Sem olhos em Peirópolis

Esta é história de Samuel, que no começo era Saminho, depois virou Sam e finalmente Sansão, assim apelidado pelo rabino Grebler, no dia de seu Bar-Mitzvá, em reconhecimento a seu porte taludo e grande força física, embora fosse pacífico e gentil com todo mundo. Segundo Grebler, Sansão era um herói do povo judaico e certamente este apelido faria Samuel honrar ainda mais sua herança.  Quando o garoto descobriu que tal figura bíblica era cabeludo, decidiu deixar também seus cabelos crescerem. Na Escola Israelita Ben Gurion, onde estudava, aquela juba fazia o maior sucesso.

Samuel Benjamin Lebovitz, melhor dizendo, Sansão, era um menino rico, de família judia, filho de empresário da indústria paulistana. Morava junto com a família, papai Aron, mamãe Sarah e seus dois irmãos, Caleb e Isaac, tendo cada um seu aposento próprio em um apartamento caro e espaçoso, ali no Morumbi.

A vida de Sansão se fazia dentro das muralhas de seu condomínio, onde tinha piscina, academia, quadra de tênis, sala de cinema, mesas de sinuca e ping-pong, lavanderia, mercearia e coisas mais. Ninguém precisava sair dali e Sansão e seus irmãos, claro, iam à escola ou à sinagoga sempre no carro blindando do senhor Aron, cujo motorista, o Severino, os recolhia dentro da própria garagem do prédio. Pode-se dizer que nunca pisavam na calçada externa e muito menos nas ruas dos arredores.

Ah, os arredores: do lado de lá do muro dos fundos havia uma enorme maçaroca de casebres e ruas estreitas, com o esgoto a correr no meio delas, a chamada favela de Peirópolis, mais conhecida como Perigópolis. Alguns chamavam o lugar de Faixa de Gaza, pelo seu desenho longitudinal, entre a linha de trem e o córrego. Sansão, naturalmente, nunca havia ido lá, mas podia vê-la de forma abrangente da janela de seu quarto, no décimo segundo andar. E ele era curioso sobre aquela paisagem, mas nem sonhava que alguma vez pudesse conhecê-la de perto.     

Um belo dia, chegando da escola, percebe que uma surpresa havia se instalado na cozinha de sua casa. Assentado num canto estava um garoto de sua idade aproximada, tímido, de cabeça baixa, sem ânimo aparente de interagir. Era filho da cozinheira Alzira, moradora bem ali do lado de lá do muro, que viera trazer uma encomenda para a mãe e agora lá estava, com mostras visíveis de estar pouco à vontade naquela cozinha grande e imaculada do apartamento12-12.

Em um primeiro momento, ainda assustado com a novidade, Samuel reagiu da mesma forma que o adventício, com recolhimento e cautela, mas logo, dado o seu jeito expansivo de ser, virou o jogo para indagar o nome do visitante e mais:

– Você é corintiano?

Não, o menino era são-paulino e se chamava Felipe.

No Brasil, como se sabe, as perguntas sobre o time de preferência costumam abrir portas para as pessoas. Ou então fechá-las, definitivamente. No caso presente, abriram, porque Sansão apesar de ser corintiano de coração, não tinha preconceitos com torcedores de outras facções – a não ser que fossem palmeirenses, costumava explicar.

O fato é que este primeiro e inusitado encontro na cozinha produziu uma aproximação entre eles. Antes de Felipe ir embora, porque a mãe visivelmente insistia que o filho se retirasse, ainda conversaram sobre futebol de botão, os sucessos musicais do momento e a nova escalação da seleção brasileira na Copa do Mundo daquele ano.

Na despedida, Samuel de forma espontânea foi além das circunstâncias e da formalidade: – apareça aqui de novo para a gente conversar mais e jogar alguma coisa. E acrescentou: – pode me chamar de Sansão.

