Neste último domingo, 22 de fevereiro de 2026, fui agraciado por um convite para algo que vai se repetindo, quase que a cada ano: o lançamento de um novo livro de meu amigo Mauro Marcio de Oliveira, denominado O Livro das Miudezas. Nesses tempos que qualquer um que compartilhe em uma das tais redes sociais duas palavras com você, ou até menos do que isso, mesmo assim seja chamado de amigo, eu já nem sei se posso dedicar esta mesma palavra a Mauro. Somos bem mais do que isso: irmãos, admiradores recíprocos, membros de uma confraria de dois, unha e carne, Simon e Garfunkel, Tom Sawyer e Huckleberry Finn, algo assim. O que não impede que também tenhamos discordâncias ácidas. Mas isso aí só nos soma em termos de proximidade afetiva. E não é que desta vez, além do convite e da amizade, fui honrado com a escrita do prefácio da obra, além de, até mesmo, um posfácio, por assim dizer, escrito a quatro mãos com ele? No meio das miudezas de Mauro, tal convite representou para mim um verdadeiro Pão de Açúcar de cortesia e generosidade. É demais, né? Assim iniciei meu texto: Ao ler pela primeira vez os textos deste Livro das Miudezas que meu amigo Mauro Márcio de Oliveira me pediu para… Para o quê mesmo? Sei lá ao certo, para que eu avaliasse e tentasse encontrar alguma diretriz para que fossem publicados, com a honrosa incumbência que eu assumisse o papel de editor – seja lá o que isso pudesse significar.
O mais vocês saberão em seguida.
Mas o fato é que ao lê-los de assim de súbito me assaltou certa dúvida sobre o nome a ser atribuído aos mesmos. Não é que não tenha apreciado a referência a miudezas, mas cheguei apensar também em batizá-los como algo do tipo Textos ao Léu, ou algo parecido. Ao léu… Acho que isso faria justiça aos escritos e também ao autor. Mas o fato é que não somente eu, mas creio, a maioria das pessoas não eruditas, ao utilizar expressões como esta, que certamente possuem origem temporalmente remota em nossa língua, podem estar perdendo de vista seu significado real. Sendo assim, nada como recorrer a um dicionário – e foi o que fiz.
No meu predileto, o Houaiss, encontrei uma explicação singela, ou seja, que léu significa tão somente inação eu ociosidade, tendo também a acepção de ocasião, ensejo, oportunidade. Mas o meu senso comum queira mais, e através do vasto e nem sempre fiel campo da internet me pus mais satisfeito ao dar com acepções do tipo falta de preocupações, ocasião ou oportunidade favorável para que algo aconteça. Já a locução adverbial ao léu se revelou mais criativa, ao se colocar como sem chapéu (!); desprovido de cobertura ou de proteção e, por extensão, à toa; deixado ao acaso; desprovido de roupa; nuamente ou desnudadamente. Tem ainda como sinônimos palavras como ensejo, ocasião, tuna (deve ser em Portugal…), vagabundagem, ócio. E vem do latim levis, que não tem nada a ver com a icônica calça que tem o mesmo nome.
Tais sinônimos, nem sempre lisonjeiros, a meu ver não honrariam totalmente a verve deste meu querido amigo, mas não deixam de lhe fazer justiça quando falam, embora de passagem, em coisas ditas ao acaso, sem maiores preocupações com a coerência, ou pelo menos com a seriedade, e assim mesmo palavras como ócio e mesmo vagabundagem, quem sabe, podem ser tomadas em sentido mais positivo.
Enquanto me vinham tais elucubrações, lembrei-me de uma palavra que me foi trazida por um professor de francês, muitos anos antes, que me pareceu também estar sintonizada com estes textos mauromarcianos. Trata-se de boutade, um substantivo feminino referido nos dicionários como tirada espirituosa ou engraçada e também pensamento ou dito sutil, original e imprevisto, ao que se acrescenta a característica de contrariar propositadamente a verdade. Pode ser entendida também como capricho, escapada, derrapada ou erro proposital. Fico com as primeiras acepções, sem desprezar esta que fala de capricho, que me parece sem dúvida adequada ao caso presente. Enfim, uma tirada espirituosa ou engraçada, que dentro de uma acepção mais antiga pode ser também uma forma de dança, o que não deixa totalmente ao léu a tônica do discurso de meu amigo.
Com isso, penso que poderei deixar definida claramente o título que sugeri para essas sutis e originais miudezas, ou seja, tiradas plenas de humor, criatividade e espírito que Mauro tem o ensejo de nos trazer.
E não me foi difícil encontrar marcas de tais qualificações ao longo do texto com que os leitores farão contato a seguir. Vamos a algumas delas
A brincadeira passa, por exemplo, na confusão que ele arma com a sigla ONG, ao associá-la, por sintonia fonética, com o nome da província chinesa e ex-britânica de Hong Kong, indagando se não haveria lugar mais liberal do que este, já que leva ONG no nome e no sobrenome. Não satisfeito com a verdadeira boutade que nos apresenta, deixa escapar que sendo tal sigla, em inglês, NGO, se isso não deveria mudar o nome do lugar para Hngo Kngo. Mas logo volta a falar sério, lembrando que isso de fato não faz sentido, nem para nós nem para eles. Mas quem sabe, retorna ele ao tom jocoso, não seria do português uma língua com o potencial de abrir significados com outras línguas?
