Meu amigo Gonzo

Gonzo é uma espécie de moralista que se torna feio para melhor denunciar a feiura (Hunter Thompson); Um cara que se veste de palhaço para denunciar a palhaçada dos outros (João Caçador).

Telefone que toca às quatro da matina, todo mundo já sabe: só pode ser notícia ruim. E era. Faustina, também conhecida como Infaustina, uma colega de trabalho especialista em tal assunto, me dava conta que João Caçador já não estava entre nós. E pior: tinha se suicidado. Tal sujeito podia ter todos os defeitos do mundo, mas foi meu amigo como nenhum outro, mesmo que eu discordasse o dele – eu e muitos mais – sob o troco de nos despejar boa dose sulfúrica, em muitas das situações de contenda em que nos metíamos com ele. Mas acima de tudo era uma pessoa que, se não querida, pelo menos era respeitada por muitos de nós, seus colegas na via crucis do magistério. Suas controvérsias começavam por aquele caçador, que não era nome de família e nem mesmo apelido de infância ou uma referência a esporte a que ele talvez se dedicasse. Era uma alcunha, só descobri depois, que ele mesmo inventara para si, e assim se apresentava quando veio transferido para nossa escola. Como sou dado à escrita, fazendo disso também uma espécie de autoterapia, membro da espécie em extinção professor de literatura, talvez por ter sido o amigo mais próximo do Caçador nos últimos anos, pensei que seria eu a pessoa mais talhada para contar a história deste cara. Não dos melhores, mas dos mais expostos à galhofa, como diria o Drummond, valendo isso tanto para o biógrafo como para o biografado.

A verdade, sejamos justos é que aquele ali não merecia ser esquecido ou passado em vão; que pelo menos fosse lembrado por seus feitos mais publicáveis, digamos assim. O fato é que em J. C. residiam um anjo e um demônio, juntos, entrelaçados, em disputas constantes, um com o outro, também com gente próxima ou distante, vivos ou mortos, célebres ou desconhecidos, ou mesmo com o resto da humanidade. E ali na Escola Estadual Olavo Bilac, onde éramos professores, eu bem que me divertia com as histórias dele, fosse para concordar ou para contestar.

Nem tudo eu sabia sobre ele, mas a infausta, sua parente distante, me forneceu informações preciosas, que longe de deslustrar a memória do Caçador acrescentavam sabor à teia de controvérsias que o cercava desde sempre. Tudo isso sem tentar retirar de sua receita existencial o ingrediente da polêmica, parte inseparável dele, do qual, aliás, ele muito se orgulhava.

Por ela eu soube, por exemplo, que ele fora um garoto prodígio, não exatamente no sentido que se dá a tal termo, mas pela quantidade de problemas que ele parecia atrair para si: brigas com os colegas, contestações e desacato a professores, arruaças e até terrorismo. Assim ele denominava certa aventura praticada por ele que consistia em deixar uma daquelas bombas enormes de festa junina que havia antigamente com um cigarro acesso introduzido em seu pavio. Aquilo era abandonado em algum lugar do colégio na hora do recreio e lá pelas tantas, já com as aulas retomadas, uma explosão terrível abalava e assustava a todos, menos a ele e sua caterva, egrégios terroristas, que com isso muito se divertiam.   

Soube também que certa vez os mesmos meliantes acharam um rato morto e o penduraram com um cordão na lâmpada de uma das salas de aula, com um cartaz amarrado nele dizendo: me chamaram de … e eu me suicidei, com as letras iniciais do nome do diretor da escola.

A prima Faustina falou também sobre um sentimento religioso de João, que teria sido coroinha na infância e que em certo momento parece que pensou em ir para um seminário, para virar padre. Mas, sinceramente, achei difícil acreditar nisso, não só pelo próprio relato dela sobre a infância do personagem, mas pela persona real com quem eu convivi.

