Tito é o nome dele. Tito Anastácio. Sobrinho do capitão Livio Anastácio, um potentado, dono de quase tudo por aqui, desta fazenda Irlanda e muito mais. Sobrinho de verdade? Ou teria com ele algum outro tipo de parentesco? Sempre houve controvérsias… Tito perdera a mãe muito cedo, uma sobrinha do Capitão, na realidade uma pessoa que ninguém conheceu de perto por aqui. Livio Anastácio, consta, talvez não seja exatamente um tio-avô de Tito, mas na verdade seu pai, é o se diz. Ele mantinha com a tal sobrinha um caso secreto, mas com rescaldos escandalosos. Assim, o que também segredam é que o Capitão mandou matar a própria parente, por suspeita de traição ou, como alguns desconfiam, para não dividir herança. Aliás, não se duvide: mandar matar e desejar tudo para si seriam atitudes cabíveis a este capitão Lívio Anastácio, pelo que sempre se soube de sua história. E assim um dia, com o garoto já na idade escolar, o Capitão o trouxe para morar nessa fazenda Irlanda, tirando-o do fundão de roça onde ele morava com a família da falecida mãe. O mais, não se sabe, só se especula, como aliás tudo que diz respeito a Anastácio, sua família e seus negócios.
Quando Tito chegou à fazenda do Capitão, ele era apenas mais um com este nome por ali, titos ou lívios, todos batizados em honra ao coronel Tito Lívio, o pai do Capitão, falecido muitos anos antes, mas perpetuando a herança de seu nome em afilhados, filhos naturais ou simplesmente herdeiros de tal apelativo verdadeiramente nobiliárquico. Mas o recém chagado Tito logo recebeu apelido que nele se pegaria para toda a vida, Titão, por ser mais taludo que os demais viventes de sua idade. E ali ele se encorpou e se enraizou, supostamente sob especial proteção do Capitão, que desde o início lhe destinou aposentos dentro da própria casa de sede da fazenda, coisa considerada como honraria, embora tratasse o suposto sobrinho, ou filho, no mesmo sistema bruto, como aliás fazia com os demais empregados ou mesmo eventuais parentes que por ali andavam.
Titão, assim, foi recebido como parente, mas ao mesmo tempo tratado com a aspereza de reles empregado. Aliás, frequentemente era envolvido, por determinação do capitão Lívio, em tarefas mais condizentes com empregados: por exemplo, em plena madrugada, num dia de chuva: – Titão, vai buscar a mula Marmela no pasto. Ordem para um garoto de 12 anos: – Titão, vai tacar fogo na colmeia de Oropa que elas estão atacando todo mundo na beira do poço. Ou então: – corre na casa do Zé Caxangá e diz pra ele ver se paga logo aqueles 12 contos que eu emprestei, senão ele vai se haver comigo. E além disso, muitas vezes, coisas assim: – Titão, seu bostinha! Faz quanto tempo que não limpa o chiqueiro?
A grande diferença, de verdade, entre ele, Titão, e os demais, filhos dos peões da fazenda, era que, enquanto esses iam dormir em suas casas modestas, ele tinha direito a um quarto na casa principal. No mais era tudo igual, ou até pior, pois muitos daqueles pais não ordenavam aos filhos tarefas do tipo que ele o recebia do Capitão.
Titão cumpria tais ordens com medo e cuidado; afinal, como ousar desobedecer ao capitão? Lívio Anastácio gostava de mandar, não só em Titão como nos demais que o rodeavam. Tinha uma doença que o obrigava a ficar boa parte do dia dentro de casa, pois o sol lhe provocava a aparição de bolhas e queimaduras nas partes descobertas do corpo. Assim quase nunca podia pegar os longos estirões a cavalo pelos ensolarados terrenos do sertão. Com isso, tinha desenvolvido especial capacidade de mandar – e fazer com que os outros obedecessem – na realização de tarefas no lugar dele.