Mas não fica só nisso a sequência lúdica que Mauro Marcio nos oferece. Detenho-me, por exemplo, em suas reflexões boutádicas sobre os efeitos da propaganda sobre o cotidiano das pessoas, coisa que, de repente, neste mundo dominado por zuckerbergs & cia, entrou para a ordem do dia, porém antevistas por ele ainda no século 20. Disse ele na ocasião que nossos julgamentos correm sério risco de serem mascarados diante de tal impiedoso império.
Dentro disso é que ele imagina uma farmácia que ofereça medicamentos contra as contradições dialéticas, a brutal escravização do mundo e as dissensões sociais, cortando o mal pela raiz, seja lá o que isso signifique. E mais, imagina uma versão comunista da tal drogaria, na qual se pode adquiri o produto LocicUrss, droga altamente recomendada pelo materialismo histórico, Onde adquiri-la? Na rede PharMarx, obviamente!
Já no mundo capitalista, no qual você, homem-época, homem-momento, depois de tantos combates, lutas ideológicas, debates, palestras, passeatas e manifestos terá se cansado, certamente, de desejar a revolução, esgotado que está pelo exercício da liderança, com suas funções vitais totalmente subvertidas, tal farmácia oferecerá as maravilhas oferecidas pelo fármaco Acigol-Capital, produto de um laboratório Do Lar. Disponível na rede Omsilatipac.
Seja lá o que isso for… Mas tem precedentes históricos, por exemplo, naquela corrente que representou vanguarda artística europeia, surgida em Paris o início do século XX: o surrealismo. Era um movimento reativo ao racionalismo e ao materialismo ocidentais, gerado em contexto que já designado como “os anos loucos”, abarcando artes plásticas, literatura, teatro e cinema e com isso, com certeza, a presente incursão mauromarciana.
Assim o definia um de seus fundadores, no caso, André Breton, como uma forma de automatismo psíquico, a exprimir, verbalmente ou por escrito (ou de qualquer outra maneira), o funcionamento real do pensamento, diante da ausência de qualquer controle exercido pela razão, além de ao abrigo de alguma preocupação careta, estética ou moral.
Trata-se, como se vê, de fazer novas interpretações e buscar expressões alternativas da realidade. Mauro parece exercer com segurança (se é que tal palavra cabe aqui) e autoridade (idem) tal ausência do controle da razão, se lixando para a estética ou a moral (ma non troppo). O surrealismo é campo para o pensamento livre, a expressividade espontânea; a “realidade paralela” de cenas irreais, etc. – assim dizem os tratados. E o cara é bom nisso.
E vejam mais estas: (1) Em espanhol, ‘cirurgia’ é ‘cirugía’ e ‘cirurgião’ é ‘cirujano’. No caso, a intervenção cirúrgica saiu da UTI e entrou no dicionário: passou o bisturi no ‘r’ das palavras; (2) Ao meu companheiro Sousa: Pára! Digma Khun quem andas e te direi quem Sousa! (3) Ao usar a expressão “nem tanto ao mar, nem tanto à terra” onde está a pessoa? A bordo de uma estação orbital?
Não é mesmo surrealismo puro?
Mas tem mais… Por exemplo, sua habilidade em fazer jogos (lúdicos) com palavras, o que, aliás, se enquadra muito bem como mais uma expressão surrealista.
Vejam o seguinte exemplo, que trata da rivalidade, melhor dizendo, de certa afinidade, entre paulistas e mineiros. Aqueles lá, sempre pretenciosos, na voz de Oswald de Andrade, meio que tentaram reinventar Shakespeare, proferindo o famoso tupi or not tupi. A mineirada, mais caipira e ainda barroca não deixa por menos, parte do bíblico quo vadis, para expandi-lo: Doncovim? Oncotô? Proncovô?E a mineiridade pulsa forte nele, ao definir, de forma cabal, o improvável (porém bem achado) plural de etanol: êta nóis!
Em certo momento ele indaga sobre o lugar das palavras sem nexo, no que parece ser uma autocrítica. Mas logo acrescenta: no anexo. Para que ninguém pense que ele não está falando sério…
E por aí vai: título de livro de autoajuda: I, first! Aqui estaria parafraseando Trump, em uma versão anda mais personalista do Orange-Man? E segue, sem limites: ele é hediondo. E ela, é de onde?Não deixa sua veia poética ao léu, descobrindo em um prosaico fecho éclair indícios de pura poesia, ao destitui-lo de sua raiz meteorológica e francesa em troca de um não menos, talvez onomatopaico, porém bem-vindo anglicismo: zíperes. Faltou dizer, em acréscimo – e com a mesma origem: shazam, para melhor comemorar a descoberta. Bate seu próprio recorde de invenção poética ao descobrir, onde menos se espera, abrigo para mais poesia, totalmente nonsense, falando de palavrasque parecem dispor de olhos a nos perscrutar: zoológico, cooperativa, bamboo. Ao que eu acrescento, com algum temor de macular tal poiesis e provocar ardume em tais órgãos de visão: seria o mesmo caso de shampoo?
