Ó Deodoro…

– Sai cá fola Deodola, ganhar mulo na cachola. O nome dele era Deodoro, nosso professor de Geografia, uma rara unanimidade em termos de ódio – também de algum temor – por parte de quase todos naquela terceira série “C”. Graveto, nosso literato de ocasião, com vasta obra publicada nas portas dos banheiros da escola, a nos liderar no desprezo a tal figura, jogava com … Continuar lendo Ó Deodoro…

Closing Time

And I swear it happened just like this: a sigh, a cry, a hungry kiss, the gates of love they budged an inch. Leonard Cohen: Closing Time

Que festa boa meu Deus! A gente bebia e dançava, aquela banda era realmente da pesada. Johnny Walker rolava pra lá e pra cá e nos instilava sua sabedoria. Melhor ainda, no final não haveria contas a pagar. Nenhuma conta!

Do melhor não falei ainda, daquela mulher, a felina que por vezes me acompanhava na dança, sempre a pequena ou quase nenhuma distância, rodopiando, todavia presente, próxima, quase me tocando, num movimento de aproximação e recuo, a me despertar algo entre o angelical e o vulgar. Que pena, esqueci seu nome. Dela própria não sei mais nada. Sumiu em alguma dobra do mundo. Não era minha garota, era de todo mundo. Esfregava suas coxas nas coxas de todos ali – e de todas também, por que não? E se havia naquilo luxúria, havia também, por que não dizer, compaixão. Sim, a compaixão em atender os desejos de um bando de solitários, como eu, que de outra forma não teriam perto de si o calor e a textura do corpo de uma mulher, que além disso nos deixava um halo de seu perfume doce e penetrante e o toque de suas coxas, até de sua intimidade, de puro e úmido cetim.

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Sem olhos em Peirópolis

Esta é história de Samuel, que no começo era Saminho, depois virou Sam e finalmente Sansão, assim apelidado pelo rabino Grebler, no dia de seu Bar-Mitzvá, em reconhecimento a seu porte taludo e grande força física, embora fosse pacífico e gentil com todo mundo. Segundo Grebler, Sansão era um herói do povo judaico e certamente este apelido faria Samuel honrar ainda mais sua herança.  Quando o garoto descobriu que tal figura bíblica era cabeludo, decidiu deixar também seus cabelos crescerem. Na Escola Israelita Ben Gurion, onde estudava, aquela juba fazia o maior sucesso.

Samuel Benjamin Lebovitz, melhor dizendo, Sansão, era um menino rico, de família judia, filho de empresário da indústria paulistana. Morava junto com a família, papai Aron, mamãe Sarah e seus dois irmãos, Caleb e Isaac, tendo cada um seu aposento próprio em um apartamento caro e espaçoso, ali no Morumbi.

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Doutor Fausto

Eu o via quase todo dia comendo pastel com caldo de cana, na hora do almoço, na praça principal aqui em Poeirópolis. Apenas mais um personagem como tantos outros por ali, empregados dos escritórios ou do pequeno comércio dos arredores da praça. Gente que parecia não dispor de tempo ou dinheiro para fazer um almoço digno. O detalhe de tal personagem é que usava, ou mantinha dobrado debaixo do braço, um jaleco branco, como se fosse um médico, ou coisa que o valha. Devo ter visto ele inúmeras vezes naquele banco de praça, mas demoraram-se dias ou semanas para que começasse, de fato, a prestar atenção em sua figura.

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Meu amigo Gonzo

Gonzo é uma espécie de moralista que se torna feio para melhor denunciar a feiura (Hunter Thompson); Um cara que se veste de palhaço para denunciar a palhaçada dos outros (João Caçador).

Telefone que toca às quatro da matina, todo mundo já sabe: só pode ser notícia ruim. E era. Faustina, também conhecida como Infaustina, uma colega de trabalho especialista em tal assunto, me dava conta que João Caçador já não estava entre nós. E pior: tinha se suicidado. Tal sujeito podia ter todos os defeitos do mundo, mas foi meu amigo como nenhum outro, mesmo que eu discordasse o dele – eu e muitos mais – sob o troco de nos despejar boa dose sulfúrica, em muitas das situações de contenda em que nos metíamos com ele. Mas acima de tudo era uma pessoa que, se não querida, pelo menos era respeitada por muitos de nós, seus colegas na via crucis do magistério. Suas controvérsias começavam por aquele caçador, que não era nome de família e nem mesmo apelido de infância ou uma referência a esporte a que ele talvez se dedicasse. Era uma alcunha, só descobri depois, que ele mesmo inventara para si, e assim se apresentava quando veio transferido para nossa escola. Como sou dado à escrita, fazendo disso também uma espécie de autoterapia, membro da espécie em extinção professor de literatura, talvez por ter sido o amigo mais próximo do Caçador nos últimos anos, pensei que seria eu a pessoa mais talhada para contar a história deste cara. Não dos melhores, mas dos mais expostos à galhofa, como diria o Drummond, valendo isso tanto para o biógrafo como para o biografado.