O capitão Anastácio faz tempo vivia só, sem mulher. Teve uma, Etelvina, que apanhava tanto dele que acabou fugindo, não se sabe pra onde. Bernardete foi expulsa, quando engravidou de um filho dele. Maria do Socorro também não aguentou tanto vexame e se mandou dali, numa madrugada. Essa aí ele mandou gente correr o mundo atrás dela, não apenas para trazê-la de volta, mas para punir, como ele anunciou aos quatro cantos, a quem quisesse ouvir. Felizmente não a encontraram: ela tinha família no sertão da Bahia e para lá se mandou, nunca mais dando as caras por ali. A uma que lhe perguntou por que era assim ele respondeu: – porque sempre foi assim. Tais moças tinham uma coisa em comum: eram filhas de roceiros dos fundões, cuja chegada até ele era, por assim dizer, contratada – o termo que ele usava – junto aos pais delas, mediante dinheiro, cessão de pastos ou de terras para plantar.
Eram arranjos de papel passado, diga-se de passagem, porque Lívio tinha conseguido no cartório da cidade, não se sabe como, um documento que ele chamava de contrato, assinado por ele e também pelo pai ou mãe da coitada. Assinado é modo de dizer, pois o que havia muitas vezes era apenas as impressões digitais daqueles, e ainda com testemunhas. O Capitão dizia para todo mundo que isso era coisa legal, servindo para “proteger” os direitos das “contratadas”. “Direitos” de serem aquela espécie de escravas, possivelmente. Nada mais do que isso.
Mas o fato é que certo dia Titão foi chamado pelo capitão para uma nova tarefa, sobre a qual ele teve o pressentimento de não ser coisa boa, ou normal.
– Ajeita as trouxas porque amanhã tu vai partir de madrugada, pro Retiro d’Abadia, junto com o Eusébio, pra conduzir, de lá, uma mocinha que vem trabalhar aqui.
Abadia era um lugarejo distante umas nove ou dez éguas da fazenda e Eusébio, o companheiro, era um pau mandado do patrão. Logo ele soube que havia na equipe mais um cavalo, sem ter quem o montasse, na ida pelo menos. Sobre a missão que Livio Anastácio lhe dava, imaginou que, sem dúvida, era para trazer até a fazenda Irlanda, uma possível nova contratada para o plantel dele.
Eram dois dias inteiros de jornada. Muniram-se assim de farnel, redes para dormir, algum dinheiro e receberam do Capitão instruções precisas sobre onde e como deveriam fazer o pernoite previsto. Cumpria também avisarem, na ida, que na volta haveria necessidade de reserva de mais uma rede ou cômodo de pouso, para uma terceira pessoa, que deveria ficar isolada deles.
Titão estava acostumado com tarefas um tanto estranhas, que sem dúvida demonstravam certa confiança nele, como por exemplo levar recados sobre cobranças ou convocar umas mulheres da vida para atenderem ao patrão, coisas que iam muito além de limpar chiqueiros e queimar colmeias. Mas aquela ali superava tudo o que ele até então tinha feito. Devia se se sentir feliz com isso? Pensava nisso e não conseguia atinar com uma resposta que o tranquilizasse.
E se deu a tal viagem, dele, de Eusébio e daquele cavalo desocupado. O companheiro não era má pessoa, de pouca conversa, mas prestativo para o que se fizesse necessário. Talvez, em todo o trajeto, não tenham trocado mais do que meia dúzia de palavras entre si, mas quando podia o companheiro dividia com ele a cabaça com água, uma fruta vista no mato, um cigarro de palha. No roteiro, iam passar pelo povoado de Santo Hilário, que Titão ainda não conhecia, embora tivesse muita vontade conhecer, por uma razão muito simples: lá ficava a estação do trem de ferro, que ele nunca tinha visto, em nenhum lugar que tivesse ido. E queria muito conhecer aquela máquina extraordinária, capaz de puxar atrás de si como se fosse uma cobra de aço de mais de vinte vagões, qual caminhões carregados, além de levar gente aos magotes. Queria ter a sorte que tal coisa estivesse lá em Santo Hilário justo na hora da passagem deles, o que, para seu azar, não aconteceu. Mas Eusébio, que já tinha visto e até mesmo viajado naquilo, disse a Titão que não se animasse muito, pois era uma coisa muito barulhenta e suja, deixando nos passageiros terrível poeira de carvão, bem difícil de limpar.