E para encerrar triunfalmente tal história de ludo-palavras: lago, ligo, logo, lúgubre.
O Brasil, é claro, não ficaria de fora na dèmarche mauromarciana…
E ele é destemido, por exemplo, ao enfrentar a esquerda, ao revelar sua sensação desagradável frente ao MST, ainda que aplauda seus militantes, provocando: se tal movimento surge quando havia no país poucas opções. Mas não perde a oportunidade de provocar, dentro de sua matriz surrealista: custa acreditar que haja realmente compatibilidade entre desenvolvimento real e uma pátria de agricultores familiares. Que o céu não lhe desabe sobre a cabeça depois de tal declaração.
Mas sua provocação pode não passar de uma questão de versão, como naquela anedota sobre a generosidade divina em alocar tantos recursos naturais ao Brasil, justificada por Ele pela qualidade do povinho que colocaria para habitar o país. Mauro imagina a contrapartida do Todo-Poderoso: vocês não perdem por esperar quantos problemas eles criarão para si mesmos – ou algo assim.
No fim, acredita, somos nós, o povinho brasileiro é que levaremos a culpa e em tal campo desafiaremos os vizinhos além fronteiras, mais ao sul: quem não pode ser um portento tem de contentar-se com ser um portenho. Com os franceses não deixa por menos, lembrando De Gaulle, que um dia disse que nosso país não poderia ser uma nação séria, acreditando, em contrapartida, que sua própria terra seria de governo impossível, por dispor de três centenas, ou mais, de variedades de diferentes de queijo. Talvez um argumento mais nobre, mas igualmente destituído de relevância.
Mas que país seria este, o nosso, afinal? A resposta, segundo ele, não viria de alguma França ou outro lugar nas europas, mas sim dos grotões. E estamos conversados com tal crítica distribuída de forma, digamos, mais democrática. E prossegue: nosso subdesenvolvimento vai além da constatação de carências diversas, ao incluir nisso a produtividade, a infraestrutura, a produtividade, etc. Tudo isso fazendo contraponto à nossa abundância, em termos, por exemplo, de território, habitantes, produção de commodities. Porém, ai porém: que não sejam esquecidas, ainda, nossas eficientes e produtivas máquinas de corrupção. E por falar nisso, que não seja esquecida, também, a raça dos políticos, entre os quais muitos (alguns?) renunciam a mandatos ao serem flagrados em atitudes menos ortodoxas, agendo assim para não perder direitos políticos. Ou seria para continuarem fazendo a mesma coisa no futuro? Mauro vai ao seu baú de economista para chamar esta curiosidade de refinado exemplo da economia intertemporal, que distingue o que seria valor presente de valor futuro.
Lembra ainda que o Brasil foi o último país a largar o osso da escravidão. Mas, para nosso consolo, a nobre Inglaterra demorou a largar o osso do colonialismo, e ainda tem alguns países europeus a conservarem umas tais ‘dependências ultramarinas’. Estamos vingados, portanto.
Antes nossos problemas fossem só de tal natureza… Não custa lembrar (e há exemplo recente disso) do mito do candidato novo, outsider. Tem sido regra no país, mas que esbarra na realidade porque o que parecia novo termina por se unir à velharia, para poder governar e usufruir das benesses do poder. Afinal – e isso não nos consola – vivemos uma realidade em que as coisas de governo ou param no meio do caminho, ou chegam ao final irreconhecíveis, demasiadamente tardias e quase sempre superadas. Uns dias chove, em outros bate sol… De um lado muita programação e pouca execução, com escassa avaliação; de outro, no Judiciário, por exemplo, muita acusação, pletora de recursos e reduzida aplicação de penas. E assim navega o nosso barco e Mauro, do alto de sua watching tower, não deixa nada escapar. Mas enfim, seriam coisas derivadas de nossa proverbial antropofagia oswaldiana? Ele duvida, pois aqui não apenas se mastiga, se engole e se digere, mas vamos mais além, ao não apenas digerirmos tais iguarias, mas também cuspi-las mais adiante, o que nos torna antropófagos orais e e não digestivos. Oswald por certo se iluminaria com tal extensão de sua criação…
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Para quem ainda não conhece Mauro Marcio, compartilho tal personagem de minha vida através do texto seguinte, incluído em meu livro de memórias Vaga, Lembrança , que aliás pode ser acessado aqui no blog: https://veredasaude.com/2023/06/19/vaga-lembranca-memorias/ –
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Se você ficou interessado em também ler esta pequena joia, dirija-se diretamente ao autor: 61 98359 876
