A Morte e o Morrer no Grande Sertão

Grande Sertão: Veredas não é, nem de longe, apenas um livro de aventuras e tropelias de cangaceiros no vasto sertão são-franciscano. Muito mais do que isso representa uma profunda e sutil viagem a temas tão variados como o amor; o livre arbítrio; Deus e o Diabo; o bem e o mal; o poder; o sagrado; o transcendental; a vida; a morte. Sim, a Morte, que se faz presente de maneira intensa nas quatrocentas e tantas páginas do livro. Utilizando recursos da internet resolvi fazer uma pesquisa quantitativa sobre isso: o substantivo morte está presente 112 vezes e o verbo morrer, no infinitivo, mais de sessenta, fora sua aplicação em variados tempos verbais. Deixando estas elocubrações aritméticas de lado, resolvi ir além. Considerando a minha atual preocupação com o tema da morte, melhor dizendo, do direito a uma morte digna, voluntária e assistida, resolvi compreender melhor os conteúdos trazidos por tais palavras no GSV e assim demarquei cerca de sessenta expressões do autor, que trago aqui numa tentativa de análise do significado das mesmas. Mas, atenção: aqui fala um simples leitor, uma pessoa que não tem formação em teoria literária, um fã incondicional da obra de JGR, que talvez peque por excesso de autoconfiança ao se meter num desafio de tal monta. Entretanto, penso que serei perdoado, já que o amor pela obra de João Guimarães Rosa me permitiria uma ousadia e um exagero como este e já me vejo redimido de antemão. Para começar, tentei uma catalogação de tais expressões em algumas categorias temáticas, de efeito apenas didático, pois certamente seus significados com muita constância ultrapassam as barreiras entre os diversos temas. São elas: (a) uma Filosofia da Morte; (b) Vida, Morte e Destino; (c) sobre o Ato de Morrer; (d) a Morte e o Amor; (e) Matar e Morrer; (f) encarando a própria Morte.

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Tem alemão no Grande Sertão

Revi, por esses dias, um curioso filme que eu havia assistido anos atrás, aquele Cinema, Aspirinas e Urubus, um road-movie nacional dirigido por Marcelo Gomes. O enredo é inspirado em relatos de viagem de um antepassado dele, que em suas andanças como mascate nos sertões da Paraíba conheceu um alemão que por ali vendia medicamentos e atraía clientes exibindo filmes de divulgação, até que veio a Guerra e os negócios da companhia Bayer no Brasil foram suspensos. O filme transcorre com graça e leveza, mostrando mais uma vez uma grande interpretação do ator baiano João Miguel, que faz o papel de um carona curioso e também meio filósofo, dado a especulações metafísicas. Mas, na verdade, o que me provocou mais atenção foi a lembrança que tive de um personagem de Grande Sertão: Veredas, um alemão também perdido (ou achado) no interior do Brasil em missão comercial. É dele que quero falar: um estrangeiro perdido no Grande Sertão central do Brasil, conforme relatado pelo seu grande explorador, João Guimarães Rosa. Mas como uma coisa puxa outra, aproveitarei para falar também de alguns outros estrangeiros que andaram por aqui e que por motivos variados amaram o Brasil ou pelo menos produziram coisas importantes sobre nosso país.

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O Urucuia em Rosa

Você gosta de sertão, de boiada, de vereda de buritis, de velhas cidades à beira-rio? Ou está mais interessado em comer um bom surubim ou dourado na brasa? Tudo bem, não chegaria a recomendar leituras em Guimarães Rosa, se bem que se você quiser levá-las na bagagem, será de bom proveito. Pegue seu carro (qualquer modelo, desde que esteja com boa mecânica, pneus novos, etc.) e siga comigo. Vamos pegar a saída norte de Brasília. Passando Formosa, você logo estará em altos chapadões o que só perceberá ao fitar o horizonte ainda mais amplo que o de Brasília. Esqueça – ou finja que não vê – a feia periferia de tal cidade e principalmente as bandeiras deste Brasil que não é o nosso que estão por toda parte. Siga em frente, deixando de lado o latifúndio totalmente improdutivo que é a imensa área pertencente às Forças Armadas à direita da estrada. Na primeira encruzilhada, virando à direita (apenas no sentido literal, da estrada…), a cidade que você logo encontrará, Cabeceiras, indica a situação geográfica da região, parideira de grandes rios. Aqui, a água flui para o São Francisco; um pouco antes para o Paranã, afluente amazônico e, mais atrás, para os formadores do São Bartolomeu, que via rios Paranaíba e Paraná, acabam desaguando em Buenos Aires. Cabeceiras de um continente, meu senhor! Algum corguinho verdoso desses – sem maiores pretensões – vai acabar dando no Urucuia, que corre para o Velho Chico. São personagens de uma história que está para começar. Deixa que eu apresento este Urucuia, “rio vermelho” na língua originária, que aqui principia a correr mundo e é marcante personagem de Grande Sertão: Veredas. Nada como viajar por ele na voz do próprio Guimarães Rosa.

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