A história de Percival e Cecília

Vocês não imaginam o que é morar em uma favela. Não imaginam mesmo. Eu, Josefa de Alencar, que nasci e sempre vivi aqui tem hora que presencio certas coisas… Até Deus duvidaria, eu acho. Aliás, chego eu mesma a duvidar de ter nascido e estar viva num lugar como este. Não estou falando somente do que se passa debaixo de minha janela. Não, é muito mais do que isso! Dentro da classe de ensino médio, na Escola Estadual Frantz Fanon, onde leciono, aí é que até o diabo se arrepia. E não é só violência que rola, não. Vocês podem não acreditar, mas tem chefe de tráfico, um Antônio Marins, chefão de chefões, por exemplo, que poderia até ser chamado de pai exemplar. Carinhoso, provedor, compreensivo… Isto é, compreensivo até certo ponto, aos poucos eu explico. Sei disso porque Cecília, sua única filha mulher, nascida de Lauriana, cantineira da escola onde leciono, se tomou de amizade por mim e me conta muita coisa. E costuma não poupar nem o pai nem a mãe em suas revelações.

Cecília é uma garota linda. Dezesseis anos, loura encaracolada, pele claríssima, é daquelas pessoas que conversam com a gente olhando nos olhos. Filha de traficante, nem parece, tem a delicadeza de uma personagem romântica, só se referindo ao pai de forma muito carinhosa. Ela é filha de Lauriana, a cantineira, com Antônio, o chefão, e tem dois irmãos: uma por parte de mãe, Isabel, mais velha do que ela dois ou três anos e outro por parte apenas de pai, Diogo, também um pouco mais velho do que ela. Isabel vive com a família, Diogo, ao que parece só vem de vez em quando, parecendo envolvido com alguma coisa ilícita, porém debaixo das asas do pai. Lauriana demonstra ser uma verdadeira equilibrista, quase circense, se movendo entre os caprichos violentos e flutuantes de um chefão de tráfico, o carinho com a filha mais nova, os conflitos com Isabela e as desconfianças recíprocas com o enteado Diogo, que lhe parece envolvido em grossas confusões. Ah sim, Lauriana conseguiu seu emprego como cantineira da escola numa empresa terceirizada, por obra, ao que parece, de influências do marido junto à direção.

Sei tudo isso através das conversas frequentes que tenho não só com Cecília, de tipo mais íntimo e confidencial, mas também com Lauriana, que parece também ter adquirido muita confiança em mim, talvez pelo jeito como vê a filha me tratar. O que sei é da vida complicada de Lauriana, principalmente pela maneira bruta como é tratada pelo enteado, coisa frente à qual o marido se omite, com argumentos do tipo é da idade. Mas Lauriana tem enorme paixão por Antônio, ao que me parece construída entre a cama do casal e o supermercado, entre a cozinha de casa e alguma loja de roupas ou bijuterias, se é que me entendem. Ela ainda me contou mais: que Antônio Marins pretende a sair candidato a vereador nas próximas eleições e já lhe avisou que precisará dela na campanha, o que a obrigará, malgrado seu, a deixar o emprego de cantineira, que ela valoriza muito.

Se não bastasse tanta coisa complicada, descobri que há um romance em curso: Cecília, branca, está apaixonada por um colega lá da escola, Percílio, que ela chama de Percival, ou Perci, que é negro. Até aí, tudo bem, este racismo brasileiro geralmente é mais atenuado na favela, mesmo que aqui a violência impere, porém sendo de natureza diversa. O problema está justamente nisso: Perci mora no morro vizinho e tem escola aqui, onde se centraliza o ensino médio da região Oeste, mas como seu território de moradia é dominado por uma facção rival à de Antônio, ele não é bem visto não só pelo chefe da família Marins, mas por toda a patota que ele comanda. Cecília, chamada carinhosamente de Ceci pelo namorado, me garante que ele não tem nada a ver com isso, ele apenas tem que se submeter, como tantos outros em sua área, aos toques de recolher e eventuais recados e encomendas, além de alguma espionagem, a que ele se vê obrigado quando sai de casa, para vir à escola, por exemplo. Em uma de nossas conversas Ceci me pediu permissão para trazer Perci junto e pelo jeito de eles se tratarem e se olharem, percebi que ali havia de fato algo mais profundo, embora as pessoas aí de fora achem que na favela só rola sacanagem e promiscuidade.

