Um velho Leão, recolhido ao seu covil, via os outros animais se aproveitarem de sua fraqueza, com variadas desfeitas. Foi então que veio o burro pronto para o agredir também. — É demais! — exclamou o Leão; aceito morrer, mas ser insultado dessa forma é morrer duas vezes! La Fontaine – Fábulas
Chegara finalmente o dia tão esperado por Pantaleão: aposentadoria! Também pudera, trinta e alguns anos inteiros em sala de aula, cumprindo horários, obedecendo ordens, encarando, acima, abaixo e nos lados, gente de todo tipo, de modo geral desinteressante ou mal-educada. Com frequência, as duas coisas ao mesmo tempo.
O fato é que em sua vida na escola certas coisas tinham especial predileção em lhe afetar, o que lhe conferia fama de ranzinza e impaciente, dado o que considerava perturbações na lógica tradicional do ensino, com as frequentes intervenções da direção e mesmo de seus colegas.
Pantaleão levantou cedo, como todos os dias, tomou seu banho, bebeu um café rápido, escutou o noticiário, horripilou-se com o mal-estar do país e do mundo – como sempre – e correu para o ponto de ônibus. Será que de amanhã em diante seria diferente? As rotinas grudam na gente como um visgo. Só dava para saber depois de experimentar.
Naquele momento, entretanto, o ônibus, as pessoas, as ruas, a paisagem, tudo igual. Como sempre. Quem sabe o melhor estaria por vir? Na véspera, tinha percebido pelos cochichos na sala dos professores, nos corredores e na cantina, que alguma coisa estaria sendo preparada para ele, Pantaleão Alcaraz, três décadas e tanto de magistério e de vida arranjada e pautada por rotinas.
Havia coisas no ar realmente. Sarita, a secretária da escola já o esperava na porta e o conduziu para a sala da diretoria, não para aquela destinada aos professores. – Deus do céu, o que estará destinado à minha pessoa – pensou Pantaleão. E havia algo diferente mesmo, já que o próprio diretor estava ali à sua espera, para lhe dar um abraço, recebido com enfado, vendo naquilo cerimônia forçada, com indisfarçável mal-estar. Nem era para menos, Adalberto, o diretor, dedicava seus dias a atazanar a vida de Pantaleão, não só a dele, mas também outros professores e funcionários que não rezavam pelo seu breviário.
– Coragem, Pantaleão, encare de frente seu destino! Amanhã será outro dia. E de agora em diante sempre serão outros dias!
Finalmente o conduziram ao pequeno e improvisado auditório da escola, onde realmente havia uma homenagem preparada para ele. Flores sobre a mesa, uma travessa coberta com guardanapo onde certamente havia algo de se mastigar, meia dúzia de garrafas de guaraná e copos no móvel do canto da sala. E mais uma dúzia de pessoas: colegas, funcionários, alguns poucos alunos.
Antes de chegar a hora do pão de queijo com guaraná, havia discursos. E de si para si Pantaleão suspirou, com algum desgosto, pois caberia a ele – manda a boa norma social – agradecer aquilo de forma alegre e comovida.
O primeiro a falar foi Adalberto. Ele, como sempre, fazia questão de ser o primeiro em tudo. E muitas vezes, principalmente se era caso de falação, além de ser o primeiro, também apreciava ser o último – muitas vezes o único.
O diretor louvou as virtudes do homenageado, sua pontualidade, sua responsabilidade, traduzidas não só pelo cumprimento rigoroso dos horários, como também na entrega de boletins de notas e de provas corrigidas.
Pantaleão suspirou. De fato, ele não se atrasava em nada, mas bem que aquele safado deveria ter lembrado que ao mesmo tempo era absolutamente relapso em relação aos horários de saída, permanecendo na escola às vezes por horas inteiras, para atender alunos, seus país e suas mães e até mesmo a cantineira que vez em quando lhe alugava o tempo como confidente e credor de algum dinheiro para necessidades mais prementes. Ela, pobre mulher favelada, sem marido prestante e com uma penca de filhos para cuidar. Fazer o quê?
