Morte e Vida: reflexões à luz da obra de Philippe Ariès

Ao contrário do que alguns poderiam pensar ao me ver envolvido com um assunto como este, eu não amo a Morte. Não! Eu amo é a Vida! E é por estimar tanto esta valiosa propriedade do carbono, do hidrogênio e do oxigênio, que é a Vida, apenas cedida a mim por empréstimo, embora indevolvível, que tenho o desejo de transformar a Morte, que a esta minha Vida se sucederá, em algo natural e até saudável. Acima de tudo, que a minha vida tenha um desfecho digno, aliás, não só para mim, como para todos que estiverem ao meu redor. E mais importante ainda: que o tema da Morte não cause repulsa e afastamento a ninguém, ao contrário, é preciso pensar nela nem que seja para escapar do verdadeiro infortúnio que é uma má morte. Sim, porque a meu ver existem boas e más mortes.

Para falar sobre isso, nada como recorrer a Philippe Ariès (1914-1984) importante historiador francês, autor de variadas obras sobre a vida cotidiana comum, inclusive um brilhante estudo sobre ela mesma: A Morte.

Além de sua obra sobre a morte na civilização ocidental, Ariès é também conhecido por seu livro de 1960, L’Enfant et la Vie Familiale sous l’Ancien Régime, traduzido no Brasil como História Social da Criança e da Família, que foi essencialmente a primeira obra a tratar do assunto de forma abrangente. Até hoje, Philippe Ariès é visto como referência primária neste tema, sendo famosa sua afirmação categórica de que “na sociedade medieval, a ideia de infância não existia”. A tese central de tal livro é a de que as atitudes em relação às crianças foram progressivas e evoluíram no tempo juntamente com as mudanças econômicas e os avanços sociais, até quando a infância, enquanto conceito e elemento constitutivo da família, teria se consolidado no século 18.

Mas é sobre a Morte que estamos falando aqui. Ariès se notabilizou também no estabelecimento de tal novo campo de estudos, qual seja, a história das atitudes relativas à morte e ao morrer, de forma a conceber a morte, assim como a infância, como uma construção social.

Vamos a uma síntese das ideias dele dentro de tal tema.

Áries percebe que, em termos históricos, algumas atitudes sobre a Morte permanecem praticamente inalteradas, enquanto outras são peculiares a determinado período histórico. Existiu no passado, por exemplo, sem que tenha sido deixada de lado na atualidade, uma morte domada, vista pela humanidade com naturalidade e precedida de prenúncios naturais ou de convicção íntima, o que permitiria que o moribundo tomasse suas providências com tranquilidade e resignação. Isso desencadearia certos cerimoniais de partida, com a evocação nostálgica de seres e coisas amadas; o perdão dos amigos e companheiros; o pensamento voltado a Deus; a admissão de culpas e a eventual absolvição pela Igreja;

Assim, nesta forma arcaica e ainda não superada, a morte está inserida em cerimônias públicas e organizadas, com ritos aceitos, sem maior caráter dramático ou emoção excessiva. Assim morriam as pessoas durante séculos, em uma atitude a morte ao mesmo tempo familiar e próxima, por um lado, e atenuada e indiferente, por outro. Ariès destaca ainda outro aspecto dessa antiga familiaridade com a morte, qual seja as relações entre vivos e mortos, lembrando que na Antiguidade (e ainda hoje) os mortos eram temidos e mantidos à distância e que assim os cultos funerários visavam impedir que estes voltassem para perturbar os vivos. A Igreja, entretanto, trouxe uma visão diferente: os restos mortais são trazidos à cidade para protegê-la, sob um templo, onde as pessoas vão ter seus corpos enterrados ao lado dos mártires, fazendo com que o cemitério seja incorporado não só como parte da área de culto, mas também como área pública, local de encontros, até mesmo de comércio.

Ariès aponta as pequenas mudanças sutis e graduais que darão um sentido dramático e pessoal à familiaridade do homem com a morte, algo que implicaria numa concepção coletiva da destinação, entre pessoas profundamente socializadas e ligadas à natureza e a uma ordem natural respeitada e aceita. Assim surgiria uma série de fenômenos que apontam para uma individualização da morte, passando de representações coletivas de ressurreição para uma ênfase no julgamento pessoal, gerando crenças no risco de perder a salvação e cair em tentação no momento da morte além de, nas artes e na literatura, o domínio das alusões ao cadáver em decomposição. No mais, a partir da segunda metade da Idade Média (séculos 12 a 15) ocorre aproximação entre as representações mentais da morte, do reconhecimento dela por parte de cada indivíduo, do apego apaixonado às coisas e aos seres possuídos durante a vida. A morte torna-se, assim, um lugar em que o homem toma consciência de si mesmo. E é assim que tal individualização da morte desencadeia um fato real: as sepulturas coletivas nas igrejas vão sendo gradativamente substituídas por túmulos individuais.