Gente, isso é como um barril de pólvora e fico assustada só de pensar que aqui dentro essa meninada ainda quer encontrar um jeito de namorar. Sim, namorar, coisa que existe desde que o mundo é mundo, desde Adão e Eva, mas aqui na favela isso parece tão fora do normal e proibitivo… Aliás, Lauriana, que sabe dessa história, já me confidenciou que Antônio tem um ciúme doentio não só dela, mas também da filha e assim ela se arrepia quando imagina o que ele seria capaz de fazer diante de tal affaire, ainda mais sendo com um suposto membro de grupo rival. Ela sabe que aquele ali, o seu marido, geralmente não separa pensamento de ação.

Isso que estou contando já é um prato cheio de confusão e desgraças para qualquer um, em qualquer lugar. Mas aqui na favela as coisas sempre pioram. Não é que outro dia me abordou na rua, lá em baixo, o Loredano, me chamando para tomar um café com ele? Vocês não imaginam que peste de pessoa é este sujeito. Ele não sobe o morro nunca, por uma razão muito simples: é tido como informante da polícia e até Antônio já o jurou de morte, da mesma forma que os chefes rivais. É de uma rara unanimidade tal cara. Ele é um argentino, paraguaio, ou coisa assim, mas vive no Brasil há tempos. Já morou aqui no morro, chegando como pastor de uma igreja evangélica, que entretanto não prosperou muito por aqui. Depois sumiu e nos últimos tempos reapareceu, sempre puxando papos furados com as pessoas, querendo saber notícias de alguém ou disso e daquilo. Pelo que sei, alguém aqui do morro que foi detido pela polícia para averiguações, e depois solto, o viu dentro da delegacia em altas confraternizações com os policiais. Daí, a notícia de que Loredano é alcaguete correu por toda a parte, embora ele venha tentando desmentir, sem sucesso, ao que parece.

O que o Loredano queria de mim? Começou com informações gerais, se meus alunos iam bem, quem mais se destacava, se os filhos de traficante, cumpriam regularmente as tarefas escolares, das tarefas exatas de Lauriana e outros funcionários na escola, coisas assim. Parecia especialmente interessado em ter informações sobre os Marins, chegando a tocar no nome de Cecília. Foi um custo me desvencilhar dele, argumentei não saber de nada, que minha função de mera professora de comunicação social não me dava condições para tanto, além do mais estando sem tempo para conversas mais detalhadas. Sobre as informações de que ele parecia interessado, não passei nada. Mas devo dizer que dele, do Loredano, eu já tinha informações por parte de Cecília, e também de Lauriana, com insinuações de assédio antigas, dirigidas não só à mãe como também à sua filha mais velha, Isabel, que parecia se entusiasmar com isso e até retribuir, apesar das advertências da mãe. Antônio, aparentemente, não sabia de nada, ou pelo menos, não demonstrava saber, se é que não estava dando corda a Loredano para ver até onde ele queria chegar.

Este Loredano… Ceci às vezes me falava dele, com temor, com raiva. Ela me mostrou mensagens a ela em rede social que aparentemente eram dele, ameaçadoras, meio pornográficas e com foros de chantagem, às vezes. Talvez fosse dele mesmo, pois havia alguma confusão entre a grafia do português e do espanhol, por exemplo, trocando o “nh” pelo “ñ”, assim com til, ou colocando ponto de interrogação no início de alguma frase. Ela torcia para que o pai continuasse a não saber dessas coisas, porque achava que se ele viesse a conhecer, haveria morte na certa.

