Considerações sobre as eleições para o CFM em 2024

Meu amigo (há mais de 60 anos) Eduardo Guerra, também médico como eu e que já foi presidente do CRM-DF, sub Secretário de Saúde, além de outros cargos, preocupado com o andamento da escalada de ultradireita no movimento médico do país, inclusive em seu organismo principal, o Conselho Federal de Medicina, me manda um texto bastante elucidativo de sua autoria, sobre esta situação preocupante, não só para nós médicos como para a sociedade brasileira como um todo e a Democracia em geral, que prazerosamente reproduzo abaixo.

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Por serras, morros, rios, vales – e História: uma festa em Sabinópolis

A Cordilheira. Talvez seja exagero chamá-la assim. Suas alturas máximas pouco passam de dois mil metros e sua extensão – assim mesmo descontinuada em alguns trechos – não chega a mil km. Além disso, não serve de divisa a países, nem mesmo a estados, já que percorre, no sentido Norte-Sul, apenas uma parte da área central de Minas Gerais e da Bahia, não chegando a cortar seus territórios de ponta a ponta. Sem dúvida, entretanto, a Serra do Espinhaço, tem presença marcante na vida de muita gente, mesmo que muitos de seus habitantes nem se deem conta que ela existe. De toda forma, é considerada pelos geógrafos como a única real cordilheira do Brasil. Recorrendo à prestimosa Wikipedia, vejo que ela se situa no chamado Planalto Atlântico, formada há mais de um bilhão de anos a partir de terrenos da era proterozóica, o que a faz rica em jazidas de minerais diversas, entre eles o ouro e o ferro, que contribuem para dar a estas montanhas um estatuto de importância econômica – ao mesmo tempo de devastação da natureza. Em Minas, o tal do Quadrilátero Ferrífero, situado ao longo de sua sombra é prova disso. Mesmo quem não se liga em geografia conhece ou já ouviu falar de algum de seus núcleos populacionais históricos: Ouro Preto, Mariana, Sabará, Serro, Diamantina, Grão Mogol e já na Bahia, Rio de Contas, Brumado, Mucugê e Lençóis. De entremeio, relíquias coloniais como Santuário do Caraça. Isso para não falar da cidade de Itabira, onde nasceu uma vasta parentada minha – e eu mesmo.

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Família

Família, família / Papai, mamãe, titia / Família, família / Almoça junto todo dia / Nunca perde essa mania…

A conhecida letra dos Titãs, talvez de Arnaldo Antunes, um mestre de poesia, sensibilidade e ironia, tudo junto ao mesmo tempo, fala dos vários lados que toda família tem, seja como afeto ou tédio. Como todas as famílias, a minha é assim também. Aliás, como todas elas, a minha é também única. As coisas, com ela, são sempre as mesmas, mas sem que isso percam sua originalidade e um forte sentido positivo, de pertencimento, palavra que representa, afinal, a parte melhor e insubstituível de poder viver no seio de tal instituição, sempre criticada, mas ao mesmo tempo desejada. Não preciso dizer mais nada. Trago aqui uma galeria familiar pessoal extensa, que cronologicamente parte do passado até chegar aos novíssimos descendentes, meus netos, incluindo também aqueles que ao meu grupo mais próximo vieram aderir, como genros e nora.

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Entre chapadões, morros e rios

E lá vamos nós conhecer a nascente do rio São Francisco. Melhor seria dizer “as nascentes” – mas isso é coisa que depois explicarei. Minha compulsão pela Geografia, entretanto, me obriga a começar pelo caminho de tal ciência, da qual fui aluno aplicado no Colégio. Estamos no Planalto Central e este é o nosso ponto de partida. Mas preciso dar contexto a tal afirmativa, já que a maior parte do território do Brasil é formada justamente por acidentes geográficos com tal nome, ou seja, planaltos.

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Profissão Médica no Brasil: um triste horizonte…

Eu me formei em medicina na UFMF em 1971. Cliniquei por alguns anos e depois resolvi me dedicar à Saúde Pública, tendo trabalhado em órgãos de gestão do SUS nas três instâncias da Federação, com destaque (e orgulho de minha parte) de ter sido, por duas ocasiões, Secretário Municipal de Saúde em Uberlândia. Participei das lutas da criação do SUS no país, nos anos 80 e 90. Por que estou dizendo tudo isso? Já nem sei mais… Melhor me calar…. Recentes acontecimentos envolvendo a profissão medica no país me deixam não só aborrecido, mas acima de tudo quase me obrigam a um silêncio envergonhado. Falo das recentes eleições para a composição, a partir dos estados, do Conselho Federal de Medicina. O que se viu ali representou o ápice de uma gestação ofídica, que já se denunciava desde os alvores da era bolsonarista, ou seja, a conivência e adesão gratuita e desavergonhada dos conselhos de medicina, capitaneados pelo CFM, ao negacionismo, ao reacionarismo e ao arrepio de diversas conquistas culturais e sociais da sociedade. Com efeito, de Norte a Sul do país, dos confins amazônicos aos enormes litorais, o que se viu foi a escolha, por parte dos médicos do país, de uma maioria de indivíduos bisonhos, conservadores e cegos às aspirações da sociedade . O bolsonarismo e seus efeitos deletérios, com efeito, não foram derrotados em novembro de 2022. Qual fênix, ou abutre, embora chamuscado, ensaia seus voos de mau agouro por toda parte. Não somos todos assim, nós médicos, claro. Mas agora, mais do que nunca, temos que buscar e nos apoiar naqueles que honraram as tradições de humanismo, de apego à ciência, de compromisso social que a medicina deveria carregar. Gente como Drauzio Varela, para falar de quem ainda vive e também Noel Nutels, Moacir Scliar e muitos outros, que já não estão mais aqui. Entre estes últimos aproveito a oportunidade para homenagear um médico especialmente notável: Mario Magalhães da Silveira.

