Amor que começa tarde

Amor é o que se aprende no limite, depois de se arquivar toda a ciência, herdada, ouvida. Amor começa tarde. (CDA – Amor e seu tempo.)

Mulherengo Horácio não era. Definitivamente. Ficara viúvo muito cedo, em casamento no qual não se poderia dizer que ele foi feliz por inteiro, opinião talvez não compartilhada pela falecida. Poucos meses depois do velório resolveu fazer o que até então supunha não ter conseguido: aproveitar a vida. E ele que tivera praticamente como única namorada aquela Mariana, sua colega de faculdade, tendo vivido com ela por quase 20 anos, oscilando entre apenas ignorar suas bizarrices sem reagir, se omitir, ou optar por um afastamento completo e carregado de traumas e culpas. E assim ele enxergou o luto como porta aberta para se “lançar na vida”, em campo no qual se considerava pouco aquinhoado, inspirado pela experiência de muitos de seus amigos, de terem namorado ou mesmo apenas vivido amores fugazes sem passar pelo que acontecera a ele, que se amarrara a um amor de juventude, além de tudo por uma pessoa que tinha como grande desejo na vida chegar virgem ao casamento. Depois de tudo, se ver destinado a passar com ela todos os anos que lhe restassem. 

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Notas de um avaliador de velharias e sociólogo amador

Minha vida é a de um avaliador de velharias, que é o nome que eu dou ao que faço profissionalmente, ou seja, acompanhar as frequentes demolições de imóveis em busca de madeira, vidros, esquadrias e outras coisas de valor, que começam a ficar muito valorizadas aqui nesta cidade, que já foi nova e moderna, mas agora é apenas mais uma das cidades velhas deste país. Neste ofício, que para muitos se realizaria sem maiores emoções ou focos de interesse, além de seu prejuízo aos alérgicos (coisa que felizmente eu não sou), volta e meia me aparecem coisas interessantes, das quais, fosse eu um historiador ou literato, teria mil histórias para contar.

Mas falo como sujeito curioso mesmo. Que os tais intelectuais especialistas no passado me corrijam e mostrem o rumo certo das coisas. Fui seminarista e até posso dizer que manjo um pouquinho das tais ciências sociais, mas prefiro falar só do que vejo, com meus olhos quase leigos, mas acima de tudo sinceros.

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Meu tipo inesquecível

Sempre achei bacana alguém ser herdeiro daquelas boas histórias originadas de se ter família radicada no interior. Eu felizmente tive algo parecido em minha vida, mas confesso que foi pouco, gostaria de ter tido ainda mais. Dos meus tios paternos, por exemplo, guardo excelentes e afetuosas recordações, da bizarrice ingênua e inofensiva dos acontecimentos que ouvia contar deles, pelo menos para o meu olhar infantil.

O interior onde fica Paineiras, berço da família de meu pai, já nem era tão remoto na época na minha infância, mas no passado o fora, com certeza. Antes, quem quisesse ir à capital tinha que enfrentar uma longa viagem, em modos diversos de condução, que começavam no lombo de mulas, depois em carrocerias de caminhão, para finalmente desaguar em trem de ferro. Era coisa para dois dias, no mínimo. Foi assim que aquela gente foi criando costumes próprios, que se conservaram mesmo depois de muito tempo após a chegada do asfalto.

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A história d’O Paca

Sim, o Paca. Filho de um outro Paca e já tendo até filho com tal apelido também. Figura curiosa, se não extraordinária, ali na Fazenda Santa Rosa, do meu amigo Dr. Guimarães. Palavras, bem poucas dispunha, além de sim, não, hum-hum, opa, eita, espia aí, brigado e mais algumas outras, sempre medidas e parcimoniosas. Quando indagado do nome, que era oficialmente Jair, Jovair, Isvair, ou coisa assim, apenas respondia: é Paca mesmo. Era tido como um tipo meio ou bastante abilolado pelos camaradas e pelo povo dali, embora respeitado, mas o Guimarães o tinha em conceito diferenciado: já vi piores, esse aí conseguiu até se casar.

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Altamiro e eu

Gosto de viajar. Lá isso eu gosto. Mas não sou como certas pessoas que colecionam viagens como fossem selos, ou rolhas dos vinhos que bebem. Gente que faz lembrar, mal comparando, aqueles cangaceiros que para cada morte cometida fazem uma marquinha no cabo da carabina. A Marilda, por exemplo, minha ex-mulher, era capaz de visitar variados países em única viagem e voltava sem conseguir dizer que língua se falava ali, qual a religião predominante, as comidas mais apreciadas, as manias do povo de lá. Tem gente que acha que isso não tem nada a ver, que o importante é conhecer os lugares, ver os monumentos, as montanhas, os lagos, andar de trem-bala, visitar lojas, rezar em uma dúzia de igrejas. Mas para mim tem tudo a ver, sim, conhecer as coisas mais entranhadas, profundas, que só podem ser apreciadas através do contato direto com as pessoas, seus modos de levar e ganhar a vida, seus botequins, seus mercados e suas barbearias. Às vezes até entrar dentro das casas, onde a vida de fato é vivida, o que dá trabalho, porque isso a gente só faz se conseguir se libertar dos terríveis personagens dos guias turísticos, mas vale a pena.