Com a mãe, mais tarde, Samuel falou do encontro e da boa impressão que o garoto lhe causara, indagando se ela autorizaria Felipe e vir até o apartamento mais vezes, para fazerem alguma coisa juntos. Sarah ficou de pensar no assunto. Por ela não haveria problemas, na juventude cumprira estágio voluntário para colheita de laranjas e tâmaras em um kibutz israelense e se acostumara a conviver com outros judeus morenos e até negros que lá estavam, mas tinha dúvidas se a ideia seria bem aceita pelo marido, que tivera tios e mesmo o pai mortos em campos de concentração, era muito desconfiado com tudo que lhe cheirasse a pessoas goyin, não judias.

Sarah, que além do mais tinha simpatias e mesmo amigos de esquerda em Israel, no dia seguinte deu a resposta que o filho esperava: sim, que ele trouxesse o filho da cozinheira para brincar, em dias e horários determinados, de preferência se o pai estivesse ausente.

Às sextas feiras no período da tarde, horário ajustado entre a mãe, a cozinheira Alzira, os dois garotos deram início a uma amizade promissora. A sintonia futebolística que não era muito grande logo se ampliou, passando pelas musicalidades funk e rap (que Felipe conhecia mais do que o amigo), pelo gosto por jogos de computador (sendo, neste caso, Samuel mais versado do que Felipe), pela troca de figurinhas do álbum da Copa do Mundo, por alguma fofoca de jogadores ou celebridades. Sobre meninas, conversa apropriada à idade deles, não tinham muito o que falar, pois nenhuma daquelas que eles conheciam fazia parte do universo do outro.  

Logo veio a primeira sexta-feira e as descobertas inaugurais. Felipe queria conhecer o território de Sansão e este não se fez de rogado. Percorreu com ele todos os cômodos do 1212, depois subiu e desceu por todos os elevadores, levou o amigo para conhecer o terraço, a academia, a piscina, as lojinhas, os salões de festas e de reuniões e até os diversos banheiros, que deixaram Felipe extasiado com tanto luxo. Na garagem, Felipe se abismou mais ainda ao ser apresentado aos carros da família, ou a uma das três vagas deles, ocupada por uma enorme perua diesel que mais parecia um caminhão ou um ônibus. – Essa aí a gente só usa para viajar, disse Sansão e o pobre vizinho mal acreditou.  Arremataram o passeio voltando ao terraço do vigésimo andar, de onde se tinha uma vista de longo alcance, tendo aos pés o território cinzento de Peirópolis.

Como Sansão também se mostrasse curioso diante de tal vista, Felipe lhe mostrou os quatro cantos da favela, a linha de trem, o córrego que levava o esgoto, o lixão, as bocas de fumo, as igrejas evangélicas e a católica e finalmente o cantinho onde morava, que ele chamava de Filisteia. – Filisteia? Indagou Sansão.  Ele ficou curioso com tal nome, pois se lembrou dos filisteus, um povo citado com frequência na Sinagoga, como inimigo mortal dos judeus. – É isso mesmo, respondeu Felipe, é um nome que os crentes da Assembleia de Deus inventaram, por causa da igreja dos católicos ali perto, parece que não gostam de um povo com este nome.

Samuel se encorajou a dizer para o amigo: um dia quero conhecer tudo isso de perto, você me leva? E Felipe: – acho que sua mãe não vai gostar, mas levo. Tal chance não demorou a acontecer. Sansão se deu conta que se tentassem sair pela portaria seriam barrados pelos porteiros, que tinham ordens expressas das famílias para tanto, mas sabia onde os pais guardavam os controles sobressalentes do portão da garagem e através deles sair dali seria moleza.

E na sexta feira-seguinte assim o fizeram.

Sansão não cabia em si de contente, mas não podia negar que também tinha um pouco de medo. Ao saírem, Felipe o aconselhara a tirar o tênis caro que usava e que colocasse um calçado mais simples. Não precisava de mais explicações, Sansão entendeu muito bem o recado e calçou umas velhas sandálias havaianas. E saíram pela calçada da esquerda, logo acessando o beco que ia dar na favela. Sansão andava com dificuldade, com suas havaianas se prendendo na lama pegajosa que se espalhava por ali. Rodaram pelos quatro cantos, reconhecendo agora, de perto, os pontos que Felipe lhe mostrara de cima, no terraço. Aos poucos o medo de Sansão foi se atenuando, principalmente por sentir que Felipe era bastante querido por ali, conversando com muitas pessoas pelas vielas, também apresentando Sansão a elas: – é meu amigo, Samuel. 

