Meu amigo Gonzo

Gonzo é uma espécie de moralista que se torna feio para melhor denunciar a feiura (Hunter Thompson); Um cara que se veste de palhaço para denunciar a palhaçada dos outros (João Caçador).

Telefone que toca às quatro da matina, todo mundo já sabe: só pode ser notícia ruim. E era. Faustina, também conhecida como Infaustina, uma colega de trabalho especialista em tal assunto, me dava conta que João Caçador já não estava entre nós. E pior: tinha se suicidado. Tal sujeito podia ter todos os defeitos do mundo, mas foi meu amigo como nenhum outro, mesmo que eu discordasse o dele – eu e muitos mais – sob o troco de nos despejar boa dose sulfúrica, em muitas das situações de contenda em que nos metíamos com ele. Mas acima de tudo era uma pessoa que, se não querida, pelo menos era respeitada por muitos de nós, seus colegas na via crucis do magistério. Suas controvérsias começavam por aquele caçador, que não era nome de família e nem mesmo apelido de infância ou uma referência a esporte a que ele talvez se dedicasse. Era uma alcunha, só descobri depois, que ele mesmo inventara para si, e assim se apresentava quando veio transferido para nossa escola. Como sou dado à escrita, fazendo disso também uma espécie de autoterapia, membro da espécie em extinção professor de literatura, talvez por ter sido o amigo mais próximo do Caçador nos últimos anos, pensei que seria eu a pessoa mais talhada para contar a história deste cara. Não dos melhores, mas dos mais expostos à galhofa, como diria o Drummond, valendo isso tanto para o biógrafo como para o biografado.

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