Aqui na favela as coisas não melhoram, só se complicam. Ceci me fez confidências, também, sobre um outro personagem, Álvaro, um pau-mandado de Antônio, que se dizia apaixonado por ela, em segredo, claro, pois certamente morria de medo do patrão. Fazia o mesmo com Isabel e a sirigaita, assim como fazia com o argentino, lhe retribuía com liberalidade. Ela, aliás, já tinha pego os dois em atitudes suspeitas em um beco próximo à sua casa, por mais de uma vez. Aquilo, naturalmente, lhe cheirava a desgraça, pois Antônio, embora tivesse certa antipatia por Isabel, que às vezes o confrontava, não hesitaria em botar ordem no pedaço, ou nesta p*, conforme uma expressão que lhe era comum, aqui atenuada a bem da moral e dos bons costumes. Ceci me falava disso por desejar se livrar de tal assediador, não sabendo como, vindo pedir conselhos justamente a esta pobre e inocente Josefa da Benedita.

Meu Deus, o que eu poderia lhe dizer a não ser que desse um jeito de cair fora, para evitar qualquer desgraça. Mas me pareciam tarefas impossíveis, é essa a verdade.

De repente… Aqui tudo acontece é de repente, tudo! Loredano aparece morto numa esquina, lá em baixo. A polícia, mais uma vez veio e cercou, mas milagrosamente desta vez não matou ninguém. A tensão, todavia, crescia. Falou-se que Álvaro era o suspeito da morte do ex-pastor, mas vai saber…

No meio de toda essa confusão, Perci e Ceci estiveram comigo. Ele revelou estar preocupado, porque nas ruelas de seu morro não se falava de outra coisa: que haveria guerra e do lado de lá os preparativos eram evidentes. Parece que Loredano estava mancomunado com os chefões de lá e agora precisavam vingá-lo, além da intenção antiga de ocuparem os pontos de droga além fronteiras, ou seja, do lado de cá, considerados mais valorizados. Se isso acontecesse, ele me revelou com temor, viria daí grande confusão e ele talvez tivesse que largar a escola e, principalmente, deixar de se encontrar com a sua Ceci. Percebi que ele estava com de olho roxo, com o rosto arranhado. Me disse que não tinha sido nada, mas Ceci me contou que ele se envolvera em uma briga com vizinhos seus do Morro da Caveira, porque um deles havia dirigido gracejos sacanas a ela, em uma rua lá de baixo.

Ainda de repente, um Eleuso, dito Lelé, rapazola meio bobinho daqui da favela, foi pego espionando, ou algo parecido, a zona de lá por cima do muro, e foi abatido com um tiro de fuzil, na cabeça. Disseram que foi bala perdida, mas quem é que acredita nisso aqui no morro, ainda mais diante das circunstâncias? Isso aconteceu de manhã. À tarde, a guerra já estava não só declarada, como começada.

E tome tiro…

E a polícia subiu. E veio com tudo. Suspensão imediata de aulas na escola, também do atendimento do posto de saúde. Até para fazer compras de supermercado e farmácia tínhamos que pedir licença, não mais aos traficantes, mas à própria polícia. As prisões se repetiam. Ninguém queria sair de casa. Pegar o batente lá fora virou coisa arriscada em demasia. O caos se instalou aqui no morro.

É o que eu sempre digo: aqui na favela, as coisas não melhoram nunca, só vão ficando cada dia mais e mais piorzinhas…

Desgraça pouca é bobagem… Álvaro apareceu morto na mata aqui do lado. Diogo e depois Antônio desapareceram, sabe-se lá se para fugir da polícia ou, quem sabe, dos rivais do tráfico.

Isabel? Esta se deu bem. No auge da confusão foi presa pela polícia, ao tentar fugir. Mas pelo que se viu depois, era apenas um disfarce. Dizem que o sargento Jota Pinto Fernandes, que ainda não havia entrado na história, mais um dos namorados dela ou coisa que o valha, o que fez foi levá-la embora, para soltá-la em uma esquina adiante. E assim ela escapou.

