Amor em tempos de pandemia (e cia.)

Amor, sempre amor. Em tempo de pandemia ou em épocas normais. Apenas imaginado ou vivido por inteiro – ou por partes. Amor com ventura ou com angústia; com alegria ou tristeza; com esperança ou desespero; com alivio ou dor. Sempre Amor, sempre o mesmo e sempre diferente. Aqui vão alguns exercícios que fiz, sobre tal tema. Algumas coisas eu confesso que vivi de fato, mas nem tudo é verdade. Minha nudez não mais me assusta e eu a compartilho com vocês.

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Alumbramento

Saí de casa para aquela viagem com a sensação de que alguma coisa diferente ia me acontecer. Eu vivia em plena crise de um casamento que, fazia tempo, começara a dar sinais de cansaço. Melhor dizendo, a crise era, já há alguns anos, a expressão viva do que eu vivia ao lado de Maria Alice. Meus sonhos, havia tempo, apontavam para uma vida totalmente diferente e também para uma mulher diferente daquela que dormia ao meu lado e da qual eu mal sabia com o que sonhava. O que sei é que sonhávamos diferente, eu cheio de planos com foco coletivo, tanto quanto possível; ela aderida ao panorama do lar e da família, tratando meus devaneios sociais como se fossem coisa equivocada, ou pelo menos, incondizente com a vida familiar restrita com a qual ela se identificava.

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Matéria médica

Oh cousas todas vãs, todas mudáveis, qual é tal coração que em vós confia? Est’água que d‘alto cai, acordar-me-ia, do sono não, mas de cuidados graves. (Sá de Miranda). Enquanto espero a chegada deste voo várias horas atrasado, minha mulher fazendo suas eternas compras, por que é mesmo que me lembrei deste verso antigo, que me acompanha desde o colégio, graças àquela professora que gostava de autores portugueses? Sim! Já sei, são as coisas sempre mudáveis na vida da gente, além dos cuidados graves, dos quais, nesta fase da vida, bem passado como estou dos setenta anos, é difícil se livrar.

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Nós que amávamos a Revolução

Eram dois na noite escura. Esta era a primeira frase do livro que eu ia escrever. Na realidade, éramos dois que perambulávamos pelas ruas estreitas de nosso bairro de ruas calçadas em pedra, onde acordávamos todo dia com o apito da fábrica de tecidos, na nossa casa que pouco se distinguia da moradia dos operários, naquela cidade oprimida entre montanhas, em muitas noites escuras, que a singeleza das luminárias amareladas era incapaz de clarear. Passamos a ser três quando um primo de meu amigo se juntou a nós. Saíamos todas as noites, pela hora da novela, que então já “entorpecia as massas”, como rezava nossa cartilha militante, filosofando, tramando obras literárias, tentando equacionar o futuro da humanidade e, quem sabe um dia, participar da revolução no país.

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Foi assim (Amor em tempos de pandemia)

Parecia em cena de filme. Eu dirigindo pela noite a dentro, tendo pela frente horas e horas de estrada deserta, para estar com aquela pessoa tão querida e especial, em seus prováveis últimos dias ou horas de vida. Eu vivia aquilo como um transe, desencadeado pelo telefonema que recebi ao chegar do trabalho. Sim, ela chegava ao fim.

Eu não a via havia algum tempo, seis ou sete semanas, mais exatamente, afastados que estávamos pelos terríveis acontecimentos que fizeram as pessoas guardarem distância umas das outras, por meses a fio. Falávamos, entretanto, quase todos os dias e eu acompanhava, de longe, os percalços de um tratamento médico que já há tempos era percebido, por ela a e depois por mim, como infrutífero e devastador.