Como estudante, na infância, ninguém dava nada por ele, nem a família, achando todos que ele seguiria a carreira de mecânico, mesmo assim de segundo escalão, como o pai – ou nem isso. Mas ele, mais uma vez, para contrariar o senso geral encarou o vestibular e cursou a Faculdade de Filosofia, transformando-se em professor dessa matéria e de História, no ensino médio.

Cursamos a mesma faculdade, eu e ele, mas como o João Caçador era pelo menos uns dez anos mais velho, só o conheci quando ele veio transferido para essa escola pública de periferia, a EE Olavo Bilac, onde eu ensino – ou tento ensinar, de alguma forma, a tal da Literatura.

Ele já chegou levantando polêmica. – Vejam só se isso é nome de escola que preste: Olavo Bilac… Que bosta! E desfilou um rosário de imprecações sobre o poeta carioca, que incluíam a decrepitude do parnasianismo, o equivocado modo de ver o Brasil peculiar às elites intelectuais do litoral, a contribuição igual a zero de Bilac ao progresso do país, a cafonice e o conservadorismo de sua linguagem – e por aí a fora. Como professor de literatura eu sabia que em muitas dessas afirmativas ele estava equivocado, mas em tais momentos o sujeito ficava como que possuído por uma ira infernal e não havia como contestá-lo e muito mesmo interrompê-lo. Mas tudo ficou, desta vez, apenas naquele rompante e como era de seu feitio, pelo menos quando o assunto não lhe mobilizava intensamente, nem ele e nem mais ninguém tocou no assunto dali em diante. E a velha EEOB continuou a carregar seu nome, apropriado ou não, pela eternidade.

A verdade é que João Caçador era um daqueles indivíduos capazes de atravessar a rua para encontrar e se digladiar com uma polêmica, por menos apetecível que ela fosse.

A partir da sua entrada na escola, suas desavenças foram intermináveis. Ele pelo menos avisava que suas diatribes não eram dirigidas às pessoas, mas sim aos assuntos – determinados assuntos – e às ideologias. As pessoas, ele dizia, eram objeto de seu amor incondicional. Mesmo assim, alguns objetos desse estranho amor preferiam manter distância dele; tal não foi o meu caso. Logo de cara pude ajudá-lo a conseguir um mecânico para a lata velha em que ele se deslocava, um Fusca dos tempos do Terceiro Reich. Ajudei-o também a procurar apartamento nas redondezas da escola, graças a meu cunhado que era corretor de imóveis. Acho que minha maior qualidade junto a ele foi a de ter paciência com seus frequentes rompantes, que ele tentava administrar dizendo que aquilo fazia parte de sua personalidade e que permitiria que as pessoas o tratassem da mesma maneira. E eu confesso que não foram poucas vezes que eu atendi rigorosamente determinação e pude ver que aquilo de fato funcionava. Ou seja, depois de uma esfrega das boas continuávamos amigos e parecia que até mais íntimos.  

Mas com ele sempre havia pano para qualquer tipo de manga.

Citando Lenin, deplorava o que ele chamava de esquerdismo do movimento sindical, que empolgava a maioria dos professores da escola, mas para ele não passava de ser o mesmo que recortar a realidade em pequenas lantejoulas e através delas tentar explicar a vida no mundo real. Juntava a isso a denúncia de desvios do movimento, que ele classificava ora como estalinismo, ora como revisionismo e, principalmente, como amadorismo e ingenuidade dos militantes. Não houve uma eleição para o sindicato, nem mesmo aquela, de curiosa memória, em que ele quis ser candidato, em que sua fúria não fosse exposta e ele criasse forte adversidade em torno de si. Mas sem dúvida pelo menos tinha a sorte – ou a habilidade – de arrebanhar de volta boa parte das amizades que em dado momento mais caloroso pareciam perdidas.  

