Closing Time

And I swear it happened just like this: a sigh, a cry, a hungry kiss, the gates of love they budged an inch. Leonard Cohen: Closing Time

Que festa boa meu Deus! A gente bebia e dançava, aquela banda era realmente da pesada. Johnny Walker rolava pra lá e pra cá e nos instilava sua sabedoria. Melhor ainda, no final não haveria contas a pagar. Nenhuma conta!

Do melhor não falei ainda, daquela mulher, a felina que por vezes me acompanhava na dança, sempre a pequena ou quase nenhuma distância, rodopiando, todavia presente, próxima, quase me tocando, num movimento de aproximação e recuo, a me despertar algo entre o angelical e o vulgar. Que pena, esqueci seu nome. Dela própria não sei mais nada. Sumiu em alguma dobra do mundo. Não era minha garota, era de todo mundo. Esfregava suas coxas nas coxas de todos ali – e de todas também, por que não? E se havia naquilo luxúria, havia também, por que não dizer, compaixão. Sim, a compaixão em atender os desejos de um bando de solitários, como eu, que de outra forma não teriam perto de si o calor e a textura do corpo de uma mulher, que além disso nos deixava um halo de seu perfume doce e penetrante e o toque de suas coxas, até de sua intimidade, de puro e úmido cetim.

Não havia ninguém ali que não estivesse em busca de um par, entre os que bebiam, entre os que apenas dançavam ou lançavam olhares esperançosos, que no íntimo não agradeciam a dadivosa presença de tal criatura.

Ali tocava uma banda de rock, ou seria de blues, já não sei bem. Mas o fato é que havia entre os músicos um violinista e ele acariciava o instrumento de maneira tão virtuosa que parecia mais um gesto de amante do que de profissional. Mais do que encantava, enlouquecia, fazendo que algumas mulheres e mesmo alguns homens se agitassem de maneira quase selvagem e repleta de alusões eróticas quase explícitas. Algumas daquelas mulheres, ao se pegarem ou serem tocadas no meio do salão, tinham as roupas rasgadas, talvez o fizessem de propósito. Os círculos que as luminárias estroboscópicas faziam girar no chão, como discos móveis de luz e cores, eram perseguidos freneticamente, pelos homens, pelas mulheres, pelos casais. Já ninguém sabia ao certo o que estava fazendo e nem o que viria a acontecer. Ninguém… Se aquele violonista parasse de tocar, como tentou fazer por algumas vezes, gritos irados e sem conta se levantavam contra ele e um ambiente infernal de pecado e luxúria se instalava no salão.

Uma voz que parecia comandar um jogo de bingo se fazia ouvir, metálica, onipresente: é hora de fechar, é hora de fechar. Às vezes em inglês: it’s closing time, closing time, closing...

Mas de maneira frenética e descontrolada seguia a dança, os pares se formavam e se desfaziam. Estar em par ou desacompanhado era coisa que já não importava mais e a certa altura o mais comum era o total desfazimento dos casais que em momento anterior tinham se formado. Agora homens e mulheres se misturavam e se procuravam de forma aleatória e lasciva, qual uma multidão de autômatos. Trocavam beijos à esmo, que se tornavam mais profundos e demorados. Alguns completavam no chão as carícias, com corpos, pernas e braços totalmente entrelaçados e já inseparáveis.

– Last orders. It’s closing time!

Todos tão solitários, tão selvagens, mas tão românticos. Alguma substância desconhecida parecia ter sido adicionada ao Johnny Walker quem sabe às bebidas doces e coloridas que também eram servidas. Alguém gritou que havia lua no céu; de fato ela estava lá, refletida na piscina, uma lua nua que convidava à nudez geral na perfumada noite de verão. Alguém viu nela o Espírito Santo – e orou por alguns instantes, para logo voltar aos ritos eróticos a que todos se dedicavam então.  

– Alívio, eu quero alívio! Alguém gritou já dentro da piscina. Outro respondeu, num suspiro logo transformado em grito, abafado por um beijo, vindo de uma pessoa até então desconhecida – você logo o terá!

Eu vi, eu estava lá. Foi assim que aconteceu. Mas já não consigo falar das coisas que aconteceram desde então.

