Conversa de mulheres 

Não se nasce mulher: torna-se mulher. Nossa! Esta frase de Simone me inspira. Vejo aqui neste consultório que ela é demonstrada a cada dia que passo aqui dentro, pois cem por cento das frequentadoras são mulheres. Vale diretamente para mim também, que me torno mulher a cada dia que passa. Homem aqui só os eventuais maridos ou namorados, além dos médicos em sua maioria. São bem vindos, é claro,mas não deixam de ser uma minoria – e como tal devem se comporetar. Aqui dentro, pelo menos.

Não. Não sou nenhuma intelectual. Longe de mim. Sou apenas uma secretária – ou recepcionista, se quiserem – em uma clínica para mulheres, com ginecologistas, esteticistas, dermatologistas, nutrólogos e outros menos votados. Como se só as mulheres precisassem disso…

Se tivesse tempo e dinheiro eu realmente teria feito faculdade, de preferência em alguma das faladas ciências humanas, quem sabe Sociologia. Mas a questão é tempo e grana, carecendo eu de uma coisa e outra. Em compensação me sobra vontade de compreender o que se passa na cuca desta fauna de parceiras portadoras de úteros e ovários que circula por aqui. Aquelas que Simone dizia pertencerem ao célebre Segundo Sexo. À noite, antes de dormir, sempre dou uma lida em quem entende do assunto, outras mulheres de preferência. Ela, Mme. du Beauvoir, por exemplo, é uma das minhas preferidas. 

Gente, posso ser apenas uma secretária, e pobre, morar longe e tal; mas não sou burra.

É cada tirada que esta francesa querida tem… Me gusta sua coragem, exercida em tempos pré-históricos, quando acho que nem havia feministas de verdade, e aquelas que ousavam dizer alguma coisa sobre as fantasias projetadas pelos machos nos corpos das mulheres, além da desimportância delas na sociedade, quase iam para alguma fogueira. Vergonha e autoculpa, duas das palavras fortes da obra dela, frequentam com assiduidade esta sala de espera. Quando ela diz que as mulheres acabam como corpos sujeitos a tabus e moldagens inventados pelos machões de plantão, servindo isso de desculpa para mais ainda discriminá-las, eu estremeço por dentro, de tanta razão que vejo nisso.

É uma verdadeira gênia esta mulher – eu amo ela, de montão!

  • Bom dia…

Preciso me concentrar nas minhas atividades de secretária. Dá licença…

Esta que acabou de chegar é garota de programa. É uma pessoa superconsciente de seu status, vem aqui duas vezes por ano para fazer revisão ginecológica, prevenção de câncer, essas coisas. Quando veio pela primeira vez, ao lhe perguntar pela profissão, para preenchimento do prontuário, ela foi direto ao assunto: puta. Percebendo certo espanto na minha cara arrematou: não acredita? Pois então acredite. Eu não tenho nenhuma vergonha em dizer. 

Realmente, esta companheira confunde todas as visões padronizadas. Quando vem aqui, seria fácil julgá-la, pela aparência, como uma bancária, estudante universitária, professora, ou algo assim, bem convencional mesmo, cem por cento família. Nas noites – e eu já a vi em ação, numa calçada – ela se transforma de fato, Cinderela ao contrário. Sinceramente? O charme que ela carrega, com sua minissaia, seu casaquinho decotado, seus saltos de doze centímetros e suas meias escuras– céus! – é de fazer inveja a muita mulher. Aliás, ela é uma figuraça. Adoro ela. 