Sua fúria ainda era maior com o que ele deplorava, de forma a ridicularizar a deterioração das pautas tradicionais da esquerda em favor dos mais pobres, oprimidos e desviantes da regra geral na sociedade, com a substituição pela defesa de coisas estranhas, o tal de identitarismo, execrado por ele. E provocava: – não conheço gênero, conheço é sexo, arrematando: – e aliás gosto muito! E continuo a crer mesmo é na força do proletariado!

Isso, é claro, ofendia diretamente as nossas colegas, que como é comum nas pessoas que militam na educação tinham mentalidade feminista e progressista. Caçador então tentava se corrigir, depois, dizendo que não era contra as pessoas se amarem e fazerem sexo, seja a qual categoria ou gênero pertencessem, só não entendia aquela vontade de fazer isso dentro de um casamento legalizado, como queriam as tais pautas identitáriasque puta bobagem! Não adiantava, pois não só as moças, mas os demais que defendiam este tipo de pensamento, continuavam desprezando as ideias dele.

O Caçador, entretanto, tentava dar a volta por cima, mostrando disposição para o debate, embora com erudição um tanto constrangedora. Na discussão política mais tradicional ele se mostrava um defensor intransigente das liberdades – de todas as liberdades, frisava – e da democracia, sendo capaz de citar uma enorme gama de autores, que iam de Platão aos contratualistas, passando com muita propriedade por Rousseau, Voltaire, Tocqueville e outros mais contemporâneos. De modo ainda mais enfática ele defendia – como sempre de forma apaixonada e carregada de palavrões – o direito das pessoas não serem molestadas ou abusadas pela polícia, assunto que ali no território da escola era bastante pulsante, sendo frequentes os casos em que alunos, funcionários e suas famílias sofriam com tal tipo de arbitrariedade.  

Mas logo voltava a seu estado, digamos, normal, insistindo, por exemplo, na deslavada ridicularização da linguagem neutra, que pela época era assunto muito estimado no ambiente da EEOB. E começava a chamar todo mundo trocando a grafia dos pronomes e de seus nomes, substituindo o “a” e o “o” pelo “x”, fazendo disso uma pantomima, da qual alguns riam (eu sendo um deles, embora procurando ser discreto), outros lhe olhavam com desprezo renovado a cada episódio. Aproveitava para incluir em sua sátira toda uma série de atitudes que ela chamava de politicamente corretas e equivocadamente adequadas, que iam desde a tal linguagem neutra até a demanda por banheiros de uma terceira categorias nos ambientes públicos.

A questão indígena era outra fonte inesgotável de polêmicas levantadas por ele, dizendo que o que esses cidadãos queriam, de fato, era viver nas grandes cidades e ter acesso aos shopping-centers e aos demais benefícios inerentes e que a verdadeira luta deveria ser a de garantir isso a eles. Sobre aquela proteção da natureza que se acreditava ser inerente ao modo de ser dos originários, ironizava: é porque nunca tiveram acesso às ferramentas adequadas; deem a eles umas boas motosserras e verão.  

As posturas do Caçador se exacerbavam quando as conversas giravam em torno das eleições escolares, assunto pelo qual ele demonstrava especial repulsa e crítica feroz, insistindo sempre que aquela novidade só serviria para levar aos cargos nas escolas gente que era apenas apreciada pela corriola de seus cúmplices eleitores, mas definitivamente não a quem tivesse alguma competência técnica ou pedagógica.

Os grupos feministas, progressistas, identitaristas e congêneres a esta altura espumavam de ódio, mas o velho Caçador não estava nem aí para eles e assim ia levando a vida.  

Suas diatribes ferozes não paravam por aí, incluindo nisso os políticos em geral; as autoridades em geral, principalmente na esfera da Educação; os evangélicos; a Igreja Católica; a filantropia espírita; a Maçonaria, que ele designava como uma espécie de Lions Clube metido a sociedade secreta. Juntava nisso tudo o que ele chamava de experimentalismos babacas, por exemplo, na música, no teatro, na literatura, nas artes em geral. Certa vez estive com ele em uma exposição de arte vanguardista e ali, diante de uma instalação, na verdade um monte de pedras e areia colorida, começou a tirar as calças dizendo que iria defecar em cima daquilo. Não acreditei que ele o fizesse de fato, mas por via das dúvidas resolvi retirá-lo do recinto, mesmo sob o protesto veemente dele, me acusando de ser um censor da ditadura do politicamente correto.  

