Antes de começarem a ler isso aqui peço a atenção dos eventuais leitores: não tomem o presente tema como uma escolha ou sintoma mórbidos de minha parte. Se não é isso, o que seria então? Aceitem que seja apenas uma curiosidade sobre tal assunto, também conhecido como automorte, como pode ser confirmado em outras publicações minhas aqui no blog. Além do mais, como disse Camus, não existe problema filosófico mais fundamental do que o suicídio, justificando, assim, o meu interesse por tal assunto. Mas o fato é que encontrei na Wikipedia uma página inesperada: uma longa lista de gente que pôs fim à própria vida, desde antiguidade até os dias atuais. Tal lista não seria, de forma alguma, rigorosa ou exaustiva, muito longe disso, porque seus componentes, acima de tudo, não são gente comum. Se o fossem, não estariam presentes em nenhuma lista, sem qualquer destaque, em qualquer tempo ou lugar do mundo. Assim ditam as regras da sociedade humana, fazer o quê? Resolvi fazer tal trabalho mediante amostragem, já que tal conjunto é muito extenso, procurando assim as possíveis tendências presentes neste tipo de recorte, particularmente em termos do modo e instrumento de execução do gesto, do momento histórico e da atividade exercida pelos afetados durante suas vidas. Deixo duas ressalvas, de antemão: (1) não há detalhes disponíveis sobre como as coisas realmente ocorreram e nem sobre os possíveis fatores desencadeantes; (2) repito, a vasta maioria dos que suicidaram em todos os tempos não chegam a alcançar tal estatística, destinada realmente a pessoas de extração mais egrégia, à falta de outra expressão. Entretanto, para não perder o sentido que tem a palavra egrégio (ilustre, notável ou distinto, enaltecimento de alguém ou algo de forma extraordinária), acrescento ao final uma análise de tipo-ideal, agrupando as diversas situações por fatores comuns. No mais, convenhamos: toda vida, sem exceção, tem pelo menos uma partícula egrégia… Boa leitura!
Esta grande lista tem aproximadamente cinco centenas de nomes e dentro dela analisei aproximadamente apenas uma quinta parte, o que creio ser uma amostra razoável.
A lista começa na Antiguidade, mas a maior parte dos casos se situa nos séculos 20 (desde os primórdios) e 21. O conceito de Antiguidade aqui é principalmente ligado à civilização greco-romana, embora se registrem casos também provenientes do Oriente, mais exatamente da China e do Japão.
O domínio absoluto numérico é dos EUA, seguido pela Europa (não separada por países). Os casos da Ásia, América Latina, Oriente Médio e Europa do Leste, mesmo somados, não alcançam um e outro daqueles mais frequentes. Isso demonstraria apenas que tal levantamento se apoia em fontes jornalísticas, científicas ou culturais de origem nos países centrais.
Quanto ao instrumento utilizado, dominam as armas de fogo e o enforcamento, porém sem grande preponderância em relação às lesões autoinflingidas de outras naturezas, overdoses e envenenamentos. Em pequena parcela o instrumento automortífero não é identificado.
Finalmente, a maioria absoluta dos casos refere-se a pessoas do mundo das artes, aí incluídos artistas de cinema e TV; escritores e poetas; filósofos e pensadores; artistas plásticos, teatrólogos e outros mais, com porções não desprezíveis de esportistas (aparentemente no auge de suas carreiras) e criminosos, sejam de guerra ou serial-killers.
Suicidas emblemáticos
A partir de tal conjunto de informações, mesmo com suas limitações, já citadas, tentei utilizar o conceito de Max Weber, denominado tipo ideal, para caracterizar melhor o panorama dos suicídios, não com o foco em pessoas, mas nas situações de sua ocorrência, como uma espécie de construção mental e teórica voltada para a análise e a comparação de fenômenos sociais.
Isso posto, vamos lá.
Por minha conta e risco criei as seguintes categorias de suicídio, baseado em tal recorte de “tipo ideal”: (a) membros do show-business; (b) criminosos de guerra; (c) criminosos comuns; (d) esportistas; (e) “ciclópicos”; (f) personagens históricos; (g) vítimas de bullying; (h) religiosos; (i) autoimolação; (j) “pedagógicos”; h) ideológicos; (j) intelectuais.
O primeiro grupo, artistas e pessoas ligadas ao show-bizz é sem dúvida o mais numeroso da série. Caso emblemático é o do roqueiro Kurt Cobain, vocalista da banda Nirvana, que se suicidou por disparo de arma de fogo em 1994, em um episódio de grande repercussão mundial. Os casos de duas atrizes sul-coreanas, Jeon Mi-Seon (2019) e Jung Da Bin (2007), ambos por enforcamento, são significativos, não exatamente pelo relevo artístico em si, mas por representarem um item particularmente numeroso nas estatísticas, o da automorte de artistas coreanos(a)s, particularmente da área da música pop. Imagino que alguém, na Coreia do Sul, ou mesmo fora deste país, já deve encontrado uma explicação para tal abundância de casos, em pessoas jovens. No meu ponto de vista, existe a pressão natural de tal universo fortemente comercial e competitivo, mas certamente outros fatores podem estar presentes. É ainda impossível falar de suicídio entre tais personalidades sem lembrar de Marylin Monroe, morta em 1962 por overdose auto infligida de barbitúricos, numa situação que até hoje permanece controversa pela possível influência da família Kennedy e outras autoridades políticas dos EUA no evento.