Quando passaram por mais um templo evangélico, este designado como igreja “mundial” de alguma coisa, Sansão se espantou, porque achava que “mundial’ talvez fosse uma palavra muito poderosa para designar o pequeno sobrado tosco e sem pintura que abrigava a entidade. – Aqui é tudo assim explicou Felipe. Tem “internacional”, “mundial”, “universal”, “global” e outras. Mas o que esses pastores sabem de verdade é tirar o dinheiro dos trouxas. – Você não frequenta a igreja deles? quis saber Sansão. – Deus me livre! Minha família é do lado dos católicos, dos tais filisteus, como eles chamam a gente. Sansão descobriu que ali na favela ser católico ou ser evangélico definia muita coisa. E ser judeu, pensou, faria alguma diferença? Mas era pouco provável que houvesse judeus por ali.

Em outro ponto, teve que recorrer a Felipe para que este lhe explicasse a existência de uma forte barricada no meio da rua, que ali era pouco mais que uma viela. Felipe riu dele, ao perceber que o amigo ainda precisava de um verdadeiro curso sobre o que é a vida de um favelado. – É o povo do Comando, explicou, e como o amigo continuasse com cara de interrogação completou, em voz baixa, como se tratasse de um mistério: – é a bandidagem daqui, sabe? Os caras que mexem com drogas. – Eles usam? quis saber o ingênuo Sansão. – Não, eles vendem, e às vezes matam também; meu pai, por exemplo, morreu assim, esclareceu Felipe.

Mais adiante, um sujeito baixinho e barbudo, com cara de amigo, veio todo sorridente e abraçou Felipe, chamando-o por um apelido, o que demonstrava intimidade. A apresentação foi feita de imediato: – este é o frei Francisco, chefe da paróquia aqui. – Quem tem chefe é índio, repostou de pronto o outro, com uma risada forte. Sansão percebeu que a palavra chefe, que até então ele somente tinha ouvido de Felipe para se referir ao que ele chamava de bandidagem, tinha também outro significado na favela. Embora aquele frei Francisco tivesse cara de tudo, menos de chefe de alguma coisa.

De uma portinhola onde estava escrito biutiful feice, ou algo assim, surgiu uma garota mais ou menos da idade deles, muito comunicativa: – quem é o branquelo aí, Fefê? Diante da apresentação formal feita por Felipe, ela completou: cuida bem dele, você sabe como são as coisas por aqui. E mais, para Sansão: – hei branquelo, me passa seu zap, qualquer hora a gente bota pra rolar um lero, nunca se sabe. Mas você parece ter ficado com vergonha de perguntar meu nome, é Alida, mas eu acho feio, gosto que me chamem de Suélen, esse-dablio-e-dois eles-e-ene. Olha aqui nesta pulseira: Swellen.

Sansão olhou para o amigo com cara de absoluta surpresa. Quem era? Felipe explicou, uma doidinha daqui da vizinhança. – Da turma católica ou evangélica? quis saber Sansão. – Essa aí joga nos dois times, está sempre atrás de um agrado, vai com quem dá mais. Se deu mal com a turma da Assembleia de Deus, porque recebeu uma cantada do pastor e espalhou para todo mundo. Não está nem aí, para nada.

Alida Swellen, de saída, deu uma piscadinha para Sansão e um pontapé carinhoso na bunda de Felipe. O frade, que ainda estava por ali, recebeu um olá formal. E ela seguiu adiante. – Não repara, disse Felipe. Aqui na favela é cheio de gente assim como ela, meio desregulada. E com certa reserva e reticências: – tome cuidado com ela, eu bem conheço… Não pode ver um cara abonado como tu que dá em cima. Todo mundo sabe.