Na política suas posturas eram de um furor demoníaco. Ele se dizia de esquerda e inclusive em certa época se filiou a um partido de tal rubrica, não o principal deles, porque ser ou participar da parte principal de alguma coisa não fazia parte de seus projetos. Mas quando o tal partido principal disputou as eleições presidenciais ele não deixou de apoiar e votar nele, porém sem abrir a mão de suas críticas. Com esta turma no poder ele foi impiedoso, denunciando todo tempo a rendição deles ao jogo político rasteiro, ao culto à personalidade, à permissividade e à contaminação pelo poder, ao esquecimento das ideias do passado e coisas assim. E não era somente contra o tal partido principal da esquerda sua fúria. Quando o grande sociólogo da USP foi eleito presidente, por duas vezes, aliás, tornou-se crítico ferrenho dele desde o primeiro momento, acusando-o de hipócrita, elitista, membro da elite paulista, janota, vaselina, além de outros adjetivos. Caçador não era realmente uma pessoa fácil de ser satisfeito.  

Em outra eleição presidencial, mais adiante, andou dizendo que tinha saudades do sociólogo e que até votaria nele se fosse candidato novamente, para não ver a bola da vez cair nas mãos de um babaca como aquele ex-militar truculento, de passado duvidoso e, além do mais, enrustido.

Viu-se, depois, que suas opções políticas talvez não fossem para serem levadas a sério: teve certa vez seu nome proposto para se candidatar a vereador, disse ter aceitado, mas depois simplesmente não compareceu à convenção que o homologaria, dizendo-se contrafeito naquele dia, um sábado, carecendo mais de uma boa garrafa de vodca do que de uma homologação partidária. O mesmo aconteceu em uma eleição sindical, quando apoiou uma chapa de colegas, na qual aceitou o cargo de Secretário Geral. Naturalmente, sua carreira política se iniciou e se encerrou com esses episódios.

Para mais ainda complicar e borrar sua silhueta, Caçador fazia jus ao apelido e era partidário do porte de armas. Sim, de fuzis, pistolas, revólveres e congêneres. Fazia assinatura de revistas especializadas e era filiado a um clube de tiro. Entretanto, incoerente como ele só, mantinha em casa apenas uma velha garrucha de dois canos, herança de seu avô, que provavelmente nem atirava mais. Ele se justificava: – tem muito imbecil armado por aí, é preciso a gente se defender deles. E completava, com absoluto non-sense: Woodie Guthrie tinha uma guitarra para combater fascistas, eu infelizmente não sei tocar nenhum instrumento musical…

Seu conceito de Democracia (com “D” maiúsculo, por favor, ele exigia) tinha menos a ver com partidos e ideologias, o direito a falar mal do governo e atacar o próximo nas redes sociais. Nada disso! Democracia era salário no bolso, filho na escola, comida que bastasse e o direito de andar pelas ruas à noite sem ser molestado, nem por policiais nem por bandidos – ele exclamava quase aos gritos. Ainda dentro de tal tema virou lugar comum e objeto de imitação o que ele dizia sobre o ato de votar: – seus pascácios, Democracia é muito mais do que levantar a mãozinha ou botar um papelinho na caixinha. O que importa é buscar consensos, muito mais do que contar votos contra e a favor. Quando é que vocês vão aprender isso? Ou quem sabe querem é fugir da busca de entendimento mesmo?

Maioridade penal aos 16 anos? – Sou totalmente a favor, porra. Se pode votar pode ser preso – e ponto!

