Meu Tio e amigo. Hoje me dei conta que a minha vida tinha que mudar. Saí de casa sem saber para onde ir. Por sorte tinha algum dinheiro. Fui para a Rodoviária e por ali vaguei, por horas a fio. Cheguei ainda com a manhã fresca e por ali fiquei até a noite. Procurava um lugar para ir, se afastar de lembranças ruins, de uma vida que me trouxe tanto desgosto, nestes meus vinte anos. Eu, de fato, não sabia para onde ir, queria um lugar bem longe, afastado daqui, para nunca mais voltar. Na bilheteria tive o ímpeto de pedir uma passagem para o esquecimento, se isso fosse possível. Mas de toda forma ficou tarde para voltar atrás, pode acreditar, Tio.
Os ônibus para as cidades mais distantes só saiam à noite e vi que havia uma saída às 20 horas, para uma noite inteira de viagem. Que fosse sem volta! A vontade de me mandar era tão grande que a fome não me importou em anda. Naquele dia não comi nada a não dois pastéis e um caldo de cana como almoço, aliás, almoço e jantar. Era o que me bastava.
Tive sorte, dentro do ônibus, por não ter ao meu lado qualquer companhia. Eu tinha receio e medo e cheguei mesmo a pensar que alguém mais próximo de mim poderia me adivinhar os pensamentos. Mas mesmo tendo a poltrona dupla ao meu dispor, nem por isso consegui dormir razoavelmente. Passei aquela noite me mexendo inquieto, desci em todas as paradas para tomar café e assim assisti o dia amanhecer, sem que isso me aliviasse os incômodos.
E assim, finalmente, cheguei ao destino que escolhi. Mas não era ali que eu pretendia me deter, queria seguir a diante, ganhar distância daquilo que tanto me perturbava. Vaguei por alguns momentos na detonada estação rodoviária, usei aquele banheiro hediondo e logo escolhi uma nova condução, de grande conveniência para mim, pela hora de saída, quase imediata.
Não ia longe o tal ônibus. Apenas uma viagem de pouco mais de meia hora, logo finalizada à beira do rio. Ali havia conexão com outro veículo, da mesma empresa, que aguardava, na margem oposta, que os passageiros atravessassem o rio na balsa. Que lugar aquele! A desolação personificada. Meia dúzia de barracos improvisados, cobertos apenas pela habitual lona preta, a abrigar os eventuais passageiros da travessia. O que havia ali para vender nada mais era do que uns biscoitos baratos, refrigerantes e cerveja quentes. Como banheiros, apenas as moitas ralas de vegetação. O zumbido das varejeiras denunciava o estado de desmazelo de tudo por ali.
E fiz o que os demais fizeram, não havia outra opção. Desci na barranca, e subi na balsa, para fazer a travessia. Do lado de lá, preferi ficar mais um pouco, para assuntar ao ambiente, e assim não subi no veículo que esperava a todos para prosseguir a viagem. Dali tomei um caminho paralelo à estrada e por ali segui, atolando os pés na poeira rala.
***
Tio, acho que poucos me entendem, mas você parece ser uma exceção neste mundo que me é cada vez mais hostil e estranho. Quero que me ouça, pois você, ao contrário de meu pai e meus irmãos mais velhos, conhece o mundo, contra ele se rebelou, fiquei sabendo, quando saiu da casa de seu pai, meu avô, aos quinze anos de idade e esteve desaparecido por um bom tempo. E voltou, encarando a fúria e a incompreensão da família. Ninguém, então, esteve do seu lado naquela ocasião, mas pode ter certeza que tantos anos depois, como eu faço agora, um parente seu pode finalmente lhe dizer que compreende – e muito – suas atitudes de jovem. Eu não quero deixar passar a idade em que você cometeu a grande ousadia de se libertar, para mim ainda é tempo, com certeza. Estou disposto a encarar, como você um dia fez, com tão grande coragem, o afastamento desta família que para mim é uma barreira à minha realização como pessoa. Vou caçar meu rumo por este sertão a fora, vagar por esses rios, para ver onde nascem e onde morrem.
***
Querido Sobrinho. Sua fala sobre rio e sertão me deu a pista para onde você deve ter ido. É claro que me lembro que na sua infância você me acompanhou algumas vezes, junto com alguns amigos meus, nas caçadas e pescarias que fazíamos por ali. Momento marcante nessas viagens era a travessia do rio, para além do qual existia o sertão desconhecido, com seus animais selvagens, suas lagoas piscosas, suas brenhas infindáveis. Ali você aprendeu, como me disse certa vez, os segredos de uma pescaria e de uma espreita de caça pela noite a dentro. Você o mais jovem naquela turma, mas levando sua atribuição muito a sério, no preparo das matulas, no carregamento das mulas ou dos barcos, por exemplo. Certa vez me disse que seu lugar o mundo era outro e que era ali que gostaria de viver. Nas longas conversas minhas com os companheiros, nas noites de luar, à beira de uma fogueira, sempre me lembro do seu encantamento, se recolhendo com os últimos a fazerem isso e mesmo assim por insistência minha. Assim, meu querido, não foi difícil para mim refazer o seu percurso. Escrevo para ter claro na mente o que gostaria de lhe dizer. Aguarde, que a qualquer hora chegarei até você.