Entre os criminosos de guerra suicidas destaca-se a entourage hitlerista, inclusive algumas de suas esposas e mesmo generais e outras pessoas de segundo escalão. Certamente tal gesto de se suicidar refletiria talvez mais do que uma autopunição ou manifestação de arrependimento, uma tentativa de escape ao peso da justiça que fatalmente se imporia sobre tais pessoas, como de fato aconteceu. Curiosamente a lista em foco não menciona os suicídios de mandatários das atrocidades ocorridas na antiga Iugoslávia, ao longo dos anos 90.
Entre os criminosos comuns a série é também extensa, cobrindo pessoas que já tinham sido presas, julgadas ou aguardando julgamento. Alguns casos chamativos são dos de Harold Shipman, de 2004, um médico de família inglês e assassino em série, que se enforcou, do qual certamente ninguém poderia esperar tal grau de criminalidade. Também significativo é o caso de Seung-Hui Cho, por disparo por arma de fogo, um estudante universitário americano com antecedência coreana, que perpetrou um dos massacres escolares comuns nos EUA (Virginia Tech), ocorrido em 2007, resultando na morte de 33 pessoas, incluindo o atirador e mais de 20 feridos. São numerosos os casos de tal natureza na lista, destacando-se ainda Roger Angleton (1998), um assassino dos EUA que se cortou mais de 50 vezes com uma navalha, denotando, ou confirmando, um grau avançado de psicopatia.
Talvez o senso comum considere os esportistas, principalmente os bem-sucedidos e medalhados, como pouco propensos a este tipo de gesto extremo. Mas ao contrário disso, há na lista diversos casos de tal natureza. Um deles, emblemático, é o de Tony Halme, um respeitado atleta, ator e político finlandês, que apesar de tudo isso atirou contra si mesmo em 2010.
Há diversos casos que mostram talvez uma nova tendência de suicídios, ou seja, resultantes de bullying, seja no ambiente escolar, doméstico ou no trabalho, por motivos físicos, intelectuais ou de aceitação de sexualidade, como foi aquele da garota Leelah Alcorn, uma adolescente transgênero americana, que se atirou à frente de um caminhão em movimento em 2014.
O suicídio ritual, seja de fundo político ou místico também aparece com alguma frequência. Entre os casos do primeiro grupo está o de Korechika Anami, ministro japonês na época da Segunda Guerra, que praticou o ritual conhecido por seppuku, também conhecido como harakiri, sob o peso da derrota japonesa, prática da cultura samurai que significa literalmente “cortar a barriga”, considerada uma maneira honrosa de morrer, refletindo valores de bravura e lealdade, particularmente valorizado após questões que envolvam honra da pessoa e de sua família. A história das tradições políticas no Japão, mesmo na era contemporânea, registra diversos outros casos semelhantes.
Na mesma categoria ritualística estão os suicídios estimulados por movimentos místicos e religiosos. Situação emblemática foi aquela desencadeada na Guiana em 1978 por Jim Jones, um pregador religioso americano, líder e fundador de uma seita denominada Templo do Povo, por disparo por arma de fogo, com o extraordinário complemento de antes disso ter ordenado o assassinato-suicídio em massa, com 909 mortos, sendo 304 deles crianças, quase todos eles ingerindo o que ele chamou de Flavour-Aid, à base do poderoso veneno cianeto. Coisas assim tendem a se repetir, principalmente nos EUA, onde, em 1997, um desses líderes religiosos, de nome Marshall Applewhite, titular do culto Heaven’s Gate, um visionário de extraterrestres, se envenenou como parte de um suicídio coletivo que vitimou outras 39 pessoas.
À falta de outro nome, designo aqui como ciclópico outro tipo de suicídio, ou seja, algo de consequências que muito ultrapassam o plano individual, com dimensões gigantescas ou descomunais, como foi o caso dos suicídios de meia dúzia de árabes muçulmanos fundamentalistas que levaram consigo mais de três mil pessoas inocentes, passageiros de voos da American Airlines, além de muitos outros, nas torres gêmeas de Nova Iorque, no dia 11 de setembro de 2001. Fica um registro nominal: Mohamed Atta, membro egípcio da Al-Qaeda, um dos líderes do grupo suicida. O caso de Jim Jones, citado acima, também se enquadraria em tal categoria.