Certo dia perguntei a ele se não admirava nada, nem ninguém. Ele de pronto respondeu que sim, mas que aquilo se restringia a poucas pessoas, citando, de passagem, um certo Thompson, que naquele momento eu não sabia quem era, falando também da geração beat, sobre a qual, como professor de literatura, alguma coisa eu conhecia.

Depois de tantas incoerências e disparates de tal figura, seria o caso de alguém que não o conheceu de perto indagar: – mas este Caçador teria alguma qualidade?

Por incrível que possa parecer a resposta é sim.

João Caçador era um professor incrível, admirado pelos alunos, que faziam homenagens contínuas a ele nas festas de formatura, mesmo que ele se recusasse a comparecer. Organizava torneios de leitura entre a rapaziada, tendo como temas não só a Filosofia e a História, mas também a Poesia e a literatura em geral. Dava aulas verdadeiramente teatrais, às vezes subindo na mesa ou os obrigando a fazer o mesmo. Vinham alunos até de outras séries, além de professores simpatizantes, para assistir aquilo, que acontecia muitas vezes através de jograis e encenações teatrais.  Sua casa era frequentada por alunos que queriam livros e conselhos. Tinha especial apreço pelos filósofos estoicos, defendendo uma ética de vida baseada na indiferença frente a tudo e a todos, ao mesmo tempo se entregando a forças cósmicas da virtude e da arte de viver, fosse isso lá o que fosse. Justificava suas maneiras meio loucas através de um verso de Drummond, de quem era fã: que tristes são as coisas consideradas sem ênfase. Dizia muitas vezes aos alunos e mesmo a nós, seus colegas: – caralho, ponha um ponto de exclamação nisso, se não fica parecendo um ‘rogai por nós’ em alguma missa de convento. A onda da escola sem partido que já se insinuava no discurso político na ocasião, provocando no Caçador verdadeiras erupções de mau humor, eram tratadas com um comentário, entre o sarcástico e o displicente: – Política, Partidos: o que entendem disso? Que venham, que se fodam, e estou cagando e andando, não me importo…

Ah, João Caçador… Um crítico de tudo o que parecesse consensual, um indivíduo para quem a controvérsia era o motor do universo, a glória verdadeira. Atacado à Direita e à Esquerda, dizia disso: melhor assim, apenas prova que eu estou com a razão. Na cabeceira da cama mantinha um poster de Che Guevara, a mesma imagem que apresentava em duas ou três camisetas que sempre vestia. Iconoclasta seria uma boa palavra para defini-lo. Sua vida certamente não era fácil, embora procurasse disfarçar vários desajustes amorosos, associados ao alcoolismo e outras drogas que aos poucos o foram destruindo. De suas mulheres, conheci apenas a derradeira, uma dama balcânica, de seios e ancas generosas, pele láctea, a quem ele chamava de Antígona, não sei se era seu nome verdadeiro. Dona de poucas palavras, dada sua insipiência na língua portuguesa, mesmo assim ela se fazia ouvir por ele. Mas um dia foi visitar a família na Bósnia ou na Eslovênia e por lá ficou.

Às vésperas do fatal telefonema de Faustina, no máximo uma semana antes, fiquei sabendo que ele não estava bem e corri à sua mansarda. nome que ele designara a seu pequeno e modesto apartamento de cobertura. Eu e ele, nessa ocasião, estávamos meio rompidos, depois de uma esfrega dele com quase todos os colegas na escola, tendo como foco a questão das eleições para diretor, na qual ele se queixou de eu não ter feito sua defesa com o devido vigor: – você vendeu de vez sua alma para esses filhos da puta, reclamou.

Na porta do refúgio já uma surpresa me aguardava: uma placa esculpida em madeira, trabalho caprichoso, anunciava Doutor J. Caçador: Doutor em Contradições – traga a sua para eu examinar. Olhei para ele com cara de indagação e ele, de pronto: – existem tantos doutores de merda por aí, nisso eu sou melhor do que qualquer um deles – quer apostar?