***
– Como? O senhor quer saber se eu vi um sujeito assim e assado por aqui? Por esta balsa passa tanta gente… Mas do jeito que o senhor descreve, magro, vestido de paletó e calça social, carregando nas costas uma mochila colorida, uns vinte anos de idade… Pensando bem acho que vi. Já faz uns dias. Parecia meio estranho, não sei se triste, ou só distraído. Bem diferente das outras pessoas que geralmente passam por aqui, gente que eu conheço um por um, pois que são os mesmos quase sempre. Fui cobrar a passagem e ele só tinha uma nota grande, de cem. Não tinha troco e deixei pra depois. E nem cobrei. Volta e meia acontece isso. Ou melhor, acontece é de a pessoa não ter nenhum dinheiro no bolso. Povo aqui é por demais pobre, o senhor deve saber. Muita gente acaba atravessando de graça. O patrão sabe e já nem se incomoda. Aliás já vejo o dia que ele vende esta geringonça e vai embora também, ainda mais agora que o governo vai fazer uma ponte prometida, pouco mais de uma légua daqui, rio abaixo. E vai morrer não é só este negócio que meu patrão herdou do pai dele, mas também essas bibocas que vendem biscoitos de polvilho e cachaça aqui na beira. Eu mesmo caio fora, vou procurar uma cidade maior, em vez de ser cobrador de balsa vou ver se arranjo ocupação melhor na capital. Ou na mineração, aqui perto. Eu tenho parentes lá. Mas inda que mal lhe pergunte, porque o senhor procura pelo homem do paletó? É parente dele? Não é? Alguma questão de dinheiro devido? Tá bom, desculpa, sou meio enxerido mesmo… Não vi direito o tal moço. Me contaram que ele não pegou o ônibus do lado de lá, que seguiu a pé. Ouvi falar até que viram ele já distante daqui, num povoadinho a duas léguas. Mas isso tem que conferir diretamente. O povo daqui é muito falador. Ah, lembrei também que ele andou perguntando coisas aos outros passageiros. Parece que queria saber do que tem mais adiante, alguma cidade, povoado ou coisa assim. E quase não tem. Daqui pra frente é um vazio de dar medo, a não ser uma tal de Cabeceiras, lugar onde Judas perdeu as botinas, não passa de uma corruptela. Mas não disse nem pau nem pedra quando lhe informaram. Ficou com a mesma cara de estátua com que chegou. Ouvi dizer também que ele entrou na birosca ali da barranca e comeu alguma coisa, isso é, uma daquelas coisas que tem lá, quase nada, uns biscoitos muito sem-vergonhas. E depois caiu na poeira. Não sei mais nada.
***
Tio, eu já não conseguia viver debaixo do mesmo teto de um homem cuja única qualidade na vida é a de jamais se insurgir frente a nada, autocondenado a uma aposentadoria precoce que o transformou em um zumbi antes de completar cinquenta anos. Passivo perante a vida e totalmente agressivo com sua mulher, acho que morreu e desgosto a minha mãe, que Deus a tenha, e com os filhos também, principalmente comigo, que ele considera estar sempre fugindo de responsabilidades e muito me castiga por isso. Como se ele pudesse agir assim com alguém, levando a vida que leva, passando a semana em total vagabundagem, jogando truco com os amigos em longas tardes vazias. Não. Não posso com isso!
Minha pobre mãe, que aceitava tudo que vinha dele, sempre do lado dele apesar dos maiores absurdos que cometia? Incapaz de se contrapor a ele e apoiar os filhos em quaisquer circunstâncias. Acho que morreu de desgosto, a coitada. Não quero mais. Vou tentar levar minha vida em outro lugar, não me importa mais esta família. Ter essa gente do meu lado, ou não ter, para mim tanto faz. Aliás, Tio, este mundo todo também não interessa mais. Aqui, duzentos mortos num barco naufragado não valem mais do que uma pequena nota no jornal, enquanto o afogamento de meia dúzia de magnatas rende dias e dias de polêmica, como assisti na TV, um dia desses. Não é para mim. Vou para longe, para o sertão de algum lugar. Atravessar um rio que me traga o esquecimento, isso é que eu quero e é para onde eu vou.