Ceci e Perci de novo vieram juntos me procurar, pobre de mim. Se sentiam sozinhos e abandonados, não conseguindo entender a razão de tudo aquilo. Eu os acolhi em casa, para horror de Benedita, minha pobre mãe, e nem poderia fazer diferente, mas sinceramente achei que o melhor que fariam seria fugir disso tudo. Não sei pra onde, a essa altura dos acontecimentos.

Resumindo os acontecimentos deste terrível mês de maio, o império de Antônio Marins desmoronou por completo, não só pela ação direta da polícia, com tantas mortes e prisões, seguido de vandalização pelos rivais do morro vizinho. Houve explosões e incêndios no pedaço onde a família Mariz habitava, com mais mortes e até saques na casa deles, uma verdadeira fortaleza agora arruinada. Diogo, ao tentar voltar, aparentemente, à casa de seu pai foi preso e depois morto pela polícia, segundo esta por ter resistido à prisão, embora isso fosse negado por testemunhas. Ironia das ironias, uma penteadeira cor de rosa, do quarto de Cecília foi arrastada pelas ruas como troféu de guerra, peças da lingerie dela e de sua mãe foram como que hasteadas num mastro improvisado à porta das ruínas de sua casa, como se fosse uma bandeira dos vencedores de uma guerra. Lauriana também desapareceu, aparentemente presa pela polícia.

Nos dias seguintes, a gente viu os cadáveres enfileirados nas ruas de baixo da comunidade, as entradas do morro bloqueados por barricadas e policiadas por tanques de guerra, como aqueles que a gente só vê no cinema. A polícia fazia batidas diurnas e noturnas e levava muita gente presa, sendo a maioria desses, e também dos mortos, gente preta. As aulas foram suspensas e muitos alunos se evadiram, com a escola agora esvaziada.

Horror, horror, horror – o que a gente, nós, as pessoas comuns, teríamos feito para merecer coisas assim?

Merda de cidade! Escolas e postos de saúde fechados, a vida paralisada, famílias de luto. De que adianta botar nessas unidades nomes pomposos e de história militante, como Frantz Fanon, Nelson Mandela, Felipe Camarão, Zumbi dos Palmares, Marielle Franco. De que adianta, se aqui não se honra a memória de tais patronos?

Mas pelo menos pude saber, aliás, vi com meus próprios olhos, pela janela dos fundos do barraco: Ceci e Peri, digo Perci, desceram a ladeira, com suas mochilas, a passos largos, numa escapada cinematográfica. Dias depois eles me mandaram uma mensagem por zap, na qual diziam, para minha alegria, que conseguiram pegar um ônibus para Minas e agora estavam em algum lugar seguro, na casa de amigos.

 ***

Escrito depois: o gentil leitor está com a sensação que conhece de algum lugar a história que acabou de ler? Eu também! Está claro, é uma adaptação de O Guarani, de José de Alencar, obra prima do romantismo literário no Brasil. É claro que foram feitas algumas trocas, substituindo o romantismo do século 19 pelos punhos fechados da vida real (obrigado Paralamas…) do Brasil no século 21: o ambiente é uma favela no Rio de Janeiro, e não as lindas florestas da Serra do Mar; Dom Antônio Mariz, agora Marins, antes um fidalgo, transformou-se em capo do crime organizado; Cecília, moça loura e linda, é sua inocente filha; Percival, ou Perci, não é mais o índio Peri, mas sim um jovem negro favelado, sujeito à violência das gangs e da polícia; a narradora é Josefa, uma professora local, de carne e osso, participante da trama, não mais um narrador abstrato e oculto, como o J. de A. da história original. Outros personagens do livro também estão aqui, nas posições originais: Lauriana, a esposa; Diogo, o outro filho; Isabel, a agregada da família; Álvaro, o capanga; Loredano, um aventureiro estrangeiro, ex religioso, de maus bofes. E por aí vai. Não me sinto constrangido em ter cometido tal subversão da narrativa original, é coisa comum na literatura de todo o mundo e certamente alguém já teve essa mesma ideia com O Guarani. E para a trilha sonora? No lugar de Carlos Gomes, pensei que Xande de Pilares seria um bom nome. O que vocês leitores acham?