Chega, é hora de fechar, é hora de fechar – a voz de bingo soava como passava de um espasmo doloroso. Mas eu juro, eu ouvi.

Uma torre deu as horas, em badaladas tristonhas. Sim, havia uma torre na qual ninguém havia prestado atenção. Aquele sino tinha algo humano. Até seu som era como um suspiro, um grito, um beijo faminto, a tentar, debalde, abrir a cancela para alguma forma mais pura de amor finalmente entrar no cenário. O fim se aproximava, eu sabia, e seria como um suspiro, não como uma explosão ou uma badalada enérgica daquele sino.

– Closing time, Closing time, Closing time.

Não posso dizer com certeza, mas acredito que foi em um momento assim que a vi de novo, depois de horas ou minutos em que ela desaparecera. Eu declaro, sim, declaro, da melhor maneira que posso, que amei aquela mulher pela sua beleza, mesmo me fizesse sentir uma espécie de tolo. Afinal, ela estava ali justamente por ser dona de tanta beleza. A beleza era tudo e eu a amei por isso, pelo seu corpo magnífico, declarando isso com todas as palavras reais ou ainda por inventar. E nosso amor, novo em folha, se viu abençoado, o que me fez desejar aquela desconhecida ainda mais. Uma voz assim anunciava, como vinda de algum deus, somente para mim. Mesmo quando já não havia nada mais, eu a amava ainda, com amargura, agora, e uma sensação de tempo vencido e perdido, naquele lugar já destruído, onde não mais havia música, nem violino, casais, lascívia, nem mais nada. Mas o que me importava que tudo deixou de fazer sentido? Fiquei pensando que me libertei daquilo, mas ao mesmo tempo percebendo que não estava vivo. Se sobrou alguma coisa, não sei. O que persistiu é entre ela e eu, mesmo depois de ausentes. O certo é que eu a perdera de novo, mais uma vez.

Chega, é hora de fechar, é hora de fechar…

De repente, no meio de tanta estranheza, o que era aquilo? Uma nuvem, uma grande esponja de algodão parecia descer sobre todas as coisas, deixando borrados os limites das paredes, das luminárias, das janelas, das pessoas. Das pessoas, não, parecia não haver mais gente ali, tudo embebido e dissolvido na nuvem, que de branca aos poucos passava a cinzenta. Não se fazia o silêncio, mas os sons que surgiam de algum lugar pareciam gerados por uma vitrola alterada, girando fora da rotação normal.

– Fechar, fechar, fechar…

Eu já não compreendia bem o que via nas franjas da esponja. Sentia a falta dela – de quem mesmo? Naquele lugar agora destruído e mal perceptível na neblina. Eu simplesmente não me importava com o que acontecia, mas ao mesmo tempo me sentia incapaz de fazer qualquer juízo sobre aquilo. Eu me sentia livre, mas ao mesmo tempo morto. Tudo que havia no tempo e no espaço era coisa que só dizia respeito a duas pessoas: aquela mulher e eu. Mas onde ela estaria agora? Não era a meu lado, por certo. Senti uma corrente fria de ar, que parecia vir de algum lugar no assoalho. Não sei por que me veio à mente uma frase que combinava ventos da mudança e as ervas do sexo. Sexo: será que esta era a minha necessidade real naquele momento?  Poderia ser, mas eu me sentia tão confuso que não me via capaz de determinar. Já não se bebia e dançava, pelo menos que eu percebesse, na verdade parecia não estar acontecendo nada, nada, nada. Ervas? Sexo? Nada disso fazia sentido. Aquele lugar estava morto, como num triste fim de noite num domingo. E eu a vi, novamente, vestida por um corpete sensual e justo no corpo, mas com um rosto de zumbi, de uma pessoa de cem anos, não mais com a beleza jovem e esfuziante com que se exibira ainda um pouco antes. Tão próxima, tão distante. Eu tentava me comunicar com aquela aparição, mas gaguejava e vacilava de forma ridícula. Uma verdade terrível chegava, mas que não podia ser revelada aos olhos da juventude. Mas eu já nem sei se sou jovem ou se sou um velho. Talvez nem uma coisa, nem outra.

