Doutor Fausto

Eu o via quase todo dia comendo pastel com caldo de cana, na hora do almoço, na praça principal aqui em Poeirópolis. Apenas mais um personagem como tantos outros por ali, empregados dos escritórios ou do pequeno comércio dos arredores da praça. Gente que parecia não dispor de tempo ou dinheiro para fazer um almoço digno. O detalhe de tal personagem é que usava, ou mantinha dobrado debaixo do braço, um jaleco branco, como se fosse um médico, ou coisa que o valha. Devo ter visto ele inúmeras vezes naquele banco de praça, mas demoraram-se dias ou semanas para que começasse, de fato, a prestar atenção em sua figura.

Quem seria tal personagem? O que fazia ali? Um médico que não tinha por almoço mais do que pastel e caldo de cana? Que significado teria o tal jaleco, que um dia percebi ter em seu bolso um estetoscópio? Resolvi averiguar. Não darei pistas sobre quem ouvi e que perguntas fiz. Vou informar aqui apenas o essencial para chegar à essência de tal figura. Para mim, pelo menos, foi o bastante.

Fausto, é o seu nome. Dr. Fausto, porque na verdade era um médico legítimo, com diploma e tudo.

Veio de uma família pobre, dos grotões rurais e desde pequeno falava em ser médico, sonho, aliás, impossível para quem nascesse ou vivesse em condições como aquelas em que ele e sua família viviam. Mas conseguiu chegar lá. Graças à sua professora na escola rural, que percebeu sua capacidade de aprendizado e de superação, foi estudar na cidade, morando na casa de uma família caridosa, e ali fez o restante do ensino básico e depois o vestibular para medicina, numa universidade pública, sempre com distinção e boas notas.

Como traços marcantes de sua personalidade, além da perseverança no que fazia, mostrou-se sempre como pessoa ambiciosa, tanto no plano material como simbólico, traduzindo-se isso no modo de vestir, de se comportar, no linguajar. Sempre usou roupas boas, de primeira mão, que adquiria com recursos próprios, advindos de aulas particulares e depois de plantões ainda como estudante, alguns dos quais ilícitos, ao que consta. Além do mais, nunca fez segredo de que seu maior sonho era superar toda aquela pobreza que vivera na infância. – Eu preciso ganhar dinheiro, entendem? Era o que dizia para os que o rodeavam.

Uma vez formado, não teve recursos para continuar a estudar, fazendo residência ou especialização médica. Procurou logo um lugar para trabalhar, com foco, ao que parece, na disponibilidade de numerário por lá. Assim foi parar em Cerradópolis, uma daquelas cidades jovens, crescida à sombra do agronegócio de exportação de grãos, onde uma pessoa deve sempre olhar bem para os lados antes de atravessar alguma rua ou estrada, pelo risco não desprezível de vir a ser atropelado por algum trator ou outra máquina agrícola.

Na ocasião já dizia: – Deus me livre de trabalhar em lugares que não tenham internet, escolas de inglês, agência de banco. Não porque aprecio de verdade de tais novidades, mas por serem sinais de dinheiro escasso por ali.

Não deixava de dizer, entretanto, que gostaria também de poder ajudar os semelhantes e que a riqueza que visse a auferir seria também útil nesse sentido.

Em Cerradópolis associou-se ao hospital privado local, comprando uma quota-parte, abriu seu consultório de clínico geral na rua principal e passou a aguardar que a fortuna lhe sorrisse. Fez também o que ali era hábito comum, entre os médicos e pessoas em geral consideradas bem-sucedidas: associou-se ao Lions Clube, à Maçonaria e a uma entidade filantrópica de proteção à velhice.

Logo, porém, começou a perceber que além disso, de tal aproximação com tais entes sociais e associativos, havia um outro fator que servia como passaporte mais garantido para obter sucesso financeiro, principalmente se a pessoa tivesse determinação e competência para tanto: entrar na política. Mas no seu íntimo rejeitava tal ideia, não só porque lhe parecia perda de tempo, como também pelo risco, não totalmente raro, de que a trajetória para a riqueza fosse na verdade invertida com tal procedimento.