 ***

A história de Percival e Cecília

Vocês não imaginam o que é morar em uma favela. Não imaginam mesmo. Eu, Josefa de Alencar, que nasci e sempre vivi aqui tem hora que presencio certas coisas… Até Deus duvidaria, eu acho. Aliás, chego eu mesma a duvidar de ter nascido e estar viva num lugar como este. Não estou falando somente do que se passa debaixo de minha janela. Não, é muito mais do que isso! Dentro da classe de ensino médio, na Escola Estadual Frantz Fanon, onde leciono, aí é que até o diabo se arrepia. E não é só violência que rola, não. Vocês podem não acreditar, mas tem chefe de tráfico, um Antônio Marins, chefão de chefões, por exemplo, que poderia até ser chamado de pai exemplar. Carinhoso, provedor, compreensivo… Isto é, compreensivo até certo ponto, aos poucos eu explico. Sei disso porque Cecília, sua única filha mulher, nascida de Lauriana, cantineira da escola onde leciono, se tomou de amizade por mim e me conta muita coisa. E costuma não poupar nem o pai nem a mãe em suas revelações.

Cecília é uma garota linda. Dezesseis anos, loura encaracolada, pele claríssima, é daquelas pessoas que conversam com a gente olhando nos olhos. Filha de traficante, nem parece, tem a delicadeza de uma personagem romântica, só se referindo ao pai de forma muito carinhosa. Ela é filha de Lauriana, a cantineira, com Antônio, o chefão, e tem dois irmãos: uma por parte de mãe, Isabel, mais velha do que ela dois ou três anos e outro por parte apenas de pai, Diogo, também um pouco mais velho do que ela. Isabel vive com a família, Diogo, ao que parece só vem de vez em quando, parecendo envolvido com alguma coisa ilícita, porém debaixo das asas do pai. Lauriana demonstra ser uma verdadeira equilibrista, quase circense, se movendo entre os caprichos violentos e flutuantes de um chefão de tráfico, o carinho com a filha mais nova, os conflitos com Isabela e as desconfianças recíprocas com o enteado Diogo, que lhe parece envolvido em grossas confusões. Ah sim, Lauriana conseguiu seu emprego como cantineira da escola numa empresa terceirizada, por obra, ao que parece, de influências do marido junto à direção.

Sei tudo isso através das conversas frequentes que tenho não só com Cecília, de tipo mais íntimo e confidencial, mas também com Lauriana, que parece também ter adquirido muita confiança em mim, talvez pelo jeito como vê a filha me tratar. O que sei é da vida complicada de Lauriana, principalmente pela maneira bruta como é tratada pelo enteado, coisa frente à qual o marido se omite, com argumentos do tipo é da idade. Mas Lauriana tem enorme paixão por Antônio, ao que me parece construída entre a cama do casal e o supermercado, entre a cozinha de casa e alguma loja de roupas ou bijuterias, se é que me entendem. Ela ainda me contou mais: que Antônio Marins pretende a sair candidato a vereador nas próximas eleições e já lhe avisou que precisará dela na campanha, o que a obrigará, malgrado seu, a deixar o emprego de cantineira, que ela valoriza muito.

Se não bastasse tanta coisa complicada, descobri que há um romance em curso: Cecília, branca, está apaixonada por um colega lá da escola, Percílio, que ela chama de Percival, ou Perci, que é negro. Até aí, tudo bem, este racismo brasileiro geralmente é mais atenuado na favela, mesmo que aqui a violência impere, porém sendo de natureza diversa. O problema está justamente nisso: Perci mora no morro vizinho e tem escola aqui, onde se centraliza o ensino médio da região Oeste, mas como seu território de moradia é dominado por uma facção rival à de Antônio, ele não é bem visto não só pelo chefe da família Marins, mas por toda a patota que ele comanda. Cecília, chamada carinhosamente de Ceci pelo namorado, me garante que ele não tem nada a ver com isso, ele apenas tem que se submeter, como tantos outros em sua área, aos toques de recolher e eventuais recados e encomendas, além de alguma espionagem, a que ele se vê obrigado quando sai de casa, para vir à escola, por exemplo. Em uma de nossas conversas Ceci me pediu permissão para trazer Perci junto e pelo jeito de eles se tratarem e se olharem, percebi que ali havia de fato algo mais profundo, embora as pessoas aí de fora achem que na favela só rola sacanagem e promiscuidade.