E foi sonhando em um dia conhecer e até viajar numa coisa como aquela que Titão passou por Santo Hilário, imaginando, acima de tudo, que um dia poderia usufruir de tudo o que tal maravilha fosse capaz de oferecer, suas tantas novidades, mas principalmente o que para ele era o mais especial e significativo: o dom de carregar as pessoas para longe, muito longe.
Depois de Santo Hilário veio o Sem-Troco, e ali pernoitaram. Aquilo não chegava a ser nem um povoado, mas apenas uma encruzilhada de dois caminhos do sertão. Ali, Altamirando, um compadre do Capitão tinha casa e uma vendinha e foi lá que eles pediram permissão para armarem suas redes na varanda da casa, pois já anoitecia. Trataram, também, de comunicar ao dono do lugar as ordens do capitão para que no retorno, daí a dois dias, a nova agregada à dupla fosse hospedada. Altamirando, é claro, só soube dizer pois sim e sim senhor. Quem é que por ali, num vasto arredor, faria coisa diferente diante das determinações de Lívio Anastácio?
Aquela viagem, apesar de ter durado somente duas jornadas, trouxe para Titão um rosário de descobertas. Diferentes tons e dimensões de cerrado; a mata seca, porém viva depois da primeira chuva do ano; o rio das Almas tão falado; a lapa do Curiol, onde as onças se recolhiam; o abrigo do Zequinha, um personagem daquelas paragens que tinha fama de feiticeiro e rezador. Titão já ouvira falar de uma coisa e outra, mas bem se admirava e mesmo se alegrava de poder conhecer de perto tudo aquilo. Para ele, como se diz, aquela viagem já estava bem paga.
Ao cair do sol do segundo dia chegaram a Lapa Formosa. Titão logo constatou de formosa aquilo não tinha nada. Um paredão de pedra muito carregado de ervas bravas e buracos de coruja, um cerradinho vasqueiro, água quase nenhuma. Ali morava a família do Venceslau, um cerradista pobre, verdadeiro bicho do mato, possível pactuário do tal contrato com Tito Anastácio. Logo se viu que era dado às carraspanas, pois mal conseguir falar duas palavras inteligíveis aos recém chegados, denunciado também pelo cheiro agudo de aguardente e vômito. A mulher, quase tão decadente quanto ele, lhes confirmou com o trato com o Capitão estava de pé e seria honrado.
Faltava apenas aparecer a pobre contratada.
Ela só apareceu na manhã seguinte. Muito envergonhada, pele manchada e cabelos mal aparados e com aspecto pastoso. Para cobrir o corpo um vestidinho de chita, esgarçado, a lhe destacar, mais do que alguma curva generosa do corpo, uma ossatura firme e pontiaguda. Tinha, apesar de tudo, traços de beleza, entre os quais chamavam atenção de forma especial os olhos, fundos, porém expressivos, brilhantes, agentes de um olhar triste. Sua bagagem para viajar não passava de uma pequena trouxa, de dar dó. E assim ela partiu com eles, com um leve aceno para o pai e um abraço rápido na mãe, como se o contato entre o corpo delas provocasse queimaduras, ou aflição. E iniciaram a marcha, a moça e os dois cavaleiros, em silêncio total por um bom tempo.
Izilda, era o nome dela.
