Ó Deodoro…

– Sai cá fola Deodola, ganhar mulo na cachola.

O nome dele era Deodoro, nosso professor de Geografia, uma rara unanimidade em termos de ódio – também de algum temor – por parte de quase todos naquela terceira série “C”. Graveto, nosso literato de ocasião, com vasta obra publicada nas portas dos banheiros da escola, a nos liderar no desprezo a tal figura, jogava com palavras e métricas a seu bel-prazer, compondo assim hinos que usávamos para maldizer Deodoro e vazar os sentimentos vadios que mantínhamos a respeito dele.

Ele se apresentava, altissonante, perante aquela turma de meros adolescentes, como herdeiro de um nome que lustrava a República, por tê-la fundado um dia. Entre nós, todavia, tal verbo era mais conhecido na sua aplicação aos sapatos ou ao assoalho de nossas casas, conferindo assim a Deodoro mais um dos inapeláveis apelidos com que o batizávamos: Parquetina, o nome de uma cera famosa na época.

Disso se aproveitava o Graveto: Parquetina, parquetina, perde o rumo em cada esquina.

Dito ainda mais feroz, entre outros numerosos que o Graveto compunha, descambava para o pornofônico: – Ó Deodoro se eu fosse como tu, pegava esta vareta e enfiava ela no …

Tal objeto, no caso, era um estípite de palmeira, ainda mantendo os pecíolos de fixação das folhas, arma perigosa com a qual éramos açoitados quando convocados ao quadro negro errávamos alguma pergunta de Deodoro, feita à queima roupa ou, mais frequentemente, quando aprontávamos alguma confusão na classe.

Açoitar, no caso, não passava de uma intenção de Deodoro, malsucedida aliás, na maioria das vezes, já que ele, catacego como era, carecia de pontaria suficiente para alcançar alguma nádega, braço ou perna dos desavisados. Mas dava gosto ver sua alegria quando, por acaso, conseguia acertar o alvo. Alegria que era nossa também, porque como bons adolescentes, com a maldade já bem estabelecida e arraigada em nossos corações, adorávamos ver alguém levar uns cascudos, principalmente se fosse em nosso lugar.

E não deixava por menos o implacável Graveto: – Deodoro, Deoduro, quantas pregas tem seu furo? Cantava isso em ritmo de marchinha, acompanhado de furiosa batucada comandada por Paschoal e Renato, que mais tarde fizeram carreira em tal ramo musical.

O mau humor de tal figura era conhecido de todos ali na escola estadual que atendia pelo esdrúxulo apelido de Calógeras, tendo como primeiro nome, pior ainda, Pandiá.

Um dia alguém, um daqueles sôfregos estudantes do Pandiá, a mando do professor ao lado, veio pedir o apagador emprestado na nossa sala, objeto daqueles antigos, feito de madeira e feltro, recoberto de pó de giz como se fosse um quitute à milanesa: – Professor Sardinha manda pedir o apag…  Não terminou a frase, pois de súbito rugiu o terrível Deodoro: – Diga a ele que lugar de Sardinha é na lata – fechando a porta com estrépito, com um pontapé bem aplicado, certeiro na ocasião.

– Deodoro, Deodoro, diz o Diabo: te adoro!

No meio de tanta ira e mau humor, Deodoro ainda conseguia se exorbitar em verdadeiras escaladas de histeria e exaltação. Nos dias de prova, por exemplo, caso suspeitasse de cola, punha-se, com sua espada improvisada em riste, a percorrer os quatro cantos da sala e mesmo enxergando pouco, fazer com que suspeitos fossem separados, na verdade em troca de nada, porque muitas vezes as mensagens ilícitas não ocorriam entre os afetados pela intervenção, mas sim entre outros, muitas vezes antípodas àqueles que foram punidos. O mesmo acontecia se por acaso Deodoro sentisse cheiro de fumaça de cigarro, fato costumeiro naqueles dias, quando esteve em moda na escola o hábito de acender um Luiz XV ou um Continental para fazê-lo circular de mão em mão, de tragada em tragada, ao longo das abafadas salas de aula do Pandiá. Quase sempre os expulsos da sala não tinham nada a ver com tal história, da mesma forma que um ou outro acusado de manter conversas indevidas em algum canto da sala.

Os afetados acabam por parar na diretoria, prestando contas aos encarregados disciplinares, Irineu e Alcides, que na verdade eram amigos de todo mundo e mal e mal mantinham os faltosos sentados por alguns minutos em sua sala, para logo depois devolvê-los, sem mais, à sala de aula – no máximo após o próximo intervalo.

De sua parte, Graveto não perdoava, por exemplo, quando aconteceu a história do rato, na verdade um mísero camundongo encontrado morto na cantina da escola. O poeta atou-o a um barbante, pendurou em uma luminária do corredor, defronte à nossa sala de aula e não desperdiçou a oportunidade de poetizar: – suicidou-se este ratinho, batizado Heliodoro, um dia só por maldade, seu nome se viu mudado, e assim virou Deodoro.