Gente, isso é como um barril de pólvora e fico assustada só de pensar que aqui dentro essa meninada ainda quer encontrar um jeito de namorar. Sim, namorar, coisa que existe desde que o mundo é mundo, desde Adão e Eva, mas aqui na favela isso parece tão fora do normal e proibitivo… Aliás, Lauriana, que sabe dessa história, já me confidenciou que Antônio tem um ciúme doentio não só dela, mas também da filha e assim ela se arrepia quando imagina o que ele seria capaz de fazer diante de tal affaire, ainda mais sendo com um suposto membro de grupo rival. Ela sabe que aquele ali, o seu marido, geralmente não separa pensamento de ação.

Isso que estou contando já é um prato cheio de confusão e desgraças para qualquer um, em qualquer lugar. Mas aqui na favela as coisas sempre pioram. Não é que outro dia me abordou na rua, lá em baixo, o Loredano, me chamando para tomar um café com ele? Vocês não imaginam que peste de pessoa é este sujeito. Ele não sobe o morro nunca, por uma razão muito simples: é tido como informante da polícia e até Antônio já o jurou de morte, da mesma forma que os chefes rivais. É de uma rara unanimidade tal cara. Ele é um argentino, paraguaio, ou coisa assim, mas vive no Brasil há tempos. Já morou aqui no morro, chegando como pastor de uma igreja evangélica, que entretanto não prosperou muito por aqui. Depois sumiu e nos últimos tempos reapareceu, sempre puxando papos furados com as pessoas, querendo saber notícias de alguém ou disso e daquilo. Pelo que sei, alguém aqui do morro que foi detido pela polícia para averiguações, e depois solto, o viu dentro da delegacia em altas confraternizações com os policiais. Daí, a notícia de que Loredano é alcaguete correu por toda a parte, embora ele venha tentando desmentir, sem sucesso, ao que parece.

O que o Loredano queria de mim? Começou com informações gerais, se meus alunos iam bem, quem mais se destacava, se os filhos de traficante, cumpriam regularmente as tarefas escolares, das tarefas exatas de Lauriana e outros funcionários na escola, coisas assim. Parecia especialmente interessado em ter informações sobre os Marins, chegando a tocar no nome de Cecília. Foi um custo me desvencilhar dele, argumentei não saber de nada, que minha função de mera professora de comunicação social não me dava condições para tanto, além do mais estando sem tempo para conversas mais detalhadas. Sobre as informações de que ele parecia interessado, não passei nada. Mas devo dizer que dele, do Loredano, eu já tinha informações por parte de Cecília, e também de Lauriana, com insinuações de assédio antigas, dirigidas não só à mãe como também à sua filha mais velha, Isabel, que parecia se entusiasmar com isso e até retribuir, apesar das advertências da mãe. Antônio, aparentemente, não sabia de nada, ou pelo menos, não demonstrava saber, se é que não estava dando corda a Loredano para ver até onde ele queria chegar.

Este Loredano… Ceci às vezes me falava dele, com temor, com raiva. Ela me mostrou mensagens a ela em rede social que aparentemente eram dele, ameaçadoras, meio pornográficas e com foros de chantagem, às vezes. Talvez fosse dele mesmo, pois havia alguma confusão entre a grafia do português e do espanhol, por exemplo, trocando o “nh” pelo “ñ”, assim com til, ou colocando ponto de interrogação no início de alguma frase. Ela torcia para que o pai continuasse a não saber dessas coisas, porque achava que se ele viesse a conhecer, haveria morte na certa.