Um pouco adiante, numa encruzilhada, Eusébio comunicou que se afastaria por uma légua, porque precisava fazer contato com um conhecido seu, Sêo Joãozinho Borges. Titão, com um pequeno gesto, lhe confirmou que tudo bem, que o aguardaria em um pouso mais adiante. Mas ficou marcado na sua mente o nome do interlocutor de Eusébio, o tal Borges, que ele sabia ser um antigo parceiro do capitão Lívio, porém sabidamente rompido com ele, por uma antiga questão de divisa de terras. Em um primeiro momento Titão considerou aquela visita corriqueira, mas depois, ao pensar melhor sobre aquilo, lhe vieram outros pensamentos, sugerindo que havia naquilo algo fora da normalidade.
Assim, Titão e Izilda estiveram a viajar sozinhos, por algumas horas. O moço foi quem lhe dirigiu palavra primeiro, perguntando pelo seu nome e completando:
– Você já viajou pra fora daqui?
– Quem eu? Nhor não, pouca vez.
– Não precisa me chamar de senhor, ainda nem fiz vinte anos. E você, que idade tem?
– Acho que é dezesseis, ou quinze, não sei bem…
Com perguntas banais e respostas lacônicas foram construindo alguma intimidade, firmada pouco a pouco. Depois das proverbiais considerações sobre a chuva, a temperatura e os ventos, veio algo mais substancioso, se ela gostava do lugar que morava, sobre a família dela, se a viagem que faziam era esperada por ela, coisas assim. Ela quis saber, também, timidamente, com voz quase inaudível, como era o lugar para onde ela estava sendo levada e sobre ele próprio, Titão, o que fazia, de onde vinha, se tinha família. Então se descobriu que a viagem para ela era motivo de insegurança e tristeza, principalmente por se separar da mãe e de um único irmão mais novo. Escola, não frequentava e o morador mais próximo ficava a légua e meia dali. Seu contato com outras pessoas era pouco, não tinha e nunca teve amigas. A mãe lhe dissera que ela precisava ir embora, para trabalhar para um homem muito rico, e que assim ela poderia ajudar a família, que sempre passou muitas necessidades.
Vida mais triste, sem eira nem beira, pensava Titão, que também não se considerava muito feliz com sua própria existência na fazenda Irlanda. Porém percebeu que na verdade, perto daquilo que lhe trazia tal criatura, ele até dispunha de enormes vantagens.
A conversa aos poucos rendeu aproximação entre os dois, cautelosa e discreta, porém crescente. Eusébio, de volta, se mantinha, como sempre, calado e até distante, não empatando aquela conversa. E houve mais revelações: ela nunca tinha ido à escola; conheceu médico uma única vez, quando teve sarampo e quase morreu, sendo que uma irmã mais nova, Francisquinha, não resistiu ao surto da doença. Ajudava a família na lida com o gado e uma rocinha de milho e feijão de corda, ali mesmo, no quintal. O pai saía uma vez por mês para fazer compras em um arraial ali perto, quase sempre voltando bêbado pra casa, às vezes até perdendo parte das compras na estrada. Ele era muito mau para a mãe e para ela. Em certo momento, de maneira quase entre dentes, ela lhe confessou que sua vontade era de poder escapar daquilo, fugir para algum outro lugar.
Titão se apiedava dela, também se sentindo maltratado pelo capitão Lívio, aquele suposto parente que lhe tratava como um empregado dos mais desqualificados. Assim, nascia ali nos caminhos do sertão, uma sintonia entre dois deserdados de qualquer afeto. O que ela lhe dizia, no princípio extraída apenas mediante perguntas sucessivas e insistentes do rapaz, aos poucos foi se transformando em um jorro espontâneo, esclarecedor.
