Altamiro e eu
Gosto de viajar. Lá isso eu gosto. Mas não sou como certas pessoas que colecionam viagens como fossem selos, ou rolhas dos vinhos que bebem. Gente que faz lembrar, mal comparando, aqueles cangaceiros que para cada morte cometida fazem uma marquinha no cabo da carabina. A Marilda, por exemplo, minha ex-mulher, era capaz de visitar variados países em única viagem e voltava sem conseguir dizer que língua se falava ali, qual a religião predominante, as comidas mais apreciadas, as manias do povo de lá. Tem gente que acha que isso não tem nada a ver, que o importante é conhecer os lugares, ver os monumentos, as montanhas, os lagos, andar de trem-bala, visitar lojas, rezar em uma dúzia de igrejas. Mas para mim tem tudo a ver, sim, conhecer as coisas mais entranhadas, profundas, que só podem ser apreciadas através do contato direto com as pessoas, seus modos de levar e ganhar a vida, seus botequins, seus mercados e suas barbearias. Às vezes até entrar dentro das casas, onde a vida de fato é vivida, o que dá trabalho, porque isso a gente só faz se conseguir se libertar dos terríveis personagens dos guias turísticos, mas vale a pena.
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