Manteve-se firme em sua determinação por algum tempo, mas logo percebeu que se quisesse de fato ganhar dinheiro ali tinha que se meter no sistema de poder local, até mesmo em alguma disputa eleitoral. Era o que a maioria daqueles que ele via como bem-sucedidos faziam. Entre os médicos, por exemplo, os mandatos políticos eram frequentes, havendo na Câmara de Vereadores, por várias legislaturas, alguns titulares que se nomeavam com Doutor isso ou Doutor aquilo, enquanto outros tantos, sem ânimo ou vocação para disputar eleições, entregavam aos políticos quotas de consultas ou de exames para que estes distribuíssem entre seus eleitores.

E foi assim que, em uma sessão da sua Loja de Maçonaria, diante de sua eloquência habitual ao discorrer sobre a moralidade pública, o dever cívico de todos e de cada um dos cidadãos, além de assuntos assemelhados, seu nome foi lembrado, como representante do Grande Oriente local, para disputar a próxima eleição para prefeito de Cerradópolis. Docemente constrangido, ele inicialmente recusou, mas com o tempo começou a aceitar timidamente tal hipótese, para mais tarde aderir a ela de corpo e alma. Mas ainda faltava um ano inteiro para a eleição.

Lembrou-se, então, do conselho que alguns professores davam aos alunos na faculdade, de que um médico deveria ficar isento nas coisas da política, mas havia pelo menos um deles que afirmava que uma coisa e outra, medicina e política, eram na verdade inseparáveis. Mas este aí tinha uma posição marginal, sendo acusado às vezes de comunista ou coisa que o valha. Se para fazer política na medicina eu tiver que ser de esquerda, estou fora disso, pensava o Dr. Fausto.

De toda forma, Fausto resolveu tentar abrir caminhos de aproximação com o povo, o povo real, como ele dizia. No posto de saúde, procurava trabalhar de forma séria, ao contrário de outros ali, que faziam daquilo uma atividade secundária. No consultório, com os doentes pagantes, sua dedicação era total, sendo reconhecido como um médico competente e responsável.

Mas o doutor queria mais: precisava ficar bem situado financeiramente. Aquela infância de tantas privações ainda o machucava. A mãe, que ainda vivia na roça, precisava dele e somente dele, não podendo contar com mais ninguém. Ele precisava ajudá-la, já que os irmãos viviam em semelhante estado de carência.

E assim o Doutor Fausto não descansava em sua lida de se aproximar do que ele chamava de povo real. Defendeu a abertura do posto de saúde também nas noites, coisa a que todos os seus colegas se apunham, por comodismo. Começou a se envolver em polêmicas não só com os colegas, mas também com vereadores e outros agentes políticos, por exemplo, atacando a desmoralização do uso das ambulâncias municipais, para as atividades mais diversas, diferentes daquelas às quais estas eram destinadas formalmente. Com relação à entrega domiciliar de medicamentos, realizada com critérios frouxos, ideia da mulher do Prefeito que também era vereadora, fazendo daquilo verdadeira escalada de politicagem barata, Doutor Fausto não perdeu oportunidade de criticar e propor uma mudança radical de tal política. Se por um lado aquilo lhe trazia inimigos, por outro, lhe abria mananciais de simpatia, principalmente entre os mais pobres ou, pelo menos, dos cidadãos mais conscientes. Em certa reunião comunitária, voltada para a discussão para o suposto problema da “lepra” na cidade, defendeu que tal doença fosse nomeada como hanseníase e abraçou longamente um paciente ali presente, para provar que o risco de contágio era muito baixo.

Seus irmãos maçônicos, boa parte deles pelo menos, passaram mais ainda a estimulá-lo para que saísse candidato nas próximas eleições.

Neste momento, acontecimentos em sua trajetória lhe chamariam a atenção. No primeiro deles, Venceslau, um motorista e eventual chefe de transporte da Secretaria de Saúde, avesso a suas medidas moralizadoras sobre as ambulâncias, que barravam suas pretensões de se candidatar a vereador, saiu-se com esta: – Doutor Fausto, de três, uma: afinal, o senhor é santo, subversivo ou louco?

No segundo caso, José Mefisto, um pastor evangélico lhe procurou para lhe dizer que já sabia das “pretensões de se tornar prefeito” do doutor e que estava ali para lhe garantir apoio, dele e de sua igreja. Fausto lhe explicou, aparentemente sem muito sucesso, que na verdade não tinha tais pretensões, apenas vinha sendo indicado a tanto por parte de alguns de seus irmãos da maçonaria. Mefisto não deixou por menos: que ele de fato se candidatasse, pois era nítida sua vocação para um cargo como aquele.

