Tem alemão no Grande Sertão

Revi, por esses dias, um curioso filme que eu havia assistido anos atrás, aquele Cinema, Aspirinas e Urubus, um road-movie nacional dirigido por Marcelo Gomes. O enredo é inspirado em relatos de viagem de um antepassado dele, que em suas andanças como mascate nos sertões da Paraíba conheceu um alemão que por ali vendia medicamentos e atraía clientes exibindo filmes de divulgação, até que veio a Guerra e os negócios da companhia Bayer no Brasil foram suspensos. O filme transcorre com graça e leveza, mostrando mais uma vez uma grande interpretação do ator baiano João Miguel, que faz o papel de um carona curioso e também meio filósofo, dado a especulações metafísicas. Mas, na verdade, o que me provocou mais atenção foi a lembrança que tive de um personagem de Grande Sertão: Veredas, um alemão também perdido (ou achado) no interior do Brasil em missão comercial. É dele que quero falar: um estrangeiro perdido no Grande Sertão central do Brasil, conforme relatado pelo seu grande explorador, João Guimarães Rosa. Mas como uma coisa puxa outra, aproveitarei para falar também de alguns outros estrangeiros que andaram por aqui e que por motivos variados amaram o Brasil ou pelo menos produziram coisas importantes sobre nosso país.

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Adoecer e morrer no Grande Sertão

Guimarães Rosa era médico e clinicou por alguns anos, seja como clínico na Polícia Militar ou no interior do estado, em Itaguara, na região central de MG. Ser o escritor afamado é coisa que veio mais tarde, quando já havia abandonado a medicina e se tornado diplomata, por concurso, no Itamaraty. Mas a presença de doenças e doentes em sua obra é constante. Neste presente e despretensioso trabalho pretendo levantar um pouco da visão médica em suas narrativas e personagens, particularmente no Grande Sertão. A presença de gente enferma em sua obra é marcante, com ampla dominância dos portadores de doenças mentais, como é o caso de boa parte dos personagens de suas Primeiras Estórias. Ali estão, por exemplo, o homem que subiu em uma palmeira e se recusou a descer; a menina que tinha visões; o refugiado na terceira margem do rio; o dono do cavalo que bebia cerveja; o escravo que preparava o pouso de discos voadores; para não falar da pungente história do Sorôco, que vai levar sua mãe e sua filha para terrível embarque no trem que tinha um vagão destinado apenas aos condenados ao hospício de Barbacena. Narrativa especialmente saborosa, apesar de dramática – além de detalhada do ponto de vista clínico – é aquela que fala de Turíbio Todo, personagem do conto O Duelo (em Sagarana), o qual, em ímpeto vingativo, bem típico dos Sertões, acaba por matar por engano o irmão de um militar, Cassiano, que lhe cortejava a mulher e que parte para cima dele em busca de vingança. Turíbio era um papudo, ou seja, portador da hipertrofia tireoidiana por carência de iodo, coisa comum no Brasil de décadas atrás. A descrição de tal papo é um primor de observação clínica: …bilobado e pouco móvel – para cima, para baixo, para os lados. E ironiza: não o escandaloso ‘papo de bola, quando anda, pede esmola’, acrescentando:  ninguém nasce papudo ou arranja papo por gosto, recorrendo ao conhecimento vigente na época (década de 30), hoje superado, atribuindo o problema de Turíbio às tentativas que o grande percevejo do mato faz para se tornar um animal doméstico nas cafuas de beira-rio, onde há também cúmplices, camaradas do barbeiro, cinco espécies, mais ou menos, de tatus. E prossegue, falando de tal personagem, neste momento do conto mais importante do que seu próprio portador: … e tão modesto papúsculo, incapaz de tentar o bisturi de um operador, não enfeava seu proprietário; antes o fazia até simpático: forçado a usar colarinho e gravata, às vezes parecia mesmo elegante. O papo de Turíbio Todo volta à cena em outros momentos do conto, agora dominado por uma frenética perseguição ao longo dos sertões de Minas, digna de um filme de Peckinpah. Cassiano, o desafeto do tal papudo, este sim, vai se revelar vítima autêntica do grande percevejo do mato, ao falecer em estado de congestão cardíaca, em pleno périplo de perseguição ao marido ciumento. Mas nem por isso deixa de consumar a vingança pela morte do irmão. Quem quiser saber como e por quê que leia o conto – bom proveito certamente o espera. No mesmo Sagarana, o conto Sarapalha narra a história de dois primos roceiros,  derrotados pela maleita e por um amor frustrado, sobre o qual a verdade se anuncia, por descuido de um deles, durante um acesso de febre, revelando uma traição em família, que desemboca em tragédia.