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É pouco, mas é o que me foi dado viver…

Fala por mim Luiz Vaz de Camões: Erros meus, má Fortuna, Amor ardente…

Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a Fortuna sobejaram,
Que para mim bastava Amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que já as frequências suas me ensinaram
A desejos deixar de ser contente.
Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa a que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.
De Amor não vi senão breves enganos.
Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!

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Extraordinary people

Não são poucas as pessoas que marcam, de perto e de forma profunda, a vida da gente. Isso depende de como elas são observadas, claro, pois achar gente assim depende muito de saber prestar atenção naqueles que nos rodeiam. Selecionar algumas delas, para figurar dentro de tal galeria de “notáveis” pode não fazer justiça a muitos, ou até mesmo tratar indevidamente a alguns que talvez não o sejam. Vamos combinar, então, um conceito a ser aplicado no caso presente: notável, aqui, traz implícito um complemento: para mim, ou no meu entendimento. Mesmo assim, bem sei, pode ser uma classificação injusta, pois a muitos outros, cuja notabilidade também fosse digna de menção, talvez eu tenha falhado em percebê-la. Dito isso vamos em frente. Aqui vai uma pequena galeria pessoas, sejam colegas de escola e faculdade, companheiros da profissão, professores, alunos, gente, enfim, de quem me aproximei por razões diversas e que me deixou lembranças.

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Sempre Portugal

<<Deus quer, o homem sonha, a obra nasce, / Deus quis que a terra fosse toda uma, / Que o mar unisse, já não separasse. / Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, / E a orla branca foi de ilha em continente, / Clareou, correndo, até ao fim do mundo, / E viu-se a terra inteira, de repente, / Surgir, redonda, do azul profundo. / Quem te sagrou criou-te português. / Do mar e nós em ti nos deu sinal. / Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. / Senhor, falta cumprir-se Portugal!>>

Foi com tais versos de Fernando Pessoa na cabeça que me dei conta que ainda faltava cumprir-se, se não a Portugal, a mim próprio. Afinal, como poderia um brasileiro não conhecer nosso país ancestral? Foi pensando assim que me mandei para lá, pela primeira vez em 2012 e mais outras, em 2015, 2019, 2021 e 2022. E com vontade de voltar sempre. “Que o mar unisse, já não separasse”, enfim.

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Poesia numa hora dessas?

Este é um título imperfeito. Por várias razões. Primeiro porque o que aí vai talvez não possa ser chamado de poesia, realmente. São apenas coisas escritas no calor dos acontecimentos, quando eu era usuário do tal do Facebook, me sentindo obrigado a produzir alguma coisa – qualquer coisa – sempre que acontecesse alguma coisa no mundo ou ao redor de mim. Depois, porque o título me foi dado por um amigo, de forma condenatória pejorativa, porque ela achava realmente que meus escritos não tinham nada a ver. Mas mesmo assim apreciei sua percepção e agora a aproveito, sem as devidas licenças do verdadeiro autor, para batizar esta série de desabafos que produzi ao longo do tempo. Meu consolo é que muitas das minhas críticas se justificam e que muitos dos criticados continuam às soltas por aí, a merecê-las. PS: Facebook para mim é coisa do passado. Casquei fora quando percebi que ali o produto (não remunerado) era eu mesmo.

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Triste (mas nem tanto) Horizonte

Drummond se indagava: “por que não vais a Belo Horizonte? a saudade cicia e continua, branda: Volta lá.” Sem maiores pretensões de querer me comparar com o poeta-maior, devo admitir que às vezes tal pergunta também me passa pela cabeça. Assim como ele, vivi um tempo na cidade e depois me mudei, para voltar ali apenas esporadicamente. Neste aspecto, contudo, levo por assim dizer uma vantagem sobre ele, que viveu lá, ao que me parece, no máximo uma década, quando eu ali passei os primeiros 22 anos de minha vida. E, ao contrário dele, volto lá no mínimo duas ou três vezes ao ano, sem me fazer de rogado, por ainda ter na cidade filha, netos, irmãos, sobrinhos, e principalmente uma mãe. De modo que não me seria coerente proferir como ele um carrancudo: Não. Não voltarei para ver o que não merece ser visto, o que merece ser esquecido, se revogado não pode ser. Confesso que às vezes me sinto assim, meio gauche com a cidade, portador de duas alegrias quando vou até lá: a de chegar e a de sair, não sei qual das duas a mais significativa. Mas não posso negar que ali passei anos bem felizes, mas não somente isso, foi nela que pude fazer toda minha formação escolar, profissional, intelectual, amorosa, espiritual. No meu caso particular, com efeito, não dá para esquecer aquela urbe provinciana saudável, de carnes leves pesseguíneas e para tanto, realmente, nem preciso me esforçar. Penso que um pouco de minha sintonia (não direi admiração e nem mesmo amor…) com Belo Horizonte pude trazer à luz em meu livro de memórias Vaga, lembrança (ver link) e resgato aqui alguns trechos que falam da minha relação com esta cidade, afinal, detentora de um horizonte que definitivamente não me traz tristeza e muito menos algum amor mal resolvido ou destroçado. Aqui vai…

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