Na história das personalidades que optaram corajosamente pela morte voluntária e assistida, está Jean-Luc Godard (1930-2022), cineasta franco-suiço que se notabilizou como uma das figuras centrais do movimento da Nouvelle-Vague dos anos 1960. Godard não era propriamente um paciente terminal, mas mesmo assim preferiu recorrer à morte voluntária por estar acometido de condições múltiplas e incapacitantes, vivendo havia décadas de modo recluso em Rolle, na Suíça. Um amigo informou que Godard não estava propriamente doente, mas simplesmente exausto, tendo assim, voluntariamente, dado por encerada sua existência. Ele já havia prenunciado seu gesto em 2014, quando numa entrevista afirmou que não era seu desejo estar vivo a qualquer custo, ironizando: “caso eu esteja muito doente, não gostaria de ser carregado em um carrinho de mão”. Porém, questionado sobre a morte assistida na mesma ocasião, Godard respondeu, talvez ainda um tanto vacilante, que “sim… por enquanto” e que tal escolha era “ainda era muito difícil”. O procedimento de morte voluntária e assistida, na Suíça, em 2022, ocorreu em sua própria residência e segundo sua mulher se deu de forma calma e pacífica.
Sobre a obra de Godard e sua contribuição para o mundo do cinema, francês e internacional, como vários outros cineastas e críticos de sua geração, ele esteve associado à tradicional publicação Cahiers du Cinéma, compartilhando uma crítica mordaz à orgulhosa tradição de qualidade autoatribuída pelo cinema francês, de forma a prestigiar as grandes obras do passado e a negar qualquer experimentação, o que acarretou que ele e muitos outros cineastas portadores da mesma opinião passassem a fazer seus próprios filmes, na direção proposta pela sua crítica à tradição e às convenções então ditadas por Hollywood.
Godard tinha profundo conhecimento da história do cinema, sendo também um ávido leitor erudito, com focos variados, que passavam da filosofia existencialista e também pelo marxismo, dentro da perspectiva humanista que impregnava seus filmes. Sobre o impacto de tais ideias ele disse certa vez: “Entramos no cinema como homens das cavernas na Versalhes do Antigo Regime”, em sintonia com a visão de que ele tenha sido o mais radical cineasta francês das décadas de 1960 e 1970.
Uma resenha de sua obra na revista Sight & Sound, em 2002, afirmou que Godard produziu uma análise crítica mais profunda do que qualquer outro cineasta, desafiando assim não só as normas comerciais do cinema narrativo, mas também o próprio vocabulário da crítica de cinema. Em 2010, Godard recebeu um Oscar honorário da Academia de Hollywood, mas se recusou comparecer à cerimônia de premiação.
Godard em seus filmes, ditos “de autor”, utilizou variadas inovações narrativas, tais como a filmagem com a câmera na mão, demorados planos-sequência, montagem descontínua, improvisação e associação de imagens com valores e informações contraditórias.
Ele tratou ainda de temas tão diversos como o existencialismo, as relações humanas, a homenagem a antigos cineastas soviéticos, a guerrilha palestina, os padrões estéticos do cinema ocidental, a invasão soviética da Tchecoslováquia, as artes plásticas, os dogmas religiosos, além de outros.
Característica importante nos filmes de Godard são as citações pictóricas, musicais, literárias, filosóficas, históricas ou cinematográficas. Neste aspecto ele um dia se definiu como um “organizador consciente”, mais do que como autor propriamente dito, explicando sua relação com as abundantes citações de seus filmes: “Todas elas pertencem à humanidade. Eu sou apenas aquele que um dia juntou essas pessoas importantes, como Chandler ou Dostoiévski, em uma mesa de restaurante, com atores pequenos ou grandes – e isso é tudo”.
Sobre o movimento artístico da chamada Nouvelle Vague, através dessa corrente foram introduzidas importantes inovações formais e transformadoras sobre a linguagem cinematográfica, tais como a narrativa fragmentada, o uso de jump-cuts, diálogos improvisados, filmagem em locações reais, luz natural e som direto, a metalinguagem, a autorreferência à própria arte cinematográfica, os clichês visuais, com amplitude temática alcançado a liberdade, a identidade, o amor, a juventude, a alienação urbana, a experiência subjetiva dos personagens e a observação do cotidiano.
Flavio Goulart
06-01-2026