Durou apenas duas horas ou até menos o passeio dos dois garotos nas vielas de Peirópolis. Sansão estava em estado de graça, por um lado, com medo e alguma repugnância do esgoto, do lixo, do rato morto que vira em algum lugar. Por outro, enfeitiçado; de fato nunca imaginara que existisse tanta coisa para se ver, tantas vidas e pessoas, tão diferentes do mundo em que ele vivia. Padre, por exemplo, ele nunca tinha visto um de perto, embora soubesse que ele era o correspondente daquele rabino Grebler, que ele conhecia tão bem. Tudo aquilo abria o mundo para ele. Era preciso voltar mais vezes em Peirópolis, naquela perigosa Faixa de Gaza bem ao lado de sua moradia, por onde ele jamais tinha suspeitado poder andar.

Talvez sua vida não continuasse sendo a mesma depois daquilo. A mente adolescente transbordava de emoção – e de incertezas.

Ainda de forma escondida da família voltou ali, muitas vezes. Em uma das escapadas, quando perambulava, sozinho, antes de encontrar Felipe, foi abordado por dois rapazes, mais velhos do que ele e com caras e atitudes que não anunciavam coisa boa. – Onde tu tá indo? – Não sabe que aqui é território? – Território de quê? – Não se faça de desentendido, para circular aqui tem que pagar pedágio.

Ele tentou fugir, mas como num passe de mágica surgiram mais uns quatro ou cinco da mesma catadura. Não tinha nenhum deles forte e muito menos lutador de krav-magá, como ele, Samuel Lebovitz, mas o bom senso recomendou que ele não reagisse, porque certamente ia se dar mal. E eles o arrastaram a uma lojinha desocupada, um lugar escuro e sujo, fechado com uma porta de aço. E logo anunciaram o que desejavam: – e aí, branquelo, passa logo o celular e vai mostrando o telefone do seu véi que a gente vai rolar um lero com ele. Sim, é sobre tu mesmo. Vamo ver se tu vale, da vera, o quanto acha que vale…

O celular estava descarregado e eles se afastaram para carregá-lo em algum lugar.

Dito isso baixaram a porta de aço e deixaram Sansão lá dentro, no escuro e na sujeira, sozinho, ficando ele por ali um bom par de horas. Na rua, silêncio total, era um setor de comércio, onde parecia não haver ninguém morando, com as poucas lojinhas fechadas. Sansão tentou abrir a porta de aço, que parecia trancada por fora, mas não resistiu a duas pancadas bem dadas com os pés, num golpe que aprendera no krav-magá, abrindo-se com uma fruta podre. Olhou para um lado e para outro e como não viu ninguém, escapou. Por sorte, não teve dificuldades em achar o beco de saída e em poucos minutos estava de volta ao 1212, trêmulo, sujo, mas seguro e principalmente salvo de uma fatal investigação materna. 

Felipe ligou mais tarde, do telefone de Alida Swellen. Acabara de saber de tudo, inclusive da fuga, e queria saber notícias do amigo, ficando feliz de sabê-lo já em casa. A garota veio toda melosa para dizer que ele era o máximo, que aquela turma era dos piores elementos da favela e que ele fora muito valente, ao contrário de muitos dos garotos de lá, que cagavam de medo de qualquer coisinha. Perguntou se no dia seguinte ele toparia saírem para tomar um sorvete e dar um rolê pelas ruas do Morumbi, longe daquele lugar fuleiro onde ela tinha a infelicidade de morar. Sim, podia convidar o Fefê também.

Sansão não quis marcar nada com ela, ainda estava dominado pelo temor ao que tinha acontecido naquele dia, embora não descartasse a possibilidade, porque na verdade tinha achado o jeitinho de Swellen bem legal, tão diferente daqueles das meninas que ele conhecia na escola ou na sinagoga.

Passados alguns dias, Felipe ligou, estando ao lado, desta vez, de frei Francisco, que também queria saber notícias dele. O frade então lhe perguntou se ele não gostaria de participar de um grupo que ele estava organizado, de defesa da paz nas favelas, formado por pessoas de várias religiões, mas com nenhum judeu até o momento. As reuniões seriam fora da favela, num colégio ligado à Diocese. Sansão ficou de pensar, mas por dentro admitindo que aquilo seria muito bom para ele, que se sentia limitado pelas experiências tão restritas que ele pudera conhecer em seus dezesseis anos de vida.

