamente desapareceram, salvando-se apenas alguns pomares frondosos em terrenos maiores de certos bairros antigos. O horizonte é totalmente dominado pela grande ferida que a montanha de ferro deixou ao ser demolida, há muitos anos, resto de um pico agora côncavo e invertido. Um horizonte de ruas mal traçadas, rendidas à divindade da especulação imobiliária.

Já faz tempo que estão secos os veios do ferro e a cidade vive de seu passado e talvez tente recuperá-lo através das menções, oficiais inclusive, ao ilustre filho escritor, mas a realidade mostra é que ali tem mais gente, políticos principalmente, tentando se dar bem com tal fato do que propriamente lendo o que ele escreveu. Não há muito o que fazer ali, realmente. O melhor da viagem foi o que já passou. Seguir em frente é a opção.

Para voltar à metrópole, manda a prudência não se meter na perigosa rodovia, que mata gente aos montões ao mesmo tempo que é essencial para a economia funcionar. Há que evitá-la e há outras opções, felizmente, que fazem o encanto da presente viagem retornar. Por exemplo, a de atravessar o Espinhaço mais ao Sul, para rompê-lo através de um passo acidentado, porém ainda coberto de Mata Atlântica, parte daquele antigo Mato Dentro, que mesmo misturada aos eucaliptos de sempre, subsiste com alguma exuberância. É um caminho que não tem o tráfego pesado e perigoso da rodovia principal, mas mesmo assim há que se ter cuidado com os caminhões carregados de minério de ferro, porque o foco da exploração agora demudou-se. Mas de quebra se pode conhecer três das cidades do ciclo do ouro, nos flancos da cordilheira, de um lado e de outro dela, embora hoje também um tanto destruídas pela busca frenética de outro metal, com o qual o mundo vai empurrando sua fome tecnológica – o ferro.

Terá valido a pena o nosso périplo. Em meio a algumas belezas, pudemos refletir um pouco sobre a herança que esta terra nos traz e a condição atual que nos é imposta pela “máquina do mundo” que dela se apossou.

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Finalmente, sobre aquele zap que recebi de um (outro) anônimo, mais tarde descobri que era apenas uma iniciativa grupal de processar a TAP pelo sumiço de bagagens, não conseguindo descobrir se tinha acontecido de fato no voo em que eu estava, mas o fato é que meu nome foi incluído aquilo. De toda forma, eu viajara com a mala dentro da cabine e aquilo de fato não me dizia respeito.

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