Apenas mais uma história de amor

Era o primeiro dia de uma primeira semana de aulas na Faculdade de Medicina. Cumpria obedecer ao ritual estabelecido de que os novatos doassem sangue. Ele foi lá, espichar o braço, em conformidade com os trâmites, e percebeu, na maca ao lado, a figura de uma moça de cabelos longos e escorridos, óculos de míope, meio no estilo gatinho, com um narizinho levantado, que de outra forma lhe teria passado como defeito, por dar à criatura um jeito presunçoso. Naquele caso específico, definitivamente não. Ela também recém aprovada no vestibular, tal como ele, se viam pela primeira vez.

Em breve se encontrariam novamente, de forma involuntária, associados por uma terceira colega a um grupo de dissecção que estava sendo formado para as aulas de anatomia, no qual já estavam dois ou três conhecidos dele, mas também, para surpresa de ambos, a vizinha de maca e doadora de sangue da semana anterior.

Chuva na horta, pensou ele, que já se esquecera da impressão presunçosa que à primeira vista ela lhe causara, melhorada agora pela roupinha mais justa e colorida que ela vestia, permitindo agora a observação mais detalhada de duas pernas bem torneadas e uma certa ternura inspirada pelos olhos míopes dela, agora sem os óculos de modelo gatinho.

Conversa vai, conversa vem, ele ficou sabendo que ela estava recém-chegada de uma cidade do interior e admitida no primeiro vestibular que tentou. Gênia verdadeira, pensou ele, com admiração, tendo conseguido o mesmo feito cursando um colégio gabaritado da capital, daquele tipo que colocava em uma faculdade pública a quase totalidade de seus alunos. Ela não lhe perguntou muita coisa sobre sua origem, mas ele tomou a iniciativa de informar que era dali mesmo, que morava com sua família e que tinha feito vestibular de medicina para ajudar a humanidade, ou coisas desse tipo, no que ela concordou, dizendo que de sua parte era também assim, como devia ser, aliás.

Continuando as conversas, que se tornaram mais frequentes e menos formais e previsíveis, bisturi pra cá, tesoura e pinça pra lá, em poucos meses assumiram estado de namoro, tempo bastante para que ela afastasse um pretendente que já se considerava seu meio-par oficial e constante.

Naquela sala enorme, fria e cheirando a formol trocaram uma primeira carícia tímida e até mesmo um beijo roubado, não sem experimentar sentimentos que misturavam culpa e júbilo. Na alta parede de tal sala uma frase em latim lhes comunicava, no caso de maneira auspiciosa, que ali a morte se orgulhava de ajudar a vida: hic mors gaudet succurere vitae, mais exatamente.

Assim, de forma um tanto macabra, tendo como testemunha um cadáver, se demoravam à beira daquela mesa de mármore frio e daquele corpo morto, com a desculpa de apenas prepararem o campo retalhado para a jornada seguinte, mas na verdade pelo simples gosto de ficarem até mais tarde em singular colóquio, tendo a morte como testemunha.

– Isso ainda vai dar em casamento, foi o que lhes disse, certa vez, o professor responsável por tais sessões fúnebres. Segundo ele, isso lhe era ditado pela voz da experiência, por ter visto muitos matrimônios começarem daquela maneira, na insólita companhia de um defunto.

E ele teve razão. Aquilo deu em casamento mesmo, alguns anos depois, mesmo antes de se formarem.

Mas antes disso puderam presenciar a realidade, sem vivê-la totalmente, daquilo que a juventude dos anos sessenta teve amplo acesso, embora ele considerasse que estavam um pouco atrasados, em relação a gente de outros lugares e mesmo em relação a colegas próximos. Com efeito, a revolução sexual não os teve em suas fileiras. Casaram virgens, ela totalmente e ele mais ou menos, embora não fosse essa, exatamente, a vontade dele. Mas neste quesito ela se mostrava peremptória e ele teve que se amoldar, sacrificando suas intenções libidinosas no altar da castidade. Não foram especialmente infelizes com isso.