Na tal reunião o assunto dominante não foi, diretamente, a Paz de que frei Francisco falara, seja na favela, na cidade ou no mundo. A questão era outra: uma linha de metrô estava sendo construída e os ricos dos condomínios, daquele onde Sansão morava e de outros, se opunham à abertura de uma estação programada para a entrada principal de Peirópolis. O argumento deles é que isso traria mais marginais e andar por ali, perturbando as pessoas de bem. Devido a isso, o frade propôs a mudança da pauta, até porque, segundo ele, o novo tema tinha a ver com a paz também. Ali se discutiu, se gritou, se agitou, brigas surgiram e tiveram que ser apartadas. Frei Franciso era bom naquilo de apartar brigas. Houve votação, Sansão nem se lembrava mais do que havia sido decidido, mas percebeu que coisas como aquela faziam parte de seus sonhos. Não queria mais a calmaria asséptica da Escola Ben Gurion, da Sinagoga Beth Israel ou do Clube Teodor Herzl.

Ainda com a sensação de bem-aventurança na cabeça Sansão se lançou a caminhadas pelo bairro, coisas que ele nunca tinha feito. É claro que procurava evitar as ruelas de Peirópolis. Ele pensava consigo: – tenho que descobrir o mundo, ver tudo o que existe nele, chega de alienação.

Swellen tentara contato com ele outras vezes, mas ele decidiu ignorá-la, atento às considerações de Felipe.

Em uma dessas andanças, fora da favela, ele se viu de novo cercado e desta vez um dos participantes do cerco era Swellen. Fizeram várias agressões verbais para provocá-lo, aplicaram-lhe chutes nas pernas e em certo momento dois dos rapazes mais fortes o agarram e com uma tesoura lhe cortaram cabelos. Ele deixou por isso mesmo e mais tarde até os agradeceu intimamente, porque depois da reunião com o grupo do frade tinha decidido que inventaria um Novo Sansão, e que este não mais seria cabeludo. 

Sansão se sentia, de fato, acordando para a vida e para muitos desafios, percebendo ter passado tantos anos completamente cego, de olhos totalmente tapados, para a realidade que o cercava, se recriminado por viver no Morumbi e ao mesmo tempo ignorar a Faixa de Gaza e a miséria daquela Perigópolis que ele conhecia apenas a partir da vista de sua janela no decimo-segundo andar.

Aron e Sarah Lebovitz perceberam as mudanças do filho, cogitaram mandá-lo passar uma temporada em um kibutz onde tinham parentes, na Palestina ocupada. Sansão os enfrentou e diz que se insistissem nisso fugiria de casa. Os pais recuaram, mas passaram a observá-lo com mais rigor. Ele já não precisava sair do seu quarto no 1212 com muita frequência, pois o GAP – Grupo de Amantes da Paz, criado por frei Francisco, tinha agora um site na internet, devidamente organizado e gerenciado por Sansão.

No final do ano, Sansão decidiu prestar vestibular para Ciências Sociais, contrariando o desejo dos pais, que queriam vê-lo na Medicina ou no Direito – na USP, claro.

A cegueira também tem cura, pensava Sansão. De fato, nada seria como antes para Samuel Lebovitz, aquele suposto herói do povo de Israel, como o rabino Grebler o designara, agora apenas um recém-nascido a descobrir o mundo.

 ***

Sim, esta é mais uma daquelas Histórias de Segunda Mão, que eu costumo lançar aqui, desta vez inspirada não apenas na narrativa bíblica de Sansão e Dalila, como também no romance Sem Olhos em Gaza (Eyeless in Gaza), do escritor britânico Aldous Huxley, publicado nos anos 30. Tal título deriva de um poema de John Milton, que fala de Sansão, herói que livraria Israel do jugo filisteu, mas que teve a desventura de ser aprisionado e cego, ficando assim sem olhos em Gaza, em um moinho com escravos. O enredo fala da vida de um playboy, Anthony Beavis (na minha história, Samuel ou Sansão) e de seu processo de desilusão com sua classe social, quando ele começa a buscar algum sentido para sua vida, o que vem a alcançar quando descobre o pacifismo e ideias dele derivadas. Por minha conta acrescentei um novo personagem na trama, o “filisteu” Felipe, amigo de peito (não exatamente espiritual ou ideológico) do personagem principal.

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