***
Sim, vi, passou por aqui um rapaz assim, bem do feitio que o senhor está falando. Não sei para onde teria ido, talvez para Cabeceiras de Cima, uns 50 km daqui. Chegou a pé, mas preferiu seguir de ônibus. O final da linha é lá. Com certeza não foi longe. Aqui tem gente chegando a toda hora. O senhor veja, por exemplo, na estrada aquele caminhão… É da firma de fora que está construindo uma obra grande não muito longe daqui. Quem sabe este moço não foi para lá, para arranjar trabalho. Isso aqui ficou movimentado de uns tempos para cá. O que vão fazer lá? Não sei direito, é um tipo de mineração, estão contratando gente adoidado. Um amigo que esteve por lá me disse que por enquanto o que há é só um buracão, enorme.
***
Meu estimado sobrinho, acho que não preciso procurar mais, já sei onde você está. Mas de toda forma estou preocupado com as dificuldades que você deve estar enfrentando. Um moço como você, que até agora só estudou, com todo o conforto de uma família por perto, apesar deste pai estranho, que eu também renego, pouco afeito que ele é para compreender as necessidades dos filhos e mesmo dos irmãos, como eu. O que você procura é a libertação, bem sei, mas fico preocupado se você se preparou para uma situação que pode ser dura e sofrida, mas será sempre uma libertação. E eu bem sei o que é isso, meu querido.
Lembro-me agora de minha própria fuga da casa de meus pais, ainda em plena adolescência. Dormi na rua, fui assaltado, apanhei de uns caras mais velhos, uns gatunos, mas ainda assim me lembro muito bem do meu regozijo por ter ficado livre e rapidamente me transformado em um homem de verdade, mesmo sendo ainda pouco mais do que um garoto. Já na primeira noite fora de casa, dormindo no porão de uma igreja, infestado por piolhos de galinha, mesmo assim se senti livre e feliz. Assim vivi por três anos inteiros, ganhando algum dinheiro com pequenos trabalhos, passando frio e fome por vezes, mas sem deixar de lado em nenhum momento, a certeza de que eu fazia a coisa certa.
Voltei para casa quando o pai morreu, para consolar a mãe e pouco meses depois tomei rumo definitivo na vida, por vários lugares do país e mesmo no estrangeiro, conhecendo cidades, amigos, mulheres, costumes e culturas sempre muito variadas. E nunca me arrependi! Foi dentro daquela vida movimentada que bem ou mal construí minha personalidade e minha profissão, descobrindo o verdadeiro talento que tinha, que era o de escrever. E histórias não me faltavam. Esta sua história, me querido, é uma linda história, longe de apenas repetir a saga de um parente, passadas tantas décadas. Quem sou eu para interrompê-la ou mesmo recriminar você?
***
O moço magro e alto, meio caladão? Esteve por aqui uns dois ou três dias. Andou pelas ruas aí como quem não quer nada – ou pelo menos queria conhecer o lugar. Mas aqui em Cabeceiras em qualquer meia hora já dá pra conhecer tudo. Essas duas ou três ruas e depois a barranca do rio. Se pode atravessar? Até que pode, mas do lado de lá só tem umas fazendas, cada uma longe da outra. Só vão lá os empregados dos fazendeiros, ou então os compradores de gado, certa época do ano. O moço esteve por aqui com certeza. Tenho a impressão que ele resolveu fichar na empresa que está explorando minério na Chapada de Cima, que fica do lado de cá mesmo, distante uns 60 km, mas na direção contrária de onde o senhor veio. Eles passam aqui toda semana procurando gente para trabalhar. Tá todo mundo indo para lá, parece que tem uma reserva de um troço, ‘lichio’, ‘litilio’, um nome assim, que dizem que serve pra fazer baterias, satélites, aviões, sei lá. Só sei que tem muita gente se mandando para lá. Só engenheiros gringos já passaram por aqui uns trinta. Aqui no hotel mesmo, onde só apareciam uns mascates, agora todo dia tem hóspede novo. O patrão já está pensando até em aumentar uma ala. Já era hora deste lugar sem vergonha tomar jeito. Cá entre nós, até as mocinhas-da-vida da rua aí de trás estão animadas com o aumento da clientela. Mas isso o senhor não espalha, porque o patrão aqui é dono da boate que elas trabalham. Boa sorte em sua procura, moço, mas o que penso é que este sobrinho seu deve ter caçado o rumo da chapada também. Tá todo mundo indo pra lá. Eu só não fui ainda porque tenho uma mãe velha e doente para cuidar.