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Madame Bovary revisitada

– Focácio, dê um pulo no IML para ver se apura alguma coisa sobre o suicídio daquela mulher. – Mas o senhor deve saber que a linha do jornal deve obedecer a certas regras, entre elas a não divulgação de coisas assim. – Meu filho, desse negócio de ‘linha do jornal” entendo eu, não queira se meter no meu lugar, vai acabar no prejuízo.

Este aí é o Baltazar, que eu chamo, por conta própria, de Baita-Azar ou, simplesmente, Baita, chefe da redação deste Correio do Vale. Se é que se pode chamar assim esta espelunca que não passa de uma sala e um banheiro, em um fundo de corredor num prédio prá lá de fuleiro, onde só trabalhamos eu e ele. Ele jornalista sem diploma, que já tentou a vida em várias redações, grandes e pequenas, mas no geral medíocres e eu, estudante de jornalismo. Ele me chama de Focácio (ou como ele insiste, com dois “c”: focaccio), não por alguma referência gastronômica e sim porque aqui eu sou o “foca”. Mas o meu verdadeiro nome é Gustavo.

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Do empreendedorismo

Agora eu acho que me ajeito, a mercadoria parece ser boa de verdade, e o lucro, certo. O Expedito, que viaja todo mês para o Paraguai, me ofereceu um caixote inteiro de carregadores de celular por uma mixaria. Esses vieram direto da China, me afiançou ele. Só exigiu que eu pagasse à vista, coisa de que eu não tenho costume. Mas fazer o quê, não podia perder a oportunidade. Uma coisa pelo menos eu acertei com ele, da próxima vez só vou pagar quando a mercadoria chegar. Porque já me aconteceu de ter feito uma compra dessas, pagando à vista e nunca ter recebido a mercadoria, não foi com ele, é verdade, mas aconteceu. No caso, eram umas sandálias chinesas de primeira qualidade, fáceis de colocar no mercado. Ou, pelo menos, eu acho que eram jeitosas e comerciais, não cheguei a ver ou experimentar.

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Chico Torresmo, o operador de paressiga

Chico Terêncio, por alcunha Chico de Sinhana, por não lhe ser reconhecido um pai com total certeza, ou ainda Chico Torresmo, por razão incerta. O fato é que por esses dias Chico está feliz, pois arranjou um emprego. Já andava cansado de ficar bestando por aí, entre a conversa fiada de sempre, com os amigos, na venda do Genéis, uma roçada contratada em algum lote vazio, uma derrubada de caixa de maribondo em algum canto da vila, uma entrega do requeijão da Sebastiana, sabe-se lá aonde.

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As ruínas do Cine Academia

I give her my heart, but she wanted my soul. Don’t think twice, it’s all right. Bob Dylan

Quem não se lembra do Cine Academia? Ali era possível ver bons filmes, ouvir boa música ao vivo, tomar um café ou um drink honesto, encontrar pessoas. Como nada é perfeito, o proprietário era um conhecido trambiqueiro, devedor do fisco e da previdência e seu estabelecimento acabou sendo fechado para pagar dívidas com o Estado, mas mesmo assim deixou saudades em muita gente – o lugar, não seu dono. Edgar, frequentador assíduo do lugar, se sentiu em completa orfandade. Aquele lugar sempre lhe oferecera coisas apetecíveis, filmes, por exemplo, mas não somente isso, pois no quesito “pessoas” ali colheu também ótimas lembranças. Aquela, a qual a mente lhe trazia de volta agora, a mais especial de todas.

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Matéria Médica

Medicina tem a ver com literatura, sem dúvida, no mínimo por fornecer no cotidiano de seus profissionais, principalmente para aqueles que são bons observadores, um manancial imenso de situações que certamente favorecem a produção de textos diversos, sejam romances, novelas crônicas, poemas – ou, em último caso, anamneses. Mas será que a carreira médica impele de fato seus praticantes, mais do que outras profissões, a serem escritores? De fato, há muitos médicos que se transformam em escribas, alguns até exponenciais, como Guimarães Rosa e Miguel Torga, por exemplo, mas há também advogados, engenheiros, professores, para não falar daqueles que não possuem profissão definida ou nem se lembram mais daquela que um dia exerceram, por se sentirem, desde sempre, escritores, pura e simplesmente. Drummond, por exemplo, era farmacêutico, Monteiro Lobato advogado e Jorge Amado nem formado era.  Alguns mais críticos poderiam dizer que os médicos, para além de sua profissão de origem, talvez se interessem mais pelas atividades agropecuárias, pela política, ou pelos negócios em geral, do que propriamente pela literatura.

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