Pelos Sertões do Urucuia

A presente viagem foi realizada na segunda quinzena de janeiro último (2025), durando apenas quatro dias. Foram participantes dela este blogueiro que vos fala e meu grande amigo Cristiano Barbosa, misto de geógrafo, agitador cultural e cineasta-documentarista, residente em Uberlândia. A ideia era de realizar, ou começar a fazê-lo, um pequeno documentário sobre a região do rio Urucuia, a qual, como se sabe é também um ‘personagem’ de Grande Sertão: Veredas. Seu possível roteiro buscaria por imagens e possíveis referências de Guimarães Rosa, particularmente os chamados jagunços Catrumanos, gente pobre e valente, proveniente do vale de tal rio, os quais, por hipótese, acabaram desarmados, desempoderados e expulsos pelo ‘progresso’ material, particularmente pela entrada em cena do agronegócio na região. Acabamos mudando o foco após o encontro de um extraordinário personagem, que como se verá a seguir, nos revelou novas e interessantes facetas daqueles sertões. Não abandonamos o tema original relativo aos tais Catrumanos, ele apenas ficou para uma próxima etapa.  Narro agora nosso périplo pelos Sertões do Urucuia, através de pequenas inserções textuais, para não cansar os leitores. Vamos lá?

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Dioclécio Campos Junior: in memoriam

Eu o conheci nos anos 80, quando vim a Brasília negociar recursos para a saúde em Uberlândia, na condição de secretário de tal área na cidade. Ele me recebeu em um prédio do Ministério da Saúde na Asa Norte, já de início me oferecendo a sensação de que éramos velhos conhecidos, embora fosse a primeira vez que nos encontrávamos. Aquilo era apenas seu jeito de … Continuar lendo Dioclécio Campos Junior: in memoriam

O enterro da cigarra

Naquela noite, entre as crianças presentes na casa dos avós ninguém parecia conseguir dormir direito. Afinal havia chegado do interior, onde a família tinha raízes, trazida por um portador, uma caixa preta, de madeira envernizada, nem muito grande nem muito pequena, de misterioso conteúdo. Parecia uma daquelas caixetas de goiabada que o avô periodicamente recebia de seus parentes da terra. Mas era muito grande para tanto. Era pequena, todavia, para conter, por exemplo, um móvel ou uma ferramenta, além de leve demais para conter queijos, frutas ou mesmo livros.

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 O crido e o havido

Do justo o certo, do certo o crido, do crido o havido. […] Pois então o senhor mesmo me diga: o que foi que ele foi fazer? Que saiu daqui, em encoberto, na vagueação, por volver meses, mas com ponto de destino… (J. Guimarães Rosa – O Cara de Bronze)

Meu nome é Antônio, mas meu médico, não sei bem porque, resolveu me apelidar de Porfírio. Ou melhor, eu no começo nem sabia de onde vinha tal apelido, mas quando descobri, achei até bem-posto. Depois eu explico.

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Doze Vinténs: Estórias de Roça e Sertão

Doze vinténs. O significado de tal título o leitor descobrirá já na primeira página dos textos que seguem abaixo, depois do “leia mais”. O número doze, além disso, tem significado aqui, pois representa a quantidade histórias contidas (e contadas) na presente seleção. Podem interpretar o título também à luz dos dicionários, ou seja, essas estórias valeriam tanto quanto aquela antiga fração monetária, quase destituída de valor. Sobre serem “estórias de roça e sertão”, como também consta do título, me permito um esclarecimento adicional. Não é que eu seja um especialista em tais territórios, em termos físicos, geográficos ou literários. Nunca morei naquele interior mais radical de que algumas dessas narrativas se ocupam. Mas tenho família com tal origem, por gerações, inclusive aquela imediatamente anterior à minha pessoa. Assim, o que vai aqui são estórias que se passam neste vasto território, mais cultural do que físico, certamente . Mas pensando bem, faz muitos anos que tenho residência, na verdade, no vasto “sertão” dos planaltos interiores do Brasil, primeiro em Uberlândia depois em Brasília. Aliás, passei praticamente a metade de minha vida em tal localização geográfica. E assim, aprendi a gostar de cerrado; de paisagens achatadas, que alguns consideram monótonas, mas eu não; de rios que fluem de e para onde não se espera; de arroz com pequi; de horizontes abertos; de árvores tortas e nem por isso feias ou “erradas”, como diz meu amigo Nicolas Behr.  E assim apresento a vocês estes contos (se é que posso chamá-los de tal forma), que me deram muito prazer ao serem escritos, augurando que isso contamine os meus eventuais leitores também. Em tempo: “Doze Vinténs” não é um nome exatamente fictício . A bem da verdade, era este o nome da antiga fazendo do meu avô Altivo Drummond de Andrade, em Itabira, onde eu mesmo morei por alguns meses, antes de completar um ano de idade. Mas nenhuma dessas narrativas tem a ver diretamente com fatos reais, são todas totalmente ficcionais, com uma única exceção, naquela parte denominada de O Mato de seus Perigos, a qual, ao lerem, meus leitores saberão a razão disso..

