Pensando nessa falta de alegria e sorte, chamou em seu auxílio que lhe viesse a morte. (E ela veio…) – “Vosmecê me chamou, e eu vim. Agora venha.” – “Só te chamei pra me ajudar com a lenha…” La Fontaine – O Lenhador e a Morte
Edgar amara muito Antonieta. Mas ela não soube compreender as intenções dele. E um dia o abandonou. Do nada, por um motivo tão fútil que depois nem ele nem ela se lembravam de o que teria provocado aquilo.
Antonieta deixou algumas coisas esquecida na casa de Edgar. Pouca coisa, na verdade. Um par de tênis, uma vasilha de água, uma camisola. Sim, havia algo mais: um anel, grande, dourado, com uma pedra falsa de azul profundo, imitando uma água marinha. Apenas uma bijuteria, mas que para Edgar trazia lembranças intensas da antiga amada.
As noites de Edgar, depois da separação, passaram a ser insones e dolorosas. Ele virava na cama para lá e para cá, não encontrava pouso para seu corpo e seus pensamentos. Era só Antonieta que frequentava seus devaneios, às vezes com doçura, outras com despeito e rancor.
Aquele anel ficara abandonado em cima do criado, bem ao lado de onde sua mente agitada buscava o consolo do sono. E quisesse ou não Edgar, seu olhar se detinha sobre o tal anel, de forma insistente, ainda mais porque graças a uma réstia de luz que vinha da janela, dentro da noite escura, aquela pedra azul, mesmo falsa, captava um raio daquilo e o projetava diretamente nos olhos de Edgar.
Por alguma razão, Edgar se via incapaz de jogar aquele anel fora ou guardar em algum lugar, fora de sua visão.
E assim o pobre moço se revirava naquela cama, na qual a felicidade de muitas noites de amor ainda mantinha suas marcas. Pelas madrugadas, frias ou não, ele se via acordado e insone, como se isso fosse o resultado do raio de luz azul que emanava daquele anel, tão vagabundo e ao mesmo tempo tão provocativo.
Uma noite, mais uma vez insone e incomodado, Edgar ligou para Antonieta e pediu socorro. Não aguentava mais, entregava os pontos, que ela viesse lhe socorrer.
Ela não atendeu à chamada; ele deixou recado. E Edgar se viu jogado na modorra triste de todas as madrugadas.
Ele não sabe se em dado momento adormeceu, mas seja lá o que tivesse acontecido, Antonieta, como um milagre ou uma aparição, estava a seu lado.
– Você me chamou? Eu vim. O que deseja de mim?
Para Edgar, os momentos de sono ou torpor que antecederam a chagada de Antonieta abriram também cortinas para inesperada clarividência.
– Sim chamei. Queria apenas que você levasse de volta este seu anel.
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