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Feitos de Luis Miranda

Caramelo

– Sim, passou por aqui. Ficou assentado ali naquele canto, pediu uma cerveja, abriu o celular e logo desistiu dele, já que aqui não tem sinal e ficou durante uma hora por aí, aparentemente sem ter muita coisa a fazer. Ou melhor, foi ter com a cachorrada. Aqui geralmente se reúnem uns dez ou mais desses, vivem todos soltos por aí, os donos não cuidam, sabe como é. Tem uns mais ariscos, mas aquele grandão lá, o Caramelo, sem vergonha como ele só, logo se faz chegado a todo mundo que passa por aqui. Parece até que já nasceu junto com a pessoa, na casa dela, criado ali no angu de cada dia. Com este sujeito aí, a amizade parece que nasceu de imediato. O sujeito ficou agachado ali na beira do rio e logo o rodearam uns quatro ou cinco cachorros. No final ficou só ele com o Caramelo e ali estiveram por um bom par de horas, ele jogando pauzinhos para o danado do cachorro buscar, o bicho correspondendo. Pareciam de fato velhos amigos. Dali foi fazer uma caminhada e lá foi o Caramelo atrás dele. Deve ter dado uma volta grande, pois demorou bem mais de uma hora para aparecer de novo. O Caramelo sempre com ele, sem desgrudar. Voltou aqui e comprou um pacote de biscoitos de polvilho. Comeram juntos, ele e o cachorro. No final, dividia cada biscoito em dois e comia um pedaço e oferecia ao Caramelo a outra metade. A esta altura já tinha até botado um apelido nele, que o bicho aceitou como se já tivesse nascido com tal nome. Voltou à brincadeira dos pauzinhos, mas a esta altura o cão já queria outra coisa, parece que descansar, nada mais. Deitaram-se, então, na sombra daquela ingazeira e ali ficaram por mais de uma hora, num sono daqueles. Fiquei impressionado, o Caramelo é dado a intimidades com todo mundo que passa por aqui, mas daquele jeito eu nunca tinha visto. Quando desceu para conversar com as lavadeiras, lá foi o Caramelo atrás dele. Aquilo era amizade pra vida toda, parece. Deve ser um cara legal, acho que quem trata os bichos daquele jeito só pode ser gente boa.

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Conta um velho manuscrito…

Conta um velho manuscrito que um antigo Profeta, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Ele se sentia humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja totalmente nova e distinta da anterior não seria o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez. E pensava ele: escritura contra escritura, breviário contra breviário. Terei o meu próprio ofício, com favores distribuídos à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja, uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim nem Maomé, nem Lutero, nem algum outro Salvador. E concluiu, de modo bem filosófico:  há muitos modos de afirmar, mas há só um de negar tudo.

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Estórias de rossa e certão

Aqui vão mais algumas histórias (ou estórias) inventadas por mim. Podem chamar de “contos”, mas não sei se chegam a merecer tal categorização. Todas elas têm como pano de fundo a vida no interior, ou melhor, nos interiores, do país, tentando captar nuanças da personalidade dos brasileiros que por opção ou descuido aí vivem ou de tais lugares procederam. O título meio esquisito devo a … Continuar lendo Estórias de rossa e certão

Não fica um, meu irmão… (Farsa sanitária em dois atos)

Personagens: Carlos Afonso (também denominado Cento e Cinco); Percília – auxiliar de enfermagem; Rosa Emília – enfermeira chefe; Moça da limpeza; Santa Eufrásia (voz em off); Doutor Rivadávia; Agentes policiais (1 e 2). Cenário: enfermaria de hospital, com duas camas típicas, em uma das quais está Carlos Afonso, vestindo um pijama listrado, visivelmente curto para o seu tamanho. Na cabeceira de tal móvel uma placa … Continuar lendo Não fica um, meu irmão… (Farsa sanitária em dois atos)

Tributo a Ricardo de Freitas Scotti, com quem muito aprendi

Quando soube da passagem deste meu amigo, procurei logo saber informações biográficas mais detalhadas sobre o mesmo, pois gostaria de homenageá-la aqui neste espaço. O Conass, Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde, em cuja construção ele teve participação fundamental, me atendeu e me municiou logo sobre tal pedido, mas cheguei à conclusão de que não precisaria dispor de tais dados, pois o que realmente fazia sentido para o meu relato era o que a memória me trazia de maneira farta, sem outros adereços.