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Catrumanos

Estavam ali no que restava de sombra no pequizeiro, defronte à pamonharia à beira da rodovia, já havia pelo menos uma hora, e a condução não aparecia. Logo naquele dia, sexta feira, em que era possível tirar uma folguinha, tomar uma cervejinha com os amigos no armazém da vila. E tirante isso, não tinham em toda a semana nadinha, uma nesguinha que fosse, de qualquer tempo livre, porque no sábado era dia de ir fazer compras, limpar o galinheiro, dar uma rastelada no quintal, que já estava até parecendo fazenda de viúva. E Nhá Sebastiana não ia deixar por menos, arreliada do jeito que era, a encher a paciência deles até ficarem cansados e, sem ter outro jeito, tocarem a fazer o serviço, sem reclamar. – O sol já vai embora e eles não aparece, disse o mais velho… – Todo dia é essa quizumba, repostou o outro.

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Grande Sertão, grandes Chefes

Depois de mais de 50 anos lendo e relendo Guimarães Rosa, em particular este Livro dos Livros que é Grande Sertão: Veredas, ainda me encanto, não só com a forma e o estilo, mas também com a sabedoria que ali se carrega, por exemplo, a respeito de ser, estar e conviver no mundo; de ajudar a compreender as lições que isso nos traz; de saber ir atrás do quem das coisas; ou saber fazer novas perguntas sobre a condição humana, conforme expressões do próprio JGR. Foi assim que me dei ao trabalho de procurar neste sempre encantador e surpreendente GSV, precioso manancial de ideias e reflexões sobre a vida vivida, algo fundamental na vida de hoje – e de sempre: os desafios da liderança. Se formos aos manuais clássicos veremos que isso implica, entre outras coisas, em capacidade de comunicação; relacionamento com os comandados; consciência de se estar em equipe; transparência e sinceridade; capacidade de ouvir e saber se pronunciar em horas certas – coisas assim. E mais: ser um personagem inspirador – este talvez seja o atributo mais significativo. Mas não é que no Sertão do Rosa encontrei elementos a ampliar e fazer pensar sobre tal conceito? Sim! Refiro-me às características pessoais de três personagens fundamentais na obra, os chefes Medeiro Vaz, Joca Ramiro e Zé Bebelo. É claro que ser chefe e ser líder são coisas distintas, como nos ensinam os manuais, mas isso veremos mais adiante.

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O Urucuia em Rosa

Você gosta de sertão, de boiada, de vereda de buritis, de velhas cidades à beira-rio? Ou está mais interessado em comer um bom surubim ou dourado na brasa? Tudo bem, não chegaria a recomendar leituras em Guimarães Rosa, se bem que se você quiser levá-las na bagagem, será de bom proveito. Pegue seu carro (qualquer modelo, desde que esteja com boa mecânica, pneus novos, etc.) e siga comigo. Vamos pegar a saída norte de Brasília. Passando Formosa, você logo estará em altos chapadões o que só perceberá ao fitar o horizonte ainda mais amplo que o de Brasília. Esqueça – ou finja que não vê – a feia periferia de tal cidade e principalmente as bandeiras deste Brasil que não é o nosso que estão por toda parte. Siga em frente, deixando de lado o latifúndio totalmente improdutivo que é a imensa área pertencente às Forças Armadas à direita da estrada. Na primeira encruzilhada, virando à direita (apenas no sentido literal, da estrada…), a cidade que você logo encontrará, Cabeceiras, indica a situação geográfica da região, parideira de grandes rios. Aqui, a água flui para o São Francisco; um pouco antes para o Paranã, afluente amazônico e, mais atrás, para os formadores do São Bartolomeu, que via rios Paranaíba e Paraná, acabam desaguando em Buenos Aires. Cabeceiras de um continente, meu senhor! Algum corguinho verdoso desses – sem maiores pretensões – vai acabar dando no Urucuia, que corre para o Velho Chico. São personagens de uma história que está para começar. Deixa que eu apresento este Urucuia, “rio vermelho” na língua originária, que aqui principia a correr mundo e é marcante personagem de Grande Sertão: Veredas. Nada como viajar por ele na voz do próprio Guimarães Rosa.

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