Já nas primeiras semanas de sua estada em Cerradópolis – e já se iam três anos – Fausto conheceu Margareth, uma assistente social funcionária da área da saúde, pessoa idealista, simpática, comunicativa – uma bela mulher, enfim. Ele jovem e solteiro, a mesma situação dela e assim não seria difícil imaginar que ao encontrarem afinidades entre eles, começassem a namorar. Margareth foi a primeira pessoa fora do circuito da Maçonaria a quem ele comunicou a proposta de candidatura que recebera. Ela não o desestimulou, mas ponderou que seria uma responsabilidade muito grande que o afastaria, na visão dela, de seu ideal de fazer uma boa medicina e ajudar as pessoas.

Ele talvez não tivesse, ainda, bastante intimidade com a namorada para lhe dizer que, além daquilo que ela lhe recomendava, pressentia que a política pudesse contribuir para afastá-lo – não para aproximá-lo – de seu objetivo de enriquecer. Deixou para outra ocasião, certamente. De toda forma, tal assunto os perseguiu, pois Margareth era ligada à igreja de Mefisto e o pastor mencionou a ela seu entusiasmo com a perspectiva da candidatura do doutor. Quando ela falou ao namorado sobre isso, levou a ele uma sombra de preocupação, porque, apesar de respeitar o seu pastor tinha um conceito próprio que a mistura de religiosidade e política era perigosa, para os dois lados da equação. Margareth propôs então ao Dr. Fausto que tivessem uma conversa mais profunda sobre o assunto, incluindo nisso o pastor.

Esta conversa aconteceu de fato, mas foi prejudicada pelo silêncio do médico e pela insistência um tanto incômoda do pastor, seja para a própria Margareth, mas também para Fausto, que agora falava claramente que ele seria o grande candidato dos cristãos de Cerradópolis. Fausto, filho de família católica, mas pouco praticante nos assuntos de qualquer igreja, recebeu tal afirmativa com alguma estranheza e desconforto. Aquela conversa lhe mostrou que para prosseguir sua jornada política não poderia agradar a todo mundo. Ele, Fausto, pelo menos, já não poderia fazer apenas aquilo que era parte de seus desejos. Ser o candidato dos cristãos soou para ele mais como um peso do que uma solução verdadeira.

O tempo passou e Fausto se via cada vez mais premido pela proposta de candidatura. Entre os membros da Loja Maçônica aquilo já era dado como coisa certa. Mefisto o apregoava aos quatro cantos, dentro e fora das paredes de sua igreja. Muitos dos seus clientes, tanto do posto de saúde como do consultório já o felicitavam e prometiam, espontaneamente, dar seu voto a ele. Nas reuniões do partido, ao qual ele tivera de se filiar por força da legislação, coisa que nem de longe ele poderia ter pensado em fazer em outros tempos, ele ouvia a mesma cantilena efusiva, ao mesmo tempo carregada de aspirações suspeitas.

– Mas na hora “h” eles vão ter se que haver comigo – era o que imaginava, no seu íntimo.

E assim, o Dr. Fausto se candidatou, de fato e de direito. Já na primeira semana de seu novo estatuto, agora de candidato, não mais como simples médico, ele começa a perceber que seu mundo mudara, que sua vida não mais seria a mesma. Um cliente seu, do qual ele mal se lembrava, lhe procura se dizendo capaz de arregimentar alguns milhares de votos em seu bairro e entre os membros de sua vasta família. Antes de entrarem em detalhes sobre isso, ele pediu ao doutor um dinheiro emprestado, para começar a fazer a arregimentação de tais eleitores. E completou: – fique o senhor tranquilo que este dinheiro vai lhe render muito mais do que uma aplicação em algum banco. Fausto sentiu um frio na barriga e um nó no peito – mas fazer o quê? Desistir? Já era muito tarde.

O pior ainda estava por acontecer. Mefisto, sob o pretexto de discutirem estratégias de campanha, não lhe pede dinheiro, como ele suspeitava que aconteceria, mas lhe traz uma lista de “sugestões dos irmãos da igreja”, entre as quais a doação de um terreno em uma das ruas principais da cidade e o perdão de dívidas municipais, tanto da igreja como de alguns irmãos comerciantes e donos de negócios. Como se não bastasse, seus irmãos maçons pediram uma reunião urgente com ele e lhe trouxeram uma lista de reivindicações, quase todas ligadas à liberação de benefícios para a entidade ou para alguns irmãos em particular.

