Altamiro e eu

Gosto de viajar. Lá isso eu gosto. Mas não sou como certas pessoas que colecionam viagens como fossem selos, ou rolhas dos vinhos que bebem. Gente que faz lembrar, mal comparando, aqueles cangaceiros que para cada morte cometida fazem uma marquinha no cabo da carabina. A Marilda, por exemplo, minha ex-mulher, era capaz de visitar variados países em única viagem e voltava sem conseguir dizer que língua se falava ali, qual a religião predominante, as comidas mais apreciadas, as manias do povo de lá. Tem gente que acha que isso não tem nada a ver, que o importante é conhecer os lugares, ver os monumentos, as montanhas, os lagos, andar de trem-bala, visitar lojas, rezar em uma dúzia de igrejas. Mas para mim tem tudo a ver, sim, conhecer as coisas mais entranhadas, profundas, que só podem ser apreciadas através do contato direto com as pessoas, seus modos de levar e ganhar a vida, seus botequins, seus mercados e suas barbearias. Às vezes até entrar dentro das casas, onde a vida de fato é vivida, o que dá trabalho, porque isso a gente só faz se conseguir se libertar dos terríveis personagens dos guias turísticos, mas vale a pena.

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Cidade em trabalho de parto: assim Chaya Pinkhasovna viu Brasília

Clarice Lispector nasceu na Ucrânia pré soviética, recebendo o estranho nome acima. Judia na origem, virou pernambucana, carioca e finalmente brasileira, da variedade universal. Muito do encanto complexo de sua escrita vem exatamente de uma estranheza ela nos provoca, mas que ao mesmo tempo, por vezes, também nos abisma pela cristalinidade que ela é capaz de nos trazer, a partir do nada. Chaya viu Brasília nascendo, ou quase. E se estranhou o que viu, também se extasiou.  Esplendorosa foi um dos adjetivos que utilizou para a cidade, em uma das duas longas crônicas que escreveu sobre ela. Foram três as suas passagens por aqui: 1962, 1974 e 1976 e os textos que escreveu, em duas dessas ocasiões, mostram alguém que tenta decifrar a identidade daquela estranha cidade recém-criada. Nesta, a força de um discurso oficial e de um planejamento centralizado, junto com a ausência de multidões e também de esquinas, chamaram a atenção da escritora. Aqui vai uma seleção de suas impressões. Estávamos na década de 60, é bom lembrar: era outra cidade, era outro Brasil; outras eram as esperanças. O Brasil, de certa forma, também estava começando. Depois capotou. Vamos aos delírios de Chaya. Continuar lendo “Cidade em trabalho de parto: assim Chaya Pinkhasovna viu Brasília”