No dia seguinte chegaram, enfim, a Santo Hilário. A parada em tal lugar já tinha sido objeto das conversas dos dois, tendo como foco de interesse o trem de ferro, que ela também não conhecia. Ao descerem pela encosta do morro que ladeava a vila puderam ver os sinais daquilo, que até então apenas era objeto de idealização, agora de partida para longínquo destino. Na curva da ferrovia, lá adiante, ainda se ouvia o rangido dos mancais e dos vagões nos trilhos, a grossa coluna de fumaça que a locomotiva desprendia, seu extraordinário apito. Isso fez lembrar a Titão as palavras de Eusébio, sobre o barulho e a sujeira produzidos por tal geringonça. Mas o fato é que tal visão, mesmo com o ruído e a fumaça, lhe encheu os olhos e talvez trouxesse, no íntimo de um e também do outro, a sensação de que a maior maravilha que aquilo trazia era o poder de levar pessoas para outras terras, outros ares. Titão, com o olhar perdido além daquela última curva da ferrovia, suspirou de forma sentida, tal era sua vontade de um dia poder experimentar algo assim. Ao mesmo tempo percebeu, olhando de esguelha, que na mula a seu lado, Izilda, que parecia ainda mais abatida do que antes, em todo caso lhe imitava o gesto, talvez com o mesmo sentimento.
– Moço, eu queria parar um pouco aí em Santo Hilário, para ver uma comadre de minha mãe, Siá Eulália. Ela entende de chás e remédios, para me dar alívio, estou me sentindo bem mal.
Ele aceitou, e nem poderia fazer diferente, tão próximo e solidário a ela se sentia, desde a véspera. Dona Eulália de fato acolheu Izilda com cuidados de mãe, fez ela entrar para tomar um banho de cheiros e preparou-lhe umas tisanas. Depois de ter com a moça uma longa conversa, Eulália avisou a Titão e Eusébio que a mocinha deveria ficar em sua casa pelo menos na próxima noite, para que a melhora fosse completa. O moço, embora temendo alguma reação intempestiva do capitão, não colocou oposição a tanto, no que foi seguido, também sem maior contestação, por Eusébio. Titão viu com bons olhos a possibilidade de retardar um pouco mais a chegada à fazenda Irlanda, tendo assim por mais tempo a companhia e as conversas com Izilda, vindo-lhe a calhar a disposição de Eusébio de prosseguir a viagem, segundo ele, para avisar ao patrão que já estavam próximos.
À noite, a hospedeira determinou que Titão armasse sua rede na varanda da casa, recolhendo Izilda aos aposentos interiores. Foi gentil com ele e lhe ofereceu um jantar e também, caso quisesse, que tomasse um banho. Tendo armado sua rede, ficou o moço a meditar nos acontecimentos do dia e, principalmente, sobre como lhe era agradável a proximidade com Izilda. Ele já quase adormecia quando percebeu que a janela que ficava bem junto à sua rede estava agora entreaberta e do lado de dentro, mesmo no escuro, Izilda lhe dirigia o olhar, do qual ele viu o brilho, sussurrando alguma coisa que a princípio ele não compreendeu. Estavam tão próximos um do outro, apesar de uma parede e de uma janela quase fechada entre eles, que Titão, de forma quase mecânica, estendeu a mão a ela, num gesto prontamente correspondido. Ela sussurrava alguma coisa para ele, tentando dissimular, para não ser percebida pela dona da casa e ele, da mesma forma, retribuía. Talvez não soubessem o que ouviram um do outro naqueles momentos, mas os movimentos de suas mãos, em carícias suaves e contínuas, foram muito mais eloquentes.