Como se não bastasse haver tanto pano para manga, Deodoro criou e chefiava, na escola, uma tropa de escoteiros, ao qual ele chamou de Pa-Ca, assim com o “P” e o “C” maiúsculos, juntando as duas sílabas iniciais do nome e sobrenome da escola. Na verdade, ele não tinha condições de liderar ninguém em caminhadas pelo mato, armação de tendas, utilização de bússolas, elaboração de nós em cordas ou coisas semelhantes. Usava com orgulho a tradicional calça curta, que só lhe fazia exibir as varizes e o branco violáceo das coxas, o chapéu de polícia montada e o dólmã de corte militar da corporação inventada por Baden Powell. Valia-se, porém, para completo exercício de suas funções hieráticas, da generosidade e da abnegação de dois ou três rapazes, seus ex-alunos, os quais, apesar dos rompantes e idiossincrasias do chefe, conseguiam tolerá-lo.

Sua estima pelo escotismo e pelos símbolos a ele associados se completava pela narrativa entusiasmada com que ele falava de um filho militar que estaria prestes a concluir o curso de formação de oficial do Exército na Academia de Agulhas Negras, nome que ele pronunciava de boca cheia, quase a se engasgar de orgulho. Para o filho e seus colegas de farda, compusera até um hino laudatório, que uma vez ou outra, em dias de bom humor, trauteava desajeitadamente em plena sala de aula ou nas fileiras dominicais do escotismo. Uma coisa cheia de chavões e jargões do meio militar, em que um verso, se bem me lembro, dizia: – essa é a nossa infantaria, arma sempre valente e forte.  Depois se descobriu, tal hino à infantaria era um pastiche da marcha Colonel Bogey, trilha sonora de um filme que fez muito sucesso na ocasião, A Ponte do Rio Kwai.

A história do filho foi devidamente condimentada pelo colega Esterlino, o Baiano, cujos avós eram vizinhos de Deodoro. Segundo esse indiscreto, na verdade, havia uma suspeita, na vizinhança mais próxima, de que tal filho cadete na verdade não existia, apesar de ser muito apregoado, suspeita reforçada por certo desabafo da esposa de Deodoro, que um dia disse à avó de Esterlino: – minha maior tristeza é a de nunca ter conseguido ser mãe.   De toda forma, ninguém de fato nunca viu ou conheceu o bravo cadete das Agulhas Negras.

Para tal acontecimento, Graveto emprestou sua verve: – Marcha soldado, cabeça de papel, lá vem o Deodoro, tocar fogo no quartel, acrescentando, em modo escatológico e de total non-sense, mais uma referênciaà verve baden-powelliana do homenageado: – Rataplã do Deodola, mija na garrafa, caga na sacola.

Em seus momentos de ira, não cansava de repetir que não tinha medo de nós, seus alunos, pois no passado lidara com pessoas ainda piores, sem esclarecer exatamente que tipo de gente era essa. Um dia, porém, a verdade apareceu. A tia do colega e escoteiro Dalton, que era advogada, ao vê-lo em uma cerimônia do Pa-Ca, logo o reconheceu como antigo diretor de uma penitenciária agrícola nas proximidades de nossa cidade, dali afastado por algumas incúrias, que iam desde desvio de alimentos até castigos físicos pesados aos detentos.

E era uma figura assim que nos ensinava Geografia. Melhor dizendo, nos fazia decorar o nome dos afluentes da margem esquerda do rio Solimões e o nome, em ordem de proximidade do Sol, dos planetas do sistema solar, além das raízes etimológicas de palavras como setentrional ou meridional.

Graveto, é claro, nadou de braçada em tal episódio: – Vá plantar batata, Deó, cuidar do gado e da porcada, tem dó, e me deixa sossegado…

Um dia Deodoro articulou um acampamento dos escoteiros do Pa-Ca nas terras de uma instituição religiosa, situada nas montanhas a leste de nossa cidade, aonde chegaram após uma interminável viagem em um caminhão Chevrolet. Nos três dias que ali ficaram, os pobres viajantes quase morreram de frio, de insolação, de fome e do ataque de carrapatos e carapanãs. Na volta, passando de meia noite, foram abandonados à própria sorte na porta do Pandiá Calógeras, tendo que acabar chegando em casa por conta própria em plena madrugada, numa cidade que já esboçava seus primeiros sinais de violência urbana. Os pais se revoltaram, mas nada puderam fazer, dada a mística de intocável que rodeava o professor Deodoro.

E assim decorria a história deste sujeito singular, menos para o bem do que para o mal.

O tempo passou, os anos correram, naquela década em que eu entrei menino e saí formado em faculdade e mergulhado no mercado de trabalho. Um dia, já maduro, 10 anos depois de ter passado por ali, resolvi visitar o velho Pandiá, agora reformado e cheirando a novo. E não é que o velho Deodoro ainda andava por lá? Vagando pelos corredores pude vê-lo em atividade através de um vidro que agora fora instalado em cada uma das salas de aula. Não consegui ouvir o que ele dizia, a vara espinhenta tinha sido substituída por um bastão de bambu, mais leve e liso, mas a gesticulação agitada dele era a mesma, cuidando de usar a ferramenta apenas para apontar coisas escritas na lousa, não mais para aplicar castigos. Os óculos do tipo fundo de garrafa pareciam acrescidos de novos círculos concêntricos. Ele ainda usava terno marrom, além de colete e gravata.

Santa Mãe de Deus! Lembrei-me de Graveto, de imediato. Queria ter um pouco da sua verve agora, não para castigar o Deodoro, mas talvez para homenageá-lo pela longevidade de sua atuação como professor. Só me ocorreu dizer, de mim para mim, o seguinte: – Ó Deodoro, se eu fosse como tu, saía dessa classe, e ia descansar… Sem rima, sem cacofonia, sem qualquer maldade. Juro…

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