Fausto se sentia aprisionado em uma enorme armadilha, vítima de engodo, dos quais não tinha mais como recuar, mas mesmo tempo admitindo que de outra forma não teria sucesso em sua empreitada política.

E Margareth? Ela bem que percebia o desconforto do namorado, notando que ele relutava em abordar o assunto com ela, mesmo assim tentou. Ela percebia que o que estava em disputa no meio daquela confusão toda era a consciência de Fausto, que balançava entre fazer coisas para benefício geral ou atender a interesses de alguns poucos, nem sempre confessáveis. Fausto lhe disse que realmente andava abismado com tanta pressão, tanta avidez por parte daqueles que passaram a assediá-lo depois de ter assumido a candidatura, coisas que ele nem poderia imaginar. Mas que ela ficasse tranquila, pois na hora adequada saberia afastá-los. Margareth então lhe confessou já ter conversado sobre tal assunto com Mefisto, e que ele a tratara de forma grosseira, dizendo que ela não se metesse em assuntos fora de sua alçada, o que era o caso, por se tratar de tema relativo à política da igreja com as autoridades seculares, como era o caso do prefeito – se é que o doutor viesse realmente a ser eleito.

Fausto viu aumentar ainda mais seu desgosto com tal revelação, pois foi mais ou mesmo isso que ele ouvira alguns dias antes, de parte do Grão Mestre maçom, quando tentou compartilhar com ele suas preocupações com o rumo que as coisas estavam tomando à medida que as estratégias de campanha avançavam.

Margareth percebia, cada vez mais, que estava realmente em jogo era a própria alma do namorado, um homem que lhe parecia ser do bem, mas ao mesmo tempo era incerto saber até que ponto resistiria às forças do mal que o rodeavam.

Mas como o próprio Fausto já havia percebido, era tarde para voltar atrás. Ele seguiu na campanha, se dispondo a atender indiscriminadamente as demandas que lhe chegavam a todo momento, fossem do Partido, da Maçonaria, do Pastor e sabe-se lá de onde mais. E foram se acumulando promessas diversas, que aos poucos incluíam grupo tão variados como católicos, umbandistas, espíritas, jogadores de truco, filantropias, sindicato rural, grupo de costureiras, coletivos LGBTQIA+, protetores de animais e ainda outros mais.

Era preciso contentar a todos…

Finalmente chegou o dia dois de outubro e o Dr. Fausto ganhou a eleições, por pequena margem de cinco pontos percentuais, mas ganhou. O candidato perdedor, então prefeito, por alcunha Jiboia, desapareceu do cenário, não cumpriu o ritual de abrir a prefeitura para uma comissão de transição e nem mesmo transmitiu diretamente o cargo, enquanto nas sombras seus correligionários denunciavam, sem qualquer comprovação, que teria ocorrido fraude nas eleições.

No primeiro dia, e nas semanas subsequentes, tudo foi festa e alegria. O doutor prefeito passou todo este tempo a fazer visitas de confraternização e pacificação aos diversos setores da Prefeitura e tudo parecia correr muito bem. Mas um belo dia sua excelência teve que se aboletar em sua mesa enorme e dar conta da pilha de papéis que lá estava para serem assinados ou despachados.

A primeira surpresa veio logo: não havia recursos em caixa para nada. Nada mesmo! A finada administração Jiboia tinha sido pródiga em cometer despesas não previstas, de olho nas eleições e agora o pobre encarregado das finanças do município estava espremendo as contas e os miolos para pagar, mal e mal, a folha do mês.

Já no final da primeira semana, o Pastor, o Grão Mestre e o presidente do Partido fizeram plantão na antessala do prefeito, para tratar apenas, segundo eles, de questões emergenciais, ou seja: nomeações. As outras demandas poderiam esperar um pouco mais.

Em mais uma semana vieram as devidas e previsíveis cobranças dos maçons, dos católicos, dos espíritas, dos protetores da velhice, dos umbandistas, dos jogadores de truco e até mesmo de um sindicato dos pescadores, em um município que tinha como maior curso fluvial, o córrego da Trindade, com pouco mais de um metro de largura, do qual o último bagre talvez já tivesse desaparecido há algumas décadas. 

Na virada do segundo mês uma assembleia geral de funcionários municipais decidiu paralisar atividades até que o salário passasse a ser pago em dia, acrescido dos 20% de aumento que havia sido prometido na campanha.

