De um diário alheio: Viagens
Estamos no seguinte pé: minhas tentativas de fazer contato com o professor Ignoto falharam por completo. Não era ele o obscuro morador da periferia de Brasília e nem mesmo aquele Dr. Euclides, que já residia em Portugal há algum tempo e que com certeza não seria a mesma pessoa com quem eu encontrara num voo para Lisboa, indo lá fazer um período sabático. Havia uma diferença importante de datas entre o meu encontro no avião e a retirada de Euclides para residir naquele país. Mas enfim, bola pra frente. Aquele caderno continha outras revelações importantes e até certo ponto esclarecedoras sobre seu autor, que aos poucos revelarei, tenham calma leitores! O fato é havia ali, também, algo que me interessava muito de perto: relatos de viagens. Por sorte, havia pelo menos dois textos que falavam da região central de Minas Gerais, o chamado território da Estrada Real e, por coincidência (se é que isso existe de verdade), eu tinha recebido uma proposta para realizar um documentário fotográfico e textual em tal região, para uma revista de turismo. Vamos ver estes dois relatos a seguir. Ambos me mostraram o seguinte: primeiro que o Ignoto parecia conhecer a região com certa profundidade; que sua análise ia além de um plano técnico ou geográfico, incursionando por sendas poéticas, sentimentais e filosóficas, e mais ainda que ele parecia ter ligações de nascença com tal território. No primeiro texto ele faz recomendações a amigos que vão trilhar a Estrada Real entre BH e Diamantina; no segundo ele arrisca uma narrativa mais literária pela região do chamado Mato Dentro, na qual inclui observações de natureza afetiva e ecológica, culminando num protesto contra a devastação da mata atlântica pelas atividades de mineração no trajeto.
O cara tocava, realmente, sete instrumentos, ou mais.
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