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Histórias de Segunda Mão

Estas são pequenas histórias, contos, ou, para ser mais modesto, se quiserem, uns simples escritos, se não desabafos. Por que as designo como coisa usada, que já passou por mais de um dono? Se tiverem um tempinho para escutar, eu explico. Começou assim: há coisa de uns 30 anos eu resolvi testar minha capacidade de ir além dos textos e relatos de natureza mais técnica ou circunstancial que até então representavam quase toda a minha produção escrita e foi assim que esbarrei com um personagem de Guimarães Rosa – desde então, ou mesmo antes, meu autor referencial – presente no livro Tutaméia, chamado João Porém, ao qual se adicionava o qualificativo: o criador de perus. Era um tipo humilde, morador de grotões, meio abilolado, sem outro derivativo na vida que não fosse sua criação de tais aves. Um personagem, aliás, em sintonia com outros tipos de pessoas alheias aos padrões dito normais da sociedade, prestigiados por Rosa, entre os quais se incluem, por exemplo, os Catrumanos (de Grande Sertão Veredas); o homem que abandona sua vida normal para passar o resto de seus dias em uma canoa (A Terceira Margem do Rio); a menina que tinha visões (A menina de lá); o homem recluso conhecido como Cara de Bronze (No Urubuquaquá, no Pinhém); a filha e a mãe de Soroco (Primeiras Histórias), além de muitos outros. E foi assim que resolvi dar continuidade à saga do criador de perus, com todo respeito pelo Rosa e mais do que isso, acreditem, querendo homenageá-lo. Adicionei, então, uma companheira ao pobre peruzeiro, trazendo também mais detalhes a sua pobre vida roceira, até sua morte no final. Daí nasceu Continuação, que faz parte desta pequena coletânea, como os leitores verificarão nas páginas seguintes.   O fato é que devo ter tomado gosto por tal coisa, embora a princípio não de forma assumida, até que em tempos mais recentes resolvi praticar tal arroubo como verdadeira missão, surgindo daí a dúzia de escritos que ora trago à luz.

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A janela indiscreta

Eu bem vi que o porteiro tentava me avisar de alguma coisa. Não dei muita atenção, pensei que ele falava dos pivetes que andam por ali. Com estes já estou acostumado, não levam a melhor comigo. Mas dessa vez o perigo era outro, uma calçada escorregadia. E assim eu fui parar no chão. Ato contínuo, no Pronto Socorro. E agora em casa estou eu, com a tíbia partida, mínimo vinte dias de repouso forçado, me arranjaram até uma cadeira de rodas, para me locomover pela área na qual um simples degrau se interporia como uma muralha.

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Pereira procura

Tinha verdadeira mania em procurar por amigos antigos e parentes em geral. Quando viajava, então, este traço se exacerbava. Mas não raro os procurava também em lugares inusitados, como em listas telefônicas, placas de túmulos, ou mesmo em convites de formatura, através dos sobrenomes dos formandos. Certa vez, na formatura de uma neta como advogada, atazanou-a durante vários meses para que indagasse se um José Pereira Neto, que constava na relação de formandos, não seria descendente de um primo distante, com o mesmo nome. A moça tentou ignorar o pedido, mas ele não lhe deu descanso, até que ela lhe disse que perdera o colega de vista, irremediavelmente. Mesmo assim, quando podia, voltava ao assunto.

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Humanos em demasia…

Persisto na veleidade de escrever contos. Podem me criticar pelo resultado insatisfatório. Mas indago: não é treinando que se aprende? Aqui juntei escritos meus ao logo do ano de 2023, nos quais, mesmo sem intencionalidade direta, contei histórias de gente diferente, para tentar ser sucinto. Inspiração? Casos de minha carreira médica, lembranças de fatos e de pessoas que conheci ao longo da vida, frutos de minha imaginação – tem um pouco de tudo isso. Este último ingrediente talvez seja mais constante do que os outros e isso com certeza indica um caráter menos auto-biográfico e mais psico-analítico nos meus escritos. Mas por favor vão desculpando, eu assumo que sou assim… Aqui vai uma dúzia de testemunhos sinceros disso.

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