De um diário alheio: Autorretrato

Cansei de procurar o autor daquele caderno de notas. O melhor de fato foi assumir que tal objeto agora me pertencia, de fato e de direito. Tendo explorado nele os filões amorosos, familiares, líricos e relativos a viagens, descobri que havia algo precioso no final daquelas páginas, uma espécie de autobiografia resumida do autor, aparentemente um prefácio ou introdução para algo de maior porte. De certa forma, isso me trazia o encontro com pessoa real, ou quase isso, que ele era, o que eu vinha tentando fazer nos últimos meses. Acabei por não saber o seu nome e nem detalhes circunstanciais de sua pessoa, mas talvez o essencial de sua trajetória estivesse registrado naquelas linhas. E o que é melhor: nas palavras dele mesmo, com a vantagem de ter dividido sua trajetória em períodos bem marcados e de características diferenciadas, que ele denominou, de forma bem didática e demarcada cronologicamente como gênesis, noviciado, vita activa, mar aberto, persona e torre de vigia. Assim, ele começa com o soneto de Camões já citado, embora de forma incompleta, em outro momento de seu texto, que talvez revelasse informação adicional sobre sua personalidade e sobre sua autopercepção da vida, revelando assim um retrato mais seguro dele, desse nosso, agora nem tanto, Ignoto. Está tudo aí, a seguir.

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De um diário alheio: Viagens

Estamos no seguinte pé: minhas tentativas de fazer contato com o professor Ignoto falharam por completo. Não era ele o obscuro morador da periferia de Brasília e nem mesmo aquele Dr. Euclides, que já residia em Portugal há algum tempo e que com certeza não seria a mesma pessoa com quem eu encontrara num voo para Lisboa, indo lá fazer um período sabático. Havia uma diferença importante de datas entre o meu encontro no avião e a retirada de Euclides para residir naquele país. Mas enfim, bola pra frente. Aquele caderno continha outras revelações importantes e até certo ponto esclarecedoras sobre seu autor, que aos poucos revelarei, tenham calma leitores! O fato é havia ali, também, algo que me interessava muito de perto: relatos de viagens. Por sorte, havia pelo menos dois textos que falavam da região central de Minas Gerais, o chamado território da Estrada Real e, por coincidência (se é que isso existe de verdade), eu tinha recebido uma proposta para realizar um documentário fotográfico e textual em tal região, para uma revista de turismo. Vamos ver estes dois relatos a seguir. Ambos me mostraram o seguinte: primeiro que o Ignoto parecia conhecer a região com certa profundidade; que sua análise ia além de um plano técnico ou geográfico, incursionando por sendas poéticas, sentimentais e filosóficas, e mais ainda que ele parecia ter ligações de nascença com tal território. No primeiro texto ele faz recomendações a amigos que vão trilhar a Estrada Real entre BH e Diamantina; no segundo ele arrisca uma narrativa mais literária pela região do chamado Mato Dentro, na qual inclui observações de natureza afetiva e ecológica, culminando num protesto contra a devastação da mata atlântica pelas atividades de mineração no trajeto.

O cara tocava, realmente, sete instrumentos, ou mais.

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De um diário alheio: Poesia

Como eu dizia, carecia de escrever mais linhas e até mais páginas para dar conta daquilo tudo, daquele feixe de anotações íntimas de um desconhecido, vindo parar nas minhas mãos, esquecido, por acidente, dentro de um avião. Mas preciso deixar claro e mais uma vez o porquê disso: longe de ser uma bisbilhotice, o meu interesse no conteúdo de tal fatídico caderno é puramente literário. Já dei indícios e faço questão de reiterar que também pertenço a tal ramo, seja como jornalista em atividade, embora focado na reportagem fotográfica, seja como escritor, não muito profissional ou acadêmico e nem em tempo integral, mas já tendo publicado um livro de contos e outro de poemas, auferindo com este último um prêmio literário. Tudo bem, foi num concurso organizado por uma universidade do interior do país, mas o fato é que concorri com algumas dezenas de candidatos e ganhei o prêmio, o que me rendeu a publicação do livro e até uma singela reforma em meu apartamento. Ok assim? Mas realmente as páginas do tal caderno perdido me queimavam as mãos – e a mente – e eu já andava querendo saber o que via nelas de tão importante assim. Acho que me identificava com as histórias daquele homem, que parecia meio mulherengo, na verdade, entretanto sem ser vulgar, mas que apresentava um lado poético e sensível, isso era inquestionável. Eu queria devolver aquele caderno para ele, talvez como desculpa para conhecê-lo pessoalmente. E aconteceu que folheando o volume mais uma vez, me dei com um número de telefone anotado na contracapa, que eu não tinha visto antes. Só um número sem código de localidade, sem nome anotado, nada. Mas pensei: quem sabe daí encontro alguma pista.