Drogas não faziam parte da praia deles. Ele, que trafegava em um meio um pouco mais liberal, já tinha experimentado a maconha, mas ela sempre resistiu, alegando não saber tragar. Lança-perfume, vez ou outra, era permitido aos dois, mas sem deixar de lado a dor de cabeça pós inalação e também uma certa culpa. Papos cabeça, revelações íntimas aos amigos, sexualidade explícita e desavergonhada, como era moda na época, foram coisas que não os pegaram muito, pois padeciam de clara objetividade relativa ao desejo de se concentrarem nos estudos e se formarem logo, para enfim sair para o mundo e para a vida.

Ah, sim – e casar!

Afinal era preciso se libertarem dos grilhões familiares, embora isso para ela não trouxesse a carga negativa que tanto afetava a ele. Mas era terrível não poderem viajar juntos, sair sem destino e sem ter hora de voltar, experimentarem ações, eventos e substâncias diferentes, contrapor-se à ditadura, mergulhar na contracultura, make love, coisas que naquela ocasião todo mundo da geração deles fazia. Ela não era adepta de coisas de tal natureza e ele, que talvez fosse, ou aspirasse a sê-lo, não queria gastar muita energia em convencê-la do contrário, até porque quando vez ou outra insistia nisso, ela o rejeitava com certa ferocidade.

Com pouco mais de vinte anos de idade eram independentes das famílias, ele dando aula em cursinho, ela com bolsas de estágio que conquistava num piscar de olhos, competente que era, no último furo. Daí a casar foi um pulo. Alguns meses antes da formatura, foram ao altar e começaram uma vida de muita tranquilidade econômica, com bons empregos e, sem dúvida, especial amorosidade. Tudo isso durante pouco mais de vinte anos no total, o que não deixa de ser um fato notável nos tempos em que se vive hoje – e já naquele tempo.

Optaram pela vida no interior, não só para fugir da cidade grande e das armadilhas familiares (ele, pelo menos). Daí vieram uma ascensão econômica cada vez maior, a ocupação dele em cargos políticos, a construção de uma e depois duas casas, as viagens nacionais e internacionais, a mudança de frequente carro, a compra de um sítio – tudo o que compõe, enfim a cesta de consumo da classe média (e médica) bem sucedida. Enfim puderam dispor de um patrimônio material e simbólico erguido com prudência e solidez.

Talvez não tenham avançado muito na capacidade de superar as rusgas normais entre casais. Mas quem liga ou, de fato, é competente nisso?

Tinham clareza, todavia, que realizaram coisas importantes, para sua época e dentro de seu grupo social e familiar, principalmente terem compartilhado aquele gesto corajoso de mudar para o interior, abandonando a Capital que já lhes oferecia tantas oportunidades. Disso nunca se arrependeram e nem das outras variadas realizações que alcançaram em sequência previsível.

Casal mais bem-sucedido, impossível!

Entretanto, o final feliz tão previsível que lhes augurava o senso comum não lhes foi concedido. Foram nada menos do que vinte anos de somas, interrompidos por uma terrível divisão.

Ela se afundou na mágoa e na recriminação. Ele reconstruiu sua vida em outra cidade, não mais no interior. Mesmo passados muitos anos depois do fim da união, ele continuava a acreditar, tinha clara certeza, aliás, de que ela era uma mulher extraordinária, embora não talvez para ele. Sentia que sua admiração por ela, por sua fibra, sua inteligência, permanecia pulsante, embora soubesse que a recíproca não fosse nem um pouquinho verdadeira.

Uma história exemplar, enfim, como tantas outras. É a vida?  A verdade é que foram felizes e infelizes, misturadamente. Simples assim, nada mais do que isso. Já está de bom tamanho, por certo.

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