***
Tio, você nem imagina o lugar onde vim parar. E digo mais: pretendo ficar por aqui uns tempos. Não é lugar bonito, nem agradável. Cheio de poeira, um tanto de homens brutos e suados por toda parte, comida miserável, preparada e servida em biroscas inimagináveis. Para dormir uns beliches toscos, cercados, por cima, dos lados e em toda parte por tipos suarentos, que cheiram mal, roncam e soltam gases pela noite a fora. Mas por incrível que pareça, aqui tem vida, tio. E acredite, arranjei emprego! Como entendo um pouquinho de computador me botaram num setor que registra o movimento dos caminhões que removem o entulho de uma mina que escavam por aqui.
Uma riqueza, este tal de lítio. Está cheio de gringos para pegar uma beiradinha. E um monte de gente sendo explorada também. Fiz uns amigos novos aqui, gente completamente diferente daqueles que conheci quando morava aí na cidade. O principal deles já morou em várias partes do país, sempre lidando com mineração e garimpos. O negócio dele não é bem ficar fuçando terra e cascalho, que nem minhoca. Ele trabalha com um povo de fora e a tarefa dele, como ele disse para mim, é “organizar o movimento” por aqui. E não sabia muito bem o que é isso, mas estou começando a entender, com as conversas com ele. Este povinho sujo e suado precisa deixar de ser explorado!
E é impressionante o que acontece por aqui. As pessoas sofrem desconforto em tudo, seja para trabalhar, para comer, para dormir. Assistência médica eles falam que tem, mas é um vapt-vupt, um atendimento de quarenta pessoas por hora, por um doutor que mais parece um açougueiro. Ninguém pode trazer as famílias pra morar junto, mesmo os que são aqui na região. E pelo que sei, uns poucos que reclamaram foram logo despedidos, sem direito a nada. Eu tenho participado junto com o Cesar – este é o nome do meu amigo – de umas reuniões com o povo do sindicato, que vem de fora para dar apoio aqui. Coisa meio secreta, porque se os capatazes pegam, dá demissão na certa. Dá um frio na barriga, tio, mas ao mesmo tempo uma sensação gostosa de estar envolvido em uma coisa que faz diferença.
Comecei, por estes dias, a ler umas apostilas que o povo do sindicato trouxe e logo devo fazer uma entrevista com o coordenador. Se der tudo certo vou trabalhar junto com o Cesar, para também ajudar na “organização do movimento”. Eita coisa boa! A gente sofre, mas tem compensações. É isso aí, meu tio, continuarei dando notícias. Não me canso de lembrar aqui das histórias que ouvi na família, de um certo tio meu que fugiu de casa aos quinze anos de idade, para fazer de sua vida algo que valesse a pena. É o que eu quero também. Abraço você com saudade e gratidão!
***
Muito querido Sobrinho, que emoção! Que bruta emoção! Você é que nem uma mina de lítio, só que a jorrar sentimento e consciência em todas as frentes. Inveja é o que eu tenho de você, de não ter mais a sua idade, admito. Mas ao mesmo tempo tenho orgulho, muito orgulho mesmo, em saber que as doideiras que fiz na juventude estão a lhe inspirar, tantos anos depois. Você sabe que tenho mania de escrever coisas – mas também gosto de ler. E estou me lembrando aqui da mitologia grega, que fala de um rio chamado Lethe, palavra que literalmente significa “esquecimento”. Seu oposto é Aletheia, que tem o significado de “verdade”. Para os gregos, parece, esquecer seria então o mesmo que “mentir”. É preciso não esquecer, portanto, e é por isso que fico honrado com suas lembranças sobre a minha pessoa.
O tal rio dos gregos era um dos rios de um território sagrado, o Hades. Aqueles que bebessem de sua água ou, até mesmo, tocassem nela, viriam a ser amaldiçoados pelo esquecimento de tudo que viveram até então, seja individualmente, no presente ou em vidas passadas e mesmo em sua herança familiar e cultural.
Em outras vertentes de pensamento se fala de um outro rio, o Mnemosine, cujas águas fariam os mortais recordar e alcançar a verdade e até mesmo a onisciência. Na Divina Comédia, Dante fala do Lethe como um rio cujas águas os pecadores tinham de beber para apagarem da memória os seus pecados cometidos. Veja só em que águas estamos agora navegando, meu querido! Você buscava atravessar aquele grande rio para procurar o esquecimento. Quase conseguiu, mas mais adiante parece que de com outro manancial, agora carregado de verdade e consciência sobre o que é de fato a realidade da vida.
Assim eu, do alto dos meus setenta anos, torço por você, com todo meu sentimento. E bem que queria que me fosse possível pegar carona no cometa de sua energia vital, tão grande ou maior que a minha de muitos anos atrás. Você traz dentro de si um bloco energético maior do que qualquer pedaço desse tal de lítio, maior do que o próprio Maracanã. Você tem Aletheia no coração, que ela lhe abençoe! Conte sempre comigo!
***