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Pantaleão homenageado

Um velho Leão, recolhido ao seu covil, via os outros animais se aproveitarem de sua fraqueza, com variadas desfeitas. Foi então que veio o burro pronto para o agredir também. — É demais! — exclamou o Leão; aceito morrer, mas ser insultado dessa forma é morrer duas vezes! La Fontaine – Fábulas

Chegara finalmente o dia tão esperado por Pantaleão: aposentadoria! Também pudera, trinta e alguns anos inteiros em sala de aula, cumprindo horários, obedecendo ordens, encarando, acima, abaixo e nos lados, gente de todo tipo, de modo geral desinteressante ou mal-educada. Com frequência, as duas coisas ao mesmo tempo.

O fato é que em sua vida na escola certas coisas tinham especial predileção em lhe afetar, o que lhe conferia fama de ranzinza e impaciente, dado o que considerava perturbações na lógica tradicional do ensino, com as frequentes intervenções da direção e mesmo de seus colegas.

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A história de Percival e Cecília

Vocês não imaginam o que é morar em uma favela. Não imaginam mesmo. Eu, Josefa de Alencar, que nasci e sempre vivi aqui tem hora que presencio certas coisas… Até Deus duvidaria, eu acho. Aliás, chego eu mesma a duvidar de ter nascido e estar viva num lugar como este. Não estou falando somente do que se passa debaixo de minha janela. Não, é muito mais do que isso! Dentro da classe de ensino médio, na Escola Estadual Frantz Fanon, onde leciono, aí é que até o diabo se arrepia. E não é só violência que rola, não. Vocês podem não acreditar, mas tem chefe de tráfico, um Antônio Marins, chefão de chefões, por exemplo, que poderia até ser chamado de pai exemplar. Carinhoso, provedor, compreensivo… Isto é, compreensivo até certo ponto, aos poucos eu explico. Sei disso porque Cecília, sua única filha mulher, nascida de Lauriana, cantineira da escola onde leciono, se tomou de amizade por mim e me conta muita coisa. E costuma não poupar nem o pai nem a mãe em suas revelações.

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Titão e Izilda

Tito é o nome dele. Tito Anastácio. Sobrinho do capitão Livio Anastácio, um potentado, dono de quase tudo por aqui, desta fazenda Irlanda e muito mais. Sobrinho de verdade? Ou teria com ele algum outro tipo de parentesco? Sempre houve controvérsias…  Tito perdera a mãe muito cedo, uma sobrinha do Capitão, na realidade uma pessoa que ninguém conheceu de perto por aqui. Livio Anastácio, consta, talvez não seja exatamente um tio-avô de Tito, mas na verdade seu pai, é o se diz. Ele mantinha com a tal sobrinha um caso secreto, mas com rescaldos escandalosos. Assim, o que também segredam é que o Capitão mandou matar a própria parente, por suspeita de traição ou, como alguns desconfiam, para não dividir herança. Aliás, não se duvide: mandar matar e desejar tudo para si seriam atitudes cabíveis a este capitão Lívio Anastácio, pelo que sempre se soube de sua história. E assim um dia, com o garoto já na idade escolar, o Capitão o trouxe para morar nessa fazenda Irlanda, tirando-o do fundão de roça onde ele morava com a família da falecida mãe. O mais, não se sabe, só se especula, como aliás tudo que diz respeito a Anastácio, sua família e seus negócios.

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O que vale uma criatura a não ser poder amar?

Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar?  sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Drummond, sem dúvida, sabia muito sobre tal assunto, haja vista sua trajetória amorosa pessoal, dividida entre um casamento convencional e um amor de perdição, melhor dizendo (talvez) de real encontro. Juntar pedaços de seu oratório neste campo é exercício inspirador e eu poderia me deter sobre isso, quilometricamente, porque tal tema é permanente em sua obra. Aliás, me lembro de uma famosa entrevista do Poeta ao Pasquim, quando ele, para justificar sua pretensa negativa em atender jornalistas e outros personagens em busca de entrevistas, lacrou com a seguinte afirmativa, ou algo assim: não vejo necessidade, de fato, em dar entrevistas, eu já me exponho mais do que qualquer pessoa através de meus poemas, crônicas e contos. Isso me toca diretamente, como pessoa que também costuma se expor neste quesito. Como eu já disse antes e reitero agora, amor é sempre amor; imaginado ou vivido por inteiro – ou por partes; amor com ventura ou com angústia; com alegria ou tristeza; com esperança ou desespero; com alivio ou dor. Sempre o mesmo e sempre diferente. É assim que aqui vai mais uma seleção de textos meus sobre este candente tema que é o Amor. Como veem, eu também me exibo e já me esbaldei em escrever sobre tal tema, mas gostaria mesmo é de tê-lo praticado de forma mais intensiva e, principalmente, bem sucedida. Antes de passar aos meus textos, indicados abaixo, vamos a Drummond, que sempre diz o que é preciso dizer: Amor é privilégio de maduros / Estendidos na mais estreita cama, / Que se torna a mais larga e mais relvosa, / Roçando, em cada poro, o céu do corpo. /É isto, amor: o ganho não previsto, / O prêmio subterrâneo e coruscante, / Leitura de relâmpago cifrado, / Que, decifrado, nada mais existe / Valendo a pena e o preço do terrestre, /Salvo o minuto de ouro no relógio / Minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / Depois de se arquivar toda a ciência / Herdada, ouvida. Amor começa tarde

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