Roberval, o professor de educação física, tímido como um saruê que sai de casa com o sol brilhando, se encorajou também a falar alguma coisa. E repetiu, com palavras dele, embora com vocabulário ainda mais escasso, o que Adalberto acabara de proferir. E além da responsabilidade lembrou de sua reconhecida paciência do professor Pantaleão, para tudo e para todos.
– Realmente esta deve ser a minha principal qualidade, pensou o homenageado. Agora, por exemplo, bem que precisava disso.
Chegou a vez de Martinha, a professora de ciências exatas, que em relação a sua vida pessoal e sua vaidade de mulher que se acreditava charmosa, era tudo, menos uma pessoa exata. Ela resolveu destacar o desprendimento material de Pantaleão, assim se atendo a tecer um vasto memorial das muitas provas que o veterano professor dava em relação a tal desapego. E tome a destacar os sapatos velhos, as calças às vezes rasgadas, as camisas às quais faltavam botões, o casaco que deveria ter pelo menos meio século de uso intensivo, dentro de um padrão de estilo que remontava, pelo menos, aos tempos da República Velha, disse ela dando uma risadinha que pretendia ser carinhosa ou, pelo menos, amistosa, mas que soava sarcástica aos ouvidos do velho Pantaleão.
Astrogildo, o próximo da fila, professor de história e líder sindical, aproveitou a deixa da República Velha trazida por Martinha e confessou que apesar de suas muitas desavenças ideológicas e pragmáticas com Pantaleão, ficava feliz com sua aposentadoria.
– Imbecil… é claro que só poderia estar feliz contente com isso, vai parar de ter que me aguentar todo santo dia, pensou Pantaleão, com amargura, mas também com a alegria de se ver dispensado, reciprocamente, de conviver com um energúmeno como aquele.
E Astrogildo continuava sua arenga, a louvar o também o que ele chamava de uma incrível capacidade do homenageado na persistência em suas ideias, fosse lá isso algum elogio.
Aquilo estava ficando insuportável. Pantaleão já suava frio e tinha as axilas do velho casaco mencionado por Martinha já molhadas de suor, de forma inapelável.
Um outro – quem teria sido mesmo? – louvou em Pantaleão, a quem ele chamou de Napoleão, seu notável e digno respeito às regras, disciplina e hierarquia na vida escolar, enfatizando, para maior desagrado do indivíduo alvo: mesmo quando ninguém mais liga para isso.
Jorge, professor de artes, resolve fazer seu elogio destacando a habitual recusa de Pantaleão em assumir cargos na escola. Aquilo era uma polêmica velha, Pantaleão tinha isso como sistema seu, por não acreditar nos processos eleitorais que eram organizados para formalizar o nome de pessoas nos cargos de direção. Suas recusas tinham uma razão muito simples: cansara de ver os eleitos cuidarem apenas dos interesses de seus grupos eleitorais e não da dinâmica pedagógica ou do interesse do corpo escolar como um todo.
Finalmente, a cereja do bolo, Astrogildo pede a palavra novamente e resolve usar ainda mais adjetivos, alguns duvidosos, para destacar a capacidade de Pantaleão em transmitir ideias, mesmo quando elas eram ultrapassadas, como em diversas situações que ele resolve relembrar em detalhes, uma a uma.
Neste momento ele procura, com um olhar de esguelha, captar a reação de Pantaleão, pois queria mesmo era provocá-lo. Para sua surpresa o velho mestre não estava naquele cantinho onde até então se mantivera.
Pantaleão já ganhara a rua e de longe via seu ônibus se aproximar. Agora aposentado, sem pão de queijo nem guaraná na barriga, mas feliz de ter conseguido escapar de tal esparrela.
No ônibus, pensava: talvez não tivesse certeza de todas as suas crenças, a não ser de uma: a de que preferia morrer vencido e derrotado – pelo menos morrer uma vez só e não de variadas maneiras – tendo de fato acreditado naquelas ideias, muito mais do que ser partícipe das asneiras que acabara de ouvir, e mesmo à custa de ser insultado por gente sem história e coerência para manterem posições próprias sobre qualquer assunto.
Amanhã certamente seria um outro dia para Pantaleão.
