Coisas tão vãs e tão mudáveis

Aqui vão mais alguns contos. Dei a eles o título acima inspirado no seguinte soneto de Sá de Miranda, contemporâneo de Camões.

O sol é grande, caem co’a calma as aves, / do tempo em tal sazão, que sói ser fria; / esta água que d’alto cai acordar-m’-ia
do sono não, mas de cuidados graves.
/ Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,/ qual é tal coração qu’em vós confia? / assam os tempos vai dia trás dia, / incertos muito mais que ao vento as naves. / Eu vira já aqui sombras, vira flores, / vi tantas águas, vi tanta verdura, / as aves todas cantavam d’amores. / Tudo é seco e mudo; e, de mestura, / também mudando-m’eu fiz doutras cores: / e tudo o mais renova, isto é sem cura!

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Humanos em demasia…

Persisto na veleidade de escrever contos. Podem me criticar pelo resultado insatisfatório. Mas indago: não é treinando que se aprende? Aqui juntei escritos meus ao logo do ano de 2023, nos quais, mesmo sem intencionalidade direta, contei histórias de gente diferente, para tentar ser sucinto. Inspiração? Casos de minha carreira médica, lembranças de fatos e de pessoas que conheci ao longo da vida, frutos de minha imaginação – tem um pouco de tudo isso. Este último ingrediente talvez seja mais constante do que os outros e isso com certeza indica um caráter menos auto-biográfico e mais psico-analítico nos meus escritos. Mas por favor vão desculpando, eu assumo que sou assim… Aqui vai uma dúzia de testemunhos sinceros disso.

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Conta de mentiroso (Sete histórias inventadas)

Incorrigível, eu. Persisto em minha veleidade de escrever contos. Ou talvez devesse usar outro verbo: perseguir? Mas não desisto. Isso me faz lembrar Augusto Matraga, o personagem de Guimarães Rosa, que repetida a todo momento em sua luta contra a maldade do mundo: vou para o céu nem que seja debaixo de porrete. Pois que venham a mim as pauladas da crítica, ou pior do que isso, de ser ignorado. Mas persisto, e apresento aqui estas sete histórias totalmente inventadas. Aliás, para falar um pouquinho de verdade, pode ser que mesmo esta invenção seja de fato inventada. Vão desculpando…

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As Três Graças

Sei que na história da Arte as Três Graças representam outra coisa. Mas por afinidade resolvi associar este nome para ilustrar esta reunião de escritos meus, que junta Contos, Crônicas e Poesias. É o resultado de pelo menos trinta anos de tentativas literárias, embora em relação aos contos minhas experiências sejam bem mais recentes, de apenas alguns meses. Como selecionei dez exemplares de cada uma de tais categorias, dei à coletânea este nome bem pouco literário: 10+10+10, embora fiel ao objeto apresentado. Ficam assim aqui registrados estes escritos, para a posteridade, ou para alguém apareça – e será bem vindo! – para me ler antes disso.

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Registrado nas Efemérides (e outras histórias)

Aqui vai mais uma pequena seleção de contos meus. Desta vez são dez. Começa assim… <<Destas ruas de pedras lisas, que tantos pés esculpiram, as feridas nos morros se fizeram menos mortais e as mangueiras inundaram tudo com o cheiro seminal de suas floradas; das gelosias dos casarões alguém viu, mas sobre isso se calou….>> Acesse: Continuar lendo Registrado nas Efemérides (e outras histórias)

Amor infernal

Que caso mais esquisito o que eu tive com aquela mulher. Eu chamaria aquilo de um negro amor, não como uma expressão racista (porque hoje esta palavra exige cuidado pra ser usada), mas como uma coisa que mesmo durante toda sua presença em minha vida eu só queria que acabasse e que fosse esquecida. Um sentimento que se tem, quem sabe, pelos mortos desconhecidos e incapazes de outra vez se levantarem. Pedras de um caminho que cumpria serem deixadas para trás.

