De um diário alheio: Poesia

Como eu dizia, carecia de escrever mais linhas e até mais páginas para dar conta daquilo tudo, daquele feixe de anotações íntimas de um desconhecido, vindo parar nas minhas mãos, esquecido, por acidente, dentro de um avião. Mas preciso deixar claro e mais uma vez o porquê disso: longe de ser uma bisbilhotice, o meu interesse no conteúdo de tal fatídico caderno é puramente literário. Já dei indícios e faço questão de reiterar que também pertenço a tal ramo, seja como jornalista em atividade, embora focado na reportagem fotográfica, seja como escritor, não muito profissional ou acadêmico e nem em tempo integral, mas já tendo publicado um livro de contos e outro de poemas, auferindo com este último um prêmio literário. Tudo bem, foi num concurso organizado por uma universidade do interior do país, mas o fato é que concorri com algumas dezenas de candidatos e ganhei o prêmio, o que me rendeu a publicação do livro e até uma singela reforma em meu apartamento. Ok assim? Mas realmente as páginas do tal caderno perdido me queimavam as mãos – e a mente – e eu já andava querendo saber o que via nelas de tão importante assim. Acho que me identificava com as histórias daquele homem, que parecia meio mulherengo, na verdade, entretanto sem ser vulgar, mas que apresentava um lado poético e sensível, isso era inquestionável. Eu queria devolver aquele caderno para ele, talvez como desculpa para conhecê-lo pessoalmente. E aconteceu que folheando o volume mais uma vez, me dei com um número de telefone anotado na contracapa, que eu não tinha visto antes. Só um número sem código de localidade, sem nome anotado, nada. Mas pensei: quem sabe daí encontro alguma pista.

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De um diário alheio: Amores

Foi em uma das minhas viagens à Europa. Eu não estava feliz – mas também não infeliz – porque acabara de romper meu relacionamento de três anos com a Renata e topei viajar, mesmo sem ela, para tentar esquecer de tudo que tinha vivido nos últimos tempos. E havia, realmente, para mim pelo menos, muita coisa a não ser lembrada. É a vida, nada mais. Viagem de avião, sabem como é, só fica boa mesmo quando acaba, primeiro pelo fato notável de a gente continuar vivo, e não ser devorado pelos tubarões no mar, depois por ter chegado ao fim aquele suplício de passar uma noite em claro, com as pernas encolhidas, ainda mais terminando de forma inglória com aquele esdrúxulo café da manhã servido na incômoda hora das cinco e meia da madrugada, quando a gente tem que fazer um esforço danado para convocar a fome. Isso tudo depois de enfrentar a situação meio prosaica, meio constrangedora, de passar uma noite inteira, dormindo ou tentando dormir, bem ao lado de um desconhecido, ombro a ombro e coxa a coxa com este aí. Mas eu queria falar era de um camarada que tinha assento do meu lado. Um tipo talvez uns dez anos mais velho do que eu, aparência de intelectual, de poeta, sei lá, cabeça branca, bem vestido, cachecol no pescoço, livro nas mãos, na cabeça uma boina de personagem das antigas bande-dessinèes francesas, aquelas do Tintin, sabem? Na decolagem, trocamos duas ou três palavras, apenas convencionais, tipo boa noite, com licença etc. Mas por alguma razão, o papo engrenou somente durante aquele café da manhã extemporâneo, quando fiquei sabendo que ele era professor universitário aposentado, que ia cumprir um período sabático em Lisboa, por conta própria, que morava em Brasília, trabalhava na área de saúde (seria médico?) e mais algumas informações adicionais, sem maior relevância para a história que vou contar aqui. Ele ficaria em Lisboa, eu seguiria adiante, pois tinha um voo de conexão para Paris mais tarde. Então, ok, bom dia, boa viagem, muito prazer em conhecê-lo. Ao se erguer da poltrona, sua mochila se abriu, desastradamente, jogando ao chão alguns livros, uma espécie de caderno de anotações e caixinhas daquelas que se usa para carregar pasta e escova de dentes. Juntou aquilo tudo de forma atabalhoada, parecendo um pouco desconexo nos seus gestos e saiu do avião antes de mim, aparentemente por estar de fato muito apressado, ou então porque era desajeitado mesmo.

Aí começa a história que vou detalhar em seguida.

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