Chegara afinal o dia do triste desígnio de entregar Izilda a seu algoz. Agora uma coisa era certa entre eles: haviam formado laços, que se aprofundavam a cada momento, mostrando força para se manterem e se ampliarem. As palavras entre eles, sempre escassas, iam sendo substituídas por um acordo de gestos e olhares mais intensos do que o que porventura falassem, eles sentiam isso. As inesperadas confidências na viagem, a boa acolhida de dona Eulália, os carinhos trocados naquela noite na varanda, marcavam agora profundamente os sentidos de um e de outro. O barulho e a fumaça do trem na curva distante da estrada de ferro já se transformaram em emblema de um jeito de escapar das ruindades que havia na vida de cada um deles,
Na chegada à fazenda Irlanda, o Capitão já os esperava na varanda do casarão. Entretanto não desceu para receber sua encomenda, apenas mandando Maria Engrácia, sua velha empregada preta, recebê-la e conduzi-la aos aposentos que lhe eram destinados. Titão, com o coração em pedaços assim a perdeu de vista, imaginando que percalços eram reservados a sua amiga desde aquele momento. Ato seguinte, Engrácia lhe avisou, com um esgar de desgosto, que seu quarto havia mudado de lugar na casa, ficando agora não mais no corpo principal, mas numa área rente à cozinha, junto ao depósito de lenha, onde escorpiões passeavam à vontade, em plena luz do dia. Foi dali que no meio da noite o moço tentou analisar os ruídos que vinham do andar de cima: passadas largas em botas, pigarros um tanto nervosos, imprecações. Em algum momento um possível choro velado, um gemido de dor – ou pelo menos assim ele traduzia os pequenos movimentos que conseguia captar. E muito penava com isso.
O Capitão mantinha Izilda como prisioneira em seu casarão. Eram raras suas saídas de dentro da moradia, rara vez para ir à horta ou ao galinheiro, sempre na companhia de Engrácia, mais raramente ainda na casa desta, no caminho do açude. De manhãzinha a moça costumava ficar algumas horas na varanda dos fundos, quentando sol, e eram estes os momentos que Titão conseguia se aproximar dela, mesmo assim com alguma distância, ele no piso de baixo e ela em cima. Certa vez ele tentou se aproximar num dos passeios dela com a preta, que entretanto lhe reprimiu de imediato, fugindo de seu trato mais gentil habitual com ele: – se afasta rapaz, tenha juízo. E mais não lhe disse.
Observando-a assim tão de longe a única comunicação possível com ela eram pequenos e medidos gestos, um aceno com as mãos, um meneio de cabeça, sempre iniciativas de Titão. Izilda, depois de algumas tentativas dele, compreendeu e retribuía, de maneira igualmente disfarçada e temerosa. E isso só acontecia em momentos de certeza de que o capitão Lívio andava longe, o que raramente acontecia, dado o seu temor da luz solar.
Um dia, para total surpresa de Titão, Eusébio lhe chegou, sem maiores rodeios: – Ei, companheiro, bico calado naquilo que deixei escapar sobre aquela minha ida ao Sêo Joãozinho Borges, fico lhe devendo essa…
Titão exultou. Havia ali uma proposta velada, mas real, de um pacto: ele lhe pedia sigilo de algo que por certo lhe complicaria a vida; a retribuição, quem sabe, poderia ser o silêncio de Eusébio sobre aquela intimidade verbal de que ele fora testemunha, entre ele e Izilda, na viagem deles, alguns dias antes. Somado a isso estava o fato de Eusébio lhe tratar como companheiro, o que lhe era totalmente inédito. E mais aquilo: – fico lhe devendo essa, ele nunca esperaria uma coisa assim de um cabra como Eusébio. Juntando tudo isso, Titão viu criar forças em sua mente uma certa ideia, na qual coexistiam um trem de ferro, a vida em um lugar diferente, o apoio de gente amiga, coisas desse tipo. E tinha mais: Eusébio poderia estar pensando em abandonar aquele lugar, o que seria um baque profundo para o capitão Livio Anastácio e que, assim, um perseguidor potencial deixaria de vir em sua cola.
Coisa pensada, coisa acontecida. Passados poucos dias Titão percebeu uma bulha no andar de cima. Eusébio tentava explicar ao Capitão alguma coisa e este reagia aos gritos. Em dado momento, o feio barulho de gente se atracando. Um minuto mais e Eusébio saiu pisando duro, com a camisa rasgada e manchada por sangue. O mais se soube depois: o pau-mandado mais importante e confiável do capitão Livio acabara de se demitir e já estava como pé na estrada, deixando o agora seu-não-mais-patrão se acabar em gritaria, murros em paredes, afogado na bebedeira. Izilda felizmente foi poupada de alguma maldade, o que deixou Titão aliviado.