  • Bom dia minha filha… Eu tenho consulta marcada com o Dr. Fulano…

Esta é novata aqui… Parece gente fina. Tailleur bem arranjado, cabelos bem pintados, joias faiscantes, bolsa de grife, motorista na porta. Abrolhe logo o prontuário e deixo-a na sala de espera, fazendo companhia a minha amiga desinibida. Vamos ver no que dá…

  • Bom dia…
  • É cliente do Dr. Fulano?
  • Costumo ser, quando ele pode atender. Mas tem os outros também, são todos bons…
  • Pois eu só vou naqueles em quem adquiro confiança. Aliás, nessas questões prefiro médicos homens. Meu marido fica contrariado, mas sei lá, as mulheres nem sempre acertam com o corpo da gente.
  • Pois para mim tanto faz… Acho que o exame feito por mulher dói menos, afinal de contas, né, é um pedaço da gente que ela tem obrigação de conhecer melhor. Mas para mim é indiferente.
  • Você é casada ou solteira?
  • Solteiríssima… Na verdade, mais ou menos.
  • ?
  • Ah, solteira, pra todos os efeitos.
  • Não tem vontade de casar?
  • Já experimentei e não gostei.
  • Um bom homem faz falta na vida de uma mulher…
  • Homem bom? Concordo, mas tá difícil de encontrar. Mantendo mais de um ao alcance das mãos as chances aumentam.
  • Nossa, minha filha, você tem cada uma!
  • Mas deixa estar, um dia, quem sabe, arranjo um só pra mim. Não tenho pressa.
  • De minha parte, eu aprecioser casada. Mas tem hora que realmente a vontade de ser livre fala mais alto. E eu fui uma menina tão solta…
  • A gente não nasce mulher; a gente se torna mulher…
  • Como?
  • Nada… Acho que a vida da gente é ajeitada a cada dia. Ninguém é predestinado a coisa nenhuma. O que tem mesmo é muito machão, pais, padres, professores por aí querendo impor regras às mulheres. Mas eu tô fora. 
  • Você deve ser feminista…
  • Claro que sou! Mas do tipo que não enxerga os homens como inimigos. Aliás, adoro eles, desde que não queiram mandar em mim ou me dominar… Neste aspecto, sempre falo com eles: deixa que EU domino! Uns não gostam, outros – a maioria aliás – adora.
  • Você acha mesmo?
  • Tenho certeza. Mas o que chamo de dominar não é ficar mandando os homens fazer ou não fazer coisas bestas, do tipo: ‘não olhe para outra mulher’, ‘hoje você não vai tomar cerveja com seus amigos’, ‘futebol, de novo!?’, ‘hoje não, meu bem, estou com dor de cabeça’ – essas bobagens que muitas abestalhadas vivem aprontando.
  • Mas este negócio de dominar… complicado, né? Eu fui criada numa família de mulheres, meu pai faleceu quando eu era pequena. Minha mãe e minhas tias sempre tiveram como valor a capacidade da mulher agradar o homem. Mesmo sem homem na família, como era o nosso caso. E eu acredito nisso…
  • Pois eu fu criada no meio de um monte de macho e assim tive que aprender a me virar. Ali na família, o que chamo de dominar era mandar mesmo, sem apelação. Com os ‘outros’, homens que a gente pode escolher, a situação é diferente…
  • Nossa! Escolher homens, nem me passa pela cabeça uma coisa assim. A gente é escolhida, acho. Mas conta como é!
  • É mais ou menos assim: logo que a senhora conhece alguém…
  • Por favor, me chame de você…
  • Pois é, logo que você vê alguém interessante no pedaço, tem que ficar esperta e já chegar marcando posição, sem dar moleza. É pãopão, queijo-queijo! Tem que botar as regras do jogo. Eu sempre faço isso. Depois, pode ir ajeitando aos poucos. Até que um dia você vai dominar um desses machos apenas estalando os dedos ou piscando os olhos. E ele ainda vai pensar que não é você que domina de fato, mas sim ele. 
  • E como você consegue uma coisa dessa? Isso me parece tão complicado… Acho que obriga a mulher deixar de ser feminina.
  • Fácil não é… Tem que treinar. Aliás, para mim, isso é que significa ser feminina de verdade. Ou fêmea, se você quiser. Mas depois de uma boa dúzia de caras passar pelas suas mãos, você pega a manha e não falha mais.
  • Ai, que horror…
  • Que nada, você não sabe como isso é bom. Nos dois lados da mesa, ou melhor, da cama. Nada como uma mulher poderosa ao lado de um homem submisso a ela, mas pensando que ele é que tem o poder nas mãos. Homem é um bicho meio besta.
  • Onde você aprendeu isso, cruzes!?
  • Criada numa família com um monte de machão no meu pé, meu bem. Tem que dar conta. Simples assim. Mas hoje eles me respeitam de verdade. Tanto que nenhum deles me enche a paciência pela profissão que tenho…
  • Mas qual a sua profissão, minha filha?
  • A senhora quer saber mesmo?