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De um diário alheio: Amores

Foi em uma das minhas viagens à Europa. Eu não estava feliz – mas também não infeliz – porque acabara de romper meu relacionamento de três anos com a Renata e topei viajar, mesmo sem ela, para tentar esquecer de tudo que tinha vivido nos últimos tempos. E havia, realmente, para mim pelo menos, muita coisa a não ser lembrada. É a vida, nada mais. Viagem de avião, sabem como é, só fica boa mesmo quando acaba, primeiro pelo fato notável de a gente continuar vivo, e não ser devorado pelos tubarões no mar, depois por ter chegado ao fim aquele suplício de passar uma noite em claro, com as pernas encolhidas, ainda mais terminando de forma inglória com aquele esdrúxulo café da manhã servido na incômoda hora das cinco e meia da madrugada, quando a gente tem que fazer um esforço danado para convocar a fome. Isso tudo depois de enfrentar a situação meio prosaica, meio constrangedora, de passar uma noite inteira, dormindo ou tentando dormir, bem ao lado de um desconhecido, ombro a ombro e coxa a coxa com este aí. Mas eu queria falar era de um camarada que tinha assento do meu lado. Um tipo talvez uns dez anos mais velho do que eu, aparência de intelectual, de poeta, sei lá, cabeça branca, bem vestido, cachecol no pescoço, livro nas mãos, na cabeça uma boina de personagem das antigas bande-dessinèes francesas, aquelas do Tintin, sabem? Na decolagem, trocamos duas ou três palavras, apenas convencionais, tipo boa noite, com licença etc. Mas por alguma razão, o papo engrenou somente durante aquele café da manhã extemporâneo, quando fiquei sabendo que ele era professor universitário aposentado, que ia cumprir um período sabático em Lisboa, por conta própria, que morava em Brasília, trabalhava na área de saúde (seria médico?) e mais algumas informações adicionais, sem maior relevância para a história que vou contar aqui. Ele ficaria em Lisboa, eu seguiria adiante, pois tinha um voo de conexão para Paris mais tarde. Então, ok, bom dia, boa viagem, muito prazer em conhecê-lo. Ao se erguer da poltrona, sua mochila se abriu, desastradamente, jogando ao chão alguns livros, uma espécie de caderno de anotações e caixinhas daquelas que se usa para carregar pasta e escova de dentes. Juntou aquilo tudo de forma atabalhoada, parecendo um pouco desconexo nos seus gestos e saiu do avião antes de mim, aparentemente por estar de fato muito apressado, ou então porque era desajeitado mesmo.

Aí começa a história que vou detalhar em seguida.

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Laços de família

Tenho que admitir, minha família é meio diferente das outras mesmo.

Meu irmão Jonas, por exemplo. Não perde oportunidade de relatar como foi seu estágio na barriga de uma baleia, como foi vomitado por ela, quase se afogou até ser resgatado por pescadores, que eram também piratas e lhe tomaram tudo que tinha no bolso, principalmente a chave de uma arca que continha um tesouro acumulado pela família durante décadas, e que lhe fora repassado pelo nosso bisavô. Logo ele contando uma história dessas, filho temporão que nem conheceu nosso pai, muito menos o pai e avô dele. Mas tudo bem, a esquisitice dele é esta, temos que compreender. Não é à toa que os médicos lhe receitam uma dúzia de comprimidos ao dia, que entretanto ele nunca toma direito.

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Amor que começa tarde

Amor é o que se aprende no limite, depois de se arquivar toda a ciência, herdada, ouvida. Amor começa tarde. (CDA – Amor e seu tempo.)

Mulherengo Horácio não era. Definitivamente. Ficara viúvo muito cedo, em casamento no qual não se poderia dizer que ele foi feliz por inteiro, opinião talvez não compartilhada pela falecida. Poucos meses depois do velório resolveu fazer o que até então supunha não ter conseguido: aproveitar a vida. E ele que tivera praticamente como única namorada aquela Mariana, sua colega de faculdade, tendo vivido com ela por quase 20 anos, oscilando entre apenas ignorar suas bizarrices sem reagir, se omitir, ou optar por um afastamento completo e carregado de traumas e culpas. E assim ele enxergou o luto como porta aberta para se “lançar na vida”, em campo no qual se considerava pouco aquinhoado, inspirado pela experiência de muitos de seus amigos, de terem namorado ou mesmo apenas vivido amores fugazes sem passar pelo que acontecera a ele, que se amarrara a um amor de juventude, além de tudo por uma pessoa que tinha como grande desejo na vida chegar virgem ao casamento. Depois de tudo, se ver destinado a passar com ela todos os anos que lhe restassem. 