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Vaga, lembrança (Memórias)

Resolvi escrever minhas memórias. Pretensão demasiada, talvez… Acontecimentos que vivi não foram poucos, claro, afinal quase são quase 75 anos de vida. Mas importantes mesmo foram: meu comparecimento à inauguração de Brasília em 1960; minha opção para o Colégio Universitário em 1966, deixando para trás a verdadeira zona de conforto do Colégio Estadual; minha bolsa de estudos nos States, em 1970; minha opção, junto com Eliane, de deixarmos outra zona de conforto, em BH, para ir para o Oeste, para o interior, em 1974; ter sodo Secretário Municipal de Saúde em Uberlândia, em 1983 e depois em 2003; a opção por morar em Brasília, em 1991; minha participação, hoje meio esquecida, no Movimento Municipalista de Saúde nos anos 80; a construção de minha casa “definitiva” nas Taboquinhas, 2010-11; além, é claro – e principalmente – do nascimento de cada um dos meus cinco filhos, Daniela (1974); Mauricio e Fernanda (1976); Flavinho (2003) e Sophia (2006). Mas o que produzi de importante, de fato, em termos de alcance social ao longo de minha vida? Não se trata de modéstia, foram poucas coisas mesmo. Mas em três delas ninguém me tira o orgulho de ter participado, diretamente, com muita crença e afinco. Primeiro, o tal movimento municipalista, no qual ajudei a fundar duas entidades hoje da maior relevância na política de saúde no Brasil, os Conselhos de Secretários Municiais de Saúde de MG e Nacional (Conasems). Tem também o estágio dos alunos de Medicina da UnB em Ceres, depois de três décadas de afastamento da Faculdade deste tipo de atividade, lá encontrando pessoas certas para viabilizá-lo. Por último a criação e a operação do blog Saúde no DF, cujo slogan é A Saúde no Distrito Federal tem jeito! no qual, em cinco anos ininterruptos de funcionamento, já botei para circular mais de 300 matérias, todas de minha autoria. Só não me perguntem pela real repercussão e influência disso na política de saúde desta cidade. Um dia, quem sabe… Mas se você estiver interessado, vire a página e prossiga na leitura…

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Uma viagem e tanto…

A viagem de que se fala aqui, na verdade, era para ser outra. Transcorreria antes do grande cataclisma mundial e nacional que foi a pandemia de Covid e reuniria apenas a família Camarotti, representada por Henriqueta, Helaine e Alexandre. Mas o mundo virou de pernas pro ar, dois anos inteiros se passaram e ela acabou acontecendo com novos personagens adicionados: Flavio Goulart e Maria Íris Guimarães. Alexandre deixou para outra vez. Assim é que nestas páginas eu, Flavio Goulart, narro minhas percepções sobre esta viagem, sob a forma de crônicas. O ideal seria que cada uma das demais viajantes deixasse também suas impressões, pois o que aqui vai é apenas uma visão individual. O narrador, admitamos, não é dos melhores, mas dos mais expostos à galhofa, como disse Drummond a respeito de si mesmo, mas é o que se oferece para o momento. Intitulei estes escritos de Crônicas Portuguesas. Espero que os leitores também apreciem, já que eu gostei muito de ter escrito…

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Crônicas do Bom Viajar

Esta foi uma viagem a dois, para dois e entre dois. As origens de sua realização se situam antes, muito antes de ela ter ocorrido de fato. Mas por que Portugal? Por um lado, pela ascendência portuguesa de Keta. Por outro, pelo meu amor ao país onde também tenho raízes, embora mais remotas. Mais um lado foi trazido pela generosidade de Keta, minha mulher, em pensar que eu poderia guiar uma viagem que ela ainda não havia realizado, apesar de conhecer Portugal de outras passagens pelo país. Uma viagem, acima de tudo, amorosa, na qual paisagens, lugares e nossas duas pessoas estiveram entrelaçados todo o tempo, em clima intenso de conexão entre a construção humana, a paisagem, a amorosidade e o sagrado. E assim decorreram as semanas iniciais em Braga, depois os dias em Marselha e Paris, para arrematar com mais um tempo, de novo em Braga e depois Lisboa. Pequenos contratempos, como o furto de um celular e de cartões de crédito não tiraram o brilho da viagem nem a nossa alegria de estarmos juntos. Pelo contrário, fizemos valer com brilho o adágio, aquele, que fala do suporte mútuo na alegria e na tristeza, levados então por nós até as derradeiras consequências. Foram quase 60 dias juntos, 24 horas por dia, sorvendo cada hora e cada minuto, conhecendo coisas e lugares novos e diferentes praticamente a cada dia, mas principalmente nos (re) conhecendo, em um estado de permanente gratidão ao destino por nos ter proporcionado, depois de 12 anos afastados, um reencontro tão luminoso. Esta viagem foi um marco para nós. Assim foi, assim será. Cabe lembrar Saramago: O fim duma viagem é apenas o começo doutra […] É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. Nossa história juntos mostra também tais desígnios e por isso fazemos disso palavras também nossas. E, principalmente, que tenhamos muita disposição e muita saúde para as outras viagens que nossa vida, juntos, haverá de proporcionar…

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