Aquele apito do trem de ferro na curva… Titão não conseguia pensar em outra coisa. E se ele também fugisse dali, levando Izilda consigo? Era mais do que uma ideia, era coisa a ser pensada e colocada em prática, em algum momento. Quem sabe já havia chegado tal ocasião? Eles agora tinham dona Eulália em Santo Hilário, protetora; Expedito, um amigo antigo dele, na Capital, a lhe mandar recados para que fosse também para lá. E o mais importante: não teriam Eusébio a lhes correr no encalço como bom pau mandado, pelo contrário, este poderia até lhes ajudar.
Foi aí que a sorte lhes sorriu mais de perto. O Capitão entrou em crise profunda com sua doença de pele e já não conseguia sair de casa nem por breves momentos, sob pena de lhe empelotar a pele até debaixo das roupas. Ele se coçava, gemia, trocava de camisas vezes sem conta em um único dia. E aquilo fedia a urina de rato. Um dia, acordou cedo, tomou o rumo de Santo Hilário para pegar o trem e foi procurar médico na cidade, deixando um vazio feliz na até então tristonha fazenda Irlanda.
– Nossa vez chegou, correu ele a comentar com Izilda, agora acessível a conversas mais longas e tranquilas. Por esse tempo, tinha inventado uma brincadeira de imitar o trem de ferro, passando correndo debaixo da varanda, gritando para imitar apitos e rangidos, as mãos fazendo os movimentos dos ferros das rodas e um cigarro de palha a soltar baforadas como uma locomotiva. Pela primeira vez ele via Izilda dar risadas.
E foi assim que três ou quatro manhãs depois da partida de Livio Anastácio eles próprios arranjaram mal e mal suas trouxinhas e pegaram o caminho de Santo Hilário, para alcançar o trem, o desejado trem, no final da tarde daquele mesmo dia. A ansiada geringonça lhes pareceu não só suja e barulhenta, mas também fedida, dado aquele estranho costume de se botar uma casinha para as pessoas fazerem suas necessidades dentro mesmo do vagão em que viajavam.
Mas o que importava aquilo? O trem para eles realizava a tarefa mais importante que uma estrovenga daquela pudesse fazer, levar gente para longe. E era para longe que eles agora iriam, cheios de insegurança, mas misturado com alegria. Iam para o mesmo lugar onde o Capitão dera de esbarrar, mas e daí? A maior vantagem de se estar em cidade grande não seria a de que ali as pessoas quase nunca se encontravam?
Pela frente, de fato, Titão e Izilda não contavam com nada mais do que toda a incerteza do mundo… Era preciso chegar na cidade e localizar o amigo Dito; depois, arranjar um lugar pra ficar e até morar; trabalhar era outro desafio. Entretanto, isso tudo era de pouca monta perto do que deixavam para trás. Isto sim, era o que poderia haver de pior.
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Pois é, amigos leitores. Esta é mais uma História de Segunda Mão, inspirada que foi em uma obra da literatura universal, no caso Tristão e Isolda, como alguém já deve ter percebido. Já fiz a mesma coisa com Guimarães Rosa, Machado de Assis, José de Alencar, Joseph Conrad e outros, além da Bíblia – sempre com todo respeito. Vejam aqui o resultado disso: (Histórias de Segunda Mão – Vereda Saúde). Tristão e Isolda é um conto lendário de cavalaria, de origem celta, sobre o trágico romance entre Tristão, um daqueles cavaleiros antigos e Isolda, uma princesa irlandesa, contado e recontado em muitas diferentes versões ao longo dos séculos. Portanto me sinto à vontade para também criar esta minha versão, ambientada no ignoto sertão de Minas Gerais. Espero que apreciem. Veja mais em: Tristão e Isolda – Wikipédia, a enciclopédia livre.