Neste exato momento, Doutor Fulano assoma à porta e a potestade feminina é chamada para atendimento. Já de entrada, troca um rápido e fraterno beijinho com o médico, que graceja com ela alguma coisa relativa à sua ausência desde a última revisão.

Madame oxigenada recorre a mim:

  • Que moça interessante, né? Queria continuar conversando com ela. O que ela faz na vida.
  • Acho que é pedagoga, terapeuta, algo assim…

É o que consigo explicar a Madame, depois de alguns segundos de suspeitoso silêncio.

Aí ela desabafou. 

  • Sabe, entendi direitinho o que ela é. Ganha dinheiro e presentes para dar amor. Infelizmente é o que acontece comigo também, não nas ruas, mas dentro de uma casa cheia de luxos. Tenho até vergonha de dizer. A diferença é que faço isso com um único homem, que na verdade detesto.  Mas ela, pelo menos, parece bem feliz com a sua vida. E eu carrego isso como um peso, uma fieira de pecados. E ela com essa leveza, essa segurança e essa alegria toda. Que inveja… 

Ah, Simone, Mme. Du Beauvoir:  você disse tudo! Fico vendo essas louras oxigenadas aqui e me vem à cabeça como a nossa condição – ou falta dela – é uma questão de política, de poder. Um monte de temas esquecidos e tabus, as pessoas encontrando palavrinhas doces para falar disso e daquilo, igual essa dona aí. Depois querem compreender, na verdade para negar, a desigualdade e subordinação das mulheres. Não tem essa de ‘pessoal’ ou ‘político’; para mim é tudo assunto para reflexão, discussão e expressão. Não sei como, mas é preciso botar pra quebrar, abrir mais e mais espaço para que mulheres causem, sejam elas mães de família ou garotas de programa – ou as duas coisas, se for o caso. Liberdade, igualdade e libertinagem!  

E nada de deixar para nós, mulheres, apenas aquela infame gaiola de ouro do lar como único possível para nós, este jeitinho seguro de nos deixar mais infelizes e até mesmo invisíveis. E temos que fazer a boa política, com um “P” bem maiúsculo, o mesmo de Poder, de Pública, de Plenitude, de Putaria e de Pênis. Que se danem os machos com sua cidadania, feita à imagem e semelhança deles, deixando para nós, mulheres, apenas o ‘governo’ daquele mundinho privado, feito de necessidades, afetos, desejos e fraldas para lavar. Que se danem! 

Já ouviram falar da tal de Penélope? Acho que é uma daquelas famosas mulheres de Atenas. Ser uma dessas aí, nem de longe, Deus me livre. Passo! Gente como esta Madame Oxigenada que pela vida a fora faz apenas o papel de esposinha que espera e espera, para depois servir e se entregar a um sujeito mais forte. Será que passa pela cabeça de alguém assim ser forte também? Madame, pelo visto, sonha com um lado puta que ela não conhece direito. E mal consegue imaginar o que é liberdade, igualdade, insubordinação, libertinagem, autenticidade – essas coisas aí. 

E eu? O que quero da vida? Acho que ainda não sei, ainda não cheguei aos trinta anos e tenho tempo para pensar nisso. Mas tenho muitas certezas sobre o que não quero. Acho que me seria de bom tamanho encontrar um homem legal para ficar ao meu lado, carinhoso, educado, culto. Deve existir algum por aí. Mas pensando bem, nem precisa ser homem… 

Agora volto ao trabalho. Garota já se foi e Madame me traz um monte de resultados de exame que eu preciso organizar, antes de encaminhá-la à sessão de abre-pernas com o ginecologista. Qualquer hora faço essas duas se encontrarem de novo. Ora se faço… E quero assistir a conversa. Vai sair fagulha! A Puta vai parir outra Mulher. 

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