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Viagem ao Gerês, Portugal, 2025

Peneda-Gerês, um parque natural em Portugal. Eu já havia estado lá, em 2015, mas tive nova oportunidade, em março de 2025, de fazer uma viagem mais profunda, embora com a duração de apenas um dia, na companhia de meu amigo Eduardo Guerra, agora transformado em cidadão português. O Parque Nacional da Peneda-Gerês é uma área protegida, o único parque nacional em território português, situado no extremo norte do país, entre as regiões do Minho, Trás-os-Montes e a Galiza, passando ao outro lado da fronteira com a Espanha, onde é chamado de Xurés. É um território de serras e florestas sem fim e dele muito bem disse meu amigo Eduardo: eu pensei que conheci montanhas em Minas Gerais, minha terra, mas foi aqui que as vi de verdade. Ali nascem dois grandes rios portugueses, nenhum deles comparável ao Amazonas ou mesmo ao São Francisco, por certo, mas repletos de histórias e tradições: o Lima e o Cávado. Aliás, em Portugal, os rios sempre correm da fronteira com a Espanha (ou do próprio território espanhol) para o mar. No primeiro caso estão estes dois aí citados, além de outros) e na segunda versão o Minho e o Tejo, que possuem berço espanhol. O Gerês fica a nordeste de Portugal, tendo como cidades mais importantes dentro de seus limites Braga, Guimarães, Ponte da Barca, Arcos de Valdevez e Vila Real, além de outras. Esta área é considerada pela Unesco como Reserva Mundial da Biosfera, importante na conservação do solo, da água, da flora, da fauna e da paisagem. A prestimosa Wikipedia o define como uma das maiores atrações naturais de Portugal, pela rara e impressionante beleza paisagística e pelo valor ecológico e etnográfico, além da variedade de sua fauna, que inclui corças, lobos, cabras selvagens e aves de rapina, além de uma flora exuberante, na qual se sobressaem pinheiros, teixos, castanheiros e carvalhos. Pela área do parque passou uma antiga estrada romana, a Geira, que ia de Braga a Astorga, na região central da Espanha. Vamos por partes.

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Jornada pelas Montanhas de Minas – Março 2025

Que tal um passeio por montanhas de Minas, suas estradas com curvas a perder de vista, à sombra da mata atlântica e na extensão de seus campos rupestres, acolhendo ainda, em tal panorama, cidades históricas e repletas de monumentos barrocos? Tudo isso com acesso relativamente fácil, a partir da Capital, BH. Vamos lá! Mas também é caso de nos prepararmos para que o deslumbramento não seja apagado por surpresas menos agradáveis. Viajemos, então, através de uma parceria literária, além de amorosa, entre eu, Flavio e minha mulher Keta, tentando fazer um contraponto entre uma visão mais crítica (minha) e afetiva e construtiva (dela), como é habitual entre nós. Aqui vão assim, nas linhas seguintes, nossas impressões sobre tal viagem, as minhas (Flavio) em texto normal e as dela (Henriqueta) em itálico.

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Na flor da idade

Meu Tio e amigo. Hoje me dei conta que a minha vida tinha que mudar. Saí de casa sem saber para onde ir. Por sorte tinha algum dinheiro. Fui para a Rodoviária e por ali vaguei, por horas a fio. Cheguei ainda com a manhã fresca e por ali fiquei até a noite. Procurava um lugar para ir, se afastar de lembranças ruins, de uma vida que me trouxe tanto desgosto, nestes meus vinte anos. Eu, de fato, não sabia para onde ir, queria um lugar bem longe, afastado daqui, para nunca mais voltar. Na bilheteria tive o ímpeto de pedir uma passagem para o esquecimento, se isso fosse possível. Mas de toda forma ficou tarde para voltar atrás, pode acreditar, Tio.

Aqui vão mais alguns contos meus, tendo como personagens jovens pessoas como este aí, com tudo a que têm direito…

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