– Closing time, Closing time, Closing…

Uma força que me vem de dentro me diz que eu agora deveria brindar, não sabia a quem ou a quê, mas mesmo assim eu levantei meu copo inexistente, que logo me esfarelou nas mãos. É preciso encarar, já, a verdade terrível, mas ignoro se coexiste com algum tipo de mentira. Assim mesmo, eu levanto meu copo para ela, alternando os goles da bebida que me amarga, uma vez para o Diabo e uma vez para Cristo. Tenho a sensação súbita de subir em alturas, mas uma voz que vem de cima me ordena que desça, até porque lá no alto as luzes me ofuscam e eu me sinto totalmente partido, embora inteiro para o que vier de pior. Tudo está louco, duas vezes louco, e eu sigo olhando o infinito, uma vez para o Diabo, outra vez para Cristo, sentindo que essas luzes ofuscantes me quebraram em pedacinhos, muitas e muitas partículas que jamais se juntarão de novo.

Eu vejo agora o mundo através dessas partículas, na verdade pequenas lentes em forma de confetes e percebo que esta coleção multicolorida que deveria me mostrar algo da realidade na verdade só me confunde, mais e mais.

 – Fechar, fechar, fechar…

Por um momento estou naquele salão onde as mulheres rasgavam suas roupas e os homens perseguiam os círculos que os holofotes espalhavam pelo chão. Mas nada nada nada mais faz sentido. Já não há banda e nem violino. O inferno parece estar prestes a se instalado, é o que dizem meus sentidos, mas não há chamas nem gritos de horror, apenas uma névoa branca que aos poucos se torna cinzenta. Eu juro que aconteceu assim, tudo se encerrando em suspiros, gritos abafados, beijos famintos, orgasmos interrompidos. Uma réstia de luz entra no cenário. Seria os anunciados portões do amor que se abriram um pouco? Não. Eu não poderia dizer que alguma coisa aconteceu desde então.

Eu não tenho mais o que dizer. De meu agora só tenho a mudez e estarrecimento.

Mas o jogo e sua voz metálica parecem se encerrar, de vez. para minha felicidade. Fechar fechar fechar. It’s closing time for all.

Dou graças, já não era sem tempo.

 ***

Não é falta de inspiração, não. Pelo contrário, leitores amados, é apenas a ânsia de buscar novos mananciais de inspiração para minha escrita. Assim, aqui vai mais um daqueles textos de segunda mão, desta vez inspirado (ou derivado) de uma canção de meu ídolo Leonard Cohen, Closing time. Ele nasceu em Montreal, Canadá, filho de uma família judia de origem polaca. Teve a infância profundamente marcada pela morte de seu pai, o que lhe acarretaria a depressão que o acompanharia por muitos anos. Começa a carreira musical aos 17 anos, tocando música country, ao mesmo tempo em que escreve seus primeiros poemas, inspirado por autores como García Lorca, de quem ele, aliás, fará uma belíssima versão musicada de um poema (Take this waltz). Ainda nos anos 50 dá início a uma vasta obra literária, não só de poesia, mas também de ficção. Em meados dos 60, Cohen já estabelecido como escritor, resolve incursionar pela música. Mas em diversos momentos de sua carreira ele se afasta desse mundo por não aceitar as regras mercadológicas, passando, na década de 90 alguns anos em um mosteiro budista da Califórnia, onde recebe o nome de Jikan (“silencioso”). Suas obras costumam focar temas da religião, da política, do isolamento humano, da depressão, da sexualidade, das perdas, da morte e das relações românticas, às vezes com profundo lirismo, às vezes com amargura e um toque de surrealismo, como no caso presente. Cohen se tornou bastante conhecido por canções como “Hallelujah“, que alcançaram notoriedade tanto em sua voz quanto na de outros intérpretes. Curiosamente ele passou a se dedicar à música apenas depois dos 30 anos, idade em que já era consagrado como autor de romances e livros de poesia. Conheça no link a seguir a canção que deu origem ao presente exercício de escrita: CLOSING TIME (TRADUÇÃO) – Leonard Cohen – LETRAS.MUS.BR

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