Ainda por esses dias o chefe de gabinete trouxe ao prefeito a minuta de decreto para doação, ao grupo evangélico de Mefisto, de três ou quatro terrenos do erário municipal, para a construção de igrejas e centros de oração.

Os Vicentinos apresentaram ao Prefeito o orçamento para uma reforma completa do asilo que mantinham na cidade, apesar de que, em nenhum momento da campanha, tivessem apresentado alguma demanda neste sentido.

O Grupo de Umbanda Pena Branca veio solicitar uma ajuda de custo para seu centro de atendimento, bem como a instituição de um dia feriado municipal dedicado às Virtudes Afro

A compra de uma lixeira com tampa automática para a copa do gabinete do prefeito foi tratada pela imprensa da cidade como uma prova do estado de corrupção e descaso com a coisa pública que imperava na municipalidade.

O Ministério Público, que só se movimentava na cidade para colocar criminosos comuns na cadeia, através de juris teatrais, entrou com uma ação para obrigar a prefeitura a comprar, entre outros itens, três ambulâncias novas, uma geladeira para conservar cadáveres, um novo trator para a conservação das estradas municipais, dois novos caminhões de lixo, além da elaboração de um programa para fornecer alimentos sem glúten a quem deles necessitasse.    

Um belo dia, a poda de uma figueira na praça principal, solicitada pelos próprios taxistas que ali faziam ponto, fez com que as andorinhas que nela tinham pouso nos finais de tarde ficassem sem abrigo, promovendo grande algazarra e sujeira nos arredores, deixando – quem diria – os mesmos taxistas indignados, a ponto de pedirem de imediato o impeachment do prefeito, através de vereadores da oposição.

Uma senhorinha de 80 anos, ao sair de uma consulta na UPA municipal escorregou no piso molhado, quebrando o fêmur e gerando uma onda de protestos na Câmara de Vereadores e na imprensa, mais uma vez estimulada pelos mesmos agentes do caso das andorinhas.

O prefeito se propôs a comparecer a uma assembleia de servidores, mas foi impedido de entrar pelo comando de greve, sob alegação de que sua presença ali poderia convencer os participantes a respeito de posições não desejáveis para o movimento.

Fausto, entretanto, se recusou a acatar tal interdição e tentou falar aos servidores, tendo seu microfone cortado, e mais ainda, recebendo uma tremenda vaia do plenário.

Neste meio tempo, Margareth pediu demissão da Prefeitura e foi trabalhar em outro município, depois de uma forte desavença com Fausto, a respeito da atuação do mesmo como Prefeito, cujas ações ela considerava como fraquezas imperdoáveis.

Para completar, o grupo de Jiboia, corrupto reconhecido e tarimbado, representado por dois vereadores e o presidente do partido, conseguiu impetrar, na Justiça, uma liminar de afastamento do mandato para Fausto, por conta de uma distribuição irregular de cestas básicas às vésperas do pleito, patrocinada, aliás, pela Igreja Batista Promised Land, a mesma de Mefisto.

A questão foi a julgamento e o infausto doutor Fausto teve seu mandato cassado. Neste momento, lembrou-se das palavras de seu desafeto, o chefe das ambulâncias Venceslau: – o senhor é santo subversivo ou louco, doutor? Fausto muito pensou no assunto e respondeu de si para si mesmo: – nada disso; sou é burro, muito burro…

Para pagar custas do advogado que mesmo com todo esforço não conseguiu encontrar meios de inocentá-lo, o Dr. Fausto se viu obrigado a vender sua cota no Hospital Santa Esculápia, viu o consultório a cada dia menos frequentado e percebeu que o melhor para ele seria buscar novos meios de ganhar a vida, passando a atuar em Poeirópolis, cidade vizinha, em uma clínica popular junto à mesma praça onde é visto a comer seu pastel com caldo de cana no meio do dia, no intervalo de seu trabalho, entre atestados médicos e exames admissionais.

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Como os leitores já perceberam, esta é mais uma daquelas histórias de segunda mão, desta feita reproduzindo o mito de Fausto, ou seja, a narrativa medieval de um homem que faz um pacto com as forças do mal, encarnadas na figura de Mefistófeles, para a satisfação de seus desejos, tendo como contrapartida, do lado do bem, sua amada Margarida. Trata-se da obra mais famosa do escritor romântico alemão J. W. Goethe, influenciando um sem-número de versões literárias, entre as quais se inclui o nosso Grande Sertão: Veredas.

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