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Notas de um avaliador de velharias e sociólogo amador

Minha vida é a de um avaliador de velharias, que é o nome que eu dou ao que faço profissionalmente, ou seja, acompanhar as frequentes demolições de imóveis em busca de madeira, vidros, esquadrias e outras coisas de valor, que começam a ficar muito valorizadas aqui nesta cidade, que já foi nova e moderna, mas agora é apenas mais uma das cidades velhas deste país. Neste ofício, que para muitos se realizaria sem maiores emoções ou focos de interesse, além de seu prejuízo aos alérgicos (coisa que felizmente eu não sou), volta e meia me aparecem coisas interessantes, das quais, fosse eu um historiador ou literato, teria mil histórias para contar.

Mas falo como sujeito curioso mesmo. Que os tais intelectuais especialistas no passado me corrijam e mostrem o rumo certo das coisas. Fui seminarista e até posso dizer que manjo um pouquinho das tais ciências sociais, mas prefiro falar só do que vejo, com meus olhos quase leigos, mas acima de tudo sinceros.

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Meu tipo inesquecível

Sempre achei bacana alguém ser herdeiro daquelas boas histórias originadas de se ter família radicada no interior. Eu felizmente tive algo parecido em minha vida, mas confesso que foi pouco, gostaria de ter tido ainda mais. Dos meus tios paternos, por exemplo, guardo excelentes e afetuosas recordações, da bizarrice ingênua e inofensiva dos acontecimentos que ouvia contar deles, pelo menos para o meu olhar infantil.

O interior onde fica Paineiras, berço da família de meu pai, já nem era tão remoto na época na minha infância, mas no passado o fora, com certeza. Antes, quem quisesse ir à capital tinha que enfrentar uma longa viagem, em modos diversos de condução, que começavam no lombo de mulas, depois em carrocerias de caminhão, para finalmente desaguar em trem de ferro. Era coisa para dois dias, no mínimo. Foi assim que aquela gente foi criando costumes próprios, que se conservaram mesmo depois de muito tempo após a chegada do asfalto.

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A história d’O Paca

Sim, o Paca. Filho de um outro Paca e já tendo até filho com tal apelido também. Figura curiosa, se não extraordinária, ali na Fazenda Santa Rosa, do meu amigo Dr. Guimarães. Palavras, bem poucas dispunha, além de sim, não, hum-hum, opa, eita, espia aí, brigado e mais algumas outras, sempre medidas e parcimoniosas. Quando indagado do nome, que era oficialmente Jair, Jovair, Isvair, ou coisa assim, apenas respondia: é Paca mesmo. Era tido como um tipo meio ou bastante abilolado pelos camaradas e pelo povo dali, embora respeitado, mas o Guimarães o tinha em conceito diferenciado: já vi piores, esse aí conseguiu até se casar.

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Altamiro e eu

Gosto de viajar. Lá isso eu gosto. Mas não sou como certas pessoas que colecionam viagens como fossem selos, ou rolhas dos vinhos que bebem. Gente que faz lembrar, mal comparando, aqueles cangaceiros que para cada morte cometida fazem uma marquinha no cabo da carabina. A Marilda, por exemplo, minha ex-mulher, era capaz de visitar variados países em única viagem e voltava sem conseguir dizer que língua se falava ali, qual a religião predominante, as comidas mais apreciadas, as manias do povo de lá. Tem gente que acha que isso não tem nada a ver, que o importante é conhecer os lugares, ver os monumentos, as montanhas, os lagos, andar de trem-bala, visitar lojas, rezar em uma dúzia de igrejas. Mas para mim tem tudo a ver, sim, conhecer as coisas mais entranhadas, profundas, que só podem ser apreciadas através do contato direto com as pessoas, seus modos de levar e ganhar a vida, seus botequins, seus mercados e suas barbearias. Às vezes até entrar dentro das casas, onde a vida de fato é vivida, o que dá trabalho, porque isso a gente só faz se conseguir se libertar dos terríveis personagens dos guias turísticos, mas vale a pena.

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