Sob o rótulo de morte do outro, Ariés toma como referência algumas representações artísticas e literárias dos séculos 16 a 18 que mostram a morte de forma mórbida, cruel, dolorosa e apaixonada, ou seja, que a faz representada como uma ruptura em relação à antiga familiaridade. Trata-se, agora, de uma espécie de intolerância com a separação e a perda, sendo isso um dos traços do Romantismo nas artes. Ao mesmo tempo, ocorrem profundas mudanças na dinâmica familiar, com ênfase em sentimento e afeição nas relações humanas, fazendo com que o moribundo, que antes comunicava seus sentimentos e afetos formalmente num testamento, passe a fazê-lo oralmente, no leito de morte. O luto formal dos tempos medievais transforma-se assim em sincera manifestação de dor, inaugurando também novos rituais, por exemplo, as visitas regulares aos túmulos, o culto da lembrança aos heróis, cujos túmulos tornam-se verdadeiros monumentos.

Na sequência histórica, Ariés define que a atitude diante da morte conheceu mudanças brutais no século 20, em direção ao que ele define como morte interdita, dada, por exemplo, com uma nova tendência de ocultar ao moribundo a real gravidade de seu estado, fazendo com que aquele antigo costume de morrer em casa seja substituído pelo uso dos hospitais, com a antiga assistência familiar substituída pela equipe hospitalar. O luto é cada vez mais discreto e as formalidades para enterrar o corpo são cumpridas rapidamente; a visita ao túmulo deixa de ser obrigatória, pois recorre-se cada vez mais à cremação, como se houvesse uma ânsia por fazer desaparecer e esquecer tudo o que pode restar do corpo. O resultado é a formação de um verdadeiro tabu em torno da morte, com o excessivo apego à vida, tão característico de nossa civilização industrial criando, em seu lugar, um verdadeiro horror à ideia de morrer. Ariès lembra que se sociedade tradicional reprimia o sexo e encarava a morte com naturalidade e que contemporaneamente prevalece oposto, com o sexo apresentado às crianças cada vez mais cedo, enquanto se oculta delas tudo o que diz respeito à morte, em sintonia com uma espécie de hedonismo moderno, traduzido por uma obsessão de se estar sempre feliz, evitando tudo que possa causar tristeza ou aborrecimento.

A obra de Ariès mostra, enfim, que as dinâmicas sociais, por exemplo  com a crescente urbanização, são determinantes nas transformações que acometem o imaginário do século 20, inclusive com relação á morte. O resultado de tudo isso parece ser negativo, pois em que pese o desenvolvimento de uma consciência individualizada, ocorre nas modernas acepções relativas à morte uma forte adesão à vida, de fundo hedonista, dentro das quais homem busca esquecer da morte para não sofrer, embora por isso mesmo sofra intensamente sempre que a morte ocorra ou de alguma forma se anuncie de fato.

Sobre o suicídio, propriamente, Ariès fala de uma mudança de atitude perante a morte ocorrida a partir do século 12, à qual ele denomina de “a morte de si mesmo”, dentro de um princípio de “individualização” do ser humano. Segundo o autor, isso permitiu ao homem formar um autoconhecimento através da morte, enfim, reconhecer-se como mortal, fazendo com que dessa forma a morte de cada indivíduo torna-se autoconsciência particularizada de sua própria morte. Ou, em palavras textuais: “No espelho de sua própria morte, cada homem redescobria o segredo de sua individualidade. Essa relação, entrevista pela Antiguidade greco-romana – mais especificamente pelo epicurismo – e logo a seguir perdida, nunca deixou depois de impressionar nossa civilização ocidental”.

Ariès não fala – e nem poderia ser diferente, dada a época seus escritos – sobre a morte voluntária assistida, sem dúvida um tema pertinente à contemporaneidade. Mas vale a pena voltar a um conceito a isso articulado, o de morte interdita, típico da modernidade contemporânea, dentro do qual vigora um escamoteio do fato biológico e social da morte, perante o próprio moribundo, inclusive, acarretando, entre outras coisas, que morrer em casa seja substituído pelo ambiente hospitalar.

Entre outros aspectos de tal fenômeno estão a tendência de ocultar ao moribundo a real gravidade de seu estado; que o episódio de morrer em casa seja substituído pelo uso dos hospitais, com a antiga assistência familiar substituída pela equipe hospitalar; que o processo de luto seja cada vez mais discreto e as formalidades sepultamento ou cremação seja rapidamente executadas, demonstrando assim uma certa uma ânsia apagar a memória da morte, numa sequência de eventos atrelados a um verdadeiro tabu, ao qual se ajunta um forte apego à vida. Ariès lembra que isso tem a ver com certo hedonismo moderno, traduzido por uma obsessão de se estar sempre feliz ou saudável, evitando tudo que possa causar tristeza ou aborrecimento, aspecto que sem dúvida permeia a relação habitual das pessoas frente àqueles que porventura decidam, de moto próprio, por uma morte digna e assistida. Paradoxalmente, contudo, em quem busca exercer tal tipo de opção, esteja presente uma espécie de hedonismo radical, através do qual a pessoa deseja poupar não só a si mesma, bem como aos demais, o desprazer de conviver com uma morte sofrida e prolongada.

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