Aqui na favela as coisas não melhoram, só se complicam. Ceci me fez confidências, também, sobre um outro personagem, Álvaro, um pau-mandado de Antônio, que se dizia apaixonado por ela, em segredo, claro, pois certamente morria de medo do patrão. Fazia o mesmo com Isabel e a sirigaita, assim como fazia com o argentino, lhe retribuía com liberalidade. Ela, aliás, já tinha pego os dois em atitudes suspeitas em um beco próximo à sua casa, por mais de uma vez. Aquilo, naturalmente, lhe cheirava a desgraça, pois Antônio, embora tivesse certa antipatia por Isabel, que às vezes o confrontava, não hesitaria em botar ordem no pedaço, ou nesta p*, conforme uma expressão que lhe era comum, aqui atenuada a bem da moral e dos bons costumes. Ceci me falava disso por desejar se livrar de tal assediador, não sabendo como, vindo pedir conselhos justamente a esta pobre e inocente Josefa da Benedita.

Meu Deus, o que eu poderia lhe dizer a não ser que desse um jeito de cair fora, para evitar qualquer desgraça. Mas me pareciam tarefas impossíveis, é essa a verdade.

De repente… Aqui tudo acontece é de repente, tudo! Loredano aparece morto numa esquina, lá em baixo. A polícia, mais uma vez veio e cercou, mas milagrosamente desta vez não matou ninguém. A tensão, todavia, crescia. Falou-se que Álvaro era o suspeito da morte do ex-pastor, mas vai saber…

No meio de toda essa confusão, Perci e Ceci estiveram comigo. Ele revelou estar preocupado, porque nas ruelas de seu morro não se falava de outra coisa: que haveria guerra e do lado de lá os preparativos eram evidentes. Parece que Loredano estava mancomunado com os chefões de lá e agora precisavam vingá-lo, além da intenção antiga de ocuparem os pontos de droga além fronteiras, ou seja, do lado de cá, considerados mais valorizados. Se isso acontecesse, ele me revelou com temor, viria daí grande confusão e ele talvez tivesse que largar a escola e, principalmente, deixar de se encontrar com a sua Ceci. Percebi que ele estava com de olho roxo, com o rosto arranhado. Me disse que não tinha sido nada, mas Ceci me contou que ele se envolvera em uma briga com vizinhos seus do Morro da Caveira, porque um deles havia dirigido gracejos sacanas a ela, em uma rua lá de baixo.

Ainda de repente, um Eleuso, dito Lelé, rapazola meio bobinho daqui da favela, foi pego espionando, ou algo parecido, a zona de lá por cima do muro, e foi abatido com um tiro de fuzil, na cabeça. Disseram que foi bala perdida, mas quem é que acredita nisso aqui no morro, ainda mais diante das circunstâncias? Isso aconteceu de manhã. À tarde, a guerra já estava não só declarada, como começada.

E tome tiro…

E a polícia subiu. E veio com tudo. Suspensão imediata de aulas na escola, também do atendimento do posto de saúde. Até para fazer compras de supermercado e farmácia tínhamos que pedir licença, não mais aos traficantes, mas à própria polícia. As prisões se repetiam. Ninguém queria sair de casa. Pegar o batente lá fora virou coisa arriscada em demasia. O caos se instalou aqui no morro.

É o que eu sempre digo: aqui na favela, as coisas não melhoram nunca, só vão ficando cada dia mais e mais piorzinhas…

Desgraça pouca é bobagem… Álvaro apareceu morto na mata aqui do lado. Diogo e depois Antônio desapareceram, sabe-se lá se para fugir da polícia ou, quem sabe, dos rivais do tráfico.

Isabel? Esta se deu bem. No auge da confusão foi presa pela polícia, ao tentar fugir. Mas pelo que se viu depois, era apenas um disfarce. Dizem que o sargento Jota Pinto Fernandes, que ainda não havia entrado na história, mais um dos namorados dela ou coisa que o valha, o que fez foi levá-la embora, para soltá-la em uma esquina adiante. E assim ela escapou.