Não, eu não queria apostar nada, só conversar, ver se ele precisava de alguma coisa. De fato, ele estava pálido e prostrado, o cheiro de álcool dominava o ambiente, a bagunça no ambiente era digna do armagedon, ou de um tsunami. Esbocei um breve gesto de reprimenda e ele mandou eu calar a boca e ficar na minha. Obedeci. No aparelho de som se revezavam Chico Buarque e Bob Dylan. Em relação ao primeiro comentou: – gosto desse cara, principalmente quando ele fala das ‘lutas contra o rei e das discussões com Deus’. Esse aí sou eu mesmo. E Dylan, perguntei, ao que ele apenas respondeu – este é Deus… você já escutou Mr. Tambourine Man? Escute que você vai entender.

Conversamos mais. Ele me disse que tinha descoberto, não sei onde, uma expressão que também o definia como profissional, como militante e cidadão: gonzo. O que é isso, indaguei. – Sabe? É um moralista que se torna feio para melhor denunciar a feiura; um cara que se veste de palhaço para denunciar a palhaçada dos outros. Falou de um trabalho que estava preparando para um congresso de Sociologia, ao qual deu o título de Medo e Delírio nas Academias, sem entrar em maiores detalhes sobre o conteúdo. Voltou a falar de um tal de Thompson e eu pensei: preciso ler esse autor de quem ele tanto fala, quem sabe assim entendo melhor este cara? Ele estava falante, muito mais do que ouvinte.

Na saída, ao nos despedirmos, ele me saiu com algo assim: pois é, tudo o que eu fiz e faço é para minha diversão, os outros que se fodam, ou então me acompanhem…

Incorrigível sujeito…

Dias depois o telefonema de Faustina me acorda na madrugada.

Passados mais uns dias, Faustina me procura para me mostrar algumas coisas e me consultar sobre alguns desejos dele.

Havia um bilhete de suicida: acabaram-se os jogos, não há mais bombas nem mais patacoadas. Não há mais diversão. Não há mais caminhadas, nem brigalhadas. Sessenta e sete aninhos… Dezessete a mais do que eu achava que precisava ou queria. Não estou aborrecido, estou puto. Este troço de ser chato, não quero mais, isso não é divertido para ninguém. Não devo ser ganancioso na vida, querer viver demais, por exemplo. Melhor funcionar de acordo com a minha idade. Ah, sim, me incinerem! Depois peguem minhas cinzas, arranjem um canhão, coloquem o saco delas lá dentro e soltem um bom tiro, de preferência do terraço de algum edifício bem alto. Mas pode ser no parque municipal mesmo.   

Em um envelope pardo, com meu nome, um livro daquele autor que ele vivia citando, o tal do Thompson, aliás Hunter Thompson, deixado como lembrança para mim. E uma simples dedicatória: relaxe, isso não vai lhe doer. Era uma obra aparentemente ainda não traduzida Fear and Loathing in Las Vegas, algo como “medo e delírio”, palavras que eram a cara dele. Na resenha sobre tal livro, que localizei rapidamente na internet, havia também uma menção a gonzo e à vinculação da obra à literatura beat nos EUA. E céus, o nome do autor, Hunter, caçador em inglês! Certamente teria sido dali que ele retirou sua alcunha.

Senti que precisava melhorar meu inglês para ler aquele livro, quem sabe encontrar uma edição traduzida: urgente! Ali estavam palavras-chave significativas: gonzo, caçador, beat, medo e delírio. A chave para o entendimento do enigmático caçador João certamente estaria naquelas páginas.

Quem sabe através de Mr. Tambourine, de Dylan, eu poderia também melhor compreendê-lo? Left me blindly here to stand; but still not sleeping; my weariness amazes me, I’m branded on my feet; I have no one to meet; and the ancient empty street’s too dead for dreaming

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