De natureza semelhante àqueles suicídios de natureza política ou mística, também aparecem com alguma frequência aqueles de fundo mais ideológico. Talvez sejam casos decorrentes de derrotas de ilusões, por condenações judiciais, ou mesmo diante da eminência de elas se sucederem, dentro de um clima de final dos tempos, não necessariamente por algum temor de vingança (se bem que em alguns casos sim) mas simplesmente do peso das leis. Seria o caso, já citado, dos nazistas e outros propagadores de práticas políticas ou religiosas radicais. Em período mais recente casos ilustrativos seriam o de Andreas Baader, por disparo por arma de fogo, e de alguns de seus parceiros da chamada Fração do Exército Vermelho, que confrontou o sistema político oficial na Alemanha no final do século 20.
Entre intelectuais e artistas, como já foi comentado o suicídio tem enorme presença. No caso de intelectuais contemporâneos de peso a lista é bem extensa, seguindo alguns exemplos: Walter Benjamim, (1940), filósofo, teórico da cultura e crítico literário judeu-alemão, overdose de morfina; Bruno Bettelheim (1990). psicólogo e escritor austríaco americano, asfixia com saco plástico; Gilles Deleuze (1995), filósofo francês, que se atirou pela janela do seu apartamento em Paris; Vladimir Maiakoviski (1930), poeta soviético, disparo por arma de fogo; Pedro Nava (1984), médico e escritor brasileiro, disparo de arma de fogo; Torquato Neto (1972), poeta, jornalista, cineasta, com gás do aquecedor do banheiro, aos 28 anos; Vincent Van Gogh, pintor pós-impressionista holandês, disparo por arma de fogo, além de muitos outros.
Militares também se suicidam, embora talvez nem sempre façam parte das estatísticas, por fatores ligados à ética militar, que rejeita as atitudes consideradas como peculiares aos fracos. Há vários casos na lista e tomo aqui como exemplos o suicídio por arma de fogo de Jeremy Michael Boorda, em 1996, principal comandante de operações navais dos Estados Unidos e o do general brasileiro Urano Bacelar, em 2006, então comandante das tropas da ONU no Haiti, por motivos não muito bem esclarecidos, mas que forçosamente fazem lembrar das controvérsias envolvidas na desastrada presença dos militares brasileiros naquele país, inclusive com acusações de estupro e diversas formas de violência, além de má gestão de recursos, episódios em que esteve envolvido diretamente o general Heleno, membro destacado do governo Bolsonaro.
A autoimolação também tem presença relevante na lista de suicídios em todo o mundo, embora aparentemente seja muito rara ou mesmo ausente no Brasil e na América Latina. O termo é geralmente usado para quem ateia fogo em si próprio, com motivação declarada, seja de natureza política e ou religiosa. Evidentemente, como já comentado, outras modalidades de suicídio podem ter esta mesma motivação. Fato marcante dos anos 60 foi a autoimolação de um monge budista em Saigon, à qual se sucederam episódios políticos variadas, no contexto da Guerra do Vietnã. Mas há outros casos, como por exemplo: Mohamed Bouazizi, em 2011, um vendedor de rua tunisino cujo gesto foi o estopim de amplos protestos na Tunísia e outros países árabes, no fenômeno que ficou conhecido como Primavera Árabe; Sahar Khodayari (2019), ativista iraniano que se sacrificou em frente ao Tribunal Revolucionário Islâmico de Teerã; Jan Palach, (1969), estudante tcheco, em protesto pela intervenção soviética seu no país.
Entre as personalidades e pessoas de fato conhecidas e até poderosas que recorreram ao suicídio os casos são numerosos e aqui vão alguns exemplos tomados a esmo. Fidel Castro Diaz-Balart, físico nuclear e filho do mandatário cubano (2018); Ernest Hemingway (1961) escritor e jornalista americano, disparo por arma de fogo na cabeça; sua neta Margaux Hemingway (1996), modelo e atriz, por overdose de soníferos; Alberto de Santos Dumont (1932), inventor (ou um dos inventores) do avião, em estado de depressão, por enforcamento; Vince Foster (1993), advogado americano e vice conselheiro da Casa Branca na época de Bill Clinton, por disparo por arma de fogo; Getúlio Vargas (1954), por arma de fogo, no auge de uma profunda crise política no Brasil. Que não sejam esquecidos, ainda, os ilustres suicidas da antiguidade (cerca de 30 a.C.), Cleópatra, picada por uma serpente venenosa e seu amante, o mandatário romano Marco Antônio.
Uma última categoria, a que eu chamaria de pedagógica, pela defesa pública da morte voluntária assistida é representada, dentro de um cenário em que são cada vez mais numerosas tais situações, por David Goodall (2018), cientista, botânico e ecologista australiano.
Como curiosidade, para encerrar, o caso de um guarda florestal americano, Roy Sullivan, por disparo por arma de fogo em 1983, que se tornou conhecido por ter sobrevivido à queda de raios em sete diferentes ocasiões – se é que isso é verdade mesmo.
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