Ceci e Perci de novo vieram juntos me procurar, pobre de mim. Se sentiam sozinhos e abandonados, não conseguindo entender a razão de tudo aquilo. Eu os acolhi em casa, para horror de Benedita, minha pobre mãe, e nem poderia fazer diferente, mas sinceramente achei que o melhor que fariam seria fugir disso tudo. Não sei pra onde, a essa altura dos acontecimentos.

Resumindo os acontecimentos deste terrível mês de maio, o império de Antônio Marins desmoronou por completo, não só pela ação direta da polícia, com tantas mortes e prisões, seguido de vandalização pelos rivais do morro vizinho. Houve explosões e incêndios no pedaço onde a família Mariz habitava, com mais mortes e até saques na casa deles, uma verdadeira fortaleza agora arruinada. Diogo, ao tentar voltar, aparentemente, à casa de seu pai foi preso e depois morto pela polícia, segundo esta por ter resistido à prisão, embora isso fosse negado por testemunhas. Ironia das ironias, uma penteadeira cor de rosa, do quarto de Cecília foi arrastada pelas ruas como troféu de guerra, peças da lingerie dela e de sua mãe foram como que hasteadas num mastro improvisado à porta das ruínas de sua casa, como se fosse uma bandeira dos vencedores de uma guerra. Lauriana também desapareceu, aparentemente presa pela polícia.

Nos dias seguintes, a gente viu os cadáveres enfileirados nas ruas de baixo da comunidade, as entradas do morro bloqueados por barricadas e policiadas por tanques de guerra, como aqueles que a gente só vê no cinema. A polícia fazia batidas diurnas e noturnas e levava muita gente presa, sendo a maioria desses, e também dos mortos, gente preta. As aulas foram suspensas e muitos alunos se evadiram, com a escola agora esvaziada.

Horror, horror, horror – o que a gente, nós, as pessoas comuns, teríamos feito para merecer coisas assim?

Merda de cidade! Escolas e postos de saúde fechados, a vida paralisada, famílias de luto. De que adianta botar nessas unidades nomes pomposos e de história militante, como Frantz Fanon, Nelson Mandela, Felipe Camarão, Zumbi dos Palmares, Marielle Franco. De que adianta, se aqui não se honra a memória de tais patronos?

Mas pelo menos pude saber, aliás, vi com meus próprios olhos, pela janela dos fundos do barraco: Ceci e Peri, digo Perci, desceram a ladeira, com suas mochilas, a passos largos, numa escapada cinematográfica. Dias depois eles me mandaram uma mensagem por zap, na qual diziam, para minha alegria, que conseguiram pegar um ônibus para Minas e agora estavam em algum lugar seguro, na casa de amigos.

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Escrito depois: o gentil leitor está com a sensação que conhece de algum lugar a história que acabou de ler? Eu também! Está claro, é uma adaptação de O Guarani, de José de Alencar, obra prima do romantismo literário no Brasil. É claro que foram feitas algumas trocas, substituindo o romantismo do século 19 pelos punhos fechados da vida real (obrigado Paralamas...) do Brasil no século 21: o ambiente é uma favela no Rio de Janeiro, e não as lindas florestas da Serra do Mar; Dom Antônio Mariz, agora Marins, antes um fidalgo, transformou-se em capo do crime organizado; Cecília, moça loura e linda, é sua inocente filha; Percílio, ou Perci, não é mais o índio Peri, mas sim um jovem negro favelado, sujeito à violência das gangs e da polícia; a narradora é Josefa, uma professora local, de carne e osso, participante da trama, não mais um narrador abstrato e oculto, como o J. de A. da história original. Outros personagens do livro também estão aqui, nas posições originais: Lauriana, a esposa; Diogo, o outro filho; Isabel, a agregada da família; Álvaro, o capanga; Loredano, um aventureiro estrangeiro, ex religioso, de maus bofes. E por aí vai. Não me sinto constrangido em ter cometido tal subversão da narrativa original, é coisa comum na literatura de todo o mundo e certamente alguém já teve essa mesma ideia com O Guarani. E para a trilha sonora? No lugar de Carlos Gomes, pensei que Xande de Pilares seria um bom nome. O que vocês leitores acham?

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