Um dia qualquer na minha vida

Sinceramente, se um dia eu melhorar de vida, minha primeira providência será mudar de apartamento. Este aqui onde eu moro é uma apologia ao mal-estar habitacional, valendo isso para qualquer lugar do mundo. Talvez na Etiópia ou no Haiti fosse aceitável… Ora, vejam só. Para entrar em casa tenho que passar por este corredor escuro e interminável, com umas trinta portas enfileiradas. É tão escuro que eu não seria capaz de identificar a cara de qualquer um dos vizinhos se por acaso um dia os encontrasse à luz do dia. Nos fundos, dando para a cozinha, um inominável buraco central quadrado, para onde convergem dez andares empilhados, fluindo por ele coisas tão diversas como cheiro de comida (ou sei lá de quê), conversas (entre estas xingamentos e suspiros de amor), música (de todos os tipos, principalmente cafonas e detestáveis), rádios ligados (em volumes escandalosos) etc.

No quesito rádios, sou atingido todas as manhãs por alguém, ignoto, habitante do andar de cima, que faz questão de compartilhar comigo e outros terceiros, de forma generosa e democrática, suas preocupações com o andar da carruagem do mundo.

Tem uma vantagem, o dia que o Planeta de fato der seu último suspiro, não serei incinerado ou soterrado sem estar avisado previamente. É o meu consolo.

Um dia, como todos os demais, eu acordo e fico sabendo que Fulano de Tal, em Botswana (ou seria em Madagascar?) ganhou na loteria, mas não pôde auferir o prêmio por ter perdido o bilhete. Acontecimento mais original, impossível. Que raios caídos no Texas atingiram pela décima quinta vez a mesma pessoa, que mais uma vez escapou, ileso. Que nas Filipinas – ou nas Malvinas – um cidadão converteu-se ao budismo (ou seria ao islamismo?) por estar convencido ser a enésima segunda encarnação de um Profeta.  E por aí vai.

É muita informação para uma pessoa só…

Mas nem tudo são notícias boas ou apenas curiosas. Hoje, por exemplo, fiquei sabendo que um ilustre concidadão nosso explodiu sua cabeça num acidente de carro. Ele não notara que o sinal estava fechado. Uma multidão de curiosos estava lá para ver e alguns que lá estavam pareciam conhecer o sujeito. Coisa assim, de fato, não é para alguém rir, aliás, muitos devem estar chorando agora. O locutor mostra-se preocupado em passar informações realmente confiáveis e nos esclarece que fotos do acidente e da própria vítima estão disponíveis em www alguma coisa, à disposição de todos os ouvintes

Quem seria ele, o cara da cabeça explodida? Algum político, para chamar tanta atenção e ocupar tanto tempo de noticiário? Isso, o dedicado locutor não esclarecia, mas adiantava que a reportagem tentara saber, mas ninguém tinha informações confiáveis.

No dia seguinte, o assunto havia mudado. Agora, finalmente, ampliou o escopo de suas preocupações, falava de uma guerra, não sei bem em qual parte do mundo. Era alguma coisa que nos dizia respeito também, pois em certo momento ele falou – se entendi bem – que os nossos rapazes estavam ganhando as batalhas. Narrava aquilo como um filme, um documentário, como se ele estivesse acompanhando as ações passo a passo com os tais rapazes que nos eram tão próximos. E ele informava que muita gente já havia telefonado para a emissora para saber mais detalhes daquilo. Ó meu Deus, pensei, e eu que até há pouco não sabia de nada? De repente me lembrei que eu até já tinha lido um livro sobre tal acontecimento, mas isso não me ajudou muito, pois eu continuava incapaz de dizer onde se davam tais coisas e quais seriam suas implicações para a vida de gente como nós, vivendo tão longe dali. E diligente locutor subia o tom, repetindo – ou ameaçando – como se fosse alguém que me conhecesse pessoalmente: – nós vamos colocar você ligado nisso!

Quem mesmo? Eu? Por que justamente eu? Que diabos, ser acordado por uma parolagem assim tão sinistra? Caramba! O que eu tinha a ver com isso? Logo hoje…

Pois é, logo hoje, quando acordei de um sono péssimo, com humor pior ainda. Ontem eu havia saído com a Joana e brigamos, pra variar, depois de termos entornado umas quinze cervejas, tudo agravado por ela ter insistido num antigo tema, a suspeita da presença de uma Lia em minha vida, pura mentira, apenas porque alguém com este nome, que aliás era Lea, tinha me ligado uns dias antes e Joana ter visto o registro da ligação no meu celular. Bem-feito, quem manda bisbilhotar a vida dos outros?

Joana tinha vindo dormir comigo, motivo principal era ter perdido o último lotação, não por querer algum carinho vadio de minha parte. Aliás, dormimos de conchinha, mas cada um para o seu lado, assim )(. E foi ela que me acordou, ou tentou fazer isso: hei acorda, caia fora dessa cama – com a sutileza de um caminhão de lixo. E mais: onde tem um pente para eu me pentear? Não tem um simples cigarro nesta casa? Você não tem a porcaria de um casaco e de um chapéu para me emprestar, com essa chuva lá fora?

Essa é a Joana que eu bem conheço. Nunca muda, só fica piorzinha.

Para descer a escada – faltava luz e o elevador estava parado – mais um escândalo joaneiro: você não vai me ajudar a descer essa p* de escada.

Eu, atrasado como estava para ir trabalhar, falei pra Joana se virar sozinha e fui tomar um banho. É hoje que aquele polaco vai me encher a paciência e pode até me demitir.

Ah, sim, só faltava uma coisinha naquela manhã azeda: o rádio do vizinho e seu indefectível locutor. As notícias do dia, mal começado, já rolavam por lá, furiosamente. Em algum lugar do mundo, acho eu nos territórios em guerra, uns tantos buracos haviam sido abertos. Quatrocentos buraquinhos, coisa atoa… Alguém teria se dado à pachorra de contá-los, todos? – Quantos buracos caberiam no teatro municipal – será mesmo isso que eu ouvi? Solícito, o locutor me cobria de gentileza: – nós vamos ligar você nisso.

Desci a escada ainda muito trôpego, para subir no ônibus foi outro esforço, quase fui derrubado já no primeiro degrau. Quando finalmente, subi, vi que aquele não era da linha que me levaria ao trabalho. Tive que descer e começar tudo de novo.

De repente, um som atravessou e espaço e parecia vir cair direto sobre mim. Começou como uma longa buzinada de navio e se completou como um toque de piano que alguém fizesse com um murro e não com os dedos. Ou melhor, parecia que este piano inteiro se esborrachava na calçada, caído diretamente de algum oitavo andar.

Escapei com vida, mas por favor me socorram, não estou entendendo nada, isso deve ser um sonho ruim, vou esperar passar.

 ***

Sim, mais uma de Segunda Mão. Legítima! Desta vez Lennon e MacCartney, A day in the life